domingo, 5 de outubro de 2025

Deliver Us.

 

Essa não é uma história sobre fé.
É sobre o que acontece quando a fé se transforma em compulsão.
Ele era o predador, o pregador, a voz da fé que julgava o mundo.
Ela, a herege, pagã, corpo e mente envoltos em fogo.
No encontro dos dois, o sermão virou silêncio, a oração virou suspiro.
E na casa onde Deus deveria reinar, o pecado foi a única liturgia.

Essa é uma releitura alternativa e erótica inspirada no universo de Herege, onde cada oração é feita de transgressão, suor e danação.

 

A chuva da tarde escorria pela vidraça com a lentidão de um relógio quebrado. No interior da casa, o silêncio parecia não ser apenas ausência de som, mas um organismo vivo que observava, respirava, esperava. Reed gostava disso. Gostava da sensação de estar no centro de uma armadilha invisível, cada detalhe medido, cada palavra calculada.

Foi por isso que escreveu o e-mail. Uma mentira bem simples, quase banal: a de que procurava comprar um livro raro sobre ocultismo, supostamente antigo demais para ser encontrado em livrarias comuns. Não era verdade, ele já possuía mais volumes do que poderia ler em uma vida inteira. Mas não era o livro que lhe interessava. Era a dona. A moça que, segundo lhe disseram, carregava símbolos pagãos na pele, tatuagens em forma de serpentes e luas, colares de pedras vulgares que ela mesma chamava de sagradas. Uma garota que sorria ao desafiar aquilo que ele defendia como verdade absoluta.

Reed a quis no instante em que soube dela. Não apenas para convertê-la ou esmagar suas crenças, isso seria fácil demais. Ele queria expô-la, despir cada camada de certeza até que restasse apenas o corpo trêmulo, a alma desnuda. O tipo de heresia que mais o fascinava era aquela que ainda lutava, cuspindo fogo mesmo quando já estava presa.

E agora, lá estava ela. Pequena, esguia, de cabelo roxo que contrastava com a tarde cinzenta, parada diante da porta com a naturalidade insolente de quem nunca pediu permissão a ninguém para existir. Reed a observava pela fresta, demorando-se nos detalhes: a curva leve da cintura sob o casaco encharcado, a forma como os olhos claros não buscavam aprovação, mas confronto. Ele já sentia o gosto amargo do jogo que iria começar.

Girou a maçaneta lentamente, permitindo que o ranger da madeira anunciasse sua presença como um sermão. A figura dele surgiu emoldurada pela luz mortiça da sala — o sorriso quase cortês, mas os olhos denunciando algo mais escuro, um brilho de predador por trás dos óculos, domesticado apenas na superfície.

— Você trouxe o livro? — a voz soou macia, grave, mas carregada de um peso que não combinava com a pergunta trivial.

Na mente dele, a resposta já estava escrita. Não importava o que ela dissesse; o destino daquela visita já fora selado no momento em que ela acreditara na mentira. Reed não queria apenas um livro pagão em suas mãos. Ele queria a própria herege.

A casa cheirava a madeira antiga e poeira acumulada em cantos que jamais viam a luz. O ranger da porta ainda ecoava quando Alanis adentrou, gotas da chuva escorrendo pelo cabelo roxo e deslizando pelo casaco encharcado que logo pendurou no cabide da entrada. O gesto, tão banal, carregava uma naturalidade quase insolente, como se aquele espaço sombrio não lhe inspirasse medo algum.

Reed recostou-se à soleira, observando cada movimento dela como um juiz que já conhece a sentença antes mesmo de ouvir o réu falar. A educação cortês se manteve no sorriso educado, mas os olhos, esses eram outra coisa. Seguiam-na com interesse clínico, como quem disseca um espécime raro antes de fixá-lo no quadro.

— Sente-se, por favor. — A voz grave saiu com uma calma ensaiada, como se o convite fosse menos hospitalidade e mais uma ordem mascarada.

Ela caminhou até a sala de estar e afundou-se na poltrona, ajeitando o cabelo com os dedos ainda úmidos. Retirou da bolsa o volume embrulhado em tecido escuro e, num ímpeto juvenil, começou a falar.

Os olhos brilharam com entusiasmo.

— Este livro… não é só uma coletânea de símbolos, senhor Reed. Ele traz descrições completas de rituais que foram perseguidos pela Inquisição. A maior parte se perdeu, mas este aqui sobreviveu. É uma raridade.

Ela falava rápido, gesticulando, cada palavra carregada de paixão. Enquanto isso, Reed permanecia em silêncio, sentado diante dela, as mãos unidas sobre o joelho. O olhar dele não estava no livro. Não estava nas páginas amareladas, nem nas runas estampadas em tinta desbotada. Estava nela.

Um sorriso lento, quase indulgente, ergueu-se no canto dos lábios.

— É fascinante… — disse, com uma entonação que parecia mais zombeteira do que sincera.

— Fascinante ver alguém tão jovem falar de heresias como se descrevesse contos de fadas.

A intensidade com que a observava não era a de um colecionador diante de uma peça rara, mas de um predador paciente, curioso, testando o quanto a presa se deixaria aproximar antes de perceber o perigo.

Ela, porém, ainda não percebia. Continuava a falar, animada, folheando algumas páginas, apontando símbolos, citando lendas. Reed se inclinava devagar para frente, absorvendo não o conteúdo, mas o fervor dela, como se cada palavra fosse uma confissão involuntária.

— Diga-me… — interrompeu ele, a voz agora mais baixa, como um sussurro que arranhava o ar. — Você acredita mesmo nisso? Nessas… forças que não vê?

A pergunta não soava casual. Era um gancho, um anzol disfarçado de interesse. Reed queria mais que ouvir: queria provocar, ferir, abrir brechas.

Alanis ergueu o rosto com firmeza, os olhos faiscando sob a luz opaca do ambiente. O livro descansava aberto em seu colo, mas naquele instante parecia secundário diante da provocação que lhe fora lançada.

— Eu acredito. — A voz dela não vacilou, carregada de uma convicção que soava grande demais para um corpo tão pequeno. — Não preciso de igrejas, nem de cruzes para saber que há forças no mundo que nos atravessam. Forças antigas, que estavam aqui muito antes de qualquer deus pregado em madeira.

Reed deixou escapar uma risada curta, seca, como o estalar de uma chama que morre. Inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, a mão entrelaçada formando uma moldura perfeita para o sorriso enviesado.

— Forças antigas… — repetiu, degustando as palavras como se fossem vinho. — Tão antigas quanto infantis. É curioso, Alanis, como os jovens sempre precisam acreditar que descobriram algo que os torna especiais.

