quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Se um dia eu morrer...


Se um dia eu morrer, quero que digam que vivi.

Que amei com fome e ri até a face doer.

Que deixei rastros de alegrias, saudades e noites de embriaguez.

Que alguém sorriu lembrando de mim — e foi o bastante.


Se um dia eu morrer, escrevam que fui feliz.

Não que não tive medo, nem que não chorei; tive tudo isso. E tive mais.

Amei com a sede de quem sabe que o tempo é curto. Sorri nas pequenas vitórias: um abraço da minha filha, um jantar em família, a chuva que veio me lavar na hora exata. Vivi coisas lindas e outras que me queimaram por dentro; todas elas me fizeram inteira.

 

Quero que lembrem das minhas manias: da minha risada esquisita, das músicas repetidas que eu sempre ouvia, das mãos que arrumavam as coisas sem pedir. Que não reduzam minha vida a um resumo triste, mas que contem que eu me entreguei; às pessoas, às estradas, às histórias que me chamaram.

 

Se houver flores, que sejam das que eu amava; se houver música, que toque aquela faixa que me fazia dançar de maneira ridícula. Mas, acima de tudo, que alguém conte uma história que me faça viva por mais alguns minutos: uma memória minha que faça outra pessoa sorrir e, por um segundo, me trazer de volta.

 

Não peço silêncio ou cerimônias perfeitas. Peço verdade. E que, ao lembrar de mim, sintam vontade de viver mais. Como se eu tivesse deixado um convite em forma de vida vivida.

 

Se um dia eu morrer, que não seja apenas um nome numa lista; que seja um incômodo bonito na rotina de quem me amou. Quero que o mundo saiba que eu me deixei... Me deixei errar, me deixei arder, me deixei transformar. Não fui nem só dor nem só graça: fui um mapa inteiro de contradições que, juntas, formaram algo verdadeiro.

 

Amei cada gargalhada que causei, com a delicadeza dos bilhetes dobrados dentro de bolsos. Meus amores foram intensos, às vezes desajeitados, sempre sinceros; deixei pedaços de mim em jardins, em bares, em pessoas que me ensinaram algo sobre pertencer. Sorri de bobeira e também sorri sabendo que a tristeza podia aparecer depois — e veio — e eu dancei com ela até achar a saída.

 

Que saibam que tudo que fiz foi de corpo e alma. Colecionei livros, tatuagens, fotografias e cicatrizes que contam histórias que eu não precisei explicar. Havia dias de sol que me abririam como flor; noites que me consumiam e me moldavam. Em todas elas, havia um fio que eu puxava: intensidade. Foi ela que me fez cruzar estradas, ir à shows, escutar pessoas que pareciam ter sido escritas por outra vida.

 

Se houver memória, que seja crua: a minha gargalhada interrompendo uma piada, a minha preguiça de acordar cedo, o jeito que eu enchia a taça de vinho até a borda por achar que a vida merecia transbordar. Que contem as vezes em que perdoei e as vezes em que me recusei a perdoar, porque tudo isso também fui eu.

 

Quando se lembrarem das coisas boas que fiz, que se lembrem das ruins também, porque se as fiz, foi porque eu quis.

 

Não quero que me preservem numa versão polida e impecável. Quero que me contem como fui: inteira, falha, estranha, viva. E que, quando disserem meu nome, alguém em algum lugar sinta vontade de ligar para aquela pessoa com quem está guardando silêncio, de beber a última dose de coragem, de seguir caminhos sem mais desculpas.

 

Se um dia eu morrer, que me celebrem com sinceridade — e que a lembrança de mim seja um empurrão para que o mundo viva um pouco mais alto. 




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