sexta-feira, 19 de setembro de 2025

"Behind the Madness"

 

Ela herdou a mansão.

Mas o que herdou de verdade foi a loucura que respirava nas paredes.

Delírio ou realidade?

Sombra ou homem?

O desequilíbrio sempre soube o caminho do corpo e mente dela.

E no reflexo da própria insanidade, Lydia encontrou desejo.


Inspirada no universo de Boneco do Mal, esta é uma história onde a insanidade ganhou forma, e o grotesco encontrou quem o desejasse.



As chaves pesam em minha mão como se fossem correntes.

A advogada disse que eu devia me sentir sortuda, herdeira da mansão Heelshire, último resquício de uma família inglesa decadente e sem herdeiros legítimos. Eu nem sei direito como estou ligada a eles — prima distante, algum fio de sangue perdido em gerações. Pouco importa. Sou a última viva, e isso bastou para que a casa fosse entregue a mim.

Quando empurro a porta, o rangido ressoa pelo vazio como um grito sufocado. O ar lá dentro é mais pesado, cheira a madeira úmida, a mofo e a silêncio estagnado.

E ainda assim, sinto como se a casa respirasse comigo. Cada parede suspira, cada fresta geme, como se me recebesse não como intrusa, mas como filha pródiga.

— Lydia… —

A voz sussurra no meu ouvido e eu me viro depressa. Ninguém. Claro que não.

Nunca tem ninguém.

É sempre minha mente me pregando peças.

A madeira estala sob as minhas botas enquanto avanço pelo corredor. A cada passo, outra voz se mistura ao silêncio. Riso abafado. Choro distante. Palavras que não entendo. Eu já conheço todas elas. Cresci com essas vozes. Dormi e acordei com elas, como amigas fiéis que nunca me abandonaram.

Às vezes penso que são mais reais do que eu.

Passo a mão pela coxa, sentindo sob o tecido as cicatrizes finas, linhas mal fechadas de um passado em que tentei calar o barulho da minha cabeça com a dor. O corte sempre pareceu mais honesto do que a voz.

Os pulsos latejam só de lembrar.

Respiro fundo. A mansão é minha agora. As vozes não importam.

Mas quando fecho os olhos, sinto passos na escada acima de mim.

Passos pesados, compassados.

Abro os olhos depressa. A escada está vazia.

— Bem-vinda em casa… —

Dessa vez, a voz soa doce.

Quase carinhosa.

O saguão se abre diante de mim como uma boca faminta. O teto é alto, mas parece pesar sobre minha cabeça, as paredes cobertas de retratos antigos — rostos que me encaram como se soubessem mais sobre mim do que eu mesma. Um homem de bigode retorcido, uma mulher de olhar severo, uma criança com rosto borrado.

Tenho a impressão de que todos acompanham meus movimentos.

Meu reflexo surge no espelho do hall. O cabelo laranja aceso contrasta com o pó cinzento que cobre tudo. Pareço um erro dentro daquele cenário, uma mancha fora de lugar. Olho por tempo demais e o espelho me devolve outra coisa: meu rosto mexe sem que eu mexa. Os lábios se curvam num sorriso que eu não dei.

Desvio o olhar rápido. Sempre acontece.

Abro a porta da sala principal e o cheiro de madeira velha me invade. Cortinas pesadas escondem a luz da tarde, deixando o ambiente num crepúsculo constante. As poltronas estão cobertas por lençóis, mas juro que vejo movimentos por baixo do tecido, como se alguém tivesse acabado de se levantar.

— Lydia… —

Ouço de novo. A voz é feminina desta vez, suave como seda, mas afiada como faca.

Meu corpo inteiro arrepia.

Meus dedos deslizam pelo corrimão da escada, sentindo a poeira colar na pele. As vozes me seguem, mudam de tom, riem, choram, me chamam pelo nome como se a casa inteira tivesse língua.

Eu deveria ter medo, mas não sinto nada além de familiaridade.

Essa mansão não é diferente da minha cabeça. Só é maior.