O nome dela saiu lento de sua boca, arrastado, carregado de um prazer quase íntimo. Ele a estudava como quem desmonta uma caixa de música apenas para ver o mecanismo girar.

— Me diga — prosseguiu, a voz baixa, grave, quase hipnótica. — Quando você acende suas velas e murmura seus encantos, acredita mesmo que alguém… algo… escuta? Ou é só você, sozinha, tentando dar sentido ao vazio?

O olhar dele não piscava, fixo nela de forma quase indecente. Não havia agressividade explícita, apenas aquela ironia elegante, venenosa, que transformava cada palavra em uma pequena lâmina.

E, ainda assim, algo mais se insinuava por trás. O modo como seus olhos desciam devagar pela curva do pescoço dela, pelo contorno dos ombros ainda úmidos da chuva, denunciava que Reed não buscava apenas demolir a fé de Alanis. Ele queria provar até onde a convicção dela resistiria antes de se curvar ao medo.

Alanis deixou que o silêncio se estendesse por um segundo a mais do que o necessário. O tipo de silêncio que parecia um erro, mas que, aos olhos mais atentos, tinha cálculo. Depois, ergueu lentamente o olhar para Reed, como quem mede a altura de uma montanha antes de escalá-la.

— Talvez eu esteja sozinha. — disse, a voz firme, quase suave. — Mas nunca precisei de um juiz para validar a minha fé.

Os cantos de sua boca se curvaram num sorriso pequeno, breve, mas carregado de um desafio que passaria despercebido a qualquer um que não estivesse faminto por controle. Reed, porém, só viu ali a oportunidade de cravar outra lâmina.

— Ah, Alanis… — ele saboreou o nome mais uma vez, como se pronunciá-lo fosse uma forma de possuí-la. — Jovens como você confundem rebeldia com sabedoria. O mundo já está cheio de crenças ocas. E sabe o que acontece com elas? Quebram na primeira pressão.

Os olhos dele ardiam de prazer intelectual, como um professor saboreando a ingenuidade da aluna. Mas, atrás do brilho da convicção, havia algo que ele não reconhecia: o desconforto sutil de estar sendo observado também. Porque, enquanto falava, Alanis o encarava com uma calma que não era de quem estava na defensiva, mas de quem ouvia uma história previsível.

Ela inclinou o rosto, deixando que uma mecha úmida de cabelo roxo escorresse pela têmpora. Os olhos claros se estreitaram com leveza, não em medo, mas em interesse.

— Forças que quebram… também podem devorar, senhor Reed. O senhor já parou pra pensar que pode não ser o predador da sala?

A frase não veio com arrogância nem com agressividade. Soou quase casual, quase inocente. Reed soltou outra risada, como se estivesse se divertindo com uma bravata juvenil. Mas para ela, estava claro: Alanis não havia apenas se defendido. Ela havia fincado uma estaca invisível no orgulho dele, e já começava a girá-la.

Reed deixou escapar uma risada baixa, quase preguiçosa, como se estivesse diante de uma criança tentando parecer adulta. O brilho nos olhos, no entanto, era afiado — não de quem se sentiu ferido, mas de quem se vê ainda mais instigado pelo desafio.

— Que espirituosa… — comentou, inclinando-se um pouco mais para frente. O sorriso era cortês, mas a boca se curvava de forma que o transformava em algo mais próximo de escárnio. — Mas, veja bem, o predador nunca precisa anunciar o que é. Ele apenas… age.

Ele apoiou uma das mãos no braço da poltrona, o corpo avançando alguns centímetros no espaço dela sem realmente tocá-la. O gesto parecia casual, mas o peso da presença era calculado — como se testasse o quanto ela aguentaria antes de recuar.

— Você trouxe esse livro para mim acreditando que havia interesse genuíno. — disse, o tom grave, lento, cada palavra escorrendo como óleo quente. — Mas eu só vejo alguém desesperada para ser ouvida. Alguém que clama por atenção para suas crenças frágeis.

Os olhos dele se estreitaram, percorrendo-a de cima a baixo em um exame que ia muito além da avaliação intelectual. O casaco pendurado no hall, a blusa simples colada ao corpo ainda úmido, o cabelo solto em mechas escuras pelo ombro. Reed não olhava para os símbolos impressos no livro; olhava para o símbolo vivo diante dele.

Ele ergueu o queixo, deixando que o silêncio se prolongasse, pesado, quase cruel.

— Quer saber o que eu penso, Alanis? — a voz desceu para um sussurro conspiratório. — Acho que, lá no fundo, você veio aqui porque precisa que alguém prove o contrário. Porque, sem oposição, sua fézinha em deuses esquecidos não passa de um teatro vazio.

E, ao dizer isso, Reed sorriu de novo. Um sorriso que era faca e convite ao mesmo tempo. Ele acreditava que cada palavra era uma pedra no muro que erguia ao redor dela. Que estava estreitando o espaço até que não houvesse saída.

O que ele não percebia, ainda, era que Alanis não se encolhia no assento. Não havia nos olhos dela o brilho de quem se sentia encurralada. Havia o de quem observava, pacientemente, um predador exibir suas presas, só para depois descobrir que os dentes não mordem como antes.

Alanis não desviou o olhar. O corpo dela permanecia relaxado na poltrona, como se a casa empoeirada não fosse uma armadilha e sim um palco. O livro aberto no colo, os dedos leves folheando páginas como se não sentisse o peso da figura diante dela.

— Então é isso que pensa? — perguntou, erguendo as sobrancelhas com ironia sutil. — Que preciso do senhor para validar aquilo que já pulsa em mim?

A voz dela saiu calma, quase doce, mas havia nela uma firmeza que se chocava com a expectativa de Reed. Ele aguardava resistência ansiosa, talvez medo, o tipo de nervosismo que dava sabor ao jogo. Em vez disso, encontrou serenidade, e isso o irritava e fascinava em igual medida.

Reed inclinou-se mais, reduzindo a distância entre os dois. A sombra dele caiu sobre Alanis, o timbre grave preenchendo a sala estreita.

— O que pulsa em você, minha cara, não passa de fantasia. Histórias de fogo e pedra que encantam garotinhas com sede de mistério. — Seus olhos desceram pelo contorno do rosto dela, demorando-se na pele clara. — E eu? Eu sou o muro que separa a fábula da realidade.

Ele esperava que Alanis recuasse, que o corpo dela denunciasse ao menos um traço de desconforto. Mas ela apenas ajeitou a mecha de cabelo atrás da orelha e inclinou-se também, como quem aceita a disputa física de proximidade.

— Estranho… — murmurou ela, os olhos fixos nos dele. — Para alguém tão convicto de estar no controle, o senhor fala como se precisasse se convencer disso a cada frase.

