sábado, 22 de novembro de 2025

Just us... and Venom. - pt I

 

Essa é uma fanfic indecente, insana e deliciosamente errada sobre o que acontece quando um jornalista azarado, um alien simbiótico e uma mulher maluca e zero limites se cruzam em São Francisco.

Aqui, Venom fala demais, Eddie se atrapalha tentando ser racional, e Amber transforma perseguição em preliminar.
Entre discussões internas, humor sujo e desejo reprimido, a linha entre o que é humano e o que é monstruoso fica borrada — e, convenhamos, muito mais interessante assim.

Inspirada em “Venom”, temos caos, sarcasmo, luxúria e baba alienígena.
Porque o tesão, às vezes, também é bizarro.

 

Três semanas.

Três malditas semanas que eu vejo a mesma Harley preta estacionada a uns cinquenta metros do meu prédio. Sempre no mesmo lugar. Sempre com a mesma mulher sentada nela, capacete na mão, cabelo vermelho-fogo brilhando sob a luz dos postes.

No começo, achei que fosse coincidência. São Francisco é cheio de motociclistas. Mas aí ela apareceu na cafeteria onde eu compro meu café todo dia. Depois na biblioteca. Depois no mercado.

E agora? Agora ela está ali de novo, encostada na moto, mexendo no celular como se não estivesse me vigiando.

— EDDIE.

— Não.

— EDDIE, ELA ESTÁ AQUI DE NOVO.

— Eu sei que ela tá aqui de novo, Venom. Eu tenho olhos.

— ELA É BONITA.

— Ela é uma stalker.

— STALKERS PODEM SER BONITAS. OLHE PRA ELA. AQUELAS PERNAS. AQUELE... COURO JUSTO...

— Você é um alien. Você nem tem conceito de...

— EU TENHO TODOS OS CONCEITOS AGORA, EDDIE. E AQUELA MULHER... HMMM... EU QUERO LAMBER ELA INTEIRA.

Esfrego o rosto com força, tentando ignorar a voz grave ecoando dentro da minha cabeça. Venom tem essa mania irritante de comentar cada mulher que passa por mim desde que a Anne casou com o Dan. Como se eu precisasse de um alien fazendo papel de Tinder interno.

Mas a verdade?

Amber — sim, eu já descobri o nome dela, porque eu também sou jornalista e sei investigar — é realmente... porra, ela é gata pra caralho.

Cabelo vermelho caindo nos ombros, corpo magro e curvilíneo debaixo daquela camiseta justa de banda (hoje é Mötley Crüe), calça de couro que gruda em cada curva, coturnos de salto que fazem um barulho seco quando ela anda. Lábios carnudos que ela morde enquanto mexe no celular.

E os olhos...

Mesmo de longe, dá pra ver que ela tem aquele olhar afiado. Investigativo. Do tipo que vê mais do que deveria.

— VAMOS FALAR COM ELA.

— Não vamos falar com ela.

— POR QUE NÃO? VOCÊ QUER. EU SINTO SEU CORAÇÃO ACELERANDO TODA VEZ QUE ELA APARECE.

— Porque ela claramente tá me seguindo, Venom! E se for alguma merda da Fundação Vida de novo? Se for o governo? Se for...

— OU TALVEZ ELA SÓ GOSTE DE VOCÊ.

— Ninguém "só gosta" de mim e me segue por três semanas.

— EU GOSTO DE VOCÊ. E ESTOU DENTRO DE VOCÊ HÁ MESES.

— Isso... isso não é o mesmo e você sabe.

Amber ergue o olhar de repente, como se sentisse que estou olhando. Nossos olhos se encontram por um segundo. Ela não desvia. Não sorri. Só... me encara, como se dissesse "sim, eu sei que você me viu, e daí?"

Porra.

— ELA NÃO TEM MEDO DE VOCÊ.

— Ela não sabe de você.

— AINDA ASSIM, EU GOSTO DISSO.

Respiro fundo, decidido. Três semanas é tempo demais. Se ela quer algo, vai ter que me dizer na cara. Agora.

Desço do apartamento, atravesso a rua com passos largos, direto até a Harley preta. Amber me vê chegando e endireita a postura, guardando o celular no bolso. Não corre. Não finge que não está vendo. Só espera, apoiada na moto, os braços cruzados, o queixo erguido.

Paro a um metro dela.

— Três semanas — digo, a voz saindo mais grave do que pretendia. — Você me segue há três semanas. Quem te contratou?

Amber arqueia uma sobrancelha, um meio sorriso aparecendo no canto daqueles lábios carnudos.

— Olá pra você também, Eddie Brock.

— ELA DISSE SEU NOME. ELA SABE QUEM VOCÊ É, EDDIE... EU GOSTO CADA VEZ MAIS DELA.

— Cala a boca, Venom.

Amber pisca.

— Desculpa?

Merda.

— Nada. Respondendo sozinho. Péssimo hábito. — Balanço a cabeça, voltando ao ponto. — Quem te mandou me seguir?

Ela suspira, como se já esperasse por essa conversa.

 

** Amber **

 

— E quem disse que alguém mandou eu seguir você, seu presunçoso? — retruco, com o maior descaramento do mundo, um meio sorriso brincando nos lábios. — Tá se achando especial demais, não acha?

Volto a mexer no celular, como se estivesse ali por pura coincidência, completamente indiferente à sua suspeita.

Ergo o olhar devagar, encontro o seu, depois volto a olhar pro visor só pra provocar.

— Vai ficar aí me encarando, ou vai finalmente me convidar pra tomar um café? — minha voz sai baixa, levemente rouca, carregando um desafio.

Travo o capacete na moto com calma, guardo o celular no bolso e desço do assento, me aproximando o suficiente pra que o cheiro do couro e da gasolina me acompanhe.

— Você é bem mais bonitinho do que as matérias de jornal que te esculachavam deixaram transparecer — digo, cruzando os braços e inclinando a cabeça. — Acho que a imprensa não capturou o seu melhor ângulo.

 

** Eddie **

 

Ela me olha com aquele sorriso debochado, como se eu fosse um idiota paranoico, e volta pro celular como se eu não estivesse aqui. Como se eu não tivesse acabado de acusá-la de me perseguir por três semanas.

— EDDIE, ELA ESTÁ MENTINDO.

— Eu sei que ela tá mentindo.

— MAS EU GOSTO DISSO. ELA É DESAFIADORA.

— Você gosta de tudo que tem pernas e não tenta nos matar.

Amber ergue o olhar de novo, lenta, provocadora, como se soubesse exatamente o efeito que causa. E aí vem aquela frase sobre café, com a voz rouca arrastada, e eu sinto meu estômago dar um nó.

Porra.

— CAFÉ! EDDIE, ELA QUER CAFÉ COM VOCÊ! DIGA SIM!

— Venom, cala a—

Ela desce da moto. O som dos coturnos no asfalto ecoa como um aviso. Ela é menor do que eu — um metro e sessenta e poucos, talvez —, mas a forma como se aproxima, cruzando os braços, inclinando a cabeça, faz parecer que ela tem todo o controle da situação.

O cheiro de couro e gasolina bate em mim. Algo levemente adocicado por baixo. Perfume? Não sei. Mas meu cérebro registra tudo, e o Venom... porra, o Venom está praticamente ronronando dentro de mim.

— ELA CHEIRA BEM, EDDIE.

— Não.

— CHEIRA A PERIGO. E COURO. E...

— Venom, EU JURO—

Aí ela solta aquilo sobre eu ser “bonitinho” e sobre as matérias de jornal, e meu maxilar trava.

— Então você leu sobre mim — digo, dando um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós. — Investigou. Seguiu. Mas quer que eu acredite que não foi contratada?

Meus olhos descem brevemente pros lábios dela antes de voltar pro olhar desafiador.

— Você tá mentindo, Amber. E eu sou jornalista. Reconheço mentira a quilômetros de distância.

Faço uma pausa, cruzando os braços também, espelhando a postura dela.

— Mas tudo bem. Vamos tomar esse café. — Minha voz desce um tom, rouca. — E você vai me contar exatamente quem pagou pra você ficar no meu pé.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FLERTANDO COM ELA.

— Não estou.

— ESTÁ SIM. EU POSSO SENTIR. SEU CORAÇÃO TÁ ACELERADO E VOCÊ TÁ SUANDO.

— Eu não tô suando.

— TÁ SIM. E ELA PERCEBEU. OLHA COMO ELA SORRI.

Merda. Ele tem razão. Amber está sorrindo. Aquele sorriso de canto, como se soubesse algo que eu não sei.

— Então? — pergunto, tentando recuperar o controle. — Cafeteria da esquina. Agora. E nada de fugir quando eu virar as costas.

Dou um passo pra trás, mantendo os olhos nela, como se ela fosse fugir se eu piscar.

— ELA NÃO VAI FUGIR, EDDIE.

— Como você sabe?

— PORQUE ELA QUER VOCÊ TANTO QUANTO VOCÊ A QUER.

— Venom, para.

— ADMITA, EDDIE. VOCÊ QUER PROVAR AQUELA BOCA DELA. QUER SENTIR AQUELAS PERNAS ENROLADAS NO SEU—

— Venom!

Amber arqueia a sobrancelha de novo, como se tivesse ouvido meu grito interno.