Entro na cozinha e encontro a mesa posta com louças antigas, todas cobertas de pó. Três lugares. Copos alinhados, talheres imóveis. Quase consigo ouvir o som de pratos batendo, uma refeição sendo servida, alguém puxando a cadeira para sentar.

Pisco e a cena some, deixando só a poeira e a escuridão.

Me apoio no batente, rindo sozinha.

— Vocês vão me enlouquecer de vez. — A frase ecoa, e por um instante acho que outra voz riu junto.

Horas depois, a água ainda escorre da minha pele quando desligo o chuveiro. O vapor enche o banheiro, turvo como minha cabeça. Enrolo a toalha no corpo, outra nos cabelos, e abro a porta.

O corredor me recebe com uma luz quente que não aquece nada. Mesmo com todas as lâmpadas acesas, a mansão continua escura. Como se a sombra morasse aqui e não fosse embora nunca.

Caminho devagar, pés úmidos no assoalho gasto. Meus olhos ardem, talvez do cansaço, talvez da claridade morna que parece não gostar de mim. E então… eu vejo.

Um homem parado no corredor. Alto, muito mais alto do que qualquer vulto que minha mente já inventou. Ombros largos, roupas escuras, o rosto coberto por uma máscara pálida como ele, que deixa escapar apenas os olhos. Cabelos longos, desgrenhados, caindo em mechas pesadas sobre a face. A camisa entreaberta revela o peito peludo, subindo e descendo num ritmo lento, animalesco.

Ele não se mexe. Só me encara.

Suspiro fundo, exausta.

— Ótimo. Agora minhas alucinações estão ficando sexys. — resmungo, ajeitando a toalha no ombro.

Passo direto por ele, sem pressa, sem medo. Apenas mais uma sombra para somar ao resto.

No silêncio, ouço o estalo discreto do assoalho atrás de mim. Um passo? Não sei. Finjo que não.

E quando passo pelo espelho do corredor, vejo de relance o reflexo dele ainda parado lá. Só que a cabeça… a cabeça virou para me seguir.

Aperto os lábios, o coração acelerado, mas não olho para trás.

Se eu não der atenção, desaparece. Sempre desaparece.

Entro no quarto, fecho a porta atrás de mim. Encosto a testa na madeira fria, respirando fundo como se quisesse expulsar aquele vulto do meu peito.

Seguro firme a toalha contra o corpo, sentindo a pele ainda úmida se arrepiar. Não importa. Já me acostumei. Sempre some.

Mas o coração… o coração não entende. Ele bate forte, pesado, como se tivesse visto algo que eu não deveria ignorar.

Me jogo na cama, ainda envolta na toalha, e encaro o teto rachado. Tento rir da própria paranoia.

— Sexy, Lydia? Você perdeu a noção de vez. — murmuro.

Só que o silêncio da mansão não devolve riso nenhum.

Ao contrário.

Um barulho leve, quase imperceptível, vem da parede ao lado. Como um arranhar, como se algo vivesse por trás dela.

Fecho os olhos. Não quero ouvir. Não quero ver.

E mesmo assim, a imagem dele continua queimada na minha mente: os olhos escuros por atrás da máscara, a respiração lenta, o peito peludo subindo e descendo.

Um vulto que não desapareceu quando eu pisquei.

 

Enquanto Lydia dormia, Brahms permaneceu imóvel...

…mas o que realmente o corroía era a estranheza.

Nenhum grito, nenhuma corrida, nenhum desespero. Apenas um resmungo cansado, quase debochado, como se ele fosse irrelevante.

E isso mexia com a mente doentia dele de uma forma que nem mesmo entendia.

Acostumado a inspirar terror, a ser o segredo podre que vivia nas paredes, agora se via diante de alguém que não o temia.

Os olhos dela haviam deslizado sobre sua presença como quem atravessa uma sombra.

E pela primeira vez em anos, Brahms sentiu algo que não era apenas fome ou raiva.

Sentiu curiosidade.