O silêncio que seguiu foi denso, cortado apenas pelo ranger do relógio antigo na parede. Reed forçou um riso baixo, rápido, como quem descarta a provocação. Mas por dentro, a pontada de desconforto era real.

— Você é ousada demais para alguém tão jovem. — disse, tentando recuperar a autoridade. O tom era afiado, mas a voz carregava um traço de prazer, como se a ousadia dela fosse combustível para sua obsessão. — Talvez eu precise ensiná-la sobre o valor do silêncio.

Ele se ergueu, alto sobre a poltrona, caminhando devagar em volta dela. Alanis não se moveu. Os olhos o seguiram, tranquilos, como de quem observa um animal em exposição.

Reed parou atrás dela, a respiração próxima o bastante para que a pele da nuca dela se arrepiasse.

— Diga-me, Alanis… — a voz era um sussurro quente. — No que realmente acredita quando está sozinha no escuro?

As mãos dela fecharam o livro com calma, como se o gesto fosse uma resposta. Virou a cabeça apenas o suficiente para fitá-lo por sobre o ombro.

— Eu acredito que o escuro nunca me assusta, senhor Reed. Só quem teme a própria sombra precisa acender velas.

Ele sorriu de novo, lento, quase indulgente. Ainda se via como o predador que cercava a presa. Ainda acreditava que cada palavra dele era uma corrente. O que não percebia era que Alanis não apenas se deixava cercar — ela permanecia imóvel, deixando que ele se aproximasse cada vez mais, como quem aguarda o momento certo para inverter o jogo.

Reed voltou a contornar a poltrona e se sentou diante dela outra vez, o corpo inclinado para frente, os olhos semicerrados. Não havia mais fingimento de interesse no livro, o objeto era mero pretexto. O verdadeiro foco era Alanis, e a forma como cada resposta dela parecia sempre escapar do enquadramento que ele tentava impor.

— Você fala de forças antigas, de rituais e símbolos… — disse ele, o tom grave, pausado, como um sermão que se repete há décadas. — Mas tudo isso não passa de ecos, Alanis. Ecos de uma humanidade perdida, faminta por explicações fáceis. Só existe um caminho, e ele é estreito, duro, inescapável.

Ele estendeu a mão, batendo levemente no próprio peito.

 — A fé em Deus. Qualquer outra crença é só poeira sendo soprada ao vento.

Alanis ergueu o queixo, sem pressa de responder. Passou a palma da mão pela capa gasta do livro, como se acariciasse uma ferida antiga que se recusa a cicatrizar. Então, fitou Reed com os olhos cheios de uma luz insolente.

— Estranho… — começou, a voz baixa, clara. — Para alguém que diz caminhar por um único caminho, o senhor parece obcecado por perseguir todos os outros.

Reed piscou, rápido, mas recompôs o sorriso.

— Porque eu sei onde eles levam! — Comentou em tom casual.

— Ou porque o senhor tem medo do que encontraria se seguisse por eles. — Alanis rebateu sem elevar a voz, quase serena, como se apenas descrevesse o óbvio. — O medo é sempre do desconhecido, senhor Reed. O senhor chama de Deus o que não consegue controlar. Eu chamo de poder.

Ele inclinou a cabeça para o lado, analisando-a como quem encara um quadro que de repente muda de forma. Havia prazer em ouvi-la, mas também uma inquietação que ele não admitiria.

— Você gosta de provocar, não é? — murmurou, os lábios se curvando num sorriso enviesado. — Essa audácia vai se partir. Mais cedo ou mais tarde, todos se partem.

Alanis descruzou as pernas e se inclinou para frente, encurtando a distância entre eles. O perfume úmido da chuva ainda impregnava sua pele. O olhar dela não era desafiador, mas também não era submisso: era o olhar de alguém que não se via prestes a quebrar, e sim prestes a assistir ao outro rachar primeiro.

— Talvez. — disse, calma, firme. — Mas se todos se partem, senhor Reed… quem garante que o senhor não será o primeiro?

O relógio antigo estalou na parede, marcando um segundo pesado de silêncio. Reed sustentou o olhar dela, convencido de que ainda comandava o jogo. O que ele não percebia era a maneira como cada resposta de Alanis não só resistia ao peso de suas palavras, como também começava a corroer, pouco a pouco, o terreno seguro sob seus pés.

Reed respirou fundo, endireitando a postura na poltrona. O brilho nos olhos se intensificou. Agora não era mais apenas ironia ou charme venenoso. Era o fervor de alguém que acreditava carregar consigo a verdade absoluta.

— Você se engana, Alanis. — disse, a voz grave ressoando pela sala como se as paredes fossem cúmplices. — Não sou eu quem precisa provar nada. A palavra já foi dada. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.”

Ele recitou devagar, a cadência estudada de quem já usou aqueles versos como martelo muitas vezes antes. Seus olhos não deixavam os dela, esperando que a familiaridade do peso bíblico a vergasse, que o corpo esguio afundasse sob a autoridade ancestral das escrituras.

Mas Alanis não piscou. Passou a ponta dos dedos pela lombada do livro em seu colo, como se acariciasse a espinha de uma fera adormecida. Um sorriso pequeno nasceu em seus lábios.

— É curioso… — disse baixo, quase doce. — Você cita palavras de um homem morto há dois mil anos como se fossem correntes que ainda pudessem me prender.

Reed inclinou-se novamente para frente, o maxilar contraído.

— Não são correntes. São a única libertação possível.

— Libertação não deveria soar como prisão. — Alanis ergueu o rosto, a luz desenhando um brilho nos olhos vorazes. — O senhor fala de vida eterna, mas tudo que vejo é medo da morte.

Ele cerrou os olhos, estudando-a. O tom dela não era agressivo, nem mesmo defensivo. Era calmo, sereno, como se estivesse desfiando uma verdade simples demais para ser negada. E aquilo, mais do que qualquer grito, corroía.

— Cuidado, menina. — Reed murmurou, a voz descendo para um grave quase íntimo. — Palavras como essas têm um preço.

Alanis se recostou na poltrona, cruzando as pernas com calma, como quem aceita o aviso sem dar-lhe crédito.

— Tudo tem. — respondeu. — Mas até agora, senhor Reed, o único que parece disposto a pagar qualquer preço é o senhor.

O sorriso dele voltou, lento, mas havia nele um traço de tensão, quase imperceptível. Ele ainda acreditava estar no controle. Mas, sob a superfície, a primeira rachadura já se insinuava.

Reed se ergueu um pouco na poltrona, a sombra dele avançando sobre Alanis como se quisesse cobri-la por inteiro. O timbre da voz perdeu qualquer vestígio de cortesia; agora era o fervor de púlpito, carregado de peso e convicção.