 

** Amber **

 

Fico uns bons cinquenta segundos te encarando, quieta, observando cada mínima expressão do seu rosto enquanto você resmunga baixo, como se discutisse com alguém invisível. Sua testa franze, o maxilar tensiona, e por um instante parece que está tentando se convencer de alguma coisa que só você ouve.

Cruzo os braços, apoiando o peso em uma perna só, o olhar fixo em você.

— Está tudo bem com você, Eddie? — pergunto devagar, o tom carregado de desconfiança e uma pitada de ironia. — Porque, sinceramente... você parece estar tendo uma conversa com o ar.

Dou um passo à frente, o couro da calça rangendo levemente.

— Está tomando algum tarja preta depois de ter sido afastado do seu trabalho? — arqueio as sobrancelhas, provocando. — Ou isso é um novo tipo de método jornalístico que eu ainda não conheço?

Tombo a cabeça pro lado, te analisando como se tentasse decifrar um enigma. Meus olhos passeiam do seu rosto às suas mãos inquietas, depois voltam pro seu olhar.

— Você fala sozinho com frequência, ou eu tive o privilégio de presenciar algo inédito? — completo, o canto da boca curvando num meio sorriso divertido, curioso e perigoso ao mesmo tempo.

 

** Eddie **

 

Ela me olha como se eu fosse um maluco. E, porra, talvez eu seja mesmo.

— Tarja preta? — repito, forçando uma risada que sai mais nervosa do que gostaria. — Não, eu só... penso alto. Muito. Vem com o território de ser jornalista.

— EDDIE, ELA ESTÁ DESCONFIADA.

— Eu sei que ela tá desconfiada, Venom.

— VOCÊ PRECISA PARAR DE RESPONDER PRA MIM EM VOZ ALTA.

— Eu não tô respondendo em voz alta!

Amber cruza os braços, aquele meio sorriso ainda brincando nos lábios. O olhar dela percorre meu rosto como se estivesse lendo cada mentira, cada hesitação.

Merda.

— Sabe o que? — Dou um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós de novo. — Chega de joguinho. Você me segue há três semanas. Aparece nos mesmos lugares que eu. Sabe meu nome completo, leu sobre mim. E agora fica aí fazendo gracinha?

Inclino a cabeça, os olhos fixos nos dela.

— Quem te contratou, Amber? E não me venha com essa de “ninguém me contratou”. Eu reconheço vigilância quando vejo. Então desembucha. Fundação Vida? Governo? Algum rival querendo uma matéria suja sobre mim?

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ MUITO PERTO DELA.

— Eu sei.

— EU POSSO SENTIR O CALOR DELA. ELA CHEIRA AINDA MELHOR DE PERTO.

— Venom, foca!

Amber não recua. Nem um centímetro. Ela me encara de volta, aquele sorriso provocador ainda ali, mas algo mudou nos olhos dela. Menos diversão. Mais... cálculo.

— Então? — pressiono, a voz baixa. — Vai falar ou vou ter que descobrir por conta própria?

 

** Amber **

 

Começo a caminhar, já sabendo que você vai me seguir mesmo sem eu pedir. O som dos meus passos pelo asfalto úmido, misturado ao barulho distante dos carros e ao roçar do seu tênis atrás de mim.

— Mesmo que eu quisesse te dizer quem me contratou — começo, sem olhar pra trás, ouvindo seus passos hesitantes tentando manter o ritmo dos meus — eu não sei. O contratante é anônimo, sempre foi. Recebo depósitos semanais no caixa eletrônico, sem nome, sem origem, sem rastro.

Dou uma risada curta, seca.

— Acha mesmo que eu já não tentei descobrir quem é? E por que esse interesse todo em você? — viro levemente o rosto, só o suficiente pra te lançar um olhar de canto, carregado de sarcasmo.

Minha expressão muda pra algo entre o tédio e o desprezo, como se te achar patético demais fosse um elogio.

— Não querendo desdenhar nem nada, mas, sabe... — continuo, ajustando o zíper da jaqueta enquanto caminho até o café da esquina — duvido que tenha algo tão relevante assim em você. A menos que esteja escondendo algo que eu não saiba.

Empurro a porta do café com uma das mãos, o cheiro de café fresco me envolvendo. Viro o rosto pra te encarar de novo, os olhos semicerrados, esperando que você confesse de livre e bom grado o motivo disso tudo, ou pelo menos, minta bem o bastante pra me convencer.

 

** Eddie **

 

Ela começa a andar, e claro, eu sigo. Porque aparentemente minha vida virou isso: seguir uma stalker gata que me seguia.

A ironia não passa despercebida.

Ouço ela falar sobre contratante anônimo, depósitos sem rastro, e meu cérebro de jornalista já está processando. Alguém com recursos. Alguém que sabe cobrir rastros. Alguém que quer informação sobre mim sem deixar pegadas.

— EDDIE, ISSO CHEIRA MAL.

— Eu sei.

— NÃO O CAFÉ. A SITUAÇÃO. ALGUÉM ESTÁ INVESTIGANDO VOCÊ E NÓS NÃO SABEMOS QUEM.

— Eu sei, Venom!

Amber vira o rosto, me lança aquele olhar carregado de sarcasmo, e solta aquilo sobre eu não ser tão relevante assim. Sobre eu estar escondendo algo.

Eu paro.

No meio da calçada.

O coração dispara.

— EDDIE...

— Cala a boca.

Ela empurra a porta do café, o cheiro de café fresco escapando, e se vira pra me encarar. Esperando. Como se soubesse que acertou em algo.

E acertou.

Porra, ela acertou.

Dou dois passos largos, entrando no café atrás dela. A porta se fecha com um sino tilintando. Poucas pessoas dentro. Ótimo. Menos testemunhas.

Seguro o braço dela — não com força, mas firme o suficiente — e puxo pra um canto mais afastado, perto da janela dos fundos.

— Você quer saber se eu tô escondendo algo? — Minha voz sai baixa, rouca, perigosa. — Talvez eu esteja. Mas se o seu contratante já sabe disso, por que diabos ele te mandou me seguir por três semanas ao invés de só... aparecer?

Me aproximo mais. Olhos nos olhos dela.

— A menos que... — inclino a cabeça, estudando o rosto dela — ... ele não tenha certeza. Ele suspeita. Mas não tem provas.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FALANDO DEMAIS.

— Estou descobrindo o jogo dela, Venom.

— OU ELA ESTÁ DESCOBRINDO O NOSSO.

Merda. Ele tem razão.

Solto o braço dela. Recuo meio passo.

— Okay. Então vamos fazer assim. — Cruzo os braços. — Você me conta tudo que esse contratante misterioso te pediu pra descobrir. Cada detalhe. E eu decido se vou ou não te dar as respostas que ele quer.

Faço uma pausa.

— E dependendo do que você disser... — um meio sorriso aparece — ... talvez eu até te ajude a descobrir quem te contratou. Porque, acredite, Amber... — me aproximo de novo, a voz caindo pra um sussurro — ... eu sou muito bom em desenterrar segredos.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FLERTANDO DE NOVO.

— Não estou.

— ESTÁ. E ELA GOSTOU. OLHA COMO AS PUPILAS DELA DILATARAM.

Ignoro Venom. Mantenho o olhar firme em você.

— Então? — pergunto. — Qual é o briefing? O que ele quer saber sobre Eddie Brock.

 

** Amber **

 

Quando você solta meu braço e começa a balbuciar sozinho entre as frases que ainda tenta dirigir a mim, eu apenas suspiro e me sento em um dos bancos estofados ao lado.

— Você é realmente maluco — comento, apoiando o cotovelo na mesa enquanto ergo a mão pra chamar a garçonete, sem sequer disfarçar o tom divertido.

Cruzo as pernas devagar, te observando com aquele mesmo olhar que mistura ironia e curiosidade.

— Ele me disse, por telefone, que você esconde um segredo dos grandes — começo, arqueando uma sobrancelha com descrença. — Algo que interessa tanto ao governo quanto a uma empresa particular de biomedicina, ou algo do tipo.

Viro o rosto quando a atendente chega, sem pressa, como se falar de conspirações fosse o assunto mais banal do mundo.

— Um café expresso bem forte e um donut recheado, por favor. — Assim que ela se afasta, volto o olhar pra você.

— Ele fez parecer que a ideia era promissora. Que salvaria a humanidade, blá blá blá... — faço um gesto vago com a mão, zombando do tom messiânico que o contratante usou. — Mas não me deu mais informações do que isso. Quis que eu acreditasse que era por um “bem maior”.

Encosto de leve as costas no banco, te encarando por sobre a borda da xícara imaginária.

— E aí, Eddie? — provoco, um sorrisinho atravessado se formando nos lábios. — Que tipo de segredo um cara como você pode estar escondendo que valha tanto interesse assim?

 

** Eddie **

 

Ela me chama de maluco. De novo.

E o pior? Ela não está errada.

— EDDIE, ELA ESTÁ CERTA. VOCÊ PARECE MALUCO.

— Obrigado pela contribuição, Venom.

— DE NADA. MAS SÉRIO, VOCÊ PRECISA PARAR DE FALAR COMIGO QUANDO TEM GENTE POR PERTO.

— Estou tentando!