 

Acordo com a garganta seca e a estranha sensação de que não dormi de verdade. O quarto está mergulhado na mesma penumbra de ontem, como se as cortinas pesadas não permitissem que o sol existisse lá fora.

Abro a janela. O vidro range, mas a claridade não entra. A casa engole a luz, como se o dia não tivesse chegado.

Desço até a cozinha. Cada degrau range sob meu peso, denunciando meus passos a quem quer que esteja escutando. E eu sinto.

Sinto olhos grudados em mim.

No corredor, na sala, talvez atrás das paredes.

Bebo água direto da torneira e o gosto metálico me corta a língua. Apoio as mãos na pia, fecho os olhos.

Talvez eu devesse voltar a tomar os remédios. As cartelas ainda estão na bolsa, dormindo ao lado da mala aberta no quarto. O psiquiatra dizia que as vozes iam sumir, que as alucinações iam rarear. Mas eu nunca gostei do silêncio químico que vinha depois.

Prefiro o barulho da minha mente ao vazio sem alma.

Penso no vulto.

A máscara, os cabelos, o peito coberto de pelos.

Um detalhe absurdo para uma alucinação, real demais.

O que a minha mente está tentando me dizer?

Olho para o canto da cozinha e por um segundo juro ver uma sombra alta, encurvada.

Quando pisco, não há nada além da cortina balançando levemente, como se risse de mim.

Me pego sorrindo sozinha.

— Porra, Lydia… realmente, você perdeu a noção.

O arrepio na nuca não some.

Abro a porta de um quarto no fim do corredor. O cheiro de mofo é mais forte ali, como se anos inteiros estivessem presos entre as paredes. Cortinas escuras, móveis cobertos de lençóis, e uma penteadeira que parece ter parado no tempo.

Fuço as gavetas sem intenção, empurrando para o lado tralhas que não dizem nada: luvas ressecadas, cartas velhas, um pente. Até que encontro um caderno de capa dura, encardido, bordas amareladas. O couro gasto estala quando abro.

A letra é feminina, inclinada, apertada como se tivesse pressa de sair.

“Dia 3. O boneco é estranho, mas os Heelshire dizem que é como um filho. Vesti-lo, alimentá-lo, cantar para ele. Nunca deixar sozinho.”

Reviro os olhos, mas continuo lendo trechos aleatórios.

“Às vezes acho que Brahms me escuta. Os olhos parecem seguir cada movimento. Não sei explicar, mas sinto como se houvesse algo mais, escondido.”

Minha boca seca. Me apoio na penteadeira.

Essa mulher também ouvia coisas. Também sentia.

“As noites são as piores. Escuto passos. Sons. Tento me convencer de que é a madeira velha rangendo, mas não é. Ontem jurei ouvir respiração atrás da parede.”

O último registro termina abrupto, como se tivesse sido interrompido:

“Hoje…”

Só isso. Nada mais.

Fecho o diário devagar, o couro rangendo como um sussurro preso nas páginas.

Engulo em seco.

Talvez eu não esteja tão louca assim.

Ou talvez a loucura dessa casa seja antiga demais para pertencer só a mim.

Olho em volta, e o ambiente mais uma vez parece me observar de volta.

Levo o diário comigo, abraçado contra o peito como se fosse algo precioso. A cada degrau da escada, sinto a madeira gritar sob meus pés e a casa inteira prender a respiração comigo.

No quarto, me enfio debaixo das cobertas com o caderno no colo, a luz fraca do abajur espalhando sombras pesadas pelas paredes. Passo a mão sobre a capa áspera antes de abrir de novo, agora curiosa para lê-lo na íntegra.

As páginas inteiras são piores.

“Ele me conforta quando estou sozinha. Sei que é apenas um boneco, mas quando falo, juro que ele responde de alguma forma. Sinto como se não houvesse mais ninguém no mundo além de mim e dele.”

Meus dedos tremem sobre o papel.

Eu conheço essa sensação.

Esse isolamento que não é solidão, mas prisão.