— Você fala de liberdade, de forças invisíveis que te acolhem. Mas eu digo: não existe liberdade fora da verdade. O mundo é um poço escuro, Alanis, e só há uma luz capaz de guiá-lo. O resto são fagulhas falsas, dançando no vento antes de se apagar. — Ele ergueu a mão, fechando-a lentamente no ar, como se esmagasse uma chama imaginária. — Assim acabam todos os que desafiam o Senhor.

As palavras caíram como pedras. Reed esperava que ela se encolhesse, que o peso do discurso dobrasse sua espinha, que a juventude ousada dela cedesse diante da autoridade de séculos.

Mas Alanis apenas inclinou a cabeça, os olhos fixos nos dele, um sorriso breve tocando seus lábios.

— O senhor fala como se fosse a própria luz. — disse tranquila. — Mas parece mais alguém apavorado com a escuridão.

A resposta soou simples, mas penetrou como estilete. Reed sustentou o olhar dela, mas por um instante, mínimo, quase imperceptível. A mandíbula dele se contraiu. O sorriso que veio em seguida foi rápido demais, controlado demais. Uma fresta, uma fissura.

Ele recostou-se, limpando a garganta, e a mudança foi imediata. O tom inflamado se suavizou, a retórica fervorosa cedeu lugar ao charme cultivado. Reed retomou a máscara do anfitrião, como se nada tivesse acontecido.

— Você deve estar com frio, encharcada assim. — disse, a voz agora melosa, cortês. — Permita-me oferecer um chá. Uma xícara quente ajuda a clarear ideias… e a aquecer corações teimosos.

Ele se levantou, caminhando até o aparador de madeira no canto, onde uma chaleira repousava. O gesto era lento, teatral, como se cada movimento fosse pensado para restabelecer o controle que por um segundo lhe escapara.

Alanis o acompanhava com o olhar, ainda recostada, calma. Não havia traço algum de agradecimento ou necessidade no olhar dela, apenas a paciência insolente de quem assiste a um homem tentar se recompor.

Reed mexeu na chaleira, mas era como se o ruído da água fosse apenas um disfarce para o zumbido incômodo que ecoava dentro dele. Ele sentia, contra a própria vontade, que a presa não apenas resistia ao cerco — ela parecia confortável nele.

E isso, mais do que qualquer heresia, era intolerável.

Reed voltou com a bandeja nas mãos, cada passo calculado, o olhar pousado em Alanis como se ela fosse a única peça real naquela casa cheia de sombras. A porcelana tilintou levemente quando ele depositou a xícara diante dela, o vapor subindo como um incenso improvisado.

— Chá de jasmim. — disse, o sorriso breve, quase encantador. — Suave, mas persistente… como certas convicções que se recusam a morrer.

Ele se sentou novamente diante dela, cruzando uma perna sobre a outra. As mãos se apoiaram com calma nos braços da cadeira, mas os olhos… os olhos continuavam fixos nela, atentos a cada detalhe: o modo como Alanis ergueu a xícara sem pressa, o jeito que soprou a borda com leveza.

— Vê? — murmurou ele, inclinando-se um pouco. — O calor invade, ocupa, transforma. Como a fé. Não há resistência possível quando se deixa entrar.

Alanis pousou a xícara no pires devagar ainda sem beber, o tilintar ecoando como uma nota precisa no silêncio da sala. Então ergueu os olhos e sustentou o olhar dele sem hesitar.

— A diferença é que eu escolho o que deixo entrar. — disse, a voz suave, quase preguiçosa, mas com uma nitidez que feria. — O senhor precisa acreditar que nada existe fora da sua fé para não desmoronar. Eu não. Eu posso beber seu chá e continuar acreditando nas minhas forças.

Reed forçou um sorriso, mas o traço de tensão estava lá, escondido nas linhas do rosto. Ele se inclinou mais, diminuindo o espaço entre eles, a voz descendo para um grave conspiratório.

— Você fala com tanta certeza… Mas eu me pergunto, Alanis, até quando essa certeza resiste? Quando a noite cair de verdade, quando o silêncio se tornar insuportável, ainda vai rir da minha fé?

Alanis sorriu, encarando as xícaras repousadas sobre a mesinha de centro antes de voltar o olhar até Reed.

— Quando a noite cai, senhor Reed, eu não rio da sua fé. — disse tranquila, quase doce. — Eu rio do medo que o senhor sente de perder o controle.

O sorriso dele vacilou por um instante. Foi rápido, quase imperceptível, mas estava lá. Reed ainda acreditava ser o predador. Mas a cada palavra, a cada gesto sereno dela, a armadilha parecia inverter-se sem que ele percebesse.

Reed se recostou, girando a própria xícara entre os dedos, como se o movimento ajudasse a organizar as ideias. A voz desceu para aquele tom envolvente, entre sermão e confidência.

— Você acredita que pode sustentar essa insolência para sempre? — perguntou, os olhos fixos nela. — O mundo não perdoa descrentes, Alanis. Mais cedo ou mais tarde, a vida se encarrega de dobrar os que ousam caminhar fora da fé.

Ele levou a xícara aos lábios, sorvendo um gole lento. O vapor subiu e encobriu por um instante o olhar dele por trás das lentes, que voltou mais incisivo.

— E quando a dor vier, porque ela sempre vem. Será que ainda vai se apoiar em símbolos vazios? Ou vai cair de joelhos diante do mesmo Deus que hoje despreza?

Alanis não respondeu de imediato. Apenas ergueu a própria xícara, soprou novamente a borda e tocou-a nos lábios, sem de fato beber. Reed interpretou o gesto como rendição silenciosa, um início de fraqueza. Sorriu, satisfeito e prosseguiu.

— A juventude é arrogante, acha que pode enfrentar o mundo com frases afiadas e convicções frágeis. Mas quando o corpo cansa, quando a mente cede… é aí que a verdade se impõe.

Ele se inclinou para frente, gesticulando com as mãos livres, tão absorvido pela própria voz que não percebeu o leve deslizar das porcelanas sobre a mesinha entre eles. Alanis manteve o rosto sereno, o olhar atento, como se absorvesse cada palavra. Mas seus dedos se moveram com precisão tranquila, reposicionando a xícara diante dela e a dele um pouco mais adiante, a troca tão natural quanto o gesto de arrumar um objeto fora do lugar.

Reed não notou. Estava embriagado pela própria oratória, perdido no prazer de ouvir a própria convicção ecoar na sala.

— Você pode rir de mim, pode zombar da minha fé, mas não pode mudar o destino, Alanis. — disse, batendo levemente com a borda da xícara contra o pires ao pegá-la novamente. — E o destino sempre cobra.