Amber pede café e donut como se estivéssemos num date casual, não discutindo conspirações governamentais e empresas biomédicas. E então ela solta aquilo — “algo que interessa tanto ao governo quanto a uma empresa particular de biomedicina”.

Meu estômago congela.

— EDDIE...

— Eu sei.

— ELA SABE.

— Ela não sabe. Ela suspeita.

— FUNDAÇÃO VIDA, EDDIE. TEM QUE SER A FUNDAÇÃO VIDA.

Puxo a cadeira à frente dela e me sento. Mais perto do que seria educado. Mãos sobre a mesa, dedos entrelaçados, olhos fixos nela.

— Biomedicina? — repito, a voz baixa. — Seu contratante usou essa palavra especificamente?

Não espero resposta. Continuo.

— E ele te disse que isso “salvaria a humanidade”? — Solto uma risada curta, sem humor. — Amber, você foi contratada por alguém que trabalha — ou trabalhou — pra Fundação Vida. Aposto minha carreira nisso.

Me recosto na cadeira, passando a mão pelo cabelo, tentando processar.

— EDDIE, SE FOR A FUNDAÇÃO VIDA, ELES SABEM SOBRE MIM.

— Não necessariamente. Talvez estejam só procurando provas.

— OU TALVEZ QUEIRAM ME PEGAR DE VOLTA.

— Ninguém vai te pegar, Venom.

Amber me observa com aquele olhar calculista. Ela percebeu que acertou algo. Percebeu que eu estou nervoso.

Respiro fundo. Decisão tomada.

— Okay. Vou te contar algo. — Me inclino pra frente de novo, a voz caindo pra um sussurro. — Mas se você sair daqui e ligar pro seu contratante misterioso...

Faço uma pausa. Olhos nos olhos dela.

— ... você vai se arrepender. Entendeu?

— EDDIE, NÃO.

— Ela já sabe demais, Venom. E se for a Fundação Vida mesmo, precisamos saber o que eles querem.

— OU PODEMOS COMÊ-LA E ACABAR COM O PROBLEMA.

— Não vamos comer ela!

Amber arqueia a sobrancelha.

— Desculpa? — ela pergunta, confusa.

Merda.

— Nada. Pensando alto de novo. — Balanço a cabeça. — Olha, Amber... o que eu vou te contar vai soar insano. Completamente insano. Mas você parece o tipo de pessoa que gosta de histórias insanas, então...

A garçonete chega com o pedido dela. Espero ela ir embora.

E então...

— Eu não estou sozinho. — As palavras saem devagar, pesadas. — Tem algo... alguém... dentro de mim. Um organismo extraterrestre. Simbiótico. E sim, antes que você pergunte, eu sei como isso soa. Mas é real.

— EDDIE, VOCÊ É UM IDIOTA.

— Ela ia descobrir de qualquer jeito, Venom.

Olho pra Amber, esperando a reação. Riso? Descrença? Medo?

— Seu contratante quer saber sobre isso. Sobre ele. — Continuo. — Porque a Fundação Vida meio que achou ele. E outros como ele. E eu... eu os expus. Destruí a empresa. Arruinei minha carreira no processo.

Me recosto, cruzando os braços.

— Então sim, Amber. Eu tô escondendo algo. Algo grande. Algo perigoso. — Um meio sorriso amargo aparece. — Satisfeita?

 

** Amber **

 

Ergo as sobrancelhas, te observando com uma expressão que mistura incredulidade e julgamento, como se estivesse diante de um lunático perigoso ou de alguém que precisa urgentemente de terapia.

— Ahm… ok então, Eddie — digo devagar, saboreando cada sílaba, o tom carregado de ironia e paciência forçada. — Esse “ser” dentro de você — faço aspas no ar, enfatizando cada gesto — entrou por onde, exatamente?

Dou um gole no café, o sabor amargo me ajudando a conter a risada que ameaça escapar.

— Porra, Brock… — murmuro, balançando a cabeça, o canto da boca se curvando num leve sorriso incrédulo. — Eu tô tentando te levar a sério, de verdade. Mas, cacete… como você quer que eu acredite numa merda dessas?

Deixo a xícara sobre o pires com um leve estalo, me inclinando pra frente, os olhos fixos nos seus.

— Você fala de um alien que vive dentro de você como se fosse a coisa mais normal do mundo — continuo, num tom entre o deboche e a curiosidade sincera. — Me diz, Eddie… isso é algum tipo de metáfora pra solidão ou você realmente acredita nessa loucura toda?

 

** Eddie **

 

Ela me olha como se eu fosse um paciente psiquiátrico que escapou do hospital.

E honestamente? Eu entendo.

— EDDIE, ELA ACHA QUE VOCÊ É LOUCO.

— Eu sei que ela acha que eu sou louco, Venom.

— MOSTRE PRA ELA. MOSTRE QUE EU SOU REAL.

— Não vou mostrar no meio de um café!

— POR QUE NÃO? SERIA DRAMÁTICO. ROMÂNTICO ATÉ.

— Não tem nada de romântico em você saindo do meu corpo na frente dela!

Amber continua me encarando, esperando resposta. O sorriso debochado. O café na mão. As perguntas sarcásticas sobre “metáfora pra solidão”.

Respiro fundo.

— Entrou pelo nariz. — Respondo, irônico. Sem rodeios. — Na Malásia. Eu estava investigando a Fundação Vida. Testes ilegais em humanos. Fui até o laboratório deles. E ele... Venom... estava lá. Preso. Morrendo de fome.

Passo a mão pelo rosto, cansado só de lembrar.

— Ele entrou em mim pra sobreviver. Simbiose. Ele precisa de um hospedeiro. Eu sou o hospedeiro. E em troca... — faço uma pausa — ... ele me dá força. Velocidade. Regeneração. E uma voz irritante na minha cabeça 24 horas por dia comentando tudo.

— EU NÃO SOU IRRITANTE.

— Você é irritante.

Amber arqueia a sobrancelha de novo. Ainda não convencida.

Me inclino pra frente, baixando a voz.

— Você quer prova? — pergunto, sério. — Eu posso te dar prova. Mas não aqui. Tem gente demais. E eu não quero assustar metade da cafeteria.

— EDDIE, VOCÊ VAI MESMO MOSTRAR PRA ELA?

— Se for a única forma dela acreditar... sim.

— EU GOSTO DISSO. ELA VAI GOSTAR DE MIM. EU SEI QUE VAI.

— Venom, foca.

Olho nos olhos dela. Verde. Afiado. Desafiador.

— Então? — pergunto. — Você quer ver? Quer saber se eu tô falando sério ou se eu realmente sou só um maluco?

Pauso.

— Porque se você for comigo agora... pro meu apartamento... eu te mostro. Mas depois disso, Amber... — minha voz fica mais grave — ... você não vai poder desver. Não vai poder fingir que não sabe. E seu contratante misterioso? Ele vai saber que você descobriu.

Me recosto, cruzando os braços.

— Ainda quer continuar essa investigação?

 

** Amber **

 

— Céus, Eddie… — murmuro num tom baixo, quase cúmplice, um sorriso insinuando nos lábios. — Se queria tanto me convidar pro seu apartamento, não precisava inventar toda essa baboseira mística de simbiose alienígena dentro do seu nariz.

Termino o café numa única golada e deixo o donut pela metade sobre a mesa, limpando a boca com o guardanapo. Ajeito o cabelo com aquele charme distraído de quem acredita que acabou de ser cantada da forma mais estranha possível.

— Sabe, eu sou uma mulher moderna — continuo, o olhar preso no seu. — Acho super ok transar no primeiro encontro.

Apoio os cotovelos e antebraços na mesa, inclinando o corpo pra frente, a voz descendo uma oitava.

— E você é bem gatinho, Brock. Não precisava desse rodeio todo. — Um sorriso lento se forma nos meus lábios enquanto te encaro, o ar entre nós ficando mais denso. — Eu deixo minha moto onde está e podemos ir pra lá agora, se quiser.

 

** Eddie **

 

Eu pisco.

Duas vezes.

Processando o que ela acabou de dizer.

— EDDIE... ELA ACHA QUE VOCÊ ESTÁ TENTANDO TRANSAR COM ELA.

— Eu... eu sei que ela acha isso, Venom.

— E VOCÊ ESTÁ?

— NÃO! Eu tô tentando mostrar que você existe!

— MAS VOCÊ QUER TRANSAR COM ELA.

— Venom, cala a boca!

Amber me olha com aquele sorriso insinuante, o corpo inclinado pra frente, a voz baixa e rouca. “Gatinho.” Ela me chamou de gatinho. E ofereceu... ofereceu ir pro meu apartamento. Agora.

Porra.

— EDDIE, DIGA SIM.

— Não é sobre isso!

— MAS PODERIA SER. DEPOIS QUE ELA ME VER, ELA VAI FICAR IMPRESSIONADA. E AÍ VOCÊS PODEM...

— Venom!

Passo a mão pelo rosto, tentando reorganizar os pensamentos. Respiro fundo.

— Amber. — Minha voz sai mais controlada agora, firme. — Não é... não é isso. Eu não tô tentando te levar pro meu apartamento pra transar.

Faço uma pausa.

— Embora... — um meio sorriso escapa — ... você seja realmente gata pra caralho e essa oferta seja... tentadora.