“Hoje sonhei que ele estava vivo. Grande, pesado, parado à beira da minha cama. Acordei com o coração em disparada e o juramento de que não sonhei coisa alguma.”

A respiração me falha. Olho para o canto do quarto, onde a sombra do armário é grossa demais.

Seguro firme o diário, como se as palavras da mulher pudessem me proteger.

“Ele não é só louça e pano. Alguém existe por trás dele. Sei disso. Posso sentir. Não quero que os Heelshire descubram o quanto me afeiçoei… mas sinto que ele me escolheu. Eu pertenço a ele.”

Após horas e horas lendo aquilo, fecho o caderno com força.

Meu coração bate no pescoço, nas têmporas, em todo lugar menos no peito.

E pela primeira vez desde que pus os pés nessa mansão, penso que talvez eu não esteja só.

Acaricio a capa gasta do diário, como se a textura pudesse me contar o que faltou nas últimas páginas.

Imagino aquela mulher sendo levada embora pela presença que rondava a casa. Não de forma cruel… mas como quem finalmente encontra pertencimento. Como se tivesse sido escolhida.

Um fim doce para uma vida solitária.

Um arrepio me percorre a espinha.

E se a mesma coisa acontecer comigo?

Talvez eu queira. Talvez seja melhor do que vagar sozinha no escuro.

Apago a luz.

O quarto afunda na penumbra.

 

Do outro lado da parede, Brahms observava imóvel, o olho grudado na fresta estreita.

As lembranças da outra mulher ainda pulsavam dentro dele, fragmentadas e sujas. Ela não havia sido “levada”. Havia sido silenciada, como todas as outras que ousaram se aproximar demais.

Mas com Lydia era diferente.

Ela não gritava.

Não fugia.

Ela sorria para a escuridão.

E isso prendia sua atenção mais do que qualquer regra ou ameaça.

 

Acordo de madrugada com um peso no peito, como se o ar tivesse fugido do quarto.

Abro os olhos devagar e ele está lá.

Parado ao lado da cama, imóvel, como uma estátua feita de sombra e carne.

A máscara branca me encara, fria, inexpressiva, mas os olhos escuros por trás queimam como brasas. A regata branca, suja, revela os pelos do peito suados, arfando, a respiração pesada demais para caber no silêncio.

— Você é insistente… — murmuro, a voz rouca de sono, como se falasse com mais uma das minhas alucinações. — Achei que já tinha ido embora.

Ele não responde.

Se aproxima.

A mão enorme desliza até minha garganta e fecha ali, firme, esmagando o ar para dentro de mim.

O pânico deveria vir. O grito, a luta. Mas não vem.

Meus lábios se entreabrem, o corpo arqueia sob o peso da mão. Um calor sujo se espalha entre minhas pernas, e o gemido que escapa soa mais com prazer do que com desespero.

Ele congela.

Os olhos atrás da máscara se abrem mais.

Nenhuma das mulheres antes reagiu assim.

Aos poucos, a pressão diminui. Os dedos ainda firmes, mas já não para matar. Ele desliza a mão até meu rosto, segurando-o com cuidado brutal.

Os dedos sujos percorrem minha pele, o polegar roçando meu lábio inferior.

 

Por trás da máscara, Brahms não entendia. A fúria que o moveu até ali se transformava em outra coisa, algo que não sabia nomear, mas que queimava mais do que a raiva.

 

Seguro o olhar dele através da máscara, sentindo o polegar preso contra minha boca. Abro os lábios só o suficiente para deixá-lo entrar, um gesto simples perto da sujeira que percorre minha mente agora, silenciando todas as vozes.

Um arrepio percorre o corpo enorme parado diante de mim.

Ele recua a mão como se tivesse tocado fogo.

No escuro, ficamos presos na mesma respiração.

Fico de pé sobre a cama, os lençóis embolados sob meus pés. Agora estamos da mesma altura.

