sexta-feira, 3 de abril de 2026

Walking Side by Side - pt III

 

Já fazia um tempo que eu sabia que ela passava por aquela área. Não por boato, nem por trilha óbvia, mas porque algumas coisas não acontecem por acaso. Walker abatido sem barulho. Armadilha desmontada com cuidado. Porta fechada depois de saque, como se alguém ainda se importasse com ordem num mundo que não liga mais pra isso.

Gente descuidada não sobrevive assim.

Gente desesperada também não.

Eu não segui de imediato. Observei à distância por dias, cruzando sinais, confirmando padrões. Quem anda sozinho por escolha costuma ser mais perigoso do que grupo grande. E ela andava sozinha como quem sabe exatamente o que tá fazendo.

Quando a vejo dessa vez, não me escondo tanto quanto antes. Fico entre as árvores, besta firme nas mãos, respirando devagar, deixando o mundo fazer barulho por mim. Ela se move com calma, sem pressa, parando onde faz sentido parar. Olha o terreno antes de avançar. Calcula. Não desperdiça energia.

Isso chama atenção.

Ela entra num prédio pequeno, antigo, desses que ninguém gosta de limpar sozinho. Lugar apertado, portas demais, cheiro de ferrugem e mofo. Gente inexperiente evita. Gente experiente entra rápido e sai rápido.

Eu espero.

O tempo passa sem nada explodir, sem grito, sem tiro. Um walker sai cambaleando pela lateral e cai antes de dar dois passos, faca cravada direto no crânio. Limpo. Silencioso. Do jeito certo.

Ela aparece logo depois, retira e limpa a lâmina na calça sem cerimônia e faz uma varredura rápida com os olhos. Não é paranoia. É hábito. Quase me encontra com o olhar. Quase.

Isso me diz duas coisas: ela é boa… e não gosta de ser seguida.

Dou um passo à frente de propósito. Não avanço agressivo, mas também não me escondo mais como antes. Um galho estala sob minha bota. Não é erro. É aviso.

Se ela for o eu acho que é, vai saber que não está mais sozinha.

E se reagir…

Vou saber exatamente com quem estou lidando.

 

** Lyra **

 

Cinco anos se passaram desde que meu coração deixou de sentir qualquer coisa além de dor e passou apenas a cumprir sua função original e mecânica de bombear sangue pelo corpo.

O cabelo colorido e desbotado que ele tanto gostava cresceu, se transformou de volta no castanho claro natural com que nasci, mas ainda o mantenho curto na altura dos ombros. É mais prático. Menos pra agarrar. Menos pra atrapalhar.

Já faz uns dias que tem um cara me seguindo pelas ruínas e estradas vazias. Ainda não vi o rosto dele, mas sei que é um homem pelo peso dos passos, pelo tamanho das marcas que deixa. E sei que não devo me alarmar — ainda — porque se ele quisesse ter tentado algo, já teria feito. E eu? Teria metido uma bala bem no meio da cabeça dele antes que terminasse o movimento.

Quando saio do prédio velho e paro pra limpar minha faca na calça, sinto a presença desse mesmo homem se movendo entre as árvores ao longe. Sei porque ouço o estalo de um galho quebrando sob um passo. E aposto minha vida que ele fez isso de propósito pra ser notado, pra anunciar presença.

Afinal, nos últimos dias ele parecia um espírito me seguindo nas sombras. Silencioso. Quase invisível.

Quase.

Mas eu fui muito bem treinada pelo homem que perdi há cinco anos atrás. Aprendi a notar o que não devia ser notado. A sobreviver quando não devia conseguir.

A dor ainda não se curou. Nunca vai se curar. Mas viver, continuar respirando mesmo sem querer, é uma forma de honrar a memória dele. De não desperdiçar o sacrifício que ele fez.

Viro o corpo na direção do som, a mão já descendo instintivamente pra arma na cintura, os músculos tensos e prontos.

— Se aproxima demais e o próximo crânio que essa lâmina vai se fincar é o seu. — digo em alto e bom tom, a voz saindo firme, sem hesitação. — O que diabos você quer e por que está me seguindo há dias?

Não grito. Não preciso. A ameaça está clara o suficiente no tom.

Espero a resposta com os olhos fixos nas árvores, calculando distância, trajetória, pontos de fuga.

 

** Daryl **

 

Você vira rápido. Rápido demais pra alguém distraída. A mão vai direto pra arma, sem tremor, sem pressa. Não é ameaça vazia, é aviso real.

Eu paro onde tô.

Não levanto a besta de imediato. Também não baixo. Deixo visível, mas solta o suficiente pra mostrar que não tô ali pra disparar primeiro. Dou dois passos pra fora da cobertura das árvores, devagar, sem gesto brusco. Quem sabe o que tá fazendo não precisa correr.

— Se eu quisesse te matar, não tinha quebrado galho nenhum. — digo, a voz baixa, firme, sem ironia. — E você já teria me visto antes.

Você não puxa a arma.

Boa.

— Tô seguindo porque você anda sozinha… — continuo, mantendo a distância. — …e porque anda bem demais pra isso ser descuido.

Olho rápido ao redor antes de voltar pra você. Hábito. Sempre foi.

— Não tô aqui pra te roubar. Nem pra te levar pra lugar nenhum. — dou de ombros, quase imperceptível. — Só queria saber quem atravessa esse território limpando tudo sem fazer barulho.

Faço um gesto curto com a cabeça, indicando o prédio atrás de você.

— Lugar ruim pra se meter sozinha. — acrescento. — Mas você saiu sem um arranhão. Isso chama atenção.

Silêncio entre nós. Denso. Calculado.

— Pode baixar a mão da arma… ou não. — digo depois de um segundo. — Fica a seu critério.

Dou um passo lateral, abrindo mais espaço ainda entre nós, mostrando que não vou avançar.

— Meu nome é Daryl. — falo por fim. — E não tô aqui pra te causar problema.

Paro de falar.

Agora é com você decidir se acredita… Ou se vai tentar me matar.

 

** Lyra **

 

— Daryl? — repito o nome, tirando a mão da arma na cintura e voltando a limpar a faca ensanguentada antes de guardá-la de volta na bota com um movimento automático. — Nome de caipira do cacete.

Dou alguns passos curtos à frente, cautelosa, mas não com medo. O suficiente pra conseguir enxergar parcialmente seu rosto recortado contra a luz forte do sol entre as árvores. Cabelo comprido, ombros largos, besta pendente em uma das mãos.

Caçador.

Permaneço em silêncio tenso por longos segundos, só te encarando à distância, medindo um ao outro como animais decidindo se vale a pena lutar ou recuar. Antes de finalmente abrir a boca pra falar qualquer coisa novamente.

— Se você quisesse causar problemas... — faço uma pausa, inclinando a cabeça de leve. — Ia só ficar querendo mesmo.

Ajeito a mochila pesada nas costas, a barra de ferro presa nela tilintando contra o zíper. Suspiro fundo, cansada demais pra lidar com mais merda hoje, e começo a andar na direção oposta de onde vim. Seguindo a rua deserta e morta, o asfalto rachado sob minhas botas.

Ouço seus passos leves vindo logo atrás de mim. Leves demais pra um homem daquele tamanho. Controlados. Treinados.

Paro no meio da rua, respiro fundo novamente tentando controlar a irritação.

— E vai continuar me seguindo pelo visto... — falo sem me virar, a voz saindo cansada. — Eu querendo ou não, é isso?

Giro o pescoço só o suficiente pra olhar por cima do ombro.

— Qual é sua? Tá entediado? Procurando companhia? Ou só gosta de ser irritante mesmo?

 

** Daryl **

 

Você anda.

E eu acompanho.

Não é insistência cega. É decisão. Quando você caminha sem olhar pra trás, eu já sei que não é fuga. É teste. Gente que foge não deixa as costas tão expostas assim.

— Não tô entediado. — respondo, mantendo o mesmo ritmo, sem encurtar demais a distância. — E companhia não é coisa que eu procuro.

O asfalto rachado trinca mais sob as botas. Lugar aberto demais. Ruim pra conversa longa, pior ainda pra distração. Olho pros telhados, pros carros abandonados, pras janelas quebradas. Nunca desligo.

— E não gosto de ser irritante. — acrescento depois de um instante. — Mas aprendi que às vezes é melhor incomodar do que fingir que não viu nada.

Você para de repente. Eu paro também, no mesmo segundo. Não por susto. Por leitura de corpo. Seu jeito muda antes do movimento. Sempre muda.

— Minha resposta é simples. — digo, sem rodeio, quando você olha por cima do ombro. — Eu passo por aqui com frequência. E você também. Dois sobreviventes bons demais andando sozinhos no mesmo trecho… isso acaba dando problema.

Dou de ombros de novo, gesto curto, contido.

— Não tô tentando te convencer de nada. — continuo. — Só tô dizendo o que vejo.

O silêncio volta a se espalhar. Não pesado como antes. Mais… atento.

— Se quiser que eu fique atrás e só cubra as costas, eu faço. — falo. — Se quiser que eu siga outro caminho, eu sigo. Mas enquanto a gente dividir essa estrada, não vou fingir que você não existe.

Dou mais um passo, ainda mantendo espaço.

— Agora… — concluo, a voz firme, sem desafio. — se você quiser saber por que eu resolvi ficar por perto, vai ter que andar mais um pouco comigo.

Não avanço, mas também não recuo.

Espero a sua decisão, do jeito que gente que já perdeu tudo aprende a esperar.

 

** Lyra **

 

Eu penso em te mandar à merda, penso seriamente em dar um tiro de aviso bem perto do seu pé só pra você cair fora, penso até, num momento de cansaço extremo, em atirar na minha própria cabeça, só pra ter cinco malditos minutos de paz.

Mas há algo em você, nesse jeito quieto, nesse sotaque arrastado do sul que escapa nas poucas palavras que diz, que me faz querer te dar mais atenção do que eu deveria. Ou do que gostaria de admitir.

Talvez seja a solidão falando mais alto. Talvez seja só curiosidade mórbida.

— Vai, Rambo. — digo em tom irônico finalmente virando o corpo por completo na sua direção, te encarando de frente agora. — Me conta sua história toda até minha próxima parada, e eu decido se quero ou não sua presença irritante na minha cola.

Entorto o lábio, impaciente, ergo as sobrancelhas num desafio silencioso e faço um gesto seco com o queixo, apontando pro chão de asfalto perto de mim.

— Mas se falar bobagem demais, ou se andar devagar e me atrasar... — deixo a ameaça no ar por um segundo. — Eu te jogo pros podres e sigo minha vida.

Cruzo os braços sobre o peito, já me arrependendo da minha decisão mesmo antes de terminar de falar. Mas no fundo, lá bem no fundo enterrado sob camadas de dor e solidão, falar com alguém depois de tanto tempo sozinha faz eu me lembrar que ainda estou viva. Que ainda sou humana.

E me lembrar até do tom da minha própria voz quando não estou só resmungando sozinha.

— Então? — cutuco impaciente. — Vai ficar aí parado feito poste ou vai andar?

 

** Daryl **

 

Você provoca porque é mais fácil do que admitir que já decidiu não atirar.

Eu não sorrio. Também não fecho a cara. Só inclino a cabeça de leve, analisando o jeito como você cruza os braços, o peso jogado numa perna só, a arma ainda acessível mesmo quando finge relaxar. Você não tá dando permissão. Tá testando limite.

— Rambo morreu faz tempo. — respondo, começando a andar quando você manda, sem pressa, mas sem te atrasar. Ajusto o passo ao seu, um pouco atrás, nunca exatamente ao lado. — E história inteira não tenho. Só um pedaço.

O asfalto segue rachado, calor subindo do chão. Lugar exposto demais pro meu gosto, mas você escolheu o caminho, então fico atento pros flancos enquanto falo. Não olho direto pra você. Não costumo falar olhando nos olhos.

— Cresci no sul. — começo. — Caçando mais do que estudando. Aprendi cedo a ficar quieto. Isso ajuda a não apanhar… e a não morrer.

Pulo uma parte. Sempre pulo.

— Quando o mundo caiu, eu já sabia sobreviver. — continuo. — Só precisei aprender a fazer isso com gente morta andando por aí.

Um silêncio curto se instala entre uma frase e outra. Não é falta de assunto. É meu jeito.

— Não fico em grupo grande. — acrescento. — Gente demais faz barulho. E barulho atrai coisa pior do que podre.

Olho rápido pra você de canto, só o suficiente pra medir reação. Você tá ouvindo. Mesmo fingindo que não liga.

— Ando por aqui porque é rota boa. — digo. — Água perto. Caça. Pouco movimento. Até você começar a passar por aqui também.

Paro de falar por um momento. Deixo o som dos passos preencher o espaço.

— Não tô pedindo pra ficar. — concluo, simples. — Só dizendo que, se você me jogar pros podres, vai ter que mirar melhor do que ameaça.

Continuo andando, no mesmo ritmo, deixando claro que não vou acelerar pra te impressionar… nem ficar pra trás pra te irritar.

— Sua próxima parada fica longe? — pergunto por fim, como quem pergunta o tempo. — Porque eu ando melhor quando sei até onde vou.

 

** Lyra **

 

Reviro os olhos ouvindo sua história enquanto caminhamos quase lado a lado pela estrada abandonada. Garoto do sul, caipira, criado no mato. Independente desde cedo. Sobrevivente nato.

Quase sorrio por lembrar de alguém que conheci há muito tempo.

Quase.

Mas o sorriso sequer nasce.

— Fica alguns poucos quilômetros à frente. — informo apontando vagamente pra direção nordeste com o queixo. — Um posto de gasolina velho que está tão rodeado de mato agora, tão engolido pela natureza, que chega a ser um bom lugar escondido pra comer algo, descansar um pouco sem ser incomodada.

Você anda com firmeza ao meu lado, mas pisa leve como gato, fala baixo quando fala, não faz barulho desnecessário. Não precisa olhar pro chão pra desviar de galhos ou lixo. Já sabe onde pisar por instinto.

Isso me traz uma certa leveza estranha no peito. E também uma tensão incômoda.

— Você é o tipo de pessoa que não precisou de muito pra se adaptar ao fim do mundo, pelo visto. — comento depois de um tempo, com respeito medido na voz. — Já nasceu pronto pra isso, né? Se fosse uns bons anos atrás... eu teria gostado de ter te encontrado por aí. Seria bem-vindo no grupo.

Grupo.

A palavra sai amarga na boca.

Já nem me lembro direito mais do que é estar rodeada de gente. Do barulho de vozes conversando. De risadas. De discussões bobas sobre quem vai fazer a ronda.

Balanço a cabeça afastando as memórias que não ajudam em nada.

— Mas isso foi há muito tempo. — murmuro mais pra mim mesma do que pra você.

Aperto o passo, focando no caminho à frente.

 

** Daryl **

 

Ouço você falar de grupo e sei, pelo jeito que a palavra cai, que não é só passado. É coisa enterrada que ainda pesa. Não pergunto. Aprendi faz tempo que algumas perguntas só servem pra abrir ferida que a gente passa a vida tentando fechar.

— Posto velho costuma ser bom abrigo. — digo apenas, ajustando a direção quando você aponta. — Desde que não tenha cheiro de gente morta.

Ando no mesmo ritmo que você, nem acelerando, nem ficando pra trás. Gente que anda junta sem combinar passo tá dizendo alguma coisa sem perceber. Você muda o ritmo quando pensa demais. Eu percebo mas não comento.

Quando você fala que eu já nasci pronto pro fim do mundo, solto um ar pelo nariz, quase um riso que não chega a acontecer.

— Ninguém nasce pronto pra isso. — respondo, simples. — Só aprende rápido… ou não aprende.

Olho em volta de novo, maldito hábito, e depois volto a atenção pra frente. O mato fecha mais conforme a estrada avança. Menos visibilidade. Melhor e pior ao mesmo tempo.

— Se fosse antes… — repito baixo, mais pra confirmar do que pra continuar o assunto. — Antes sempre parece mais fácil quando a gente olha pra trás.

Você aperta o passo. Eu acompanho sem esforço. Não tento puxar conversa agora. Já falei o suficiente. Sei quando ficar quieto é a melhor forma de não estragar o momento.

Depois de alguns metros em silêncio, acrescento, sem olhar pra você:

— Grupo não é só quantidade. — digo. — Às vezes é só não andar sozinho por tempo demais.

Não explico. Não preciso.

Continuo andando, atento ao caminho, aos sons, ao que pode aparecer entre as árvores…

E ao fato de que você ainda não mandou eu ir embora.

 

** Lyra **

 

— Chegamos. — digo seca, me embrenhando no mato alto e cheio de espinhos até sairmos diante do tal posto abandonado do qual comentei. — Se quiser ficar, comer algo, fique à vontade. Depois, faça o que quiser da vida. Durma aí. Vá embora...

Empurro a porta enferrujada com um solavanco de ombro. A dobradiça range alto e cede, quase caindo, só me fazendo lembrar de como o tempo tem passado rápido demais nesses anos todos. Os dias parecem intermináveis, arrastados, mas os anos... os anos voaram sem eu perceber.

— Eu não costumo deixar ninguém se aproximar. — resmungo entrando e sentando no chão de concreto frio, costas apoiadas na parede descascada, rosto virado estrategicamente pra porta. Sempre de olho na saída. — Não sei por que raios eu deixei um caipira fodido que nem você vir comigo até aqui.

Puxo duas latas amassadas da mochila, jogo uma pra você sem cerimônia nenhuma. Abro a minha com uma faca velha e cega que uso só pra esse tipo de coisa mesmo, pra não estragar o fio da minha outra lâmina.

Aquela faca.

Afasto o pensamento com raiva.

— Se tentar alguma gracinha ou fizer qualquer besteira... — te encaro séria enquanto levo a lata aos lábios. — Eu atiro nos seus culhões primeiro, e depois na sua cabeça. Nessa ordem.

Mastigo a comida fria e sem gosto, observando você do canto do olho.

 

** Daryl **

 

O lugar é bom.

Ruim o bastante pra ninguém querer ficar, bom o bastante pra quem sabe olhar.

Você entra primeiro, sem pedir cobertura, mas senta de um jeito que não perde a porta nem por um segundo. Costas na parede, saída no campo de visão, corpo relaxado só na aparência. Isso não é instinto recém-aprendido. É coisa antiga. Treinada. Enraizada.

Quando você fala que não costuma deixar ninguém se aproximar, eu acredito. Não pelo tom, pelo jeito que você diz como se fosse um fato, não um aviso. Gente que ameaça demais tá tentando convencer. Você não precisa.

A lata vem voando na minha direção e eu pego no ar sem pensar. O gesto é automático. Familiar demais.

— Agradeço. — respondo só isso, encostando na parede oposta, mas nunca direto à sua frente. Ângulo aberto. Sempre.

Abro a lata devagar, mais atento a você do que à comida. Você come sem frescura, sem cerimônia, do jeito que dá. Sem perder tempo. Sem transformar isso em momento.

Tem algo no jeito que você xinga. Não é o palavrão em si, é como ele sai. Seco. Usado quando precisa, não pra preencher espaço. O tipo de coisa que me dá uma sensação estranha no peito, como lembrar de algo que eu não tava tentando lembrar.

Você fala de atirar nos meus culhões primeiro e eu solto um ar pelo nariz, quase outro riso curto.

— Justo. — digo. — Eu faria pior.

Não encaro como flerte. Não é. É regra. Território. Sobrevivência.

Enquanto você come, observo os detalhes que você não tenta esconder: o jeito que ajusta a faca mesmo quando não precisa, a atenção constante ao ambiente, o corpo sempre pronto pra levantar. Você é arisca. Não desconfiada, mas preparada. Tem diferença.

Isso me incomoda mais do que devia.

Não porque me ameaça. Mas porque eu conheço esse tipo de gente. Gente que não foi feita pra viver em paz. Gente que funciona melhor quando o mundo tá quebrado.

Termino de comer e deixo a lata vazia no chão, longe dos pés, pra não fazer barulho se alguém chutar sem querer.

— Não vou dormir aqui dentro. — digo por fim, simples. — Fico do lado de fora. Cubro o perímetro.

Não é pergunta. Também não é imposição.

Levanto devagar, sem pressa, pego a besta e paro na porta um segundo antes de sair.

— Você escolheu um bom lugar. — acrescento, sem olhar direto. — Dá pra baixar a guarda um pouco…, mas não muito.

Saio, me posicionando onde consigo ver a entrada e o mato ao redor, atento aos sons, aos cheiros, aos movimentos errados.

E, contra a minha vontade, passo a prestar atenção não só no que pode aparecer lá fora…

Mas em você lá dentro.

 

** Lyra **

 

Essa foi a primeira noite de Daryl na minha vida.

A primeira de muitas, feliz ou infelizmente. Ainda não decidi qual das duas.

A gente se evitava bastante no início, falava o mínimo necessário, dormia pouco e sempre em turnos alternados, interagia apenas quando absolutamente necessário pra sobrevivência. Nada além disso.

A dupla funcionava bem, surpreendentemente bem. Silenciosa, eficiente, boa de caça, boa de matar podres sem desperdício de munição. Boa em estratégias quando a merda apertava. Nada de drama desnecessário, nada de desperdício de tempo com conversa fiada. Apenas sobrevivência crua e direta.

Ao menos era isso que eu pensava no começo.

Quase um ano se passou desde aquela primeira noite no posto abandonado, e até hoje, passados todos esses meses, não tem um único dia que eu não revire os olhos com tanta força a ponto de quase enxergar minha própria nuca por dentro, toda vez que ele, com seu jeito torto e desajeitado de “piadista”, me chama de princesa.

Princesa.

Logo eu? Chega a ser quase uma ofensa.

Mas... no fundo, bem lá no fundo onde não admito pra ninguém...

Até que eu gosto.

 

** Daryl **

 

Um ano não parece muito quando você conta em dias. Parece quando você vive.

No começo, eu achei que a gente não ia durar uma semana. Não porque faltava habilidade, isso você sempre teve, mas porque dividir caminho com alguém do seu tipo exige mais do que saber atirar direito. Exige leitura. Respeito. Saber quando falar e, principalmente, quando calar.

A gente quase não falava. Funcionava melhor assim. Turnos alternados, costas cobertas, distância suficiente pra não atrapalhar. Nenhum dos dois devia nada pro outro além de não morrer.

Só que o tempo foi passando. E a rotina foi se instalando do jeito que coisas perigosas costumam fazer: sem pedir permissão.

Hoje eu acordo antes de você sem nem perceber que tô fazendo isso. Já sei quando teu humor tá ruim pelo jeito que você pisa. Sei quando tá cansada pelo silêncio mais longo do que o normal. Sei até quando você tá com dor, não porque reclama, mas porque muda a mão que segura a arma.

Você revira os olhos quando eu te chamo de princesa. Toda vez. Sempre. E toda vez eu chamo de novo, porque sei que incomoda… e porque você nunca manda eu parar.

Não é provocação barata. É o jeito torto que encontrei de dizer eu tô aqui sem dizer nada disso em voz alta.

Você anda grudada em mim agora. Não no corpo, no caminho. Escolhe ficar perto, mesmo quando tem espaço. Divide comida sem contar. Some por alguns minutos e volta como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Melhores amigos, você diria.

Talvez.

Eu não chamo assim. Não preciso.

Só sei que, quando você some da minha linha de visão por tempo demais, algo aperta no peito. Não é medo. Não é pânico. É outra coisa. Uma coisa que eu ignoro do mesmo jeito que ignorei tudo que não cabia na sobrevivência por anos.

Mas ignorar não faz desaparecer.

Quando você ri, de verdade, sem ironia, o mundo fica menos barulhento. Quando xinga, parece que tá no lugar certo. Quando fica quieta demais, eu fico atento demais.

Eu ainda não digo nada. Não pergunto. Não avanço.

Porque você ainda carrega coisa demais pra alguém entrar sem cuidado.

Então eu fico. Cubro. Espero.

Do jeito que aprendi a fazer quando gostar de alguém não é opção…

Mas ir embora também não é.

 

** Lyra **

 

Saio do prédio velho onde estou procurando suprimentos há quase uma hora, coisas úteis como remédios, comida enlatada, roupas, pisando como se estivesse andando em ovos. Andar na cidade é bem diferente do que andar no campo aberto ou na mata fechada.

Onde tinha gente demais antes, costuma ter walkers demais agora. Ou pior ainda, muito pior, ainda ter gente viva. E gente viva é sempre um problema maior.

— Daryl? — chamo baixo, quase num sussurro, como se você pudesse me ouvir praticamente no mudo.

E no fundo, sei que pode.

Você está em algum lugar alto por perto, provavelmente num telhado ou sacada, me cobrindo de longe caso surja algo que eu não veja se aproximando. Como se eu fosse distraída a esse ponto. Como se precisasse de babá.

Irritante.

Você desce ágil pelo muro de sei lá onde diabos estava escondido, com aquela cara azeda e fechada que sempre faz quando não gosta de algum lugar. E geralmente você não gosta de lugar nenhum que não seja mato.

Me dá as costas sem falar nada e já começa a caminhar na direção oposta, presumindo que vou te seguir feito cachorrinho.

— Mas que porra... — resmungo irritada antes de me abaixar, pegar uma pequena pedrinha do chão e jogar certeira na sua cabeça por pura pirraça.

Acerto em cheio.

— Larga mão de ser chato. — insisto caminhando atrás de você e te puxando pelo braço. — Eu achei um lugar legal lá dentro, dá pra passar a porra da noite aqui sem problemas. Tem até camas. Minhas costas estão pedindo isso de joelhos. Por favor.

Faço uma cara de pidona que sei que te irrita.

— Só uma noite. Prometo que amanhã a gente sai cedo.

 

** Daryl **

 

Cidade nunca me agradou. Tem canto demais pra coisa errada sair de dentro. Telhado, janela quebrada, escada de incêndio podre. Tudo ecoa. Tudo engana.

Quando você chama meu nome baixo, eu já tô descendo. Não porque você precise, você nunca precisou, mas porque é assim que a gente funciona. Um cobre, o outro sai. Sem discussão.

Caio no chão com leveza, absorvendo o impacto nas pernas, e já viro de costas, começando a andar. Não quero ficar ali.

A pedrinha acerta minha cabeça e eu paro no meio do passo.

Fecho os olhos por meio segundo.

— Sério? — murmuro, passando a mão pelo cabelo e virando devagar pra te encarar.

Você vem atrás, puxando meu braço como se tivesse todo o direito do mundo. E talvez tenha mesmo. Um ano andando junto muda as regras. Você fala das camas, das costas doendo, do “só uma noite”, e faz aquela cara que não convence ninguém… exceto quando convence.

Eu olho pra porta do prédio. Depois pra rua. Depois pra você.

Tem coisa no seu jeito agora que não tinha antes. Não é fragilidade. É confiança. Você não pede abrigo, você decide ficar. E espera que eu esteja ali.

Isso mexe comigo mais do que deveria. Pra variar.

— Cidade não é lugar pra baixar guarda. — digo, sério, mas sem o tom duro de antes. — Principalmente à noite.

Dou dois passos de volta em direção ao prédio, observando janelas, ângulos, pontos cegos. Você me segue de perto, grudada demais pra quem reclamava de babá meses atrás.

— Mas… — acrescento, depois de avaliar mais um segundo. — se tem cama de verdade e saída limpa pros fundos… dá pra passar uma noite.

Levanto o dedo antes que você comemore.

— Uma coisa. — reforço. — Portas trancadas. Turno dobrado. Se eu disser que a gente sai no meio da madrugada, a gente sai.

Te encaro de lado, sério, mas não bravo.

— E se jogar outra coisa na minha cabeça… — faço uma pausa curta. — eu te chamo de princesa o resto da semana.

Viro de novo pro prédio e começo a andar, já assumindo posição pra entrar primeiro.

Porque eu reclamo. Eu desconfio. Eu prefiro o mato. Mas, no fim das contas, se você decide ficar…

Eu fico também.

 

** Lyra **

 

Enquanto subimos os degraus do prédio velho em silêncio, minhas costas já me agradecem antecipadamente pelo descanso que está por vir.

— Tem uns quartos mais limpos no quinto andar. — comento te olhando por sobre o ombro. — Vasculhei antes. Tem poeira, mas pelo menos não tem corpos nem podres. Acho.

Você resmunga algo que eu ignoro completamente, pra variar, enquanto paro em frente à porta de um dos quartos.

— Até amanhã, Darylzinho. — digo em tom zombeteiro, relaxando os ombros pela primeira vez em dias.

Relaxando demais.

Erro fatal.

Quando abro a porta, já me abaixando pra descalçar as botas sem prestar atenção, uma duzia de walkers apodrecidos explodem porta afora, vindo pra cima de mim como avalanche.

— Merda!

Caio de costas no chão, os walkers cambaleando na minha direção, mãos podres se estendendo, bocas já abertas mordendo o ar.

Alguém trancou todos do andar justamente no quarto que eu não verifiquei.

Isso que dá relaxar.

Tento alcançar o revólver, a faca, qualquer coisa..., Mas já tem dois deles sobre mim. Seguro com força um deles com as duas mãos, tentando o afastar do meu rosto, enquanto chuto o segundo que insiste em se agarrar ao meu tornozelo.

— Filhos da puta! — grito enquanto tento não morrer diante do meu próprio erro.

 

**Daryl**

 

Não penso.

O corpo reage antes da cabeça terminar de processar. Você cai, eles vêm, e eu já tô em cima.

Puxo o primeiro walker pelo pescoço, arranco ele de cima de você com força bruta e enterro a faca direto na base do crânio. Ele desaba. O segundo tá agarrado no seu tornozelo, dentes estalando perto da sua perna, e meu estômago vira.

Chuto a cabeça dele com força até demais, o impacto quebrando a mandíbula. A faca entra logo depois.

Mas tem mais. Muito mais. Eles saem do quarto igual formiga, cambaleando, tropeçando uns nos outros, mas vindo. Sempre vindo.

Te puxo pelo braço, te arrancando do chão num movimento brusco, e te empurro pras minhas costas.

— Fica atrás de mim! — rosno, sem olhar pra você.

A faca trabalha rápido. Crânio. Olho. Têmpora. Não desperdiço movimento. Cada golpe conta. Cada segundo importa.

Dois caem. Três. Quatro.

Mas o corredor é estreito demais. Eles se espremem, se acumulam, bloqueiam a saída.

Sinto você se mexendo atrás de mim, pegando a arma, matando os que tentam passar. A gente trabalha bem assim. Sem combinar. Sem precisar falar.

Um walker grande demais passa pela minha guarda, indo direto na sua direção.

Eu viro sem calcular. Me jogo na frente, a mão livre agarrando a cara dele, segurando os dentes longe do meu rosto. A boca dele estala no ar, fedendo a carne velha.

A faca entra pela têmpora. O corpo desaba.

Silêncio.

O corredor fica quieto. Só corpos no chão. Só nossa respiração pesada ecoando nas paredes sujas.

— Tá limpo. — digo, a voz saindo mais rouca do que devia. — Pode... pode respirar.

Limpo a faca na calça, e quando finalmente viro pra você... vejo.

Seus olhos arregalados. Seu peito subindo e descendo rápido demais. As mãos ainda segurando a arma, mas tremendo agora.

Você me olha como se eu tivesse feito a coisa mais idiota do mundo.

E talvez eu tenha.

— Eu tô bem. — digo, antes que você fale qualquer coisa. — Tá tudo bem.

Passo por você em direção ao quarto do lado, verificando se tem mais algum escondido. Tem que verificar. Sempre tem que verificar.

Mas o que eu realmente tô fazendo é te dando espaço.

Espaço pra decidir se vai gritar comigo... ou outra coisa.

Porque a adrenalina ainda tá alta. O coração ainda tá batendo forte demais.

E você tá me olhando de um jeito que nunca olhou antes.

 

** Lyra **

 

“Fica atrás de mim.”

Quando você diz isso, o mundo começa a passar em câmera lenta diante dos meus olhos.

Você golpeando um walker, enfiando a lâmina no crânio de outro. Virando, chutando, matando. Seus movimentos precisos, controlados. Como se não houvesse uma dúzia de mortos-vivos tentando te devorar.

Meus olhos vidram no nada enquanto puxo a arma em piloto automático e atiro nos malditos que ainda insistem em avançar na nossa direção. O estampido ecoa no corredor estreito, mas mal registro o som.

Tem um filme inteiro passando na minha cabeça. Vermelho. Sangue. Gritos. Um homem morrendo enquanto eu corro.

E eu conheço bem demais o final desse filme.

Não de novo.

Quando o massacre finalmente acaba, corpos desabados no chão num amontoado de carne podre, e eu te vejo falando sobre verificar os outros quartos, andando tranquilo e enfiando a cara pra dentro das portas como se fosse só um dia qualquer de limpeza. O mundo de repente volta a girar na velocidade normal.

É violento. Agudo.

Eu me sinto zonza, enjoada, a adrenalina dando lugar a outra coisa. Algo pior.

— Você tem merda na cabeça, Daryl? — disparo avançando com passos rápidos na sua direção, a voz saindo mais alta do que pretendia. — Tá achando que é imortal? Que é o Hércules? Que é A PORRA DO BATMAN?

Empurro você pra trás com as duas mãos abertas no meio do seu peito. Forte. Com raiva. O solavanco te faz cambalear pra dentro do quarto.

Você não se defende. Não reage. Nem levanta a mão.

Só me encara com aqueles olhos azuis confusos, tentando entender.

— Fala alguma coisa! Porra! — grito de novo, a voz quebrando no final.

Avanço mais um passo, invadindo seu espaço, os olhos queimando marejados enquanto desconto anos de culpa acumulada, anos de medo entalado, em você.

— Você podia ter morrido. MORRIDO. — as palavras saem embargadas, raivosas, desesperadas. — Isso não é um jogo, e você não tem que tentar ser herói, cacete! Não precisa se jogar na frente assim!

Respiro ofegante, o coração martelando no pescoço, já descompassado.

— Eu não posso... — a voz falha. — Não dá.

 

**Daryl**

 

Você me empurra e eu deixo.

Não porque não consigo segurar você. Porque sei que você precisa disso, agora.

Dou alguns passos pra trás, as costas batendo contra a parede do quarto, e fico ali. Parado. Te olhando gritar, te vendo se desfazer na minha frente.

Não é sobre os walkers. Nunca foi.

Quando você avança de novo, invadindo meu espaço, eu não recuo. Fico plantado ali, deixando você despejar tudo em cima de mim. A raiva. O medo. A merda toda que você carrega e nunca fala.

Seus olhos tão molhados... As lágrimas não caem, mas tão ali. Te traindo.

Você fala, sua voz quebra.

E eu entendo.

Não com palavras. Não com explicação. Mas entendo.

Você já perdeu alguém assim. Alguém que se jogou na frente. Alguém que não voltou. Não sei quem. Não sei quando. Mas sei pelo jeito que você tá me olhando agora, como se eu fosse um fantasma que não quer ver de novo.

Abaixo a cabeça por um segundo, respirando fundo, tentando achar as palavras certas. Mas nunca fui bom com palavras. Nunca fui bom com nada além de fazer.

Então levanto o rosto de novo e te encaro.

— Eu não morri. — digo, simples. Firme. — Tô aqui.

Dou um passo à frente, devagar, diminuindo o espaço entre nós.

— E não vou morrer. — continuo, a voz saindo mais baixa, mais crua do que eu queria. — Não enquanto você tiver comigo.

Você treme.

Levanto a mão devagar, dando tempo pra você recuar se quiser. Mas você não recua. Meus dedos tocam seu rosto, afastando uma mecha de cabelo grudada na testa suada.

— Eu sei que você já viu gente morrer. — murmuro. — Sei que já perdeu alguém. Mas não vai me perder.

Minha mão desce, os dedos roçando teu maxilar, o polegar passando de leve pela sua bochecha.

— Não desse jeito. — prometo, mesmo sabendo que é uma promessa idiota de se fazer no fim do mundo.

Você me olha como se quisesse acreditar. Como se estivesse travando uma guerra interna entre empurrar de novo... ou se agarrar.

E então algo muda.

Seus olhos descem pros meus lábios. Rápido. Quase imperceptível. Mas eu vejo.

Meu coração acelera de um jeito que não tem nada a ver com walker agora.

— Lyra... — sussurro seu nome pela primeira vez.

E você avança.

 

** Lyra **

 

Seus olhos azuis são a última coisa que vejo antes de fechar os meus e tomar seus lábios num impulso cego.

Não foi algo planejado. Não foi nem de longe pensado.

Não foi.

Mas algo dentro de mim quase se partiu de novo ali, vendo você se jogar no meio daquela merda toda sem hesitar. E eu não quero nunca mais me arrepender de algo que não fiz. Não de novo. Não com você.

Eu te beijo com medo, com desespero mal disfarçado, com gosto amargo de culpa e anos de solidão. Com tudo que não fui durante esse ano inteiro em que convivemos lado a lado fingindo que isso era só parceria.

E o que mais mexe comigo, o que me destroça por dentro, é que você corresponde. Instantaneamente.

Sem pensar.

Você afunda os dedos longos no meu cabelo, me puxando pra mais perto com urgência, como se tivesse medo que eu evaporasse ou escorresse pelas suas mãos.

Isso me assusta.

— Me desculpa. — é tudo que consigo dizer quando finalmente rompo o beijo, ofegante, e me afasto meio passo para trás.

Olho ao redor desnorteada, como se a mobília velha ou a poeira acumulada do tempo pudessem me julgar, me acusar de algo que ainda não cometi completamente.

— Eu... — respiro fundo tentando me recompor, as mãos tremendo. — Não vai acontecer de novo. Foi... Desculpa.

Me viro nos calcanhares num movimento brusco, já pronta pra sair pela porta do quarto e passar por cima dos podres mortos espalhados no corredor. Qualquer coisa pra não ter que encarar você agora.

Qualquer coisa pra não ter que admitir o que acabei de sentir.

 

** Daryl **

 

Quando você se vira pra sair, minha mão fecha em torno do seu braço e te puxa de volta num movimento rápido.

Te viro pra mim e tomo sua boca antes que você fale qualquer merda.

Não é delicado. Não é pedido. É resposta.

Minha mão sobe pela sua nuca, segurando firme, te mantendo ali enquanto te beijo com fome, com urgência, com tudo que segurei pela porra de um ano inteiro.

— Não vai fugir, princesa. — murmuro contra seus lábios, a voz saindo rouca, grave. — Não agora. Não mais.

Te guio pra trás, andando com você sem soltar sua boca, te empurrando na direção da cama velha encostada na parede. Meus dedos afundam no seu cabelo, puxando de leve, inclinando sua cabeça pro ângulo que eu quero.

Com a mão livre, arranco o colete do meu próprio corpo e jogo no chão sem olhar pra onde cai. O som do couro batendo no assoalho ecoa no quarto vazio.

— Um ano... — rosno entre um beijo e outro, a respiração já pesada. — Um ano te olhando, te querendo, fingindo que não.

Minha boca desce pelo seu maxilar, mordendo de leve, sentindo você tremer contra mim.

— Acabou o fingimento agora, Lyra.

 

** Lyra **

 

Quando caio de costas sobre a cama empoeirada e vejo você arrancar aquele maldito colete de couro que nunca tira por nada nesse mundo, algo dentro de mim parece desatar completamente. Como uma corda esticada demais que finalmente arrebenta.

Uma das minhas mãos se afunda desesperada entre os fios compridos do seu cabelo suado, puxando com força, enquanto a outra sobe por baixo da sua camisa, forçando o tecido pra cima com urgência. Expondo marcas, cicatrizes profundas, detalhes seus que eu nunca havia visto antes, mesmo depois de um ano inteiro dividindo o mundo com você.

Rompo nosso beijo apenas o tempo suficiente para que o tecido passe pela sua cabeça e seja jogado longe sem importância. Minha boca volta faminta pra linha da sua mandíbula áspera, descendo devagar pelo seu pescoço úmido se suor, deixando um rastro de saliva. Os lábios friccionam contra sua pele quente, contra os pelos do peito, contra cicatrizes antigas que contam histórias que você nunca me contou. Pedaços de tudo que você é e foi.

— Eu não vou fugir. Não mais. — murmuro rouca entre beijos molhados, passadas de língua, mordidas leves que marcam. — Não vou sair correndo dessa vez.

Minhas mãos descem trêmulas se apressando em desabotoar sua calça jeans surrada, os dedos tropeçando no botão de metal com a ansiedade. Como se meu corpo e minha mente finalmente colapsassem um contra o outro depois de tanto tempo isolada de calor humano, sem toque, sem nada além de sobrevivência fria.

— Eu não quero que isso seja rápido, Daryl. — confesso olhando nos seus olhos azuis intensos enquanto minha respiração falha. — Quero sentir cada segundo.

Minha língua desliza devagar pelo centro do seu peito nu, descendo pela linha dos músculos definidos, enquanto você se ajeita melhor sobre mim, desencostando as botas sujas e empurrando-as pra longe com os próprios pés sem tirar os olhos de mim.

Como se tivesse medo que eu desaparecesse se piscasse.

 

** Daryl **

 

Você me olha como se eu fosse sumir. Como se piscar fosse te custar tudo.

Eu não tiro os olhos do seu rosto enquanto chuto as botas pro lado. Não porque eu precise ver. É porque eu não consigo parar.

Sua mão no meu cabelo puxa forte e eu seguro o gemido que sobe da garganta. Não faço questão de fazer barulho. Nunca fiz. Mas você me desmonta de um jeito que não tem nome, cada toque seu me quebrando os pilares um por um.

Quando sua boca desce pelo meu peito, eu fecho os olhos. Só um segundo. É o que eu aguento.

— Um ano. — a frase sai mais rouca do que eu queria. — Um ano te olhando, te querendo, te vendo passar por mim como se eu fosse só... isso.

Abro os olhos de novo e você tá ali, os lábios úmidos, o olhar vidrado em mim. Sua mão ainda treme no botão da minha calça. Eu cubro seus dedos com os meus, parando o movimento.

— Não rápido. — concordo, a voz baixa, firme, mas com um tremor que me trai. — Do jeito que eu esperei, não vai ser rápido.

Solto sua mão e deslizo meus dedos pelo seu rosto, afastando o cabelo grudado na testa. O polegar passa pela sua boca aberta, sentindo sua respiração quente.

— Tira a camisa. — peço baixo. Não é ordem. É pedido. Mas a urgência tá ali, vibrando nos meus dedos.

Você obedece, erguendo os braços, o tecido subindo devagar, expondo sua pele. E eu paro. Olho cada centímetro que aparece: as marcas que já conhecia de vista, as cicatrizes que você também nunca explicou, o corpo que eu passei um ano inteiro tentando não encarar por tempo demais.

— Porra... — a palavra escapa sem licença.

Minhas mãos encontram sua cintura, os dedos apertando de leve, só sentindo. A pele quente, viva. Você treme sob meu toque.

— Toda vez que você passava por mim... — murmuro, aproximando o rosto, o nariz roçando sua clavícula. — Toda vez que você enfiava a faca na bota e olhava pro lado sem me ver...

Meus lábios encontram sua pele. Primeiro na curva do ombro, depois descendo devagar, tão devagar, como se a gente tivesse todo tempo do mundo. Como se o mundo não tivesse acabado e a gente não fosse pó esperando pra cair.

— Eu pensava nisso. — confesso contra seu peito. — Em te ter aqui. Em te ouvir gemer meu nome.

Minha boca sobe de volta, encontrando seu pescoço, e quando chego no seu ouvido, mordo o lóbulo com cuidado, sentindo você se arrepiar inteira.

— Agora eu tô te ouvindo. — sussurro rouco. — E quero mais.

Minha mão desce, finalmente desabotoando sua calça, puxando o zíper devagar. Não tiro ainda. Só passo os dedos por cima do tecido, sentindo seu corpo responder.

— Lyra. — chamo seu nome, a voz mais grave agora. — Olha pra mim.

Você abre os olhos. Tão perto. Tão cheia de coisas que eu não sei explicar.

— Eu vou te ter com calma. — prometo, o polegar traçando a linha da sua calça. — Vou sentir cada pedaço de você. Porque eu esperei muito por isso.

Minha boca volta pra sua, mais lenta agora. Sem aquela fome desesperada do corredor. É outra coisa. É promessa. Entrega.

Meus dedos encontram seu calor, e eu sorrio quando sua respiração falha.

 

** Lyra **

 

Quando seus dedos finalmente se afundam em mim, explorando, preenchendo, sinto meu corpo inteiro arquejar violentamente, a respiração falhar e morrer na garganta, as costas envergarem num arco perfeito.

Me sinto viva. Completamente viva como não me sentia há tanto tempo que nem consigo mais lembrar.

— Não para... — a voz sai arrastada, embargada, entregue de um jeito que me assusta. — Por favor, não para.

Enfio os polegares trêmulos por dentro do jeans, forçando o tecido pra baixo com urgência desesperada, liberando mais espaço, mais acesso, enquanto seus dedos calejados continuam trabalhando em mim com uma maestria inesperada.

Sinto seu polegar áspero pressionar meu clitóris com força, ao mesmo tempo que dois dedos longos se afundam mais fundo na minha umidade, me abrindo, me tomando, arrancando gemidos baixos da minha garganta.

Quando finalmente consigo afastar o restante da minua roupa com dificuldade, quase rasgando o tecido de tanto anseio, minha mão desce pra dentro da sua calça aberta. Envolvo seu membro duro e quente entre meus dedos e palma, sentindo-o pulsar contra minha pele.

— Eu não vou ser torturada sozinha. — gemo rouca enquanto movo o punho com firmeza, masturbando você no mesmo ritmo exato em que você me toca e me fode com os dedos.

Sinto espasmos involuntários começarem a tomar conta dos meus músculos, ondas de prazer subindo pela coluna. A respiração fica completamente errática, descontrolada, enquanto as pontas dos meus pés se forçam contra o colchão velho procurando apoio. Meus quadris se elevam sozinhos, involuntários, buscando mais pressão, mais profundidade, mais de você.

— Daryl... porra... — solto entre gemidos entrecortados, a mão apertando mais forte ao redor do seu membro latejando. — Eu preciso... preciso de você.

 

** Daryl **

 

Sua mão apertando meu membro com força enquanto você geme meu nome daquele jeito quase me faz perder o controle que ainda tô segurando com unhas e dentes.

Meus dedos param dentro de você por um segundo enquanto meu corpo processa o que tá acontecendo. A pressão, o ritmo, o jeito que você aperta exatamente quando eu aperto. É como se a gente tivesse feito isso mil vezes. Como se esse tempo juntos tivesse sido só ensaio.

Solto um gemido baixo quando sua mão me pressiona ainda mais, e dessa vez eu nem tento segurar. Não faz sentido mais.

— Assim... — a palavra sai quase como um rosnado. Minha testa cai contra a sua, a respiração pesada batendo na sua boca. — É assim que você quer brincar?

Meus dedos voltam a se mover dentro de você, mais fundo agora, o polegar circulando no clitóris no ritmo que eu vejo que faz você se contorcer. Seu corpo arqueja embaixo de mim e eu sinto cada tremor, cada espasmo, cada vez que você aperta meus dedos.

— Tá molhada pra caralho. — murmuro contra sua boca, a voz mais grave do que nunca.

Sua mão me aperta mais forte e eu empurro contra sua palma sem querer, o quadril fugindo do controle. Você ri, um riso entrecortado, cheio de ar e tesão, e eu mordo seu lábio em resposta.

— Acha graça?

Tiro os dedos devagar, tão devagar que seu corpo inteiro se arqueia tentando me manter. Você geme, reclama, me xinga baixo. Eu seguro sua cintura com as duas mãos e puxo sua calça o resto do caminho que faltava, arrancando dos seus pés num movimento seco.

Fico entre suas pernas, olhando. Sua pele arrepiada, sua respiração falhando, seus olhos presos nos meus. Meu membro tá duro, latejando, encostando na sua coxa enquanto eu só... olho.

— Olha pra mim, Lyra — murmuro rouco. Não desvio o olhar nem por um segundo. — Não vou te torturar. Vou te dar tudo que você precisa. Tudo que eu segurei até agora.

Com a mão livre, me guio até sua entrada molhada, esfregando devagar, sentindo você se contorcer debaixo de mim, quadris tentando subir pra me puxar pra dentro. Entro centímetro por centímetro, devagar, sentindo suas paredes quentes e apertadas me engolirem. Um gemido grave escapa do meu peito quando tô todo dentro, fundo pra caralho, completamente encaixado.

— Porra… isso é bom pra cacete. — sussurro contra seus lábios, ainda sem me mexer, só sentindo você pulsar ao meu redor. — Tô aqui. Inteiro. E não vou a lugar nenhum nunca mais.

Começo a me mover. Estocadas profundas, lentas e controladas no começo, girando os quadris pra roçar bem no ponto que te faz arquear as costas. Seguro com força na sua cintura com as duas mãos, puxando você contra mim a cada vez que afundo. Meus olhos não saem dos seus. Quero ver cada reação no seu rosto, cada gemido que eu arranco de você.

Acelero o ritmo aos poucos, ainda profundo, ainda controlado, mas mais forte. Uma das minhas mãos sobe pro seu peito, apertando o seio com força enquanto o polegar roça o mamilo. A outra desce entre nossos corpos, encontrando seu clitóris inchado de novo, circulando em pressão firme e constante.

 

** Lyra **

 

Quando você tira seus dedos de dentro de mim, sinto meu corpo inteiro se contrair em protesto, os músculos internos apertando o vazio como se meu instinto fosse te manter ali por mais tempo, te prender.

— Filho da puta... — resmungo frustrada, sentindo meu prazer se quebrar ao meio, deixando só a necessidade crua no lugar.

Sinto seu membro duro e quente latejar insistente entre as minhas coxas abertas, seu peso afundando meu corpo contra o colchão surrado que a essa altura já não tem sequer mais importância nenhuma.

Poderia ser no chão sujo, na mesa velha, contra as paredes descascadas que eu não me importaria nem um pouco.

Meus olhos se fixam hipnotizados nos seus quando você pede baixo, quase rouco, pra eu te olhar. O pedido me soa como ordem absoluta, e meu olhar obedece com anseio doentio, incapaz de desviar.

Quando você me invade finalmente, devagar, mas implacável, fundo, preenchendo cada centímetro vazio, eu quase esqueço completamente como é que se respira.

Minhas sobrancelhas se comprimem de prazer intenso, meus lábios se abrem num “o” mudo, e quando o ar finalmente consegue preencher novamente meus pulmões, eu solto um gemido longo e arrastado enquanto meu corpo te recebe inteiro como se tivesse sido feito única e exclusivamente pra isso.

— O único lugar que você vai agora... — murmuro com a voz arrastada, rouca, decidida — é pra debaixo de mim.

Apoio minha mão firme no seu antebraço suado, guiando seu corpo pra o lado, enquanto minha perna já passa por cima de você num movimento ágil sem que você saia de dentro de mim sequer um centímetro.

Quando seu corpo está completamente sob o meu, rendido, eu me firmo melhor sobre os joelhos e peitos dos pés, jogando o corpo pra trás num arco, empinando, começando a cavalgar em você com uma maldita calma que eu nunca tive pra absolutamente nada na vida.

— Eu jamais pensei em admitir isso em voz alta... — confesso ofegante, os quadris se movendo em círculos lentos. — Mas já me peguei mentalmente assim, sobre você, várias vezes nesses últimos meses.

Sinto você soltar o ar com força pelo nariz e boca entreaberta cada vez que subo devagar quase tirando você completamente de mim, te provocando, e desço de volta ondulando os quadris pra sentir você me preencher por completo novamente, até o fundo, até doer de prazer.

 

** Daryl **

 

Quando você me empurra pro lado e sobe em cima de mim sem me deixar sair de dentro nem por um segundo, um grunhido baixo escapa da minha garganta. Não é protesto. É surpresa misturada com algo mais quente, mais fundo. Você me monta com aquela calma maldita, como se tivesse passado meses imaginando exatamente isso, e agora tá cobrando cada segundo disso.

Meu corpo cai de costas no colchão velho, mas meus olhos não saem dos seus. Nem por um instante. Vejo você se firmar nos joelhos, peitos dos pés plantados, costas arqueadas, empinando pra caralho enquanto começa a cavalgar devagar. Cada descida faz me faz afundar inteiro em você, apertado, molhado, quente pra porra.

— Porra, Lyra… — rosno rouco, as mãos subindo pra agarrar sua cintura com força, dedos afundando na carne macia. Não pra te parar. Pra te sentir. Pra te ajudar a descer mais fundo. — Você pensou nisso… eu também. Todo dia. Toda noite. Te imaginando exatamente assim… montando em mim como se eu fosse seu.

Meu quadril sobe pra encontrar o seu quando você desce, estocando pra cima devagar, mas firme, fazendo você sentir cada centímetro. Uma das minhas mãos sobe pelas suas costelas, aperta seu seio. A outra fica na sua cintura, guiando o ritmo sem tirar o controle de você, só acompanhando, sentindo.

Você confessa que já se imaginou assim e algo aperta forte no meu peito. Não é só tesão. É mais. Um ano de silêncios, de olhares de canto, de querer sem poder falar. Agora tá tudo ali, exposto, enquanto você me cavalga com aquela ondulação lenta que me deixa louco.

— Não para então... — murmuro grave, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia. Puxo você pra frente com a mão na sua nuca, fazendo seus seios colarem no meu peito, o rosto perto o suficiente pra sentir sua respiração quente. — Quero ver seu rosto quando você gozar.

Meu braço envolve sua cintura, segurando você firme contra mim enquanto começo a estocar pra cima com mais força, mais fundo, sincronizando com suas descidas. O som molhado dos nossos corpos se chocando enche o quarto velho, misturado aos seus gemidos e aos meus grunhidos.

— Eu esperei por você. — confesso contra sua boca, mordendo seu lábio inferior de leve antes de beijar fundo, língua invadindo no mesmo ritmo das estocadas. — Não foi só sobrevivência, princesa. Foi você. Todo esse tempo… foi você.

Acelero um pouco mais, quadril batendo contra o seu, uma mão descendo pra apertar sua bunda, forçando você a cavalgar mais forte. Sinto você apertando ao meu redor, tremendo, e isso me faz rosnar contra seu ouvido.

— Goza pra mim, princesa. — a palavra sai com um meio-sorriso torto, rouco, carregado. — Goza no meu pau. Deixa eu sentir você desmontando em cima de mim.

Quero ver. Quero sentir cada tremor. Quero que você saiba que isso aqui não é só foda. É mais. Muito mais.

 

** Lyra **

 

Você me puxa com força contra você, colando seu corpo suado no meu, me envolvendo completamente com seus braços fortes, me fazendo sentir cada músculo tenso, cada gota de suor escorrendo, cada pulsação acelerada do seu coração contra o meu peito. Me faz perder totalmente a compostura que tentei manter.

— Então sente o que você faz com a sua princesa. — retruco rouca, mordendo seu lábio de volta com força, puxando-o entre meus dentes.

Minha mão se afunda nos fios do seu cabelo molhado de suor, puxando seu rosto ainda mais contra o meu, te beijando com intensidade, os olhos abertos, querendo devorar cada reação sua. Enquanto a outra mão desenha caminhos infinitos e tortuosos pela sua pele quente, afundando os dedos a cada músculo enrijecido de prazer puro.

Meus movimentos sobre você aceleram, ficam urgentes, desesperados. A umidade escorre entre nós, estala alto a cada sobe e desce frenético ao encontro do meu próprio prazer egoísta.

Você sorri torto contra meus lábios quando sente meu corpo começar a me trair. Os movimentos falhando na repetição do ritmo, a musculatura retesando até doer, as pernas ficando completamente trêmulas, a respiração vacilando entre os gemidos.

— Vai me sentir escorrer de prazer por você, caipira. — gemo desesperada contra sua boca aberta. — Vai sentir tudo...

Quando meu orgasmo explode violentamente, me apertando ainda mais em torno de você num espasmo que não consigo controlar, eu solto um gemido escancarado e agudo que reverbera pelo ar quente e parado do quarto.

Sinto seus dedos afundarem com brutalidade na carne da minha bunda e quadris, me apertando, me segurando como se temessem que eu fosse sair de cima de você, que fosse escapar.

O prazer vem em ondas sucessivas, e a cada uma que me atravessa eu respiro ofegante gemendo seu nome cada vez mais baixo, mais fraco.

— Daryl...

Até restar apenas minha respiração completamente irregular, entrecortada, e gotas de suor escorrendo pelas minhas costas arqueadas, descendo pela minha espinha.

 

** Daryl **

 

Eu fico completamente obcecado com a visão de você gozando em cima de mim.

Seus olhos se apertam, a boca abre num gemido longo que enche o quarto inteiro, o corpo tremendo violento enquanto você me aperta por dentro, pulsando, escorrendo quente ao meu redor. Cada espasmo seu me faz grunhir, os dedos afundando com força na sua bunda, segurando você no lugar como se minha vida dependesse disso. Não deixo você desacelerar. Não deixo você escapar. Quero sentir cada segundo desse orgasmo atravessando você.

— Isso… porra, isso… — rosno rouco contra sua boca, sem conseguir tirar os olhos do seu rosto. — Deixa eu sentir você desmontando assim…

Meu nome sai da sua boca enquanto você o geme cada vez mais fraco, o corpo mole e trêmulo depois das últimas ondas. O suor escorre pelas suas costas, pelo vale entre seus seios. Você tá linda pra caralho assim, destruída de prazer, ainda pulsando ao meu redor.

Não espero você se recuperar completamente.

Com um movimento rápido e firme, eu seguro suas coxas com força, levanto seu corpo junto com o meu sem sair de dentro de você. Fico de joelhos no centro da cama, seu corpo colado no meu, pernas abertas ao redor da minha cintura. Suas mãos instintivamente se agarram ao meu pescoço e ombro, unhas cravando na pele suada. Chega a arder. Meu braço esquerdo envolve sua cintura, segurando você firme contra mim. O direito segura uma das suas coxas por baixo, erguendo, abrindo mais você pra mim.

— Agora aguenta. — murmuro grave no seu ouvido, a voz rouca de tesão.

Começo a estocar pra cima com força, batendo fundo em você. Cada subida do meu quadril te levanta um pouco, cada descida te faz sentir meu pau inteiro te abrindo de novo. O ângulo é absurdo de bom. Meus dentes raspam pelo seu queixo enquanto eu te fodo com tudo que segurei.

Meus grunhidos ficam mais graves, mais irregulares. Sinto o orgasmo subindo rápido demais, apertando na base da espinha.

— Lyra… porra… — rosno contra sua pele, apertando você ainda mais contra mim. — Porra… não aguento mais…

Com mais algumas estocadas fortes e profundas, eu gozo dentro de você, o corpo inteiro tensionando, um gemido rouco e longo escapando da garganta enquanto eu te preencho, pulsando, jorrando quente e fundo. Meu braço te segura com ainda mais força, como se quisesse te fundir comigo. Fico ali, tremendo, enterrado até o fundo, respirando pesado contra seu pescoço.

Demora um tempo até a respiração acalmar.

Com cuidado, eu deito nós dois de lado na cama, saindo devagar de dentro de você. Puxo seu corpo contra o meu, peito colado nas suas costas, o braço pesado sobre sua cintura. O quarto tá silencioso agora, só nossa respiração e o som distante do vento lá fora.

Minha mão sobe devagar pelo seu braço até encontrar sua mão. Meus dedos traçam a cicatriz velha na sua pele, aquela marca que eu já tinha notado antes, mas nunca perguntei.

— Hey princesa, o que é isso? — pergunto baixo, a voz ainda rouca, o polegar passando devagar sobre as linhas irregulares. — Esse W que você fez com faca na mão…

 

** Lyra **

 

Sentir você explodir de prazer dentro de mim, quente, pulsante, preenchendo, é mais intenso e prazeroso do que o meu próprio orgasmo foi.

Você me apertando com força, quase me esmagando contra seu peito largo, sentir você pulsar e latejar até se jorrar completamente dentro de mim. A forma carinhosa e protetora com que você me abraça depois, me tocando com delicadeza inesperada após o sexo.

Aí vem a pergunta. A maldita pergunta sobre a cicatriz na minha mão.

— Não é um W. — respondo meio seca, a voz saindo mais áspera do que pretendia, como se tomasse um soco repentino na boca do estômago. — É um M.

Me viro de barriga pra cima na cama velha, ainda encostada em você, nossos corpos grudados de suor, mas meus olhos agora desviam e vão direto pra cicatriz antiga e alta sobre as costas da minha mão esquerda.

Deslizo meu polegar devagar sobre ela, traçando a letra marcada na pele, encontrando forças que não sabia que ainda tinha pra falar sobre isso.

— Quando tudo começou... — começo baixo. — Ele me encontrou algumas semanas depois do colapso. Eu estava completamente perdida, sozinha, sem saber pra onde ir ou o que fazer.

Dou uma pausa longa, suspiro fundo tentando controlar a pressão no peito.

— Ele era bem mais velho que eu, ranzinza pra caralho, boca suja, machista, irritante. — um meio sorriso amargo aparece sem permissão. — Mas ficou.

Meus olhos sobem e pousam no teto sujo e rachado do quarto que foi testemunha silenciosa do nosso sexo e agora está presenciando meu passado sendo arrancado pra fora.

— Passamos meses juntos, com um grupo pequeno. Sobrevivendo. Nós brigávamos feito cão e gato, nos amamos de um jeito torto e violento, nos tornamos um só. — a voz começa a falhar. — Ele me ensinou tudo que sei hoje. Tudo que sou. Se sobrevivi todos esses anos sozinha depois... foi só pra honrar o sacrifício que ele fez.

Sinto os olhos arderem, marejarem dolorosamente, mas as lágrimas que teimam em não cair doem muito mais do que qualquer coisa física poderia doer.

Me levanto num impulso brusco da cama, fugindo do toque, do calor. Visto a calcinha de qualquer jeito, puxo a camiseta pela cabeça com pressa antes de conseguir continuar falando.

— Ele morreu numa emboscada... — a voz sai engasgada agora. — Pra me salvar dos Salvadores e de uma horda de podres. — pausa — Merle Dixon. Ele quem fez a letra na minha mão.

Quando finalmente viro na sua direção e me obrigo a olhar pra você, vejo seu olhar completamente estático fixo em mim, a expressão congelada. Como se estivesse digerindo e processando muito mais do que simplesmente o que eu acabei de contar.

Como se tudo que falei significasse alguma coisa.

— Daryl... — minha voz hesita. — Por que está me olhando assim?

 

** Daryl **

 

Merle Dixon.

O nome ecoa na minha cabeça como um tiro. Não um tiro de espingarda, mas um tiro que acerta bem no meio do peito, arrancando o ar dos pulmões. Minha expressão congelada não é por falta de reação. É por excesso. É como se o mundo inteiro tivesse parado de girar, e eu tô ali, no meio do olho do furacão, vendo tudo desabar.

Você me olha, os olhos marejados, a voz hesitando. “Por que está me olhando assim?”. Como se eu pudesse responder. Como se as palavras pudessem sair da minha garganta agora, sem quebrar. Como se eu pudesse explicar que o homem que você amou, o homem que te salvou, o homem que você honra com uma cicatriz na mão... é o meu irmão. Meu sangue.

Minha mente corre, rápida demais, confusa demais. As lembranças dele, as brigas, o jeito fodido que ele tinha de ser, a raiva que eu sentia por ele, o amor torto que nunca consegui admitir. E agora, tudo isso se mistura com você. Com a mulher que eu acabei de foder, a mulher que eu amo de um jeito que nunca amei nada nem ninguém. A mulher que me fez sentir vivo de novo, depois de uma vida de merda.

Você se afasta, veste a calcinha de qualquer jeito, puxa a camiseta. Fugindo. Como sempre. Mas dessa vez, não é de mim. É da memória dele. Da dor. E eu não consigo me mover. Não consigo estender a mão e puxar você de volta, como fiz momentos atrás. Minhas mãos estão pesadas. Vazias. Como se tivessem acabado de segurar o mundo e ele escorregou pelos meus dedos.

Merle. Lyra. Os dois nomes se chocam na minha cabeça, uma colisão violenta que me deixa zonzo. O seu cheiro ainda tá em mim. Seu gosto ainda tá na minha boca. E a porra do nome dele tá no ar, entre nós, como um fantasma que se recusa a ir embora.

Você me olha de novo, esperando uma resposta. Uma explicação. E eu não tenho. Só tenho um nó na garganta, um peso no peito e a imagem do meu irmão se misturando com a mulher que eu quero mais do que tudo. A mulher que, porra, amou o Merle.

Eu só consigo balançar a cabeça, devagar, quase imperceptível. Não é negação. É desespero. É a porra de um mundo novo desabando em cima de mim, de novo. E dessa vez, não tem walker pra matar. Não tem cerca pra consertar. Só tem isso. E a verdade. A verdade que me quebra em mil pedaços.

Abro a boca, sinto o ar raspar na garganta seca, mas nada sai. O som morre antes de virar palavra. Como é que eu vou dizer? Como é que eu vou explicar que o cara que você descreveu — o ranzinza, o boca suja, o machista que ficou quando ninguém mais ficaria — é o mesmo sangue que corre nas minhas veias?

Minha mão, que ainda tá apoiada no colchão, se fecha num punho tão forte que as juntas estalam. Eu sinto o suor esfriar no meu corpo, o rastro do seu toque na minha pele agora parece queimar. Não por nojo, nunca por nojo de você, mas porque agora tem um terceiro corpo nesse quarto. Merle tá aqui. Entre a gente. Rindo da minha cara com aquele jeito debochado dele, me lembrando que, mesmo morto, ele ainda chega primeiro.

Você termina de se vestir, o movimento é rápido, nervoso. Você tá esperando que eu diga que tá tudo bem, que eu te abrace, que eu seja o Daryl de sempre...

Eu desvio o olhar. Não consigo sustentar o seu. Se eu olhar pra você agora, vou ver o Merle. Vou ver a emboscada. Vou ver o sacrifício que ele fez por você — o único ato de decência que aquele filho da puta teve na vida — e vou sentir uma inveja tão podre que me dá nojo de mim mesmo. Inveja porque ele te teve primeiro. Inveja porque ele morreu sendo o seu herói, enquanto eu tô aqui, vivo, sendo o cara que tá prestes a destruir o pouco de paz que você construiu.

— Merle... — o nome sai num sussurro tão baixo que eu mal ouço. Minha voz tá estraçalhada.

Eu me levanto da cama, devagar, sentindo cada músculo pesado como chumbo. Não olho pra você. Pego minha calça no chão, minhas mãos tremendo tanto que eu quase não consigo acertar o botão. Eu preciso sair daqui. Preciso de ar. Preciso de mato, de silêncio, de qualquer coisa que não seja esse quarto sufocante cheio de fantasmas.

— Eu... eu preciso... — eu travo de novo.

Giro o corpo em direção à porta, fugindo do seu olhar que me queima as costas. Eu sei que você tá confusa. Sei que você tá achando que eu tô te rejeitando pelo que você contou. Mas a verdade é muito pior. A verdade é que eu também sou um Dixon. E ser um Dixon sempre foi sinônimo de estragar tudo que é bonito.

Saio do quarto sem olhar pra trás, deixando você lá sozinha com a sua cicatriz e as suas perguntas. O corredor tá cheio de corpos, o cheiro de morte tá em todo lugar, mas nada cheira tão mal quanto o segredo que tá entalado no meu peito.

 

** Lyra **

 

Você sempre foi de falar pouco, econômico nas palavras, mas a forma com que age agora, esse silêncio dolorido e cortante, esse olhar vazio e distante, faz eu me sentir mais assustada e perdida do que nunca me senti nesses anos todos de fim de mundo.

Você abre a boca pra falar, os lábios se movem, mas nenhum som sai. Nada. Apenas silêncio sufocante preenchendo o espaço entre nós. Sinto sua respiração pesar e falhar daqui de onde estou parada.

— Daryl? — repito seu nome com um peso na voz que não imaginei carregar depois do que acabamos de fazer, depois de me entregar pra você daquele jeito.

Seguro com firmeza desesperada na barra da minha camiseta, afundando os dedos no tecido amarrotado como se isso pudesse me ancorar, me impedir de pensar mil coisas ruins sobre o seu silêncio cruel.

Isso não me parece ciúmes de homem comum. Será nojo então? Raiva por algo específico que não consigo entender? Arrependimento?

Minha mente vira um turbilhão caótico de hipóteses e suposições pra tentar explicar a forma com que você está reagindo agora, mas nenhuma delas me soa plausível o suficiente pra justificar esse tipo de reação tão extrema.

Estendo a mão trêmula ao ar na sua direção, num gesto patético de súplica silenciosa. Mas você murmura algo tão baixo que não consigo captar as palavras, se vira de costas e sai do quarto sem olhar pra trás sequer uma vez.

Sem olhar pra mim.

Eu fico ali parada, sozinha no meio do quarto que ainda cheira a sexo e suor. Me abraço com os próprios braços por um longo segundo, as mãos deslizando pelos antebraços nus tentando buscar algum conforto que não vem, que não existe.

Tentando me convencer desesperadamente de que você não simplesmente me usou e agora vai evaporar da minha vida como fumaça, como se eu não fosse absolutamente nada.

Como se os últimos doze meses significassem nada.

— Maldito filho da puta... — murmuro baixo, a voz quebrando, mais pra mim mesma do que pra você que já sumiu completamente pelo corredor escuro com passos pesados ecoando na distância.

Me deixando sozinha, pela primeira vez.

 

**Daryl**

 

Eu escuto o seu sussurro. E dói. Dói porque você tá certa, mas pelo motivo errado. Eu sou um filho da puta por estar te deixando lá, mas sou um filho da puta maior ainda por ser quem eu sou.

Meus passos ecoam no corredor, pesados, esmagando a pouca dignidade que me sobrou depois de fugir de você. Eu não tô fugindo do que a gente fez. Eu não tô com nojo. Porra, eu nunca quis tanto ficar num lugar quanto eu quis ficar naquele quarto com você. Mas como é que eu fico? Como é que eu te toco de novo sabendo que a mão que te acaricia tem o mesmo formato da mão do cara que te marcou?

Eu chego na escada e desço os degraus de dois em dois, quase tropeçando na minha própria pressa. O ar da cidade é parado, podre, mas eu puxo ele pra dentro como se estivesse sufocando. Eu preciso de espaço. Preciso que o fantasma do Merle pare de soar no meu ouvido.

“Mandou bem, caipira. Escolheu a melhor de todas pra dividir o lençol, hein?” — a voz dele, a voz real que eu guardei na memória, parece vibrar nas paredes descascadas desse prédio de merda.

Eu saio pela porta dos fundos e bato com as costas no muro de tijolos frios. Minha respiração tá errática, um rosnado preso na garganta que eu não consigo soltar. Eu soco a parede. Uma, duas vezes. A dor nos nós dos dedos é a única coisa que parece real agora. A única coisa que faz o turbilhão na minha cabeça diminuir um pouco.

Eu não te usei. Nunca. Cada segundo ali em cima foi a coisa mais honesta que eu já fiz na vida. Mas agora a honestidade virou uma faca de dois gumes. Se eu te contar a verdade, eu destruo a imagem do “herói” que você guarda dele. Se eu não contar, eu vivo uma mentira toda vez que eu olhar pra você.

Eu olho pro céu escuro, pras janelas quebradas do andar onde eu te deixei. Eu sei que você tá lá se convencendo de algo, achando que é lixo. E isso me rasga por dentro mais do que qualquer horda.

Eu sou um Dixon, Lyra. E a gente não sabe amar sem machucar.

Eu me agacho no chão sujo, a besta jogada de lado, a cabeça entre os joelhos. Eu não vou evaporar. Eu não consigo ir embora, mesmo que eu quisesse. Meus pés não me levam pra longe de você. Mas eu também não sei como voltar. Não ainda.

Eu fico ali, no escuro, ouvindo o silêncio da cidade e o som do meu próprio coração batendo o nome do meu irmão e o seu, num ritmo que eu não sei como consertar.

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