— EDDIE, FOCO.

— Eu sei, Venom!

Balanço a cabeça, voltando ao ponto.

— Mas sério. Não é sobre isso. — Me inclino pra frente também, nossos rostos mais próximos agora. — Eu vou te mostrar algo real. Algo que vai mudar completamente o que você acha sobre mim, sobre essa investigação, sobre tudo.

Meus olhos fixos nos dela.

— E quando você ver... — minha voz desce um tom — ... você vai entender por que alguém me segue. Por que alguém quer informação sobre mim. E por que isso é perigoso pra caralho.

Me levanto. Estendo a mão pra ela.

— Então vem. Deixa a moto onde tá. Vamos pro meu apartamento. — Um sorriso torto aparece. — Mas não pelo motivo que você tá pensando. Pelo menos... não ainda.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FLERTANDO DE NOVO.

— Talvez eu esteja.

— BOM. CONTINUE. ELA GOSTA.

Mantenho a mão estendida, esperando.

— Confia em mim, Amber. Só dessa vez.

 

** Amber **

 

Quando você diz “E quando você ver…”, eu mordo o lábio inferior, ainda entendendo tudo completamente errado, a mente já indo pra um caminho bem diferente do seu.

— Ahhh… acho que agora eu tô entendendo, Brock — digo, a voz carregada de malícia, o sorriso se abrindo devagar.

Quando seguro sua mão pra te acompanhar até o apartamento, sinto seus ombros relaxarem por um instante, como se acreditasse que eu finalmente entendi o que você quis dizer.

— É tipo um joguinho sexual, né? Um teatrinho? — continuo, empolgada, tentando decifrar o que imagino ser o “personagem” dele. — Ahh, eu saquei. Adoro esses jogos.

Você caminha ao meu lado com uma expressão de puro inconformismo, os passos duros, a respiração pesada, enquanto eu tento acompanhar o ritmo.

— Certo, então… — falo, rindo baixinho, apertando sua mão. — Você é o alien simbionte e eu vou ser, sei lá… uma agente secreta? Ou uma cientista tentando te capturar? — arqueio a sobrancelha, divertida, me inclinando um pouco pra te provocar. — Pode confessar, Brock… essa é a parte em que você me amarra, né?

 

** Eddie **

 

Eu paro. No meio da calçada.

Solto a mão dela.

Viro pra encará-la, completamente incrédulo.

— EDDIE, ELA ACHA QUE VOCÊ TEM UM FETICHE DE ROLEPLAY.

— Eu sei que ela acha isso, Venom!

— BOM, VOCÊ TEM QUE ADMITIR... SERIA DIVERTIDO.

— Não ajuda!

Amber me olha com aquele sorriso empolgado, falando sobre “joguinho sexual” e “teatrinho”, e eu sinto minha paciência evaporando.

— Amber. — Minha voz sai grave, firme. — Não. É. Um. Jogo.

Dou um passo mais perto, os olhos fixos nos dela.

— Não tem roleplay. Não tem teatrinho. Não tem fantasia. — Faço uma pausa. — Tem um organismo extraterrestre real vivendo dentro de mim. E quando eu digo que vou te mostrar, eu tô falando literalmente.

— EDDIE, ELA NÃO ACREDITA EM VOCÊ.

— Eu percebi, Venom.

Passo a mão pelo cabelo, frustrado.

— Okay. Sabe de uma coisa? — Cruzo os braços. — Venom, você quer mostrar pra ela agora ou espera chegarmos no apartamento?

Silêncio.

E então... sinto ele se movendo.

— AGORA.

— Venom, não—

Tarde demais.

Minha mão direita começa a escurecer. A pele dando lugar a uma massa negra, brilhante, que se espalha pelos dedos, pelo pulso, subindo pelo braço como tinta viva.

— EDDIE, VOCÊ DEVIA TER DEIXADO EU FAZER ISSO ANTES.

A massa negra forma garras. Afiadas. Longas. Se movendo como se tivesse vida própria.

Porque tem.

Olho pra Amber. Pro rosto dela. Esperando a reação. Medo? Choque? Desmaio?

— Ainda acha que é um joguinho? — pergunto, a voz saindo mais rouca, porque Venom está parcialmente manifesto agora.

A massa negra sobe mais, cobrindo metade do meu peito, do meu pescoço. E então... Uma cabeça começa a se formar ao lado da minha. Preta. Enorme. Olhos brancos. Dentes afiados.

Muitos dentes.

— OLÁ, AMBER. — A voz de Venom ecoa grave, gutural, real. — EU SOU VENOM. E NÓS... — a língua longa e negra desliza entre os dentes — ... ESTAMOS MUITO FELIZES EM FINALMENTE CONHECÊ-LA.

A cabeça dele se vira pra mim.

— ELA É AINDA MAIS BONITA DE PERTO, EDDIE.

Ignoro. Olho pra Amber.

Esperando.

— Então? — pergunto, meio homem, meio alien. — Ainda quer ir pro apartamento?

 

** Amber **

 

Fico completamente imóvel, o corpo travado, a respiração presa na garganta. Meus olhos acompanham aquele piche negro escorrendo pelo seu braço, se movendo como se tivesse vontade própria, vivo, pulsante, grotesco e hipnótico ao mesmo tempo.

— Eu tô... — a frase morre antes de existir, engolida pelo pânico que começa a me subir pela espinha.

A substância se expande, ganha forma, textura, e então… uma cabeça — se é que posso chamar de cabeça — brota ao seu lado, deformada, monstruosa, com dentes longos, afiados, e uma língua enorme chicoteando o ar com um estalo úmido.

O som faz o mundo girar. O coração despenca dentro do meu peito como se tivesse caído de um penhasco.

E quando aquilo fala...

— Céus… — é tudo que consigo sussurrar antes do chão me engolir e a escuridão tomar conta, levando junto qualquer resquício de sanidade que eu ainda tivesse.

 

** Eddie **

 

Ela desmaia. Claro que ela desmaia.

— EDDIE, ELA DESMAIOU.

— Eu vi, Venom!

— POR QUÊ ELA DESMAIOU?

— Porque você é assustador!

— EU NÃO SOU ASSUSTADOR. EU SOU LINDO.

— Você tem dentes demais!

Amber cai pra frente. Instintivamente, Venom retrai as garras e eu a pego antes dela bater no chão. O corpo dela mole nos meus braços, a cabeça caindo no meu ombro.

— Porra... — murmuro, ajustando-a melhor. — Venom, recolhe. Agora.

— MAS EU QUERIA CONVERSAR MAIS COM ELA.

— Ela tá desmaiada, Venom. Não dá pra conversar com alguém desmaiado!

— TECNICAMENTE...

— Recolhe!

A massa negra recua. Desce pelo meu pescoço, peito, braço, até sumir completamente de volta pra dentro de mim. Volto ao normal. Só Eddie Brock segurando uma mulher inconsciente no meio da calçada.

Ótimo. Perfeito. Exatamente o que eu precisava.

Olho ao redor. Algumas pessoas olhando. Merda.

— Ela tá bem! — grito pra ninguém em específico. — Só... calor! Desidratação! Tudo sob controle!

— EDDIE, VOCÊ É PÉSSIMO MENTINDO.

— Cala a boca e me ajuda a pensar.

Ajusto Amber nos braços. Ela é leve. Mais leve do que pensei. O cabelo vermelho cai sobre o rosto dela, e por um segundo... porra, ela é mesmo bonita.

— EDDIE, LEVA ELA PRO APARTAMENTO.

— Obviamente, Venom. Não vou deixar ela no meio da rua.

— E QUANDO ELA ACORDAR...

— Quando ela acordar, ela provavelmente vai gritar e tentar me matar.

— OU ELA VAI ACHAR SEXY.

— Ninguém acha você sexy, Venom.

— VOCÊ NÃO SABE DISSO.

Balanço a cabeça, começando a caminhar de volta pro meu prédio. Amber ainda desacordada nos meus braços.

Rua íngreme. Escada. Apartamento.

Fácil.

Exceto pela parte em que todo mundo me olha como se eu tivesse sequestrado alguém.

— TECNICAMENTE, VOCÊ SEQUESTROU.

— Eu não sequestrei! Ela desmaiou!

— DEPOIS QUE VOCÊ MOSTROU SEU VERDADEIRO EU.

Nosso verdadeiro eu, Venom. Você tá dentro de MIM, lembra?

Chego no prédio. Subo as escadas. Abro a porta do apartamento com dificuldade, segurando Amber com um braço só.

Coloco ela no sofá. Com cuidado. Pego uma almofada, coloco debaixo da cabeça dela. Pego uma manta, cubro as pernas.

E então... espero.

Sentado na mesinha de centro. Olhando ela. Esperando acordar.

— O QUE VOCÊ VAI DIZER QUANDO ELA ACORDAR?

— Não sei, Venom. “Oi, desculpa por te dar um ataque cardíaco com meu alien simbiótico”?

— ISSO NÃO VAI FUNCIONAR.

— Você tem alguma ideia melhor?

Silêncio.

— NÃO.

Suspiro. Passo a mão pelo rosto.

Amber se mexe. Um gemido baixo. Os olhos começam a se abrir, lentos, confusos.

E quando ela me vê...