Estendo a mão até o rosto dele, os dedos tocando a apatia da máscara. Quero tirá-la. Quero ver o que se esconde por trás.

Mas ele agarra meu punho com agilidade, a força quase esmagando meus ossos. O aperto é implacável.

E eu deveria sentir medo.

Mas eu não sinto.

Eu sou tão quebrada que o grotesco, o perigoso, o monstruoso me excitam de uma maneira absurdamente perturbada.

No ímpeto da minha própria loucura, me inclino para frente e pressiono os lábios contra a máscara, num beijo sem lógica e sem pudor.

Sinto o gosto plástico, o cheiro de suor e sujeira impregnado no tecido e no corpo dele.

Ele estagna por um segundo, e então me empurra com violência.

Meu corpo cai de costas na cama, o impacto ressoa pelo quarto, arrancando de mim um gemido que mais parece riso.

Abro os olhos e vejo ele acima de mim, a respiração arfante, o corpo enorme prestes a despencar sobre o meu.

 

Agora, mais do que nunca, Brahms não reconhecia os próprios instintos. O impulso de matar ainda queimava, mas agora estava misturado a outra fome — uma que o confundia e atraía com a mesma veemência.

 

Me ergo no colchão, respirando com força, e minhas mãos vão direto para a regata branca e imunda que gruda no corpo dele. Seguro o tecido com força, tentando puxar pra cima, mas ele apenas solta um grunhido abafado e segura a própria regata com uma mão.

Num único gesto, ele rasga o pano como se fosse nada, expondo o peito largo, suado, os pelos escuros grudados pela transpiração.

Meus olhos brilham, os dedos já deslizam pela pele úmida, ignorando a sujeira, o cheiro forte de suor, como se tudo isso só o tornasse mais viril.

Eu sorrio, insana, como se tivesse diante da coisa mais excitante que já vi na vida.

— Porra… — murmuro, e minha mão percorre o contorno bruto do peito dele, sentindo cada músculo tenso sob os pelos molhados.

Ele não espera. Não dá tempo. Suas mãos enormes me agarram, espremem, me apertam com brutalidade. Meus quadris são forçados contra o colchão, meu corpo arqueia sob o peso dele. Os dedos deslizam ásperos pela minha cintura, e num estalo seco, ele rasga meu babydoll como se fosse papel.

Minha respiração falha, mas não de medo — de um prazer visceral que só cresce com cada brutalidade.

Não entendo porque o perigo não me paralisa. E sim, me excita.

Quanto mais bruto ele é, mais minha mente se apaga, mais as vozes somem, como se o bizarro fosse o único remédio que funciona.

E ele não tem paciência.

A máscara me encara de perto, o peso dele me afunda na cama, e cada toque não é carinho — é domínio, é instinto, é selvageria.

Me debato sob o corpo enorme dele, não para fugir, mas para me livrar do pouco que ainda me cobre. A lingerie gruda na minha pele, agora suada dele, o elástico resiste, e eu puxo com as unhas, contorcendo o quadril sob seu peso. Cada movimento é mais um gemido, uma risada nervosa, uma excitação doentia que me corrói por dentro.

Ele se inclina, a máscara roçando minha pele, e sinto a respiração quente escapando pelas frestas. Ele me cheira como um animal, aspirando meu pescoço, meu colo, o suor que escorre entre meus seios. A mão enorme se espalma sobre meu rosto, ocupando tudo, e eu deixo, arfando, como se fosse a coisa mais íntima do mundo.

Quando desliza os dedos pelos meus cabelos, eles se enroscam com força no couro cabeludo. Ele puxa minha cabeça pra trás, expondo meu pescoço, e um gemido arrastado explode da minha garganta, misto de dor e prazer.

Ainda assim, continuo me despindo, arrancando o sutiã por baixo do corpo dele, tirando a calcinha com dificuldade, o elástico cedendo entre minhas coxas enquanto ele me prende contra o colchão.

Cada peça jogada fora é uma vitória crua. Cada pedaço de mim exposto só o deixa mais bruto, mais pesado sobre mim.

Sou toda carne e cicatriz agora, entregue ao olhar obscuro por trás daquela máscara.

E não quero outra coisa além de ser fodida brutalidade dele.

O som áspero do zíper descendo rompe o silêncio abafado do quarto. Meus dedos tremem de fome enquanto abro a calça dele sem saber o que esperar.

 Exponho ele pra fora, grande, grosso, duro, latejando como se tivesse esperado a vida inteira sem saber pra quê.

Arfo, louca, guiando-o até mim. Sinto a cabeça pressionar a entrada da minha vagina. Estremeço. Quando ele me invade, é de uma vez, forçando, rasgando espaço onde não havia. A dor me corta em duas, mas eu rio, respirando alto, porque essa dor é o que me mantém viva.

Ele não entende ritmo, não entende cadência. Só empurra mais, força até doer, e isso só me deixa mais maníaca. Cravo as unhas longas nas costas dele, arranhando com força até sentir a pele se abrir sob meus dedos. O grunhido que ele solta contra minha pele me faz gemer ainda mais alto.

Ele é bruto, doente, perturbado — e eu também.

Cada estocada é um choque de selvageria, cada investida um mergulho mais fundo no animalesco instintivo daquela figura estranha.

A mão enorme dele se espalma no meu rosto, tapando quase tudo, sem cuidado nenhum, como se quisesse sentir minha existência inteira na palma. Eu me arqueio contra esse gesto estupido, suspirando, derretida, porque cada ato dele me destrói e me excita ao mesmo tempo.

Meu corpo lateja, meu sexo pulsa, e eu me entrego ao peso dele como se fosse minha proposição.

 

Brahms ainda não compreendia o que fazia, só sabia que não conseguia parar. O instinto o guiava, e quanto mais ela reagia com prazer à dor, mais ele percebia que era tão doente quanto ela.

 

Ele me fode como um bicho, os quadris batendo contra os meus com força descompassada, sem ritmo, só instinto. Cada investida me parte ao meio, e enquanto me invade, ele me fareja como se isso fosse mais importante do que o próprio sexo. O som áspero da respiração dele atrás da máscara me enlouquece.

Levo a mão ao rosto dele de novo, tentando arrancar a máscara, desesperada pra ver o que se esconde por baixo. Mas ele agarra meu rosto com brutalidade, os dedos se afundando nas minhas bochechas até não me deixar fechar a boca. Arfo alto, salivando contra a palma bruta, sem conseguir dizer nada.

Num impulso, dou um tabefe contra a lateral da máscara dele. O estalo ecoa seco, mas em vez de recuar, ele me aperta ainda mais, esmagando meu rosto como se quisesse me quebrar.

Reviro os olhos, gemendo, perdida entre dor e prazer. Viro a cabeça de lado e me vejo no espelho preso à parede: nua, corpo arqueado, sendo tomada por aquele homem imenso mascarado, botas ainda calçadas, esmagando-me contra o colchão.

As lágrimas escorrem mediante a dor ardida que me abre por dentro. Ele é grande demais, grosso demais, e me invade sem piedade.

Mal consigo me mover debaixo dele. Sou só prazer e respiração ofegante, presa sob o peso monstruoso do corpo dele, e cada segundo desse tormento me deixa ainda mais no limite.

Minha mente fervilha como se mil vozes gritassem dentro de mim ao mesmo tempo, e pela primeira vez elas não me atormentam — elas me empurram mais fundo, me arrastam para esse precipício de prazer imundo. Cada impulso dele me parte, me arrebenta, e quanto mais ele me destrói, mais eu quero.

Um calor irrompe do meu ventre e toma meu corpo inteiro. Gemo alto, quase grito, o som ecoando pelas paredes enquanto meu corpo treme sem controle. Meus músculos se contraem, minhas pernas se fecham ainda mais sob as dele num reflexo desesperado de manter ele dentro de mim, de não soltar.

Ele me cobre por inteiro, o corpo enorme esmagando o meu, abafando minha respiração, me prendendo sem chance de fuga. Os braços dele me cercam, aprisionando os meus junto ao corpo dele, sem espaço para nada além da força bruta que me possui.

E então, o som.

Um ruído estranho, gutural, como um grunhido preso na garganta misturado a respiração falha. Quase animal, quase infantil, perturbador demais para vir de um homem — mas vem dele, vibrando contra minha pele.

O som dele de prazer me arrepia mais do que qualquer palavra poderia.

E eu me entrego inteira, tremendo, rindo e chorando ao mesmo tempo, perdida na doença que me faz amar cada segundo disso.

Sinto o corpo dele enrijecer sobre o meu, os músculos das costas tensos sobre mim. A respiração já era pesada, mas agora se torna algo monstruoso, irregular, como se cada arfar viesse rasgando por dentro.

O som que ele emite ainda reverbera contra mim, e por um instante eu penso que a casa inteira treme junto com ele.

Ele me aperta mais, esmagando meu corpo com descontrole, como se quisesse me fundir. Sinto o membro pulsar dentro de mim, cada jorro quente arrancando de mim outro gemido, outro espasmo.

Me sinto o brinquedo torto de um homem mórbido.

Eu deveria sentir medo, mas tudo que sinto é o riso subir junto com as lágrimas, meu corpo vibrando em sintonia com a selvageria dele.

É indigno. É infame.

E é o orgasmo mais real da minha vida.

Ele ainda ofega sobre mim, apoiado nas mãos pesadas contra o colchão, como se o peso do próprio corpo fosse maior do que podia carregar. O suor pinga da máscara, o peito descompassado, e por um instante ele parece vulnerável.

Aproveito essa fresta.

Estendo a mão, ergo a máscara alguns centímetros e, antes que ele reaja, roubo um beijo.

Minha boca encontra a dele por um momento.

É a primeira vez que sinto ele recuar de verdade.

O corpo inteiro dele reage, os olhos se arregalam como se o gesto fosse mais assustador que qualquer resistência.

Num salto brusco, ele se ergue da cama. Fecha o zíper da calça às pressas, os gestos rápidos e precisos, enquanto dá passos desordenados para trás.

Um grito grosso, agressivo, explode da garganta dele. Ele avança um passo em minha direção, gigante, sombra, máscara, suor — mas eu não me encolho.

Seguro o lençol contra meu corpo nu e o encaro de frente, os olhos fixos, exalando algo tão psicótico quanto o olhar que arde por trás daquela máscara.

Por um segundo o quarto inteiro parece sufocante.

Então ele se vira de costas e desaparece.

A sombra imensa se dissolve na penumbra do corredor, como se nunca tivesse estado ali.

Levanto ainda trêmula, o lençol arrastando pelo chão, e caminho até a porta.

Olho o corredor escuro.

Nada.

Ele sumiu.

Como se tivesse sido engolido pela própria casa.

O corredor está vazio.

Nenhum som, nenhuma sombra. Só o silêncio obscuro da mansão me engolindo.

Seguro o lençol contra o corpo, o coração ainda martelando na garganta. Dou um passo, depois outro, mas não há sinal dele. Nenhum rastro além do que deixou escorrendo entre minhas pernas. Nenhum som de botas pesadas sobre a madeira.

Talvez nunca tenha havido.

Encosto a lateral da face no batente da porta, rindo baixo, quase histérica.

— Que foda. — murmuro sozinha.

O gosto dele ainda queima nos meus lábios, meu corpo ainda pulsa por dentro, como se tivesse sido aberto por algo grande demais para caber em mim.

Mas e se tudo não passou de mais um surto?

E se eu estive sozinha esse tempo todo, fodendo minha própria mente?

O corredor continua escuro. A mansão respira em silêncio.

Aperto o lençol contra a pele, exausta, e volto devagar para o quarto.

Não sei se vivi ou se imaginei.

Talvez nunca saiba.

Ou talvez, saiba se, ou quando, ele aparecer novamente.

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