Alanis sorriu de canto, discreta, e levou novamente a porcelana aos lábios, agora bebendo o líquido com calma. Reed, satisfeito, ergueu a sua e bebeu de um só gole, o olhar triunfante fixo nela, certo de que a armadilha já se fechava.

Reed repousou a xícara no pires, satisfeito, o som do tilintar ecoando como um ponto final. Inclinou-se de novo para frente, os olhos acesos, a voz voltando ao tom firme de um pregador que acredita guiar uma alma perdida.

— Eu já vi muitos como você. — disse, as mãos se unindo sobre o joelho. — Jovens que zombavam da fé, que cuspiram no sagrado. E sabe onde estão agora? Perdidos. Corrompidos. Mortos, em mais de um sentido.

Alanis descruzou as pernas com calma, os olhos brilhando sob a luz quente.

— Talvez seja porque não estavam prontos para sustentar o peso da própria liberdade.

Reed deixou escapar uma risada seca, quase divertida.

— Liberdade… palavra bonita, mas enganosa. A liberdade não passa de uma ilusão que aprisiona mais do que liberta. Veja os que seguem apenas o próprio desejo: caem em ruína. Veja os que seguem apenas os próprios deuses: viram pó. Mas aqueles que se entregam à fé verdadeira… esses permanecem.

Ele falava com ênfase, a voz cada vez mais grave, como se cada frase fosse uma sentença gravada em pedra.

— É por isso que você está aqui. — prosseguiu, os olhos fixos nela, quase brilhando. — Você acha que veio por um livro, mas a verdade é que foi trazida. Guiada. Nenhuma heresia chega até mim por acaso.

Alanis não desviou o olhar. O dedo dela deslizou lentamente pela borda da própria xícara, o gesto simples, mas carregado de um significado silencioso.

— Talvez o acaso seja mais poderoso do que o senhor imagina. — disse, calma, sem levantar a voz. — Afinal, se fosse tão guiado assim, já teria me convertido com meia dúzia de frases.

O riso de Reed voltou, suave, indulgente, como quem corrige uma criança. Ele ergueu a xícara vazia, sem imaginar o peso crescente que lentamente começava a se instalar nos próprios músculos.

— Você resiste agora… — murmurou, acrescentando mais chá. — Mas logo entenderá. Todos entendem.

Alanis apenas o observava, a calma dela intacta, como se cada palavra dele fosse só o desenrolar de um monólogo ensaiado. A noite avançava pela janela, e com ela, sem que Reed notasse, a própria força começava a lhe ser tirada, um gole de cada vez.

Reed ajeitou a gravata inexistente, um gesto automático, e voltou a falar com a cadência solene de sempre.

— O destino, Alanis… — começou, a voz carregada de uma autoridade que ele acreditava inquebrantável. — O destino sempre cobra. Você pode rir, pode fingir que não se importa, mas um dia ele baterá à sua porta.

O timbre saiu firme, mas no final da frase houve um vacilo mínimo, um arranhar na garganta. Reed tossiu de leve, cobrindo com um sorriso rápido, forçando naturalidade. Levou a xícara à boca novamente, como se o calor do chá justificasse a irritação passageira.

Alanis observava em silêncio, o rosto tranquilo, mas os olhos atentos a cada detalhe. O leve estremecer dos dedos dele ao repousar a porcelana no pires, a forma como os ombros se moveram com mais peso do que antes.

— O senhor fala muito em destino… — disse ela, a voz baixa, límpida. — Mas já reparou como é fácil confundir destino com consequência?

Reed soltou uma risada curta, o som rouco demais, abafado demais. Endireitou-se na poltrona, apoiando a mão na lateral como se buscasse firmeza, ainda com o sorriso nos lábios.

— Consequência… — repetiu, quase cuspindo a palavra. — Você acha que está me ensinando algo?

Mas havia algo no olhar dele que não combinava com a segurança do tom. Um lampejo rápido, quase invisível, como de quem sente o corpo reagir de forma inesperada — e não encontra explicação imediata.

Ele disfarçou erguendo o queixo, voltando ao papel de juiz e predador. A fala seguiu, mas o primeiro fio da máscara tinha se soltado.

Reed retomou o fôlego, apoiando os cotovelos nos joelhos para não deixar o corpo pender demais. Forçou o tom novamente grave, carregado de autoridade:

— Jovens como você sempre acreditam que podem dobrar o mundo com insolência. Mas não passa de… de fumaça. — A última palavra arrastou-se mais do que deveria, e ele disfarçou com um sorriso tenso.

Alanis tombou o rosto levemente, como se analisasse cada detalhe. O dedo dela percorreu a borda da xícara vazia, um gesto lento, provocador.

— Fumaça… — repetiu, a voz serena. — O curioso é que, quem está se desfazendo aqui não sou eu.

Reed franziu as sobrancelhas, a expressão ainda altiva, mas havia uma centelha de desconforto nos olhos.

— Cuidado com a língua, menina. Palavras podem ser o início da ruína.

Alanis se recostou na poltrona, cruzando as pernas com calma e afundando o corpo, o sorriso pequeno surgindo nos lábios.

— Ou podem ser o início da revelação. — Ela inclinou o queixo, fixando-o com o olhar. — Está sentindo? A lentidão nas mãos, o peso na garganta… parece até que sua fé não o protege tanto assim.

Por um instante, o silêncio da sala se tornou mais denso que a própria escuridão do lado de fora. Reed apertou os dedos contra o estofado da poltrona, buscando firmeza. O sorriso voltou, mas rápido demais, artificial demais.

— Insolente. — murmurou, como se o insulto pudesse restituir o controle.

Mas Alanis não recuou. O olhar dela ardeu com a mesma tranquilidade insolente de antes, agora tingida de algo mais perigoso: a certeza.

— Não chame de insolência o que, no fundo, é apenas verdade, senhor Reed.

Ela se inclinou para frente, aproximando-se até que o rosto dela quase tocasse o dele, a voz descendo para um sussurro firme:

— O senhor queria ver uma herege quebrada. Mas me diga… quem é que está começando a ceder agora?

Reed endireitou o corpo, a respiração mais pesada, mas a voz ainda buscava a mesma precisão e autoridade.

— Não se engane… Alanis. — disse, pausando entre as palavras, como se cada sílaba fosse arrancada à força. — A fé… é prova de fogo. Ela purifica. Ela… ela consome os ímpios.

O rosto dele brilhou de suor sob a luz amarelada da sala. Mesmo assim, um sorriso teimoso surgiu nos lábios, carregado de arrogância.

— Eu já vi muitos… caírem diante da Palavra. — insistiu, erguendo a mão como se pregasse diante de uma congregação invisível. — E você… não será diferente.

A voz falhou no fim da frase, embargando como corda esticada prestes a romper. Reed tossiu, disfarçando com outra risada curta, mas o som saiu áspero, arranhado.

Alanis não disse nada. Apenas o observava, calma, o queixo apoiado na mão, como se estivesse diante de um espetáculo previsível. A serenidade dela era a negação mais cruel ao discurso que ele tentava sustentar.

Reed se inclinou para frente, mas o gesto carecia da firmeza de antes. As mãos tremiam, a visão turvava. Ainda assim, ele murmurou, obstinado:

— Eu… sou o caçador, Alanis. E você…

A palavra morreu na garganta. O corpo tombou para o lado, os óculos caíram em silêncio sobre o tapete.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, cortado apenas pelo som do relógio antigo marcando as horas intermináveis. Reed, o predador eloquente, jazia desacordado na poltrona, a boca entreaberta, o peso do corpo entregue ao efeito inevitável do que ele havia tentado causar nela.

Alanis descruzou as pernas devagar, o sorriso pequeno nos lábios, estendeu a mão para retirar o livro do colo. O olhar cintilava não de surpresa, mas de confirmação. Como se tivesse previsto aquele desfecho desde o primeiro gole.

O silêncio da sala era espesso, quebrado apenas pelo tic-tac persistente do relógio antigo. Reed continuava desabado na poltrona, a respiração pesada, os dedos crispados em torno do nada.

Alanis se levantou devagar, ajeitando o livro contra o peito. O olhar dela percorreu a cena como quem contempla o resultado inevitável de um cálculo. Havia um brilho quase divertido nos olhos. Não de surpresa, mas de certeza.

Ela parou ao lado mesa de centro, onde as duas xícaras repousavam em silêncio cúmplice. A porcelana manchada de chá, o vapor já se dissipando. Ela passou o dedo pela borda da mesa, o gesto lento, e murmurou baixinho:

— Acha mesmo que eu beberia algo oferecido tão fácil, senhor Reed?

O sorriso pequeno se abriu nos lábios, cruel e satisfeito. A lembrança da troca veio como um clarão: o deslizar quase imperceptível das xícaras quando ele se inclinara, cego pela própria retórica. Ela não havia bebido. O predador, distraído pelo som da própria voz, engolira a própria armadilha.

Alanis subiu os degraus rangentes que levavam ao corredor estreito, explorando a casa. O ar era denso de mofo e madeira úmida, quadros antigos pendiam nas paredes como vultos, portas fechadas exalavam segredos. Uma gaveta mal trancada revelou cordas grossas, velhas, já gastas. Ferramentas de controle, sem dúvida reservadas para ela.

Horas depois, quando Reed abriu os olhos, o mundo já não lhe pertencia.

A visão dele ainda turva encontrou primeiro o teto amarelado da cozinha, depois a sombra dela se movendo no centro do cômodo. Tentou erguer-se, mas o corpo respondeu com a rigidez da corda apertada. Estava amarrado à própria cadeira, os pulsos presos firmes, as pernas imóveis.

Alanis surgiu diante dele, os cabelos caindo em mechas suaves sobre os ombros, o olhar faiscando sob a luz fraca. O livro descansava em uma das mãos, a outra deslizava preguiçosamente pela corda esticada, como quem exibe um troféu.

— Engraçado… — disse, a voz calma, quase doce. — A corda que o senhor ia usar em mim caiu muito bem nas suas mãos.

Ela se inclinou, o rosto próximo ao dele, a respiração firme. O sorriso agora era afiado, sem espaço para inocência.

— O caçador sempre se acha esperto demais. Mas no fim… — Alanis ergueu o queixo, deixando que o silêncio completasse a sentença, antes de sussurrar — a presa era só o disfarce.

Reed puxou contra as cordas, o peito arfando, mas os nós estavam firmes. E pela primeira vez, nos olhos dele não havia arrogância nem triunfo. Havia medo.

— O que… o que você fez?

Alanis caminhou em volta dele devagar, a mão passando levemente pelo encosto da cadeira, como quem avalia uma peça de caça abatida.

— Nada que o senhor não tivesse planejado pra mim. — murmurou, deixando a voz cair perto do ouvido dele. — Só que eu prestei atenção. E você, não.

Ela voltou à frente, cruzando os braços, os olhos fixos nos dele. O sorriso cresceu um pouco mais.

— O caçador esqueceu que presas também mordem.

Reed respirava fundo, tentando recuperar a retórica de antes.

— Isso… não muda nada. Você pensa que tem poder, mas não passa de uma menina insolente, brincando com fogo.

Alanis abaixou-se até ficar na altura dele, o rosto próximo, os lábios quase roçando os dele quando falou.

— Insolente, talvez. Mas veja bem, Reed… — os olhos ardiam como lâminas — agora é você quem está preso.

Ela pousou a mão no peito dele, deslizando devagar pelos botões da camisa, não com carinho, mas com a calma provocadora de quem experimenta um território conquistado.

— Intelectualmente, fisicamente… e, se eu quiser, em todos os outros aspectos também.

Reed fechou os olhos por um instante, a respiração pesada. Quando os abriu, havia neles algo novo: não apenas raiva, mas uma centelha de medo. Sua mente ainda buscava se agarrar à superioridade que sempre acreditara possuir.

Alanis sentou-se apoiada na mesa, endireitou-se, voltando à postura tranquila, mas o poder já tinha mudado de dono. E ele sabia disso.

— Sabe, Reed… — disse, enquanto desatava os cadarços com calma. — Nos rituais pagãos, o sexo não é pecado. É oferenda. É fogo. É a forma mais antiga de chamar os deuses.

Ela puxou os tênis e os deixou cair no chão, o som seco ecoando. Ficou descalça, e em seguida esticou as pernas, roçando as pontas dos pés pelas coxas dele. Primeiro um toque leve, quase um aceno, depois a pressão crescente, subindo devagar pela virilha.

Reed cerrou os dentes, a respiração pesada. A voz, quando saiu, carregava a gravidade de um púlpito cristão.

— Blasfêmia. — murmurou, o olhar cravado nela. — O sexo foi dado por Deus para a reprodução, para a continuidade da espécie. Você… — ele se puxou contra as cordas, os ombros tensos — …transforma algo sagrado em perversão.

Alanis soltou uma risada curta, baixa, deslizando o pé mais acima, roçando a ponta dos dedos sobre a rigidez que já começava a se formar contra a vontade dele. Os olhos claros faiscavam com insolência.