— Ei. — Levanto as mãos, gesto de paz. — Calma. Você desmaiou. Tá no meu apartamento. Tá segura. Eu prometo. Nós... — corrijo — ... prometemos.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO PIOR.

— Você que faz isso pior, Venom!

Amber pisca. Processando. Lembrando.

E então...

Merda. Lá vem.

 

** Amber **

 

Acordo no seu sofá com a cabeça latejando e a visão turva. Por alguns segundos, tudo parece um borrão. O teto, a luz quente da sala, o som abafado da sua voz. Então percebo: você está sentado ali, me encarando… falando sozinho. Ou melhor, não tão sozinho assim.

Me sento devagar, o coração já acelerando, tentando entender se isso ainda é um pesadelo ou se eu pirei de vez. Mas quando ouço a segunda voz — grave, distorcida, impossível — vindo do nada, a ficha cai. Rápido demais.

— Puta merda! — o grito sai alto, desesperado, enquanto pego a primeira coisa ao alcance e arremesso em você.

A almofada. Depois o cobertor. O controle remoto. Qualquer coisa que minhas mãos encontrem.

— Se isso é algum tipo de sequestro espacial, eu juro por Deus, Brock! — berro, ofegante, apontando o dedo pra você. — Esse… esse negócio aí! — a voz falha, os olhos arregalados. — A saliva dele é corrosiva? Ela vai entrar em mim e explodir meu peito pra sair, é isso?!

Subo no sofá num pulo, em posição de ataque completamente ridícula, mas determinada, como se realmente soubesse lutar krav maga.

— Eu juro que vou morrer lutando! — aviso, tremendo da cabeça aos pés, mas com o orgulho intacto. — Então se essa coisa quiser me comer, vai ter que enfrentar uma mulher puta da vida antes!

 

** Eddie **

 

Levo uma almofada no rosto. Depois um cobertor. Depois o controle remoto — que dói pra caralho, aliás.

— AI! Amber, para! — levanto os braços, tentando me proteger da chuva de objetos. — Eu não tô te sequestrando!

— EDDIE, ELA ESTÁ COM MEDO.

— Obviamente ela tá com medo, Venom! Você é aterrorizante!

— EU NÃO SOU—

— VOCÊ É!

Amber sobe no sofá, em posição de luta, tremendo, mas determinada, gritando sobre saliva corrosiva e explosão de peito, e eu...

Eu não consigo evitar.

Eu rio.

— EDDIE, ISSO NÃO É HORA DE RIR.

— Eu sei, mas... — aponto pra ela — ... ela acha que é o Alien do Ridley Scott!

— O QUE?

— Esquece.

Me levanto devagar. Mãos erguidas. Gesto de paz.

— Amber. Respira. — Minha voz sai calma, controlada. — Primeiro: não, a saliva dele não é corrosiva. Segundo: ele não vai sair do meu peito tipo chestburster. Terceiro: ninguém aqui quer te comer.

— BEM...

— Venom!

— EU ESTAVA BRINCANDO.

— Não é hora!

Dou um passo cauteloso em direção a ela.

— Olha, eu entendo. Você acabou de ver algo... impossível. Assustador. Mas eu avisei. Eu te disse que era real. Que tinha um organismo extraterrestre dentro de mim.

Faço uma pausa.

— E sim, ele parece um monstro saído de um pesadelo. Mas ele não é... — procuro as palavras certas — ... tão perigoso. Pelo menos não pra você.

— EDDIE, ISSO FOI OFENSIVO.

— Você comeu três bandidos semana passada!

— ELES ERAM BANDIDOS. ELA NÃO É.

Balanço a cabeça, voltando pra Amber.

— Venom. O nome dele é Venom. E sim, ele é real. E sim, ele vive dentro de mim. Mas não é como nos filmes, okay? Não tem possessão demoníaca. Não tem explosão de órgãos. É... — procuro a palavra — ... simbiose. Parceria. Meio fodida, mas funciona.

Me aproximo mais. Devagar.

— E ele não vai te machucar. Eu não vou deixar. — Minha voz fica mais firme. — Prometo.

— ELA AINDA ESTÁ EM POSIÇÃO DE ATAQUE, EDDIE.

— Eu vejo isso, Venom.

Olho nos olhos dela. Arregalados. Assustados, mas desafiadores.

— Então? — pergunto suavemente. — Você vai descer daí e a gente conversa como adultos? Ou você prefere continuar jogando coisas em mim?

Faço uma pausa.

— Porque eu entendo se você quiser continuar jogando coisas. Só... nada de vidro, por favor.

 

** Amber **

 

Olho pro vaso que ainda está firme na minha mão, como se fosse uma arma, enquanto você tenta me explicar — com a calma de um professor resignado — o que diabos é esse tal de Venom.

No começo, tudo parece ainda mais absurdo. Mas então ouço a voz dele, grossa e debochada, soltar uma piada completamente fora de hora sobre me comer, e por um segundo, lá no fundo, sinto uma vontade estúpida de rir. Um riso nervoso, histérico, que quase escapa, mas eu seguro.

— Eu juro por Deus, Brock… — digo, arfando, tentando não perder o controle — se você ou isso tentarem qualquer coisa, se essa coisa preta grudar na minha cara… — aponto o vaso, a mão tremendo — olha, eu não respondo por mim.

Ficamos em silêncio por um instante, o som do meu coração batendo alto no peito. Aos poucos, abaixo o vaso, colocando-o de volta no lugar, ainda de olho em você como quem tenta decidir se foge ou escuta mais um pouco.

Desço do sofá devagar, os músculos rígidos, e me sento na ponta mais distante dele, as mãos ainda inquietas.

— Ok… ok — respiro fundo, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Então você vive com isso. Com ele. — aponto pro nada, como se o Venom pudesse me ver. — E alguém lá fora meio que descobriu, ou pelo menos desconfia disso, certo?

Coço a cabeça, mesmo sem coceira, tentando juntar as peças de um quebra-cabeça que não faz sentido algum.

— Tá… — sussurro, mais pra mim mesma. — Isso é… surreal.

Passo as mãos pelo rosto, esfrego os olhos, tentando clarear os pensamentos, e então suspiro alto, resignada.

— E o que a gente vai fazer a respeito disso, hein? — pergunto por fim, o olhar fixo em você. — Porque, aparentemente, eu tô no meio dessa enrascada agora também… e eu odeio quando o roteiro me coloca de refém do protagonista maluco.

 

**Eddie**

 

Ela desce do sofá. Finalmente.

E senta. Longe, mas senta.

Progresso.

— EDDIE, ELA ESTÁ PROCESSANDO.

— Eu vejo isso, Venom.

— ELA NÃO GRITOU MAIS. ISSO É BOM.

— Sim, isso é bom.

Amber passa as mãos pelo rosto, esfrega os olhos, e então me olha. Realmente me olha. Não com medo puro. Mas com... confusão. Tentando entender.

E aí a pergunta: “O que a gente vai fazer a respeito disso?”

Suspiro. Me sento na poltrona em frente a ela. Cotovelos nos joelhos. Mãos entrelaçadas.

— Bom... — começo, escolhendo as palavras com cuidado — ... primeiro, a gente precisa descobrir quem te contratou. Porque se é quem eu acho que é — a Fundação Vida, ou o que sobrou dela — então eles não querem só informação. Eles querem Venom de volta.

— NINGUÉM VAI ME LEVAR DE VOLTA, EDDIE.

— Eu sei, Venom. Ninguém vai te levar.

Olho pra Amber.

— E sim, você tá no meio disso agora. Desculpa. Sério. Mas você veio atrás de mim. Você aceitou o trabalho. — Faço uma pausa. — Então agora... a gente trabalha junto.

Me recosto na poltrona.

— Você me ajuda a descobrir quem te contratou. Eu te ajudo a não morrer quando eles descobrirem que você sabe demais. — Um meio sorriso aparece. — Parceria?

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ RECRUTANDO ELA?

— Estou improvisando, Venom.

— EU GOSTO. ELA FICA PERTO DE NÓS ASSIM.

Ignoro. Mantenho o olhar em Amber.

— Olha, eu sei que isso é... muito. Alien. Conspiração. Perigo. Mas você parece o tipo de pessoa que não desiste fácil. — Inclino a cabeça. — Então? Topa?

Faço uma pausa.

— E só pra deixar claro... — acrescento, sério — ... Venom não vai grudar na sua cara. Nem em lugar nenhum seu. A menos que você queira. Mas sinceramente? Não recomendo. É... estranho.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FAZENDO PARECER QUE EU SOU NOJENTO.

— Você é meio nojento, Venom.

— VOCÊ ME MACHUCA, EDDIE.

Balanço a cabeça, voltando pra Amber.

— Então? — estendo a mão. — Parceiros?

 

** Amber **

 

Eu pisco os olhos devagar, muito devagar, tentando forçar minha mente a processar tudo o que acabou de acontecer, ou o que eu acho que aconteceu. A sala parece girar, o ar pesa, e por um momento tenho a sensação de que nada disso é real.

Afundo o corpo no sofá, as costas arqueadas pra frente, os cotovelos firmes sobre os joelhos. Enfio os dedos nos cabelos, apertando a cabeça como se fosse possível arrancar de dentro dela, a confusão, o medo, o absurdo de tudo.

