Minha mãe tem mãos pequenas, mas nelas cabia o mundo. Não sei como conseguia: o peso das contas, a pressa dos dias, a exaustão das noites. Ainda assim, sobrava espaço para o meu rosto entre seus dedos, para o afago quente que parecia dissolver qualquer dor. Hoje, quando fecho os olhos, é esse toque que ainda me consola, como se cada linha de sua palma fosse um fio invisível que ainda me prende a ela.
Cresci acreditando que o amor de mãe era um amor sem medida,
um amor que nascia pronto e que se entregava inteiro desde o primeiro choro.
Mas só entendi sua verdadeira dimensão quando senti, no meu peito, o peso doce
de minha filha recém-nascida. Era como se minha mãe tivesse deixado um segredo
guardado dentro de mim, um baú que só poderia ser aberto no momento em que outra
vida dependesse do meu abraço.
Segurei minha filha pela primeira vez com mãos trêmulas, e,
naquele instante, percebi que carregava não apenas o meu amor por ela, mas
também o amor que minha mãe despejava em mim ao longo da vida. Era um rio que
não cessava, que corria de geração em geração, transbordando, se multiplicando.
Penso também na minha avó, mãe da minha mãe, e a saudade me
atravessa como um vento antigo que nunca deixa de soprar. Ela foi o início de
tudo, a raiz mais profunda dessa árvore de afetos que me sustenta. Mesmo
ausente, sinto sua presença em pequenos detalhes; no cheiro de um bolo
recém-saído do forno, na lembrança dela rindo alto, no olhar sereno que minha mãe
herdou dela. A continuidade está aí, silenciosa, mas firme: minha mãe é o elo
vivo que carrega sua força e ternura, e cada gesto que ensino à minha filha é
também uma forma de manter viva essa mulher que nos precedeu.
Há dores que só uma mãe entende. Dores que não precisam de
palavras. Quando minha filha adoeceu pela primeira vez, lembrei-me das noites
em que minha mãe passava acordada ao meu lado, vigiando febres como quem vigia
o próprio coração prestes a falhar. Hoje sei que cada vez que ela me enxugava o
suor da testa, enxugava também o medo de me perder. E agora sou eu quem vigia o
sono de minha filha, como se o mundo inteiro pudesse ruir, mas eu não deixaria
que nada a tocasse.
É curioso como o amor de mãe dói. Não é uma dor ruim — é um
incômodo doce, como se o peito fosse pequeno demais para guardá-lo. É a
sensação constante de que você nunca será suficiente para retribuir tudo o que
recebeu. É o desejo insaciável de proteger, mesmo sabendo que não poderá
fazê-lo para sempre.
Olho para minha filha e vejo minha mãe nos gestos mais
simples. Quando ela sorri, sinto o eco do sorriso que me embalou da infância
até o presente. Quando ela chora, ouço a mesma melodia de fragilidade que um
dia eu ofereci a minha mãe. E quando eu a abraço, sei que minha mãe também está
ali, porque cada abraço que recebo hoje carrega a memória do primeiro colo que
me acolheu.
Esse amor transcende o tempo. Ele é uma corrente invisível
que liga os corações, mesmo quando um deles já não bate mais. Há dias em que
sinto vontade de pedir colo à minha mãe como se ainda fosse pequena. Nessas
horas, minha filha se aninha em mim e, sem perceber, cicatriza feridas que eu
nem me recordava ter. É como se a vida me lembrasse de que, embora eu ainda
tenha o colo que me protegia, sou também colo que deve proteger.
Às vezes penso no futuro. Penso no dia em que minha filha,
talvez, será também mãe. Imagino-a com o mesmo medo que senti, com a mesma
ternura que floresceu em mim, e sorrio. Porque sei que, nesse instante, ela vai
entender o que significa o amor que dói, o amor que não cabe em si. Vai
perceber que carrega dentro do peito não apenas seu próprio sentimento, mas o
amor de todas as mães que vieram antes dela — o meu, o da minha mãe, da minha
avó, e de tantas outras que moldaram nossas raízes.
E quando eu já não estiver mais aqui, sei que, de algum
jeito, esse amor permanecerá. Talvez na forma de um gesto, de uma lembrança, de
uma frase dita sem pensar. Talvez na maneira como ela acariciar o rosto de um
filho, repetindo sem saber o mesmo movimento que um dia minha mãe fez em mim.
O amor de mãe é isso: uma herança que não se mede em bens,
mas em gestos que sobrevivem ao tempo. É uma chama que não se apaga, porque
encontra sempre um novo coração para arder.
E se dói, é porque é grande demais. É porque, ao tentar
caber dentro de um só peito, transborda. Transborda para trás, honrando a mãe
que nos deu a vida. Transborda para frente, nutrindo a filha que nos renova a
existência.
Por isso digo: não é apenas amor. É eternidade.
%2002.34.32_1f86203c.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário