Já fazia um tempo que eu sabia que
ela passava por aquela área. Não por boato, nem por trilha óbvia, mas porque
algumas coisas não acontecem por acaso. Walker abatido sem barulho. Armadilha
desmontada com cuidado. Porta fechada depois de saque, como se alguém ainda se
importasse com ordem num mundo que não liga mais pra isso.
Gente descuidada não sobrevive
assim.
Gente desesperada também não.
Eu não segui de imediato. Observei
à distância por dias, cruzando sinais, confirmando padrões. Quem anda sozinho
por escolha costuma ser mais perigoso do que grupo grande. E ela andava sozinha
como quem sabe exatamente o que tá fazendo.
Quando a vejo dessa vez, não me
escondo tanto quanto antes. Fico entre as árvores, besta firme nas mãos,
respirando devagar, deixando o mundo fazer barulho por mim. Ela se move com
calma, sem pressa, parando onde faz sentido parar. Olha o terreno antes de avançar.
Calcula. Não desperdiça energia.
Isso chama atenção.
Ela entra num prédio pequeno,
antigo, desses que ninguém gosta de limpar sozinho. Lugar apertado, portas
demais, cheiro de ferrugem e mofo. Gente inexperiente evita. Gente experiente
entra rápido e sai rápido.
Eu espero.
O tempo passa sem nada explodir,
sem grito, sem tiro. Um walker sai cambaleando pela lateral e cai antes de dar
dois passos, faca cravada direto no crânio. Limpo. Silencioso. Do jeito certo.
Ela aparece logo depois, retira e limpa
a lâmina na calça sem cerimônia e faz uma varredura rápida com os olhos. Não é
paranoia. É hábito. Quase me encontra com o olhar. Quase.
Isso me diz duas coisas: ela é
boa… e não gosta de ser seguida.
Dou um passo à frente de
propósito. Não avanço agressivo, mas também não me escondo mais como antes. Um
galho estala sob minha bota. Não é erro. É aviso.
Se ela for o eu acho que é, vai
saber que não está mais sozinha.
E se reagir…
Vou saber exatamente com quem
estou lidando.
** Lyra **
Cinco anos se passaram desde que
meu coração deixou de sentir qualquer coisa além de dor e passou apenas a
cumprir sua função original e mecânica de bombear sangue pelo corpo.
O cabelo colorido e desbotado que
ele tanto gostava cresceu, se transformou de volta no castanho claro natural
com que nasci, mas ainda o mantenho curto na altura dos ombros. É mais prático.
Menos pra agarrar. Menos pra atrapalhar.
Já faz uns dias que tem um cara me
seguindo pelas ruínas e estradas vazias. Ainda não vi o rosto dele, mas sei que
é um homem pelo peso dos passos, pelo tamanho das marcas que deixa. E sei que
não devo me alarmar — ainda — porque se ele quisesse ter tentado algo, já teria
feito. E eu? Teria metido uma bala bem no meio da cabeça dele antes que
terminasse o movimento.
Quando saio do prédio velho e paro
pra limpar minha faca na calça, sinto a presença desse mesmo homem se movendo
entre as árvores ao longe. Sei porque ouço o estalo de um galho quebrando sob
um passo. E aposto minha vida que ele fez isso de propósito pra ser notado, pra
anunciar presença.
Afinal, nos últimos dias ele
parecia um espírito me seguindo nas sombras. Silencioso. Quase invisível.
Quase.
Mas eu fui muito bem treinada pelo
homem que perdi há cinco anos atrás. Aprendi a notar o que não devia ser notado.
A sobreviver quando não devia conseguir.
A dor ainda não se curou. Nunca
vai se curar. Mas viver, continuar respirando mesmo sem querer, é uma forma de
honrar a memória dele. De não desperdiçar o sacrifício que ele fez.
Viro o corpo na direção do som, a
mão já descendo instintivamente pra arma na cintura, os músculos tensos e
prontos.
— Se aproxima demais e o próximo
crânio que essa lâmina vai se fincar é o seu. — digo em alto e bom tom, a voz
saindo firme, sem hesitação. — O que diabos você quer e por que está me
seguindo há dias?
Não grito. Não preciso. A ameaça
está clara o suficiente no tom.
Espero a resposta com os olhos
fixos nas árvores, calculando distância, trajetória, pontos de fuga.
** Daryl **
Você vira rápido. Rápido demais
pra alguém distraída. A mão vai direto pra arma, sem tremor, sem pressa. Não é
ameaça vazia, é aviso real.
Eu paro onde tô.
Não levanto a besta de imediato.
Também não baixo. Deixo visível, mas solta o suficiente pra mostrar que não tô
ali pra disparar primeiro. Dou dois passos pra fora da cobertura das árvores,
devagar, sem gesto brusco. Quem sabe o que tá fazendo não precisa correr.
— Se eu quisesse te matar, não
tinha quebrado galho nenhum. — digo, a voz baixa, firme, sem ironia. — E você
já teria me visto antes.
Você não puxa a arma.
Boa.
— Tô seguindo porque você anda
sozinha… — continuo, mantendo a distância. — …e porque anda bem demais pra isso
ser descuido.
Olho rápido ao redor antes de
voltar pra você. Hábito. Sempre foi.
— Não tô aqui pra te roubar. Nem
pra te levar pra lugar nenhum. — dou de ombros, quase imperceptível. — Só
queria saber quem atravessa esse território limpando tudo sem fazer barulho.
Faço um gesto curto com a cabeça,
indicando o prédio atrás de você.
— Lugar ruim pra se meter sozinha.
— acrescento. — Mas você saiu sem um arranhão. Isso chama atenção.
Silêncio entre nós. Denso.
Calculado.
— Pode baixar a mão da arma… ou
não. — digo depois de um segundo. — Fica a seu critério.
Dou um passo lateral, abrindo mais
espaço ainda entre nós, mostrando que não vou avançar.
— Meu nome é Daryl. — falo por
fim. — E não tô aqui pra te causar problema.
Paro de falar.
Agora é com você decidir se
acredita… Ou se vai tentar me matar.
** Lyra **
— Daryl? — repito o nome, tirando
a mão da arma na cintura e voltando a limpar a faca ensanguentada antes de
guardá-la de volta na bota com um movimento automático. — Nome de caipira do
cacete.
Dou alguns passos curtos à frente,
cautelosa, mas não com medo. O suficiente pra conseguir enxergar parcialmente
seu rosto recortado contra a luz forte do sol entre as árvores. Cabelo
comprido, ombros largos, besta pendente em uma das mãos.
Caçador.
Permaneço em silêncio tenso por
longos segundos, só te encarando à distância, medindo um ao outro como animais
decidindo se vale a pena lutar ou recuar. Antes de finalmente abrir a boca pra
falar qualquer coisa novamente.
— Se você quisesse causar
problemas... — faço uma pausa, inclinando a cabeça de leve. — Ia só ficar
querendo mesmo.
Ajeito a mochila pesada nas
costas, a barra de ferro presa nela tilintando contra o zíper. Suspiro fundo,
cansada demais pra lidar com mais merda hoje, e começo a andar na direção
oposta de onde vim. Seguindo a rua deserta e morta, o asfalto rachado sob
minhas botas.
Ouço seus passos leves vindo logo
atrás de mim. Leves demais pra um homem daquele tamanho. Controlados.
Treinados.
Paro no meio da rua, respiro fundo
novamente tentando controlar a irritação.
— E vai continuar me seguindo pelo
visto... — falo sem me virar, a voz saindo cansada. — Eu querendo ou não, é
isso?
Giro o pescoço só o suficiente pra
olhar por cima do ombro.
— Qual é sua? Tá entediado?
Procurando companhia? Ou só gosta de ser irritante mesmo?
** Daryl **
Você anda.
E eu acompanho.
Não é insistência cega. É decisão.
Quando você caminha sem olhar pra trás, eu já sei que não é fuga. É teste.
Gente que foge não deixa as costas tão expostas assim.
— Não tô entediado. — respondo,
mantendo o mesmo ritmo, sem encurtar demais a distância. — E companhia não é
coisa que eu procuro.
O asfalto rachado trinca mais sob
as botas. Lugar aberto demais. Ruim pra conversa longa, pior ainda pra
distração. Olho pros telhados, pros carros abandonados, pras janelas quebradas.
Nunca desligo.
— E não gosto de ser irritante. —
acrescento depois de um instante. — Mas aprendi que às vezes é melhor incomodar
do que fingir que não viu nada.
Você para de repente. Eu paro
também, no mesmo segundo. Não por susto. Por leitura de corpo. Seu jeito muda
antes do movimento. Sempre muda.
— Minha resposta é simples. —
digo, sem rodeio, quando você olha por cima do ombro. — Eu passo por aqui com
frequência. E você também. Dois sobreviventes bons demais andando sozinhos no
mesmo trecho… isso acaba dando problema.
Dou de ombros de novo, gesto
curto, contido.
— Não tô tentando te convencer de
nada. — continuo. — Só tô dizendo o que vejo.
O silêncio volta a se espalhar.
Não pesado como antes. Mais… atento.
— Se quiser que eu fique atrás e
só cubra as costas, eu faço. — falo. — Se quiser que eu siga outro caminho, eu
sigo. Mas enquanto a gente dividir essa estrada, não vou fingir que você não
existe.
Dou mais um passo, ainda mantendo
espaço.
— Agora… — concluo, a voz firme,
sem desafio. — se você quiser saber por que eu resolvi ficar por perto, vai ter
que andar mais um pouco comigo.
Não avanço, mas também não recuo.
Espero a sua decisão, do jeito que
gente que já perdeu tudo aprende a esperar.
** Lyra **
Eu penso em te mandar à merda,
penso seriamente em dar um tiro de aviso bem perto do seu pé só pra você cair
fora, penso até, num momento de cansaço extremo, em atirar na minha própria
cabeça, só pra ter cinco malditos minutos de paz.
Mas há algo em você, nesse jeito
quieto, nesse sotaque arrastado do sul que escapa nas poucas palavras que diz,
que me faz querer te dar mais atenção do que eu deveria. Ou do que gostaria de
admitir.
Talvez seja a solidão falando mais
alto. Talvez seja só curiosidade mórbida.
— Vai, Rambo. — digo em tom
irônico finalmente virando o corpo por completo na sua direção, te encarando de
frente agora. — Me conta sua história toda até minha próxima parada, e eu
decido se quero ou não sua presença irritante na minha cola.
Entorto o lábio, impaciente, ergo
as sobrancelhas num desafio silencioso e faço um gesto seco com o queixo,
apontando pro chão de asfalto perto de mim.
— Mas se falar bobagem demais, ou
se andar devagar e me atrasar... — deixo a ameaça no ar por um segundo. — Eu te
jogo pros podres e sigo minha vida.
Cruzo os braços sobre o peito, já
me arrependendo da minha decisão mesmo antes de terminar de falar. Mas no
fundo, lá bem no fundo enterrado sob camadas de dor e solidão, falar com alguém
depois de tanto tempo sozinha faz eu me lembrar que ainda estou viva. Que ainda
sou humana.
E me lembrar até do tom da minha
própria voz quando não estou só resmungando sozinha.
— Então? — cutuco impaciente. —
Vai ficar aí parado feito poste ou vai andar?
** Daryl **
Você provoca porque é mais fácil
do que admitir que já decidiu não atirar.
Eu não sorrio. Também não fecho a
cara. Só inclino a cabeça de leve, analisando o jeito como você cruza os
braços, o peso jogado numa perna só, a arma ainda acessível mesmo quando finge
relaxar. Você não tá dando permissão. Tá testando limite.
— Rambo morreu faz tempo. —
respondo, começando a andar quando você manda, sem pressa, mas sem te atrasar.
Ajusto o passo ao seu, um pouco atrás, nunca exatamente ao lado. — E história
inteira não tenho. Só um pedaço.
O asfalto segue rachado, calor
subindo do chão. Lugar exposto demais pro meu gosto, mas você escolheu o
caminho, então fico atento pros flancos enquanto falo. Não olho direto pra
você. Não costumo falar olhando nos olhos.
— Cresci no sul. — começo. —
Caçando mais do que estudando. Aprendi cedo a ficar quieto. Isso ajuda a não
apanhar… e a não morrer.
Pulo uma parte. Sempre pulo.
— Quando o mundo caiu, eu já sabia
sobreviver. — continuo. — Só precisei aprender a fazer isso com gente morta
andando por aí.
Um silêncio curto se instala entre
uma frase e outra. Não é falta de assunto. É meu jeito.
— Não fico em grupo grande. —
acrescento. — Gente demais faz barulho. E barulho atrai coisa pior do que
podre.
Olho rápido pra você de canto, só
o suficiente pra medir reação. Você tá ouvindo. Mesmo fingindo que não liga.
— Ando por aqui porque é rota boa.
— digo. — Água perto. Caça. Pouco movimento. Até você começar a passar por aqui
também.
Paro de falar por um momento.
Deixo o som dos passos preencher o espaço.
— Não tô pedindo pra ficar. —
concluo, simples. — Só dizendo que, se você me jogar pros podres, vai ter que
mirar melhor do que ameaça.
Continuo andando, no mesmo ritmo,
deixando claro que não vou acelerar pra te impressionar… nem ficar pra trás pra
te irritar.
— Sua próxima parada fica longe? —
pergunto por fim, como quem pergunta o tempo. — Porque eu ando melhor quando
sei até onde vou.
** Lyra **
Reviro os olhos ouvindo sua
história enquanto caminhamos quase lado a lado pela estrada abandonada. Garoto
do sul, caipira, criado no mato. Independente desde cedo. Sobrevivente nato.
Quase sorrio por lembrar de alguém
que conheci há muito tempo.
Quase.
Mas o sorriso sequer nasce.
— Fica alguns poucos quilômetros à
frente. — informo apontando vagamente pra direção nordeste com o queixo. — Um
posto de gasolina velho que está tão rodeado de mato agora, tão engolido pela
natureza, que chega a ser um bom lugar escondido pra comer algo, descansar um
pouco sem ser incomodada.
Você anda com firmeza ao meu lado,
mas pisa leve como gato, fala baixo quando fala, não faz barulho desnecessário.
Não precisa olhar pro chão pra desviar de galhos ou lixo. Já sabe onde pisar
por instinto.
Isso me traz uma certa leveza
estranha no peito. E também uma tensão incômoda.
— Você é o tipo de pessoa que não
precisou de muito pra se adaptar ao fim do mundo, pelo visto. — comento depois
de um tempo, com respeito medido na voz. — Já nasceu pronto pra isso, né? Se
fosse uns bons anos atrás... eu teria gostado de ter te encontrado por aí.
Seria bem-vindo no grupo.
Grupo.
A palavra sai amarga na boca.
Já nem me lembro direito mais do
que é estar rodeada de gente. Do barulho de vozes conversando. De risadas. De
discussões bobas sobre quem vai fazer a ronda.
Balanço a cabeça afastando as
memórias que não ajudam em nada.
— Mas isso foi há muito tempo. —
murmuro mais pra mim mesma do que pra você.
Aperto o passo, focando no caminho
à frente.
** Daryl **
Ouço você falar de grupo e sei,
pelo jeito que a palavra cai, que não é só passado. É coisa enterrada que ainda
pesa. Não pergunto. Aprendi faz tempo que algumas perguntas só servem pra abrir
ferida que a gente passa a vida tentando fechar.
— Posto velho costuma ser bom
abrigo. — digo apenas, ajustando a direção quando você aponta. — Desde que não
tenha cheiro de gente morta.
Ando no mesmo ritmo que você, nem
acelerando, nem ficando pra trás. Gente que anda junta sem combinar passo tá
dizendo alguma coisa sem perceber. Você muda o ritmo quando pensa demais. Eu
percebo mas não comento.
Quando você fala que eu já nasci
pronto pro fim do mundo, solto um ar pelo nariz, quase um riso que não chega a
acontecer.
— Ninguém nasce pronto pra isso. —
respondo, simples. — Só aprende rápido… ou não aprende.
Olho em volta de novo, maldito hábito,
e depois volto a atenção pra frente. O mato fecha mais conforme a estrada
avança. Menos visibilidade. Melhor e pior ao mesmo tempo.
— Se fosse antes… — repito baixo,
mais pra confirmar do que pra continuar o assunto. — Antes sempre parece mais
fácil quando a gente olha pra trás.
Você aperta o passo. Eu acompanho
sem esforço. Não tento puxar conversa agora. Já falei o suficiente. Sei quando
ficar quieto é a melhor forma de não estragar o momento.
Depois de alguns metros em
silêncio, acrescento, sem olhar pra você:
— Grupo não é só quantidade. —
digo. — Às vezes é só não andar sozinho por tempo demais.
Não explico. Não preciso.
Continuo andando, atento ao
caminho, aos sons, ao que pode aparecer entre as árvores…
E ao fato de que você ainda não
mandou eu ir embora.
** Lyra **
— Chegamos. — digo seca, me
embrenhando no mato alto e cheio de espinhos até sairmos diante do tal posto
abandonado do qual comentei. — Se quiser ficar, comer algo, fique à vontade.
Depois, faça o que quiser da vida. Durma aí. Vá embora...
Empurro a porta enferrujada com um
solavanco de ombro. A dobradiça range alto e cede, quase caindo, só me fazendo
lembrar de como o tempo tem passado rápido demais nesses anos todos. Os dias
parecem intermináveis, arrastados, mas os anos... os anos voaram sem eu
perceber.
— Eu não costumo deixar ninguém se
aproximar. — resmungo entrando e sentando no chão de concreto frio, costas
apoiadas na parede descascada, rosto virado estrategicamente pra porta. Sempre
de olho na saída. — Não sei por que raios eu deixei um caipira fodido que nem
você vir comigo até aqui.
Puxo duas latas amassadas da
mochila, jogo uma pra você sem cerimônia nenhuma. Abro a minha com uma faca velha
e cega que uso só pra esse tipo de coisa mesmo, pra não estragar o fio da minha
outra lâmina.
Aquela faca.
Afasto o pensamento com raiva.
— Se tentar alguma gracinha ou
fizer qualquer besteira... — te encaro séria enquanto levo a lata aos lábios. —
Eu atiro nos seus culhões primeiro, e depois na sua cabeça. Nessa ordem.
Mastigo a comida fria e sem gosto,
observando você do canto do olho.
** Daryl **
O lugar é bom.
Ruim o bastante pra ninguém querer
ficar, bom o bastante pra quem sabe olhar.
Você entra primeiro, sem pedir
cobertura, mas senta de um jeito que não perde a porta nem por um segundo.
Costas na parede, saída no campo de visão, corpo relaxado só na aparência. Isso
não é instinto recém-aprendido. É coisa antiga. Treinada. Enraizada.
Quando você fala que não costuma
deixar ninguém se aproximar, eu acredito. Não pelo tom, pelo jeito que você diz
como se fosse um fato, não um aviso. Gente que ameaça demais tá tentando
convencer. Você não precisa.
A lata vem voando na minha direção
e eu pego no ar sem pensar. O gesto é automático. Familiar demais.
— Agradeço. — respondo só isso,
encostando na parede oposta, mas nunca direto à sua frente. Ângulo aberto.
Sempre.
Abro a lata devagar, mais atento a
você do que à comida. Você come sem frescura, sem cerimônia, do jeito que dá.
Sem perder tempo. Sem transformar isso em momento.
Tem algo no jeito que você xinga.
Não é o palavrão em si, é como ele sai. Seco. Usado quando precisa, não pra
preencher espaço. O tipo de coisa que me dá uma sensação estranha no peito,
como lembrar de algo que eu não tava tentando lembrar.
Você fala de atirar nos meus
culhões primeiro e eu solto um ar pelo nariz, quase outro riso curto.
— Justo. — digo. — Eu faria pior.
Não encaro como flerte. Não é. É
regra. Território. Sobrevivência.
Enquanto você come, observo os
detalhes que você não tenta esconder: o jeito que ajusta a faca mesmo quando
não precisa, a atenção constante ao ambiente, o corpo sempre pronto pra
levantar. Você é arisca. Não desconfiada, mas preparada. Tem diferença.
Isso me incomoda mais do que
devia.
Não porque me ameaça. Mas porque
eu conheço esse tipo de gente. Gente que não foi feita pra viver em paz. Gente
que funciona melhor quando o mundo tá quebrado.
Termino de comer e deixo a lata
vazia no chão, longe dos pés, pra não fazer barulho se alguém chutar sem
querer.
— Não vou dormir aqui dentro. —
digo por fim, simples. — Fico do lado de fora. Cubro o perímetro.
Não é pergunta. Também não é
imposição.
Levanto devagar, sem pressa, pego
a besta e paro na porta um segundo antes de sair.
— Você escolheu um bom lugar. —
acrescento, sem olhar direto. — Dá pra baixar a guarda um pouco…, mas não
muito.
Saio, me posicionando onde consigo
ver a entrada e o mato ao redor, atento aos sons, aos cheiros, aos movimentos
errados.
E, contra a minha vontade, passo a
prestar atenção não só no que pode aparecer lá fora…
Mas em você lá dentro.
** Lyra **
Essa foi a primeira noite de Daryl
na minha vida.
A primeira de muitas, feliz ou
infelizmente. Ainda não decidi qual das duas.
A gente se evitava bastante no
início, falava o mínimo necessário, dormia pouco e sempre em turnos alternados,
interagia apenas quando absolutamente necessário pra sobrevivência. Nada além
disso.
A dupla funcionava bem,
surpreendentemente bem. Silenciosa, eficiente, boa de caça, boa de matar podres
sem desperdício de munição. Boa em estratégias quando a merda apertava. Nada de
drama desnecessário, nada de desperdício de tempo com conversa fiada. Apenas
sobrevivência crua e direta.
Ao menos era isso que eu pensava
no começo.
Quase um ano se passou desde
aquela primeira noite no posto abandonado, e até hoje, passados todos esses
meses, não tem um único dia que eu não revire os olhos com tanta força a ponto
de quase enxergar minha própria nuca por dentro, toda vez que ele, com seu
jeito torto e desajeitado de “piadista”, me chama de princesa.
Princesa.
Logo eu? Chega a ser quase uma
ofensa.
Mas... no fundo, bem lá no fundo
onde não admito pra ninguém...
Até que eu gosto.
** Daryl **
Um ano não parece muito quando
você conta em dias. Parece quando você vive.
No começo, eu achei que a gente
não ia durar uma semana. Não porque faltava habilidade, isso você sempre teve,
mas porque dividir caminho com alguém do seu tipo exige mais do que saber atirar
direito. Exige leitura. Respeito. Saber quando falar e, principalmente, quando
calar.
A gente quase não falava.
Funcionava melhor assim. Turnos alternados, costas cobertas, distância
suficiente pra não atrapalhar. Nenhum dos dois devia nada pro outro além de não
morrer.
Só que o tempo foi passando. E a
rotina foi se instalando do jeito que coisas perigosas costumam fazer: sem
pedir permissão.
Hoje eu acordo antes de você sem
nem perceber que tô fazendo isso. Já sei quando teu humor tá ruim pelo jeito que
você pisa. Sei quando tá cansada pelo silêncio mais longo do que o normal. Sei
até quando você tá com dor, não porque reclama, mas porque muda a mão que
segura a arma.
Você revira os olhos quando eu te
chamo de princesa. Toda vez. Sempre. E toda vez eu chamo de novo, porque sei
que incomoda… e porque você nunca manda eu parar.
Não é provocação barata. É o jeito
torto que encontrei de dizer eu tô aqui sem dizer nada disso em voz alta.
Você anda grudada em mim agora.
Não no corpo, no caminho. Escolhe ficar perto, mesmo quando tem espaço. Divide
comida sem contar. Some por alguns minutos e volta como se fosse a coisa mais
natural do mundo.
Melhores amigos, você diria.
Talvez.
Eu não chamo assim. Não preciso.
Só sei que, quando você some da
minha linha de visão por tempo demais, algo aperta no peito. Não é medo. Não é
pânico. É outra coisa. Uma coisa que eu ignoro do mesmo jeito que ignorei tudo
que não cabia na sobrevivência por anos.
Mas ignorar não faz desaparecer.
Quando você ri, de verdade, sem
ironia, o mundo fica menos barulhento. Quando xinga, parece que tá no lugar
certo. Quando fica quieta demais, eu fico atento demais.
Eu ainda não digo nada. Não
pergunto. Não avanço.
Porque você ainda carrega coisa
demais pra alguém entrar sem cuidado.
Então eu fico. Cubro. Espero.
Do jeito que aprendi a fazer
quando gostar de alguém não é opção…
Mas ir embora também não é.
** Lyra **
Saio do prédio velho onde estou
procurando suprimentos há quase uma hora, coisas úteis como remédios, comida
enlatada, roupas, pisando como se estivesse andando em ovos. Andar na cidade é
bem diferente do que andar no campo aberto ou na mata fechada.
Onde tinha gente demais antes,
costuma ter walkers demais agora. Ou pior ainda, muito pior, ainda ter gente
viva. E gente viva é sempre um problema maior.
— Daryl? — chamo baixo, quase num
sussurro, como se você pudesse me ouvir praticamente no mudo.
E no fundo, sei que pode.
Você está em algum lugar alto por
perto, provavelmente num telhado ou sacada, me cobrindo de longe caso surja
algo que eu não veja se aproximando. Como se eu fosse distraída a esse ponto.
Como se precisasse de babá.
Irritante.
Você desce ágil pelo muro de sei
lá onde diabos estava escondido, com aquela cara azeda e fechada que sempre faz
quando não gosta de algum lugar. E geralmente você não gosta de lugar nenhum
que não seja mato.
Me dá as costas sem falar nada e
já começa a caminhar na direção oposta, presumindo que vou te seguir feito
cachorrinho.
— Mas que porra... — resmungo
irritada antes de me abaixar, pegar uma pequena pedrinha do chão e jogar
certeira na sua cabeça por pura pirraça.
Acerto em cheio.
— Larga mão de ser chato. —
insisto caminhando atrás de você e te puxando pelo braço. — Eu achei um lugar
legal lá dentro, dá pra passar a porra da noite aqui sem problemas. Tem até
camas. Minhas costas estão pedindo isso de joelhos. Por favor.
Faço uma cara de pidona que sei
que te irrita.
— Só uma noite. Prometo que amanhã
a gente sai cedo.
** Daryl **
Cidade nunca me agradou. Tem canto
demais pra coisa errada sair de dentro. Telhado, janela quebrada, escada de
incêndio podre. Tudo ecoa. Tudo engana.
Quando você chama meu nome baixo,
eu já tô descendo. Não porque você precise, você nunca precisou, mas porque é
assim que a gente funciona. Um cobre, o outro sai. Sem discussão.
Caio no chão com leveza,
absorvendo o impacto nas pernas, e já viro de costas, começando a andar. Não
quero ficar ali.
A pedrinha acerta minha cabeça e
eu paro no meio do passo.
Fecho os olhos por meio segundo.
— Sério? — murmuro, passando a mão
pelo cabelo e virando devagar pra te encarar.
Você vem atrás, puxando meu braço
como se tivesse todo o direito do mundo. E talvez tenha mesmo. Um ano andando
junto muda as regras. Você fala das camas, das costas doendo, do “só uma
noite”, e faz aquela cara que não convence ninguém… exceto quando convence.
Eu olho pra porta do prédio.
Depois pra rua. Depois pra você.
Tem coisa no seu jeito agora que
não tinha antes. Não é fragilidade. É confiança. Você não pede abrigo, você
decide ficar. E espera que eu esteja ali.
Isso mexe comigo mais do que deveria.
Pra variar.
— Cidade não é lugar pra baixar
guarda. — digo, sério, mas sem o tom duro de antes. — Principalmente à noite.
Dou dois passos de volta em
direção ao prédio, observando janelas, ângulos, pontos cegos. Você me segue de
perto, grudada demais pra quem reclamava de babá meses atrás.
— Mas… — acrescento, depois de
avaliar mais um segundo. — se tem cama de verdade e saída limpa pros fundos… dá
pra passar uma noite.
Levanto o dedo antes que você
comemore.
— Uma coisa. — reforço. — Portas
trancadas. Turno dobrado. Se eu disser que a gente sai no meio da madrugada, a
gente sai.
Te encaro de lado, sério, mas não
bravo.
— E se jogar outra coisa na minha
cabeça… — faço uma pausa curta. — eu te chamo de princesa o resto da semana.
Viro de novo pro prédio e começo a
andar, já assumindo posição pra entrar primeiro.
Porque eu reclamo. Eu desconfio. Eu
prefiro o mato. Mas, no fim das contas, se você decide ficar…
Eu fico também.
** Lyra **
Enquanto subimos os degraus do
prédio velho em silêncio, minhas costas já me agradecem antecipadamente pelo
descanso que está por vir.
— Tem uns quartos mais limpos no
quinto andar. — comento te olhando por sobre o ombro. — Vasculhei antes. Tem poeira,
mas pelo menos não tem corpos nem podres. Acho.
Você resmunga algo que eu ignoro
completamente, pra variar, enquanto paro em frente à porta de um dos quartos.
— Até amanhã, Darylzinho. — digo
em tom zombeteiro, relaxando os ombros pela primeira vez em dias.
Relaxando demais.
Erro fatal.
Quando abro a porta, já me
abaixando pra descalçar as botas sem prestar atenção, uma duzia de walkers
apodrecidos explodem porta afora, vindo pra cima de mim como avalanche.
— Merda!
Caio de costas no chão, os walkers
cambaleando na minha direção, mãos podres se estendendo, bocas já abertas
mordendo o ar.
Alguém trancou todos do andar
justamente no quarto que eu não verifiquei.
Isso que dá relaxar.
Tento alcançar o revólver, a faca,
qualquer coisa..., Mas já tem dois deles sobre mim. Seguro com força um deles com
as duas mãos, tentando o afastar do meu rosto, enquanto chuto o segundo que
insiste em se agarrar ao meu tornozelo.
— Filhos da puta! — grito enquanto
tento não morrer diante do meu próprio erro.
**Daryl**
Não penso.
O corpo reage antes da cabeça
terminar de processar. Você cai, eles vêm, e eu já tô em cima.
Puxo o primeiro walker pelo
pescoço, arranco ele de cima de você com força bruta e enterro a faca direto na
base do crânio. Ele desaba. O segundo tá agarrado no seu tornozelo, dentes
estalando perto da sua perna, e meu estômago vira.
Chuto a cabeça dele com força até
demais, o impacto quebrando a mandíbula. A faca entra logo depois.
Mas tem mais. Muito mais. Eles
saem do quarto igual formiga, cambaleando, tropeçando uns nos outros, mas
vindo. Sempre vindo.
Te puxo pelo braço, te arrancando
do chão num movimento brusco, e te empurro pras minhas costas.
— Fica atrás de mim! — rosno, sem
olhar pra você.
A faca trabalha rápido. Crânio.
Olho. Têmpora. Não desperdiço movimento. Cada golpe conta. Cada segundo
importa.
Dois caem. Três. Quatro.
Mas o corredor é estreito demais.
Eles se espremem, se acumulam, bloqueiam a saída.
Sinto você se mexendo atrás de
mim, pegando a arma, matando os que tentam passar. A gente trabalha bem assim.
Sem combinar. Sem precisar falar.
Um walker grande demais passa pela
minha guarda, indo direto na sua direção.
Eu viro sem calcular. Me jogo na
frente, a mão livre agarrando a cara dele, segurando os dentes longe do meu
rosto. A boca dele estala no ar, fedendo a carne velha.
A faca entra pela têmpora. O corpo
desaba.
Silêncio.
O corredor fica quieto. Só corpos
no chão. Só nossa respiração pesada ecoando nas paredes sujas.
— Tá limpo. — digo, a voz saindo
mais rouca do que devia. — Pode... pode respirar.
Limpo a faca na calça, e quando
finalmente viro pra você... vejo.
Seus olhos arregalados. Seu peito
subindo e descendo rápido demais. As mãos ainda segurando a arma, mas tremendo
agora.
Você me olha como se eu tivesse
feito a coisa mais idiota do mundo.
E talvez eu tenha.
— Eu tô bem. — digo, antes que
você fale qualquer coisa. — Tá tudo bem.
Passo por você em direção ao
quarto do lado, verificando se tem mais algum escondido. Tem que verificar.
Sempre tem que verificar.
Mas o que eu realmente tô fazendo
é te dando espaço.
Espaço pra decidir se vai gritar
comigo... ou outra coisa.
Porque a adrenalina ainda tá alta.
O coração ainda tá batendo forte demais.
E você tá me olhando de um jeito
que nunca olhou antes.
** Lyra **
“Fica atrás de mim.”
Quando você diz isso, o mundo
começa a passar em câmera lenta diante dos meus olhos.
Você golpeando um walker, enfiando
a lâmina no crânio de outro. Virando, chutando, matando. Seus movimentos
precisos, controlados. Como se não houvesse uma dúzia de mortos-vivos tentando
te devorar.
Meus olhos vidram no nada enquanto
puxo a arma em piloto automático e atiro nos malditos que ainda insistem em
avançar na nossa direção. O estampido ecoa no corredor estreito, mas mal
registro o som.
Tem um filme inteiro passando na
minha cabeça. Vermelho. Sangue. Gritos. Um homem morrendo enquanto eu corro.
E eu conheço bem demais o final
desse filme.
Não de novo.
Quando o massacre finalmente
acaba, corpos desabados no chão num amontoado de carne podre, e eu te vejo
falando sobre verificar os outros quartos, andando tranquilo e enfiando a cara
pra dentro das portas como se fosse só um dia qualquer de limpeza. O mundo de
repente volta a girar na velocidade normal.
É violento. Agudo.
Eu me sinto zonza, enjoada, a
adrenalina dando lugar a outra coisa. Algo pior.
— Você tem merda na cabeça, Daryl?
— disparo avançando com passos rápidos na sua direção, a voz saindo mais alta
do que pretendia. — Tá achando que é imortal? Que é o Hércules? Que é A PORRA
DO BATMAN?
Empurro você pra trás com as duas
mãos abertas no meio do seu peito. Forte. Com raiva. O solavanco te faz
cambalear pra dentro do quarto.
Você não se defende. Não reage.
Nem levanta a mão.
Só me encara com aqueles olhos
azuis confusos, tentando entender.
— Fala alguma coisa! Porra! —
grito de novo, a voz quebrando no final.
Avanço mais um passo, invadindo
seu espaço, os olhos queimando marejados enquanto desconto anos de culpa
acumulada, anos de medo entalado, em você.
— Você podia ter morrido. MORRIDO.
— as palavras saem embargadas, raivosas, desesperadas. — Isso não é um jogo, e
você não tem que tentar ser herói, cacete! Não precisa se jogar na frente
assim!
Respiro ofegante, o coração
martelando no pescoço, já descompassado.
— Eu não posso... — a voz falha. —
Não dá.
**Daryl**
Você me empurra e eu deixo.
Não porque não consigo segurar
você. Porque sei que você precisa disso, agora.
Dou alguns passos pra trás, as
costas batendo contra a parede do quarto, e fico ali. Parado. Te olhando
gritar, te vendo se desfazer na minha frente.
Não é sobre os walkers. Nunca foi.
Quando você avança de novo,
invadindo meu espaço, eu não recuo. Fico plantado ali, deixando você despejar
tudo em cima de mim. A raiva. O medo. A merda toda que você carrega e nunca
fala.
Seus olhos tão molhados... As
lágrimas não caem, mas tão ali. Te traindo.
Você fala, sua voz quebra.
E eu entendo.
Não com palavras. Não com
explicação. Mas entendo.
Você já perdeu alguém assim.
Alguém que se jogou na frente. Alguém que não voltou. Não sei quem. Não sei
quando. Mas sei pelo jeito que você tá me olhando agora, como se eu fosse um
fantasma que não quer ver de novo.
Abaixo a cabeça por um segundo,
respirando fundo, tentando achar as palavras certas. Mas nunca fui bom com
palavras. Nunca fui bom com nada além de fazer.
Então levanto o rosto de novo e te
encaro.
— Eu não morri. — digo, simples.
Firme. — Tô aqui.
Dou um passo à frente, devagar,
diminuindo o espaço entre nós.
— E não vou morrer. — continuo, a
voz saindo mais baixa, mais crua do que eu queria. — Não enquanto você tiver comigo.
Você treme.
Levanto a mão devagar, dando tempo
pra você recuar se quiser. Mas você não recua. Meus dedos tocam seu rosto,
afastando uma mecha de cabelo grudada na testa suada.
— Eu sei que você já viu gente
morrer. — murmuro. — Sei que já perdeu alguém. Mas não vai me perder.
Minha mão desce, os dedos roçando
teu maxilar, o polegar passando de leve pela sua bochecha.
— Não desse jeito. — prometo,
mesmo sabendo que é uma promessa idiota de se fazer no fim do mundo.
Você me olha como se quisesse
acreditar. Como se estivesse travando uma guerra interna entre empurrar de
novo... ou se agarrar.
E então algo muda.
Seus olhos descem pros meus
lábios. Rápido. Quase imperceptível. Mas eu vejo.
Meu coração acelera de um jeito
que não tem nada a ver com walker agora.
— Lyra... — sussurro seu nome pela
primeira vez.
E você avança.
** Lyra **
Seus olhos azuis são a última
coisa que vejo antes de fechar os meus e tomar seus lábios num impulso cego.
Não foi algo planejado. Não foi
nem de longe pensado.
Não foi.
Mas algo dentro de mim quase se
partiu de novo ali, vendo você se jogar no meio daquela merda toda sem hesitar.
E eu não quero nunca mais me arrepender de algo que não fiz. Não de novo. Não
com você.
Eu te beijo com medo, com
desespero mal disfarçado, com gosto amargo de culpa e anos de solidão. Com tudo
que não fui durante esse ano inteiro em que convivemos lado a lado fingindo que
isso era só parceria.
E o que mais mexe comigo, o que me
destroça por dentro, é que você corresponde. Instantaneamente.
Sem pensar.
Você afunda os dedos longos no meu
cabelo, me puxando pra mais perto com urgência, como se tivesse medo que eu
evaporasse ou escorresse pelas suas mãos.
Isso me assusta.
— Me desculpa. — é tudo que
consigo dizer quando finalmente rompo o beijo, ofegante, e me afasto meio passo
para trás.
Olho ao redor desnorteada, como se
a mobília velha ou a poeira acumulada do tempo pudessem me julgar, me acusar de
algo que ainda não cometi completamente.
— Eu... — respiro fundo tentando
me recompor, as mãos tremendo. — Não vai acontecer de novo. Foi... Desculpa.
Me viro nos calcanhares num movimento
brusco, já pronta pra sair pela porta do quarto e passar por cima dos podres
mortos espalhados no corredor. Qualquer coisa pra não ter que encarar você
agora.
Qualquer coisa pra não ter que
admitir o que acabei de sentir.
** Daryl **
Quando você se vira pra sair,
minha mão fecha em torno do seu braço e te puxa de volta num movimento rápido.
Te viro pra mim e tomo sua boca
antes que você fale qualquer merda.
Não é delicado. Não é pedido. É
resposta.
Minha mão sobe pela sua nuca,
segurando firme, te mantendo ali enquanto te beijo com fome, com urgência, com
tudo que segurei pela porra de um ano inteiro.
— Não vai fugir, princesa. —
murmuro contra seus lábios, a voz saindo rouca, grave. — Não agora. Não mais.
Te guio pra trás, andando com você
sem soltar sua boca, te empurrando na direção da cama velha encostada na
parede. Meus dedos afundam no seu cabelo, puxando de leve, inclinando sua
cabeça pro ângulo que eu quero.
Com a mão livre, arranco o colete
do meu próprio corpo e jogo no chão sem olhar pra onde cai. O som do couro batendo
no assoalho ecoa no quarto vazio.
— Um ano... — rosno entre um beijo
e outro, a respiração já pesada. — Um ano te olhando, te querendo, fingindo que
não.
Minha boca desce pelo seu maxilar,
mordendo de leve, sentindo você tremer contra mim.
— Acabou o fingimento agora, Lyra.
** Lyra **
Quando caio de costas sobre a cama
empoeirada e vejo você arrancar aquele maldito colete de couro que nunca tira
por nada nesse mundo, algo dentro de mim parece desatar completamente. Como uma
corda esticada demais que finalmente arrebenta.
Uma das minhas mãos se afunda
desesperada entre os fios compridos do seu cabelo suado, puxando com força,
enquanto a outra sobe por baixo da sua camisa, forçando o tecido pra cima com
urgência. Expondo marcas, cicatrizes profundas, detalhes seus que eu nunca
havia visto antes, mesmo depois de um ano inteiro dividindo o mundo com você.
Rompo nosso beijo apenas o tempo
suficiente para que o tecido passe pela sua cabeça e seja jogado longe sem importância.
Minha boca volta faminta pra linha da sua mandíbula áspera, descendo devagar
pelo seu pescoço úmido se suor, deixando um rastro de saliva. Os lábios
friccionam contra sua pele quente, contra os pelos do peito, contra cicatrizes
antigas que contam histórias que você nunca me contou. Pedaços de tudo que você
é e foi.
— Eu não vou fugir. Não mais. —
murmuro rouca entre beijos molhados, passadas de língua, mordidas leves que
marcam. — Não vou sair correndo dessa vez.
Minhas mãos descem trêmulas se
apressando em desabotoar sua calça jeans surrada, os dedos tropeçando no botão
de metal com a ansiedade. Como se meu corpo e minha mente finalmente
colapsassem um contra o outro depois de tanto tempo isolada de calor humano,
sem toque, sem nada além de sobrevivência fria.
— Eu não quero que isso seja
rápido, Daryl. — confesso olhando nos seus olhos azuis intensos enquanto minha
respiração falha. — Quero sentir cada segundo.
Minha língua desliza devagar pelo
centro do seu peito nu, descendo pela linha dos músculos definidos, enquanto
você se ajeita melhor sobre mim, desencostando as botas sujas e empurrando-as
pra longe com os próprios pés sem tirar os olhos de mim.
Como se tivesse medo que eu
desaparecesse se piscasse.
** Daryl **
Você me olha como se eu fosse
sumir. Como se piscar fosse te custar tudo.
Eu não tiro os olhos do seu rosto
enquanto chuto as botas pro lado. Não porque eu precise ver. É porque eu não
consigo parar.
Sua mão no meu cabelo puxa forte e
eu seguro o gemido que sobe da garganta. Não faço questão de fazer barulho.
Nunca fiz. Mas você me desmonta de um jeito que não tem nome, cada toque seu me
quebrando os pilares um por um.
Quando sua boca desce pelo meu
peito, eu fecho os olhos. Só um segundo. É o que eu aguento.
— Um ano. — a frase sai mais rouca
do que eu queria. — Um ano te olhando, te querendo, te vendo passar por mim
como se eu fosse só... isso.
Abro os olhos de novo e você tá ali,
os lábios úmidos, o olhar vidrado em mim. Sua mão ainda treme no botão da minha
calça. Eu cubro seus dedos com os meus, parando o movimento.
— Não rápido. — concordo, a voz
baixa, firme, mas com um tremor que me trai. — Do jeito que eu esperei, não vai
ser rápido.
Solto sua mão e deslizo meus dedos
pelo seu rosto, afastando o cabelo grudado na testa. O polegar passa pela sua
boca aberta, sentindo sua respiração quente.
— Tira a camisa. — peço baixo. Não
é ordem. É pedido. Mas a urgência tá ali, vibrando nos meus dedos.
Você obedece, erguendo os braços,
o tecido subindo devagar, expondo sua pele. E eu paro. Olho cada centímetro que
aparece: as marcas que já conhecia de vista, as cicatrizes que você também nunca
explicou, o corpo que eu passei um ano inteiro tentando não encarar por tempo
demais.
— Porra... — a palavra escapa sem
licença.
Minhas mãos encontram sua cintura,
os dedos apertando de leve, só sentindo. A pele quente, viva. Você treme sob
meu toque.
— Toda vez que você passava por
mim... — murmuro, aproximando o rosto, o nariz roçando sua clavícula. — Toda
vez que você enfiava a faca na bota e olhava pro lado sem me ver...
Meus lábios encontram sua pele.
Primeiro na curva do ombro, depois descendo devagar, tão devagar, como se a
gente tivesse todo tempo do mundo. Como se o mundo não tivesse acabado e a
gente não fosse pó esperando pra cair.
— Eu pensava nisso. — confesso
contra seu peito. — Em te ter aqui. Em te ouvir gemer meu nome.
Minha boca sobe de volta,
encontrando seu pescoço, e quando chego no seu ouvido, mordo o lóbulo com
cuidado, sentindo você se arrepiar inteira.
— Agora eu tô te ouvindo. —
sussurro rouco. — E quero mais.
Minha mão desce, finalmente
desabotoando sua calça, puxando o zíper devagar. Não tiro ainda. Só passo os
dedos por cima do tecido, sentindo seu corpo responder.
— Lyra. — chamo seu nome, a voz
mais grave agora. — Olha pra mim.
Você abre os olhos. Tão perto. Tão
cheia de coisas que eu não sei explicar.
— Eu vou te ter com calma. —
prometo, o polegar traçando a linha da sua calça. — Vou sentir cada pedaço de
você. Porque eu esperei muito por isso.
Minha boca volta pra sua, mais
lenta agora. Sem aquela fome desesperada do corredor. É outra coisa. É
promessa. Entrega.
Meus dedos encontram seu calor, e
eu sorrio quando sua respiração falha.
** Lyra **
Quando seus dedos finalmente se
afundam em mim, explorando, preenchendo, sinto meu corpo inteiro arquejar
violentamente, a respiração falhar e morrer na garganta, as costas envergarem
num arco perfeito.
Me sinto viva. Completamente viva
como não me sentia há tanto tempo que nem consigo mais lembrar.
— Não para... — a voz sai
arrastada, embargada, entregue de um jeito que me assusta. — Por favor, não
para.
Enfio os polegares trêmulos por
dentro do jeans, forçando o tecido pra baixo com urgência desesperada,
liberando mais espaço, mais acesso, enquanto seus dedos calejados continuam
trabalhando em mim com uma maestria inesperada.
Sinto seu polegar áspero
pressionar meu clitóris com força, ao mesmo tempo que dois dedos longos se
afundam mais fundo na minha umidade, me abrindo, me tomando, arrancando gemidos
baixos da minha garganta.
Quando finalmente consigo afastar
o restante da minua roupa com dificuldade, quase rasgando o tecido de tanto
anseio, minha mão desce pra dentro da sua calça aberta. Envolvo seu membro duro
e quente entre meus dedos e palma, sentindo-o pulsar contra minha pele.
— Eu não vou ser torturada
sozinha. — gemo rouca enquanto movo o punho com firmeza, masturbando você no
mesmo ritmo exato em que você me toca e me fode com os dedos.
Sinto espasmos involuntários
começarem a tomar conta dos meus músculos, ondas de prazer subindo pela coluna.
A respiração fica completamente errática, descontrolada, enquanto as pontas dos
meus pés se forçam contra o colchão velho procurando apoio. Meus quadris se
elevam sozinhos, involuntários, buscando mais pressão, mais profundidade, mais
de você.
— Daryl... porra... — solto entre
gemidos entrecortados, a mão apertando mais forte ao redor do seu membro latejando.
— Eu preciso... preciso de você.
** Daryl **
Sua mão apertando meu membro com
força enquanto você geme meu nome daquele jeito quase me faz perder o controle
que ainda tô segurando com unhas e dentes.
Meus dedos param dentro de você
por um segundo enquanto meu corpo processa o que tá acontecendo. A pressão, o
ritmo, o jeito que você aperta exatamente quando eu aperto. É como se a gente
tivesse feito isso mil vezes. Como se esse tempo juntos tivesse sido só ensaio.
Solto um gemido baixo quando sua
mão me pressiona ainda mais, e dessa vez eu nem tento segurar. Não faz sentido
mais.
— Assim... — a palavra sai quase como
um rosnado. Minha testa cai contra a sua, a respiração pesada batendo na sua
boca. — É assim que você quer brincar?
Meus dedos voltam a se mover
dentro de você, mais fundo agora, o polegar circulando no clitóris no ritmo que
eu vejo que faz você se contorcer. Seu corpo arqueja embaixo de mim e eu sinto
cada tremor, cada espasmo, cada vez que você aperta meus dedos.
— Tá molhada pra caralho. —
murmuro contra sua boca, a voz mais grave do que nunca.
Sua mão me aperta mais forte e eu
empurro contra sua palma sem querer, o quadril fugindo do controle. Você ri, um
riso entrecortado, cheio de ar e tesão, e eu mordo seu lábio em resposta.
— Acha graça?
Tiro os dedos devagar, tão devagar
que seu corpo inteiro se arqueia tentando me manter. Você geme, reclama, me
xinga baixo. Eu seguro sua cintura com as duas mãos e puxo sua calça o resto do
caminho que faltava, arrancando dos seus pés num movimento seco.
Fico entre suas pernas, olhando.
Sua pele arrepiada, sua respiração falhando, seus olhos presos nos meus. Meu
membro tá duro, latejando, encostando na sua coxa enquanto eu só... olho.
— Olha pra mim, Lyra — murmuro
rouco. Não desvio o olhar nem por um segundo. — Não vou te torturar. Vou te dar
tudo que você precisa. Tudo que eu segurei até agora.
Com a mão livre, me guio até sua
entrada molhada, esfregando devagar, sentindo você se contorcer debaixo de mim,
quadris tentando subir pra me puxar pra dentro. Entro centímetro por
centímetro, devagar, sentindo suas paredes quentes e apertadas me engolirem. Um
gemido grave escapa do meu peito quando tô todo dentro, fundo pra caralho, completamente
encaixado.
— Porra… isso é bom pra cacete. —
sussurro contra seus lábios, ainda sem me mexer, só sentindo você pulsar ao meu
redor. — Tô aqui. Inteiro. E não vou a lugar nenhum nunca mais.
Começo a me mover. Estocadas
profundas, lentas e controladas no começo, girando os quadris pra roçar bem no
ponto que te faz arquear as costas. Seguro com força na sua cintura com as duas
mãos, puxando você contra mim a cada vez que afundo. Meus olhos não saem dos
seus. Quero ver cada reação no seu rosto, cada gemido que eu arranco de você.
Acelero o ritmo aos poucos, ainda
profundo, ainda controlado, mas mais forte. Uma das minhas mãos sobe pro seu
peito, apertando o seio com força enquanto o polegar roça o mamilo. A outra
desce entre nossos corpos, encontrando seu clitóris inchado de novo, circulando
em pressão firme e constante.
** Lyra **
Quando você tira seus dedos de
dentro de mim, sinto meu corpo inteiro se contrair em protesto, os músculos
internos apertando o vazio como se meu instinto fosse te manter ali por mais
tempo, te prender.
— Filho da puta... — resmungo
frustrada, sentindo meu prazer se quebrar ao meio, deixando só a necessidade
crua no lugar.
Sinto seu membro duro e quente
latejar insistente entre as minhas coxas abertas, seu peso afundando meu corpo
contra o colchão surrado que a essa altura já não tem sequer mais importância
nenhuma.
Poderia ser no chão sujo, na mesa
velha, contra as paredes descascadas que eu não me importaria nem um pouco.
Meus olhos se fixam hipnotizados
nos seus quando você pede baixo, quase rouco, pra eu te olhar. O pedido me soa
como ordem absoluta, e meu olhar obedece com anseio doentio, incapaz de
desviar.
Quando você me invade finalmente, devagar,
mas implacável, fundo, preenchendo cada centímetro vazio, eu quase esqueço
completamente como é que se respira.
Minhas sobrancelhas se comprimem
de prazer intenso, meus lábios se abrem num “o” mudo, e quando o ar finalmente
consegue preencher novamente meus pulmões, eu solto um gemido longo e arrastado
enquanto meu corpo te recebe inteiro como se tivesse sido feito única e
exclusivamente pra isso.
— O único lugar que você vai
agora... — murmuro com a voz arrastada, rouca, decidida — é pra debaixo de mim.
Apoio minha mão firme no seu
antebraço suado, guiando seu corpo pra o lado, enquanto minha perna já passa
por cima de você num movimento ágil sem que você saia de dentro de mim sequer
um centímetro.
Quando seu corpo está
completamente sob o meu, rendido, eu me firmo melhor sobre os joelhos e peitos
dos pés, jogando o corpo pra trás num arco, empinando, começando a cavalgar em
você com uma maldita calma que eu nunca tive pra absolutamente nada na vida.
— Eu jamais pensei em admitir isso
em voz alta... — confesso ofegante, os quadris se movendo em círculos lentos. —
Mas já me peguei mentalmente assim, sobre você, várias vezes nesses últimos
meses.
Sinto você soltar o ar com força
pelo nariz e boca entreaberta cada vez que subo devagar quase tirando você
completamente de mim, te provocando, e desço de volta ondulando os quadris pra
sentir você me preencher por completo novamente, até o fundo, até doer de
prazer.
** Daryl **
Quando você me empurra pro lado e
sobe em cima de mim sem me deixar sair de dentro nem por um segundo, um
grunhido baixo escapa da minha garganta. Não é protesto. É surpresa misturada
com algo mais quente, mais fundo. Você me monta com aquela calma maldita, como
se tivesse passado meses imaginando exatamente isso, e agora tá cobrando cada
segundo disso.
Meu corpo cai de costas no colchão
velho, mas meus olhos não saem dos seus. Nem por um instante. Vejo você se
firmar nos joelhos, peitos dos pés plantados, costas arqueadas, empinando pra
caralho enquanto começa a cavalgar devagar. Cada descida faz me faz afundar
inteiro em você, apertado, molhado, quente pra porra.
— Porra, Lyra… — rosno rouco, as
mãos subindo pra agarrar sua cintura com força, dedos afundando na carne macia.
Não pra te parar. Pra te sentir. Pra te ajudar a descer mais fundo. — Você
pensou nisso… eu também. Todo dia. Toda noite. Te imaginando exatamente assim…
montando em mim como se eu fosse seu.
Meu quadril sobe pra encontrar o
seu quando você desce, estocando pra cima devagar, mas firme, fazendo você
sentir cada centímetro. Uma das minhas mãos sobe pelas suas costelas, aperta seu
seio. A outra fica na sua cintura, guiando o ritmo sem tirar o controle de você,
só acompanhando, sentindo.
Você confessa que já se imaginou
assim e algo aperta forte no meu peito. Não é só tesão. É mais. Um ano de
silêncios, de olhares de canto, de querer sem poder falar. Agora tá tudo ali,
exposto, enquanto você me cavalga com aquela ondulação lenta que me deixa
louco.
— Não para então... — murmuro
grave, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia. Puxo você pra frente com a
mão na sua nuca, fazendo seus seios colarem no meu peito, o rosto perto o
suficiente pra sentir sua respiração quente. — Quero ver seu rosto quando você
gozar.