— E eu achando que você só queria me chamar aqui pra transar… — deixo escapar, sem filtro, num tom de frustração e riso nervoso. — Que idiota.

Quando percebo o que acabei de dizer, ergo a vista pra você. Ou pra vocês. Sei lá. Venom em silêncio, você também.

E eu ali, completamente fora de mim, querendo apenas evaporar e fingir que nunca vi nada disso.

— Puta merda, Brock — suspiro, passando a mão pelo rosto. — Se eu soubesse que esse trabalho ia me enfiar nesse tipo de merda, eu tinha recusado.

Respiro fundo, me estico no sofá, os músculos duros de tensão. Fecho os olhos por um instante e solto o ar com força.

— Tá beleza, então. Parceiros, é isso? — pergunto, sem esconder o cansaço e a descrença. — Mas se é pra lidar com alienígena simbionte, governo e corporação secreta, eu preciso de reforços.

Levanto um dedo, séria.

— E por reforços eu quero dizer bebida. Muita bebida. E uma pizza. — Inclino a cabeça pra você, exausta, mas firme. — Não trabalho bem de estômago vazio… e muito menos sóbria.

 

**Eddie**

 

Ela diz aquilo sobre transar, e eu... Eu congelo.

— EDDIE, ELA QUERIA TRANSAR COM VOCÊ.

— Eu ouvi, Venom.

— E VOCÊ ESTRAGOU TUDO MOSTRANDO EU.

— Não era sobre isso!

— MAS PODERIA TER SIDO.

Amber passa a mão pelo rosto, claramente arrependida de ter falado aquilo em voz alta. E honestamente? Eu entendo. Porque agora o clima ficou... estranho. Mais estranho do que já estava.

Mas então ela pede bebida e pizza, e eu solto o ar que nem percebi que estava segurando.

— Bebida e pizza. — Repito, um sorriso aparecendo. — Isso eu posso fazer.

Me levanto, caminhando até a cozinha. Abro a geladeira. Tem cerveja. Várias. Pego duas, volto, jogo uma pra ela.

— Whisky também, se preferir. — Aponto pro armário. — Mas aviso: é barato. Jornalista desempregado não tem grana pra Johnnie Walker.

Pego meu celular. Abro o app de delivery.

— Pizza de quê? — pergunto, olhando pra ela. — E não me diz abacaxi, porque aí eu vou ter que te expulsar daqui.

— EDDIE, ABACAXI É BOM.

— Venom, você come cabeças. Sua opinião sobre pizza não conta.

— INJUSTO.

Amber abre a cerveja. Bebe. E eu a vejo relaxar. Só um pouco. O suficiente pra não parecer que vai ter um ataque de pânico a qualquer momento.

Me sento de novo. Cerveja na mão.

— Olha... — começo, mais sério agora — ... eu sei que isso é muita informação. Alien. Conspiração. Perigo mortal. Mas você tá lidando bem. Melhor do que a maioria.

Faço uma pausa.

— A Anne... minha ex... ela levou semanas pra processar. E mesmo assim, nunca aceitou de verdade. — Bebo um gole. — Mas você? Você desmaiou, acordou, jogou coisas em mim, e agora tá pedindo pizza. Isso é... impressionante.

— EDDIE ESTÁ ELOGIANDO ELA.

— Estou constatando fatos, Venom.

Olho pra Amber.

— E sobre o que você disse antes... — hesito — ... sobre transar...

— EDDIE, NÃO.

— Só deixa eu falar, Venom.

Respiro fundo.

— Não é que eu não quisesse. Porque... porra, você é gata. Muito gata. E se as circunstâncias fossem outras... — balanço a cabeça — ... mas agora? Agora a gente tem que focar. Descobrir quem te contratou. Te manter viva.

Faço uma pausa.

— Mas depois... — um meio sorriso aparece — ... quem sabe?

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FLERTANDO DE NOVO.

— Talvez eu esteja.

— BOM. ELA GOSTOU. OLHA COMO ELA SORRI.

Ignoro Venom. Mostro o celular pra Amber.

— Então? Pizza de quê?

 

** Amber **

 

Dou um gole tão longo na cerveja que sinto o líquido descer queimando até o estômago, e lá se vai mais da metade da garrafa de uma vez só.

— Ahh, Brock… nem tenta consertar — digo com a voz arrastada, já meio entorpecida pelo caos mental. — Eu só consigo imaginar agora… a gente transando e o Venom ali, assistindo tudo. Céus. Que agonia dá isso.

Dou mais um gole, o pescoço da garrafa encostando nos lábios como se fosse um respiro. A cerveja já quase acaba junto com a minha paciência e o resto da minha sanidade.

— E por Deus, para de falar de ex. — balanço a cabeça, o olhar pesado. — Que coisa mais broxante.

Me inclino pra frente e encaro seu celular como se ele tivesse culpa de tudo, revirando os olhos.

— Pizza de pepperoni. Apimentada. — aponto com o queixo, o tom decidido.

Arqueio uma sobrancelha e viro levemente o rosto pra você, falando com o vazio.

— Tudo bem pra você, Venom?

O silêncio que se segue me faz cair na real do que acabei de fazer. Estou literalmente pedindo a opinião de um simbionte sobre pizza. Meus olhos se reviram tanto que quase vejo a nuca por dentro.

— Tá. Sem sexo, pizza picante e… porra — murmuro, levantando já sem paciência — eu vou pegar outra cerveja.

Abro a geladeira e pego logo duas, ambas pra mim, sem cerimônia. Volto pro sofá e me jogo nele como se fosse dona do lugar, as pernas esticadas, o corpo afundando nas almofadas.

— Se o mundo vai acabar, que acabe com pizza, álcool e eu completamente sem entender mais nada — concluo, abrindo a nova garrafa com um estalo.

 

**Eddie**

 

Ela bebe metade da cerveja de uma vez. Impressionante.

E então solta aquilo sobre eu e ela transando, com Venom assistindo, e...

— OH, EU GOSTARIA DE ASSISTIR.

— Venom!

— O QUÊ? SERIA EDUCATIVO.

— Não seria educativo!

— EU NUNCA VI EDDIE TRANSANDO. TENHO CURIOSIDADE.

— Venom, EU JURO—

Amber continua falando, pedindo pepperoni apimentada, e então... ela pergunta se tá tudo bem pro Venom.

Silêncio.

Completo.

E então...

— ELA FALOU COMIGO! EDDIE, ELA FALOU COMIGO DIRETAMENTE!

A empolgação na voz dele é quase... fofa. Se um alien carnívoro pudesse ser fofo.

— PEPPERONI APIMENTADA ESTÁ ÓTIMO, AMBER. OBRIGADO POR PERGUNTAR. NINGUÉM NUNCA PERGUNTA MINHA OPINIÃO SOBRE COMIDA.

— Porque você come pessoas, Venom.

— MAS EU TAMBÉM GOSTO DE PIZZA.

Balanço a cabeça, pedindo a pizza no app enquanto Amber vai buscar mais cerveja. Duas. Pra ela.

Ela volta e se joga no sofá como se morasse aqui, e honestamente? Eu gosto disso. Da forma como ela simplesmente... aceitou. Do jeito torto dela, mas aceitou.

— O mundo não vai acabar. — Digo, colocando o celular de lado. — Pelo menos não hoje. Amanhã... talvez. Mas hoje? Hoje a gente come pizza e bebe.

Pego minha cerveja. Bebo.

— E sobre o Venom assistindo... — não resisto — ... tecnicamente ele tá sempre comigo. Então sim, ele veria. Mas prometo que peço pra ele comentar o mínimo possível.

— EU NÃO PROMETO ISSO.

— Venom...

— BRINCADEIRA. EU SERIA DISCRETO. TALVEZ.

Olho pra Amber. O cabelo vermelho bagunçado. Bochechas levemente coradas pela cerveja. Corpo relaxado no meu sofá.

Porra, ela é mesmo linda.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ OLHANDO PRA ELA.

— Eu sei.

— ESTÁ PENSANDO COISAS.

— Talvez.

— COISAS INADEQUADAS?

— Venom, cala a boca.

Me viro pra Amber.

— Então... — começo, tentando voltar ao assunto sério — ... amanhã a gente começa a investigar. Você me passa tudo que tem sobre esse contratante. Gravações de ligação, números, horários dos depósitos. Tudo. E eu uso meus contatos pra rastrear.

Bebo mais um gole.

— Mas hoje? Hoje a gente só... existe. Sem alien. Sem conspiração. Só pizza e cerveja. — Faço uma pausa. — Combinado?

Estendo a garrafa pra ela. Brinde improvisado.

— Aos parceiros mais bizarros de San Francisco.

 

** Amber **

 

Horas se passaram desde que me entupi de pizza e praticamente declarei guerra à sua geladeira de cervejas. A última coisa que lembro é o gosto de pepperoni e lúpulo misturados, e o som distante da sua voz reclamando de alguma coisa que eu provavelmente ignorei. Depois disso, apagão.

Quando abro os olhos, já é manhã. A luz invade a sala pelas frestas da cortina, e a dor de cabeça pulsa num ritmo próprio, como se um tambor invisível batesse dentro do meu crânio.

Você está roncando no quarto, e o som é tão alto que chego a considerar procurar tampões de ouvido. Decido levantar devagar, tentando não tropeçar nas garrafas vazias que transformaram sua sala num campo minado de vidro.

Caminho pelo apartamento ainda de botas, os saltos ecoando no chão, e sigo direto pro banheiro.

Abro o chuveiro, me dispo, deixo a água quente cair sobre mim, e o primeiro suspiro sai quase como um gemido de alívio.

— Céus… shampoo de marca duvidosa é de lascar — murmuro, analisando a prateleira do box repleta de produtos genéricos, com nomes que parecem mais fórmulas químicas do que cosméticos. — Sério, Brock… você vive com um alien e ainda confia num shampoo que diz “for men & car engines”?

Dou uma risada baixa e começo a cantarolar uma música do Kiss, a voz rouca e preguiçosa se misturando ao barulho da água. Aos poucos, a ressaca vai embora, e o corpo relaxa, como se cada gota quente levasse com ela um pouco da loucura da noite anterior.

 

**Eddie**

 

Acordo com o barulho da água. Chuveiro ligado. Piscar lento. Confuso.

— EDDIE, A MULHER ESTÁ NO SEU CHUVEIRO.

— Eu... eu tô ouvindo, Venom.

— NUA.

— Obviamente ela tá nua, Venom. As pessoas ficam nuas no chuveiro.

— VOCÊ DEVERIA IR LÁ.

— Não vou invadir o banheiro enquanto ela toma banho!

— POR QUE NÃO? ELA ESTÁ NA SUA CASA. NO SEU CHUVEIRO. USANDO SEU SHAMPOO RUIM.

— Exatamente. É meu chuveiro. Posso esperar ela terminar.

Me viro na cama, puxo o travesseiro sobre a cabeça, tentando voltar a dormir.

Mas ouço. A voz dela. Cantarolando. Rouca. Sexy.

— EDDIE, ELA ESTÁ CANTANDO.

— Eu sei que ela tá cantando.

— VOCÊ QUER ELA.

— Venom...

— VOCÊ QUER IR ATÉ LÁ. ABRIR A PORTA DO BOX. E—

— Venom, para!

Mas ele tem razão. Porra, ele tem razão.

Eu quero.

Quero desde ontem. Desde que ela apareceu na minha frente com aquela Harley, aquele couro, aquele olhar desafiador.

— VAI LÁ, EDDIE.

— Não posso. É invasivo. É—

— ELA QUER VOCÊ TAMBÉM. EU SENTI ONTEM. O CHEIRO DELA MUDOU QUANDO VOCÊ FALOU SOBRE TRANSAR.

— Isso não significa que—

— EDDIE, VOCÊ É PATÉTICO. EU VOU TER QUE FAZER ISSO POR VOCÊ.

— Venom, não—

Tarde demais.

Sinto a massa negra se movendo. Não cobrindo meu corpo. Só... empurrando. Literalmente empurrando minhas pernas pra fora da cama.

— Venom!

— ANDA LOGO, EDDIE. ELA VAI SAIR DO BANHO E VOCÊ VAI PERDER A CHANCE.

— Isso é errado!

— É ROMÂNTICO.

— Não é romântico invadir o banheiro!

Mas meus pés já estão andando. Venom me empurrando pelo corredor. Até a porta do banheiro.

— ABRE.

— Não vou abrir.

— ABRE OU EU ABRO.

— Venom, eu juro—

A maçaneta gira sozinha. A massa negra se estendendo, abrindo a porta. Vapor escapando. Água correndo. A silhueta dela atrás do vidro embaçado.

— EDDIE, VAI.

Respiro fundo. E entro.

O som da água mascarou meus passos. Ela ainda está cantarolando, de costas, a água escorrendo pelo corpo, pelos cabelos vermelhos, pelas curvas que eu só imaginei até agora.

Paro na frente do box. E abro.

Amber se vira. Os olhos arregalando. A boca abrindo pra gritar.

— Eddie, que PORRA!

Ela pega o vidro de shampoo — aquele “for men & car engines” — e arremessa na minha cara. Desvio. Por pouco.

— Amber, eu—

— Sai daqui seu tarado!

— EDDIE, BEIJA ELA.

— Venom, agora não!

— BEIJA ELA ANTES QUE ELA TE MATE.

E então... faço.

Dou dois passos pra dentro do box. A água batendo em mim. Roupa grudando no corpo. Seguro o rosto dela com as duas mãos. E beijo. Desesperado. Urgente. Molhado.

Ela trava. Por um segundo. Só um.

E então... Beija de volta.

As mãos dela subindo pro meu pescoço. Puxando. Apertando.

A água caindo sobre nós dois.

— EDDIE, EU SABIA!

— Venom, cala a boca!

Mas ele não cala.

— TIRA A ROUPA, EDDIE. VOCÊ ESTÁ PERDENDO TEMPO.

Quebro o beijo. Ofegante. Olhos nos dela.

— Eu... desculpa. Eu não devia ter—

Ela me cala. Com outro beijo. Mais forte. Mais faminto.

E então sussurra contra meus lábios:

— Cala a boca, Brock. E tira essa porra de roupa.

— EDDIE, ELA MANDOU VOCÊ TIRAR A ROUPA!

— Eu ouvi, Venom!

Puxo a camiseta encharcada. Jogo no chão do box. A calça. Cueca. Tudo molhado, grudando, dificultando.

— VOCÊ É MUITO LENTO, EDDIE.

— Estou tentando!

Amber ri me ouvindo resmungar com Venom. Mesmo agora. Mesmo assim.

— Você tá discutindo com ele de novo?

— Sim! Ele não para de comentar!

— PORQUE VOCÊ É RUIM NISSO, EDDIE!

Finalmente nu. Molhado. Ela na minha frente. Corpo perfeito. Gotas escorrendo.

A puxo de volta. Beijo o pescoço. A água dificultando tudo. As mãos escorregando.

— EDDIE, SEGURA ELA PELA CINTURA. NÃO, NÃO ASSIM. MAIS FIRME.

— Venom, eu sei como segurar!

Amber geme. Baixo. Contra meu ombro.

E aquilo... aquilo me ensandece.

Pressiono ela contra a parede fria do box. As mãos descendo. Pegando as coxas. Erguendo.

— ISSO, EDDIE! AGORA VOCÊ ESTÁ APRENDENDO!

— Venom. Para. De. Falar!

Mas ele não para. E honestamente?

Nesse momento... eu nem ligo mais.

 

** Amber **

 

Quando você me ergue do chão com uma facilidade absurda, como se eu não pesasse absolutamente nada, eu não sei se fico mais incrédula ou excitada com a demonstração de força.

Provavelmente as duas coisas.

— Que fique bem claro, Eddie... — Falo com a voz meio encabulada, ofegante, tentando manter algum resquício de controle. — É com você que eu quero transar. SÓ com você.

Faço questão de enfatizar, porque a ideia de ter um alien assistindo, comentando, ou pior, participando, me dá uma mistura estranha de pavor e curiosidade que prefiro não analisar agora.

Volto a te beijar com urgência enquanto você me pressiona contra a parede gelada do box, o contraste entre o frio das costas e o calor da água escorrendo entre nós criando uma sensação quase desesperadora. Tudo fica mais difícil molhado, as mãos escorregam, os corpos deslizam, mas de alguma forma isso só torna tudo mais intenso.

— Agora... — Sussurro rouca contra sua boca, mordendo seu lábio inferior com força suficiente pra ouvir gemer. — Aproveita toda essa força absurda que você tem aí e me fode logo. Porque eu passei três semanas te seguindo, te observando, te querendo...

Puxo seu rosto mais perto, os dedos se afundando na sua nuca molhada, as unhas arranhando de leve.

— E porra, Brock... você é bem mais gostoso do que eu imaginei.

Aperto as coxas com força ao redor do seu corpo, sentindo seu membro duro, latejando pressionado contra meu ventre. A água continua caindo sobre nós, mas nada mais importa além disso, além de você, desse momento, dessa loucura toda que começou com uma Harley preta e terminou num box de banheiro.

— Para de pensar — murmuro contra seus lábios. — Para de hesitar. E só... me fode.

 

**Eddie**

 

Ela diz que é só comigo que quer transar, e algo dentro de mim... relaxa. Como se precisasse ouvir isso.

— EDDIE, ELA DISSE “SÓ VOCÊ”. ISSO É BOM, NÃO É?

— Sim, Venom. É bom.

— MAS EU AINDA POSSO ASSISTIR?

— Você vai assistir de qualquer jeito!

— VERDADE.

Amber me beija de novo, desesperada, e quando morde meu lábio, um gemido escapa antes que eu consiga segurar. A dor misturada com tesão é... porra, é perfeita.

Ela fala sobre três semanas me querendo, me observando, e meu pau lateja ainda mais forte contra o ventre dela.

— Você me queria esse tempo todo? — murmuro contra a boca dela, a voz rouca. — Enquanto fingia estar me investigando?

— EDDIE, PARA DE FALAR E FAZ O QUE ELA MANDOU.

— Estou chegando lá, Venom. Porra!

Mas ela tem razão. Chega de hesitar.

Ajusto o corpo dela melhor contra a parede, uma mão firme no quadril, a outra subindo pela coxa molhada até alcançar o lugar que pulsa quente mesmo com a água morna batendo.