— E não é isso que o torna verdadeiro? — retrucou, a voz suave, quase um sussurro venenoso. — O calor, o desejo, o corpo pedindo sem permissão. Chame de perversão, se quiser. Eu chamo de poder.

Reed fechou os olhos por um instante, o maxilar travado, mas a respiração denunciava o conflito.

— Você acredita… que pode me vencer com luxúria. — disse, a voz trêmula em algum ponto entre o sermão e a confissão. — Mas sua carne não é nada diante da Palavra.

Alanis inclinou-se sobre a mesa, os pés ainda pressionando a virilha dele, e deixou o rosto próximo ao dele, os olhos queimando de convicção.

— Então me prove. — desafiou, a voz baixa, firme. — Me prove que sua fé é mais forte que o seu corpo.

O silêncio caiu firme, pesado, o relógio ainda marcando cada segundo como um eco distante. Reed respirava fundo, os olhos fixos nela, a corda queimando em seus pulsos. O sermão em seus lábios se tornava cada vez mais frágil, enquanto o corpo respondia ao toque dela como um herege em meio a um ritual profano.

Alanis escorregou da mesa com a leveza de quem desce de um altar, avançando devagar até ele. O olhar não se desviava em nenhum instante, incandescente, como se cada centímetro invadido fosse uma sentença.

Reed tentou endireitar-se na cadeira, inflar o peito, mas a corda firme em seus pulsos e tornozelos denunciava o ridículo da pose. Alanis parou diante dele, inclinando-se devagar, os cabelos roxos roçando-lhe o rosto.

— Acha mesmo que pode resistir? — murmurou, a voz quase risonha, enquanto as pontas dos dedos dela passeavam pela gola da camisa dele. — Eu sinto seu corpo implorando debaixo dessa santidade de fachada.

Reed contraiu o maxilar, fechando os olhos novamente.

— Depravada. — a palavra saiu cuspida, carregada de ódio e desejo em partes iguais. — Você é o reflexo mais imundo da humanidade.

Alanis riu, baixo, deixando o som escorrer quente contra o ouvido dele.

— Se sou tão imunda… por que sua respiração falha cada vez que eu toco você?

As mãos dela desceram pela frente da camisa dele, abrindo botão por botão, sem pressa. O peito dele se expôs sob a luz moribunda da cozinha, e ela pousou a palma contra a pele quente, sentindo os batimentos acelerados.

— O seu corpo, Reed… — disse, roçando os lábios na mandíbula dele, sem beijar, apenas provocando. — Ele já me pertence. E sua fé não pode fazer nada contra isso.

Ele arfou, o corpo traindo o sermão. Tentou erguer a voz, mas ela saiu mais rouca que firme.

— O sexo é… sagrado. Apenas para gerar vida. O que você faz… é profanação.

Alanis ergueu o rosto, fitando-o de perto com um sorriso afiado. Uma das mãos deslizou até a virilha dele, pressionando devagar, sentindo a rigidez que crescia contra a vontade. O olhar dela faiscava de triunfo.

— Profanação? — repetiu, divertida. — Eu chamo de adoração. Só que não ao deus que você invoca… e sim ao fogo que queima aqui, agora.

Reed cerrou os dentes, puxando-se ainda mais forte contra as cordas que já marcavam seus pulsos, mas um gemido baixo escapou, rouco, traidor. Ele fechou os olhos como se pudesse negar, mas Alanis riu, inclinando-se sobre ele, os lábios roçando os dele sem lhe dar o beijo.

— Seu corpo já fez a escolha, Reed. — sussurrou. — Só sua boca insiste em negar.

Ele abriu os olhos, o olhar um misto de raiva e desespero.

— Você… não vai vencer. Eu não vou ceder.

Alanis deixou a mão apertar mais forte entre as pernas dele, a respiração dela calma, segura, como de quem dita o ritmo de tudo.

— Ah, mas você já está cedendo. — murmurou, com um brilho cruel nos olhos. — E isso é o que mais me excita: ver o pregador se perder na própria contradição.

O relógio estalou no fundo, marcando o compasso da queda dele. Reed ainda falava de fé, mas o corpo inteiro era um sermão ao contrário, e Alanis, com cada gesto, o transformava naquilo que ele mais temia: uma oferenda pagã diante dela.

Alanis deslizou os dedos pela corda que prendia os tornozelos de Reed. O atrito áspero arranhou a pele dele, e o som do nó se desfazendo soou como um veredito.

— Não pense que isso é compaixão. — murmurou, inclinando-se perto do rosto dele. — É só para que sinta melhor a danação que escolheu.

Os olhos de Reed faiscaram, tentando recuperar alguma altivez.

— Você não entende… cada gesto seu só confirma a depravação. Sexo fora da santidade é pecado, é morte.

Alanis riu, um som baixo, cruel, enquanto se ajoelhava diante dele.

— Então me veja morrer devagar, Reed. — os dedos dela puxaram a fivela do cinto, o metal tinindo no silêncio pesado. — Porque eu vou me afogar em cada pecado que você tentar me jogar.

Ele cerrou os punhos amarrados, a respiração acelerada quando sentiu o tecido da calça ser puxado para baixo, revelando a pele quente. O corpo dele reagia apesar das palavras, pulsando debaixo da mão firme dela.

— Depravada! — ele sussurrou, a voz rouca. — Você é só uma… tentação de carne. Nada mais que isso.

Alanis ergueu o olhar, os olhos ardendo enquanto passava a língua lentamente pelos lábios.

 — E ainda assim, é a carne quem está vencendo. — murmurou, antes de inclinar-se e deixar um rastro de saliva quente deslizar pelo membro dele, como se marcasse cada centímetro com blasfêmia e luxúria pagã.

Reed arfou, o corpo arqueando contra a cadeira. Tentou virar o rosto, mas não conseguiu disfarçar o gemido baixo que escapou.

Ela desceu sua calça num gesto tão trivial quanto sujo, subiu sobre ele em seguida, o cabelo caindo como véu blasfemo entre os dois. A blusa justa colou-se ao peito dele, ainda preso, e Alanis ergueu o quadril devagar, roçando-se contra ele de propósito, alongando a tortura.

— Vai rezar agora, Reed? — sussurrou no ouvido dele, enquanto se encaixava sobre ele em um movimento lento, inevitável. — Ou vai aceitar que seu deus perdeu?

Ele cerrou os olhos, a boca murmurando quase em transe.

— Eu… não vou ceder… não vou…

Alanis gemeu baixo ao sentir-se preenchida, as unhas cravando nos ombros dele.

— Seu corpo já se rendeu. — disse, arfando, o sorriso cruel ainda no rosto. — E isso basta.