Passo os dedos devagar. Sentindo como ela já está molhada — e não é da água do chuveiro.

— EDDIE, ELA ESTÁ PRONTA. PODE IR.

— Eu sei que ela tá pronta! Cacete...

Amber geme quando os dedos roçam onde ela quer, as unhas arranhando minha nuca com mais força.

  Venom, me dá um pouco mais de força. Só agora.

— FINALMENTE VOCÊ PEDE MINHA AJUDA.

Sinto a massa negra se espalhando internamente. Não visível. Só reforçando. Músculos. Controle. Força.

Posiciono ela melhor. Seguro firme. Alinho meu pau na entrada dela. E empurro com força.

— Porra... — o gemido escapa rouco. — Amber...

Ela arqueia, a cabeça batendo na parede do box, os olhos fechando.

— EDDIE, ELA GOSTOU. CONTINUA.

— Estou continuando!

Empurro mais fundo. Devagar. Sentindo cada centímetro sendo envolvido pelo calor dela. Quando estou completamente dentro, paro. Respiro. Tento não gozar ali mesmo.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ BEM? SEU CORAÇÃO ESTÁ MUITO ACELERADO.

— Estou ótimo, Venom!

Amber abre os olhos. Verdes. Vidrados. E sorri.

— Isso... — ela sussurra, rouca. — Exatamente isso.

Começo a me mover. Testando o ângulo. A água dificultando tudo, fazendo nossos corpos escorregarem.

— EDDIE, SEGURA ELA MAIS FIRME. ELA VAI ESCORREGAR.

Por uma vez, ele tem razão.

Ajusto o aperto. Uma mão no quadril dela, a outra na coxa. Firme. Forte.

E então acelero.

Cada estocada arrancando gemidos dela. A água caindo sobre nós. O som molhado ecoando no box.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ FAZENDO BARULHO.

— Eu sei!

— MUITO BARULHO.

— VENOM, CALA A BOCA!

Mas ele não cala.

— OS VIZINHOS VÃO OUVIR.

— Não me importo!

Amber ri. Mesmo agora. Mesmo gemendo.

— Ele... ele tá comentando de novo? — ela pergunta entre gemidos e respirações ofegantes.

— Sim. Desculpa.

— VOCÊ NÃO PRECISA PEDIR DESCULPAS, EDDIE. EU SOU PARTE DE VOCÊ.

Amber puxa meu rosto. Me beija. Fundo. Calando qualquer resposta que eu ia dar pro Venom.

E então sussurra contra meus lábios:

— Ignora ele. Foca em mim.

E eu foco.

Fodo ela mais forte. Mais fundo. A água escorrendo entre nós. As mãos escorregando, mas segurando firme. O som dos nossos corpos se encontrando misturado com a água batendo no chão.

— EDDIE, ELA ESTÁ PERTO. EU POSSO SENTIR.

— Como?

— EU SEI. CONFIA EM MIM.

E estranhamente... confio.

Mudo o ângulo. Levemente. E o gemido que ela solta...

Porra.

— Isso... — ela geme alto. — Bem aí, Eddie... não para...

— VEJA? EU DISSE QUE SABIA.

Não paro. Continuo. Exatamente no mesmo ritmo. Mesmo ângulo. Mesmo tudo.

E quando ela se quebra — quando o corpo dela treme, as unhas cravando nas minhas costas, meu nome saindo num grito abafado contra meu ombro — Eu vou junto.

Gozo fundo dentro dela. Ondas intensas. A visão turva.

— EDDIE, VOCÊ SOBREVIVEU.

— Obrigado... pela... observação... Venom...

Fico ali, dentro dela. Ainda pressionando ela contra a parede. A água caindo sobre nós.

Amber respira pesado contra meu pescoço. Depois ri. Baixo. Exausta.

— Você... você realmente discutiu com ele... durante o sexo... — ela diz rindo e falando mole.

— Desculpa.

— NÃO PEÇA DESCULPAS, EDDIE. FOI EDUCATIVO.

Amber ri mais alto.

E eu... eu não consigo evitar.

Eu rio também.

Porque isso? Isso foi completamente insano.

E perfeito.

 

** Amber **

 

Desfaço as pernas em torno da sua cintura com movimentos lentos, quase preguiçosos, escorregando-as devagar pela lateral do seu corpo molhado até que a ponta dos meus pés finalmente toca o chão do box. As pernas tremem, só um pouco, mas tremem, e eu me agarro em você por mais alguns segundos até recuperar o equilíbrio.

Meus braços permanecem enrolados em volta do seu pescoço por um tempo, aproveitando a proximidade, a água ainda caindo sobre nós enquanto te olho arfando, completamente desestruturado, tão ofegante quanto eu após aquilo tudo.

— Vocês são bem fortes, hein... — Digo com a voz ainda rouca, a boca se curvando num sorriso de canto, entre provocação e admiração genuína. — São uma ótima dupla, Brock. Diga-se de passagem.

Porque, porra, realmente são. A força, a resistência, a forma como você me segurou contra a parede como se eu não pesasse nada... definitivamente não foi só você ali.

Seguro seu rosto molhado entre o polegar e o indicador num gesto quase carinhoso, te puxando pra mais um beijo, curto, estalado, molhado pela água que ainda escorre entre nós, antes de finalmente me soltar e sair cambaleando levemente do box.

Pego a toalha pendurada no gancho, começando a me secar sem pressa, ainda sentindo o corpo todo pulsar com os resquícios do que acabou de acontecer.

— E Venom... — Falo pro nada, sabendo que ele está ouvindo cada palavra e que vai responder. — Espero sinceramente que você tenha se divertido como espectador. Porque eu... definitivamente me diverti.

Dou uma piscadela pra você, ainda parado debaixo do chuveiro, meio perdido, meio em choque.

— Mas da próxima vez... avisa antes de invadir o banheiro, tá? Quase te acertei com aquela porcaria de shampoo.

 

** Eddie **

 

Fico parado. Água caindo. Corpo ainda tremendo levemente. Processando. Ela acabou de... elogiar? Nós? Eu e Venom?

— EDDIE, ELA GOSTOU DE MIM!

— Eu ouvi, Venom.

— ELA DISSE QUE SOMOS UMA BOA DUPLA!

— Sim, ela disse.

— E ELA FALOU COMIGO DE NOVO! DIRETAMENTE!

A empolgação na voz dele é quase... tocante.

Amber se seca com a toalha, o corpo ainda úmido, as curvas que eu acabei de sentir agora visíveis, reais, e porra... eu quero de novo.

— EDDIE, VOCÊ ESTÁ OLHANDO PRA ELA DE NOVO.

— Eu sei.

— COM AQUELA CARA.

— Que cara?

— A CARA DE “EU QUERO FAZER ISSO DE NOVO”.

— Venom...

— ADMITA.

E então ela fala com ele. Diretamente. Agradecendo pela... pela experiência como espectador.

Venom fica em silêncio. Por dois segundos. E então...

— EU ME DIVERTI MUITO, AMBER. OBRIGADO POR PERGUNTAR. — A voz dele sai... animada? Feliz? — EDDIE NUNCA AGRADECE. MAS VOCÊ... VOCÊ É EDUCADA.

Balanço a cabeça, desligando o chuveiro finalmente.

— Venom, ela não precisa te agradecer por assistir a gente transando.

— MAS ELA FEZ. PORQUE ELA É LEGAL.

Pego minha toalha. Me seco. Ainda olhando pra ela. Amber pisca. Sorri. E solta aquilo sobre avisar antes de invadir o banheiro.

— Foi... foi ideia do Venom. — Tento me defender. — Ele me empurrou. Literalmente.

— PORQUE VOCÊ É COVARDE, EDDIE.

— Não sou covarde! Sou... respeitoso!

— VOCÊ IA PERDER A CHANCE.

Amber ri ainda mais. Aquele riso baixo, rouco, que me deixa louco.

— Então... — ela inclina a cabeça, ainda com a toalha enrolada no corpo — ... foi o Venom que quis?

— FOI IDEIA MINHA, SIM. EDDIE NUNCA TERIA CORAGEM.

— Eu teria coragem!

— NÃO TERIA.

Amber se aproxima. Para na minha frente. Olha nos meus olhos.

— Bom... — ela passa o dedo pelo meu peito molhado — ... agradeço a iniciativa então, Venom.

— EDDIE, ELA ME AGRADECEU DE NOVO!

— Eu ouvi!

Amber sorri. E então...

— Mas da próxima vez... — ela se inclina, a boca perto do meu ouvido — ... eu quero que seja você quem decida, Eddie. Não ele.

Se afasta. Pega as roupas que deixou no chão. Sai do banheiro.

Me deixa ali.

Molhado. Confuso. E com o Venom rindo dentro da minha cabeça.

— ELA GOSTA DE VOCÊ, EDDIE.

— Eu... eu sei.

— E GOSTA DE MIM TAMBÉM.

— Aparentemente.

— SOMOS IRRESISTÍVEIS.

Balanço a cabeça. Saio do banheiro. E quando vejo Amber na sala, vestindo minha camiseta e nada mais...

— EDDIE, VOCÊ VAI FAZER DE NOVO?

— Talvez.

— AGORA?

— Talvez.

— BOM. EU APROVEI.

E mais uma vez... Eu concordo com ele.

Completamente.

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