O relógio ao fundo, marcando cada estocada como o compasso de um rito. Reed ainda falava em pecado, mas o som se perdia entre os gemidos que escapavam de sua garganta. Alanis montava nele como sacerdotisa, transformando cada movimento em liturgia pagã, e Reed, amarrado, nada podia fazer além de viver a danação que tanto pregava contra.

Alanis se movia sobre ele em ritmo calculado, lento demais para aliviar, rápido o bastante para torturar. Cada vez que Reed arqueava contra a cadeira, os pulsos presos latejando sob a corda, ela recuava, diminuía o compasso, obrigando-o a saborear a própria contradição.

O suor escorria pela têmpora dele, a respiração pesada, os olhos semicerrados tentando manter a altivez que já não existia.

— P-pecado… — murmurou, a voz rouca, quase um gemido de fato. — Isso é… um agravo.

Alanis sorriu, as unhas arranhando de leve o peito dele, enquanto continuava a cavalgá-lo com calma blasfema.

 — Agravo delicioso. — gemeu, aproximando os lábios de seu ouvido. — Seu corpo não parece querer que eu pare.

O quadril dela acelerou de repente, arrancando um gemido alto de Reed. O som saiu sem filtro, cru, e ele fechou os olhos, tentando engolir a própria fraqueza. Quando Alanis percebeu que ele tremia prestes a perder o controle, ela parou. Imobilizou o movimento, mantendo-se encaixada, imóvel como uma deusa em oferenda suspensa.

—Não! — a palavra escapou dele antes que pudesse contê-la. Abriu os olhos, desesperados, o rosto tomado por vergonha e desejo. — N-não faça isso.

Alanis inclinou a cabeça, fingindo inocência.

— Não faça o quê? — provocou, rebolando só o suficiente para que o corpo dele implorasse.

Reed gemeu baixo, puxando-se fortemente contra as cordas, a voz entrecortada.

— N-não pare…

Ela riu, baixa, cruel, roçando os lábios na boca dele sem beijá-lo de fato.

— Então admita. Admita que precisa de mim.

O silêncio durou segundos que pareceram séculos, até que Reed, com a voz embargada e os olhos fechados, sussurrou:

— Eu… preciso.

Foi tudo que Alanis queria ouvir. Ela voltou a se mover sobre ele com intensidade, rápida, cruel, o cabelo colorido colando no rosto suado. Reed arfava alto, gemidos escapando como orações distorcidas, cada investida dela arrancando não só prazer, mas a negação final de toda sua pregação.

O corpo dele tremeu, convulsionando sob o dela, e quando finalmente se derramou, não foi como um homem de fé, mas como o próprio herege consumido no próprio altar de depravação.

Alanis permaneceu sobre ele por alguns segundos, o abraçando com o corpo arfando, os olhos faiscando em triunfo. Então, inclinou-se e murmurou contra sua boca, suave, cruel:

— Viu só, Reed? Até os pregadores dobram diante das minhas chamas.

O silêncio após o clímax pesava tanto quanto a corda em seus pulsos. Reed arfava, a cabeça tombada para trás, o corpo ainda trêmulo sob o impacto da rendição. O suor escorria pela face, a respiração descompassada, e a vergonha se infiltrava em cada músculo.

Alanis escorregou do colo dele devagar, ajeitando o cabelo e alisando a própria blusa amarrotada. O olhar percorreu o corpo exposto dele, ainda rígido de contradição, amarrado como uma oferenda maldita. Um sorriso pequeno se abriu em seus lábios.

— Pregador rendido… — murmurou, inclinando o rosto perto ao dele. — O seu Deus deve estar envergonhado de você agora.

Reed tentou falar, mas a voz saiu rouca, sem firmeza.

— Eu… eu não… — engasgou, como se as palavras não obedecessem mais à fé que sempre proclamara.

Ela apenas riu baixo. Vestiu novamente a calça, foi até o cabide da entrada. Vestiu o casaco, calçou os tênis novamente, cada gesto lento, petulante, como se o tempo fosse todo dela.

De volta à cozinha, aproximou-se e segurou o queixo dele, obrigando-o a encarar seus olhos.

— Você me chamou de herege, blasfemadora, depravada. — sussurrou, o tom suave, cruel. — Mas foi o seu corpo quem me implorou. Lembre-se disso.

Em seguida, retirou um estilete pequeno do bolso interno do casaco. O metal brilhou à luz do ambiente. Ela o pegou pela lâmina e enfiou o cabo contra a palma da mão dele, ainda presa pela corda as costas da cadeira.

— Aqui está. — disse, baixinho, com um sorriso enviesado. — Se quiser, pode se libertar. Ou pode ficar aí, preso ao seu próprio pecado, até apodrecer na sua consciência.

Reed baixou os olhos para o chão, a respiração curta, o rosto em desespero mudo. Alanis girou nos calcanhares, caminhou até a porta e abriu-a sem olhar para trás. A noite fria invadiu a casa, trazendo consigo o cheiro de chuva.

Quando a porta se fechou, Reed estava sozinho. Amarrado, exposto, com o corpo ainda marcado pela decadência religiosa e moral. O estilete em sua mão era tanto uma chave quanto uma sentença.

E o relógio continuava a marcar o tempo, implacável, cada estalo ecoando como uma acusação.

O silêncio ficou mais denso depois que a porta bateu atrás dela. Só o som do relógio persistia, marcando cada segundo como se fosse martelar o coração de Reed. Ele permaneceu imóvel por longos minutos, sentindo o frio da noite invadir o ambiente, o corpo ainda quente do pecado.

O estilete pesava na mão, um objeto pequeno demais para carregar tanto significado. Por fim, com um movimento brusco, Reed começou a cortar as cordas. O atrito do metal contra o fio áspero encheu o ar com um som agudo, até que a corda se rompeu.

As mãos dele estavam vermelhas, marcadas pela prisão. Ainda assim, ele se ergueu devagar, ajeitando a camisa aberta, fechando a calça... os olhos faiscando na penumbra.

— Maldita… — rosnou, cuspindo a palavra, a voz rouca.

Mas logo em seguida, um sorriso lento se desenhou em seus lábios. Não era um sorriso de derrota. Era o de alguém que descobrira um novo tipo de obsessão.

Reed passou a mão pelo rosto, rindo baixo, um riso sem alegria, carregado de sombra. Olhou para a porta fechada, como se pudesse atravessá-la apenas com o pensamento.

— Isso ainda não acabou, Alanis. — murmurou, o tom baixo, cheio de promessa. — Você abriu uma porta… e eu vou encontrá-la de novo.

O relógio continuava a marcar o tempo, mas agora o som parecia compasso de vingança.

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Walking Side by Side - pt III

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