Meu braço envolve sua cintura,
segurando você firme contra mim enquanto começo a estocar pra cima com mais
força, mais fundo, sincronizando com suas descidas. O som molhado dos nossos
corpos se chocando enche o quarto velho, misturado aos seus gemidos e aos meus
grunhidos.
— Eu esperei por você. — confesso
contra sua boca, mordendo seu lábio inferior de leve antes de beijar fundo,
língua invadindo no mesmo ritmo das estocadas. — Não foi só sobrevivência,
princesa. Foi você. Todo esse tempo… foi você.
Acelero um pouco mais, quadril
batendo contra o seu, uma mão descendo pra apertar sua bunda, forçando você a
cavalgar mais forte. Sinto você apertando ao meu redor, tremendo, e isso me faz
rosnar contra seu ouvido.
— Goza pra mim, princesa. — a
palavra sai com um meio-sorriso torto, rouco, carregado. — Goza no meu pau.
Deixa eu sentir você desmontando em cima de mim.
Quero ver. Quero sentir cada tremor.
Quero que você saiba que isso aqui não é só foda. É mais. Muito mais.
** Lyra **
Você me puxa com força contra
você, colando seu corpo suado no meu, me envolvendo completamente com seus
braços fortes, me fazendo sentir cada músculo tenso, cada gota de suor
escorrendo, cada pulsação acelerada do seu coração contra o meu peito. Me faz
perder totalmente a compostura que tentei manter.
— Então sente o que você faz com a
sua princesa. — retruco rouca, mordendo seu lábio de volta com força, puxando-o
entre meus dentes.
Minha mão se afunda nos fios do
seu cabelo molhado de suor, puxando seu rosto ainda mais contra o meu, te
beijando com intensidade, os olhos abertos, querendo devorar cada reação sua.
Enquanto a outra mão desenha caminhos infinitos e tortuosos pela sua pele
quente, afundando os dedos a cada músculo enrijecido de prazer puro.
Meus movimentos sobre você
aceleram, ficam urgentes, desesperados. A umidade escorre entre nós, estala
alto a cada sobe e desce frenético ao encontro do meu próprio prazer egoísta.
Você sorri torto contra meus
lábios quando sente meu corpo começar a me trair. Os movimentos falhando na
repetição do ritmo, a musculatura retesando até doer, as pernas ficando
completamente trêmulas, a respiração vacilando entre os gemidos.
— Vai me sentir escorrer de prazer
por você, caipira. — gemo desesperada contra sua boca aberta. — Vai sentir
tudo...
Quando meu orgasmo explode
violentamente, me apertando ainda mais em torno de você num espasmo que não
consigo controlar, eu solto um gemido escancarado e agudo que reverbera pelo ar
quente e parado do quarto.
Sinto seus dedos afundarem com
brutalidade na carne da minha bunda e quadris, me apertando, me segurando como
se temessem que eu fosse sair de cima de você, que fosse escapar.
O prazer vem em ondas sucessivas,
e a cada uma que me atravessa eu respiro ofegante gemendo seu nome cada vez
mais baixo, mais fraco.
— Daryl...
Até restar apenas minha respiração
completamente irregular, entrecortada, e gotas de suor escorrendo pelas minhas
costas arqueadas, descendo pela minha espinha.
** Daryl **
Eu fico completamente obcecado com
a visão de você gozando em cima de mim.
Seus olhos se apertam, a boca abre
num gemido longo que enche o quarto inteiro, o corpo tremendo violento enquanto
você me aperta por dentro, pulsando, escorrendo quente ao meu redor. Cada
espasmo seu me faz grunhir, os dedos afundando com força na sua bunda,
segurando você no lugar como se minha vida dependesse disso. Não deixo você
desacelerar. Não deixo você escapar. Quero sentir cada segundo desse orgasmo
atravessando você.
— Isso… porra, isso… — rosno rouco
contra sua boca, sem conseguir tirar os olhos do seu rosto. — Deixa eu sentir
você desmontando assim…
Meu nome sai da sua boca enquanto
você o geme cada vez mais fraco, o corpo mole e trêmulo depois das últimas
ondas. O suor escorre pelas suas costas, pelo vale entre seus seios. Você tá
linda pra caralho assim, destruída de prazer, ainda pulsando ao meu redor.
Não espero você se recuperar
completamente.
Com um movimento rápido e firme,
eu seguro suas coxas com força, levanto seu corpo junto com o meu sem sair de
dentro de você. Fico de joelhos no centro da cama, seu corpo colado no meu,
pernas abertas ao redor da minha cintura. Suas mãos instintivamente se agarram ao
meu pescoço e ombro, unhas cravando na pele suada. Chega a arder. Meu braço
esquerdo envolve sua cintura, segurando você firme contra mim. O direito segura
uma das suas coxas por baixo, erguendo, abrindo mais você pra mim.
— Agora aguenta. — murmuro grave
no seu ouvido, a voz rouca de tesão.
Começo a estocar pra cima com
força, batendo fundo em você. Cada subida do meu quadril te levanta um pouco,
cada descida te faz sentir meu pau inteiro te abrindo de novo. O ângulo é
absurdo de bom. Meus dentes raspam pelo seu queixo enquanto eu te fodo com tudo
que segurei.
Meus grunhidos ficam mais graves,
mais irregulares. Sinto o orgasmo subindo rápido demais, apertando na base da
espinha.
— Lyra… porra… — rosno contra sua
pele, apertando você ainda mais contra mim. — Porra… não aguento mais…
Com mais algumas estocadas fortes
e profundas, eu gozo dentro de você, o corpo inteiro tensionando, um gemido
rouco e longo escapando da garganta enquanto eu te preencho, pulsando, jorrando
quente e fundo. Meu braço te segura com ainda mais força, como se quisesse te
fundir comigo. Fico ali, tremendo, enterrado até o fundo, respirando pesado
contra seu pescoço.
Demora um tempo até a respiração
acalmar.
Com cuidado, eu deito nós dois de
lado na cama, saindo devagar de dentro de você. Puxo seu corpo contra o meu,
peito colado nas suas costas, o braço pesado sobre sua cintura. O quarto tá
silencioso agora, só nossa respiração e o som distante do vento lá fora.
Minha mão sobe devagar pelo seu
braço até encontrar sua mão. Meus dedos traçam a cicatriz velha na sua pele,
aquela marca que eu já tinha notado antes, mas nunca perguntei.
— Hey princesa, o que é isso? —
pergunto baixo, a voz ainda rouca, o polegar passando devagar sobre as linhas
irregulares. — Esse W que você fez com faca na mão…
** Lyra **
Sentir você explodir de prazer
dentro de mim, quente, pulsante, preenchendo, é mais intenso e prazeroso do que
o meu próprio orgasmo foi.
Você me apertando com força, quase
me esmagando contra seu peito largo, sentir você pulsar e latejar até se jorrar
completamente dentro de mim. A forma carinhosa e protetora com que você me
abraça depois, me tocando com delicadeza inesperada após o sexo.
Aí vem a pergunta. A maldita
pergunta sobre a cicatriz na minha mão.
— Não é um W. — respondo meio
seca, a voz saindo mais áspera do que pretendia, como se tomasse um soco
repentino na boca do estômago. — É um M.
Me viro de barriga pra cima na
cama velha, ainda encostada em você, nossos corpos grudados de suor, mas meus
olhos agora desviam e vão direto pra cicatriz antiga e alta sobre as costas da
minha mão esquerda.
Deslizo meu polegar devagar sobre
ela, traçando a letra marcada na pele, encontrando forças que não sabia que
ainda tinha pra falar sobre isso.
— Quando tudo começou... — começo
baixo. — Ele me encontrou algumas semanas depois do colapso. Eu estava
completamente perdida, sozinha, sem saber pra onde ir ou o que fazer.
Dou uma pausa longa, suspiro fundo
tentando controlar a pressão no peito.
— Ele era bem mais velho que eu,
ranzinza pra caralho, boca suja, machista, irritante. — um meio sorriso amargo
aparece sem permissão. — Mas ficou.
Meus olhos sobem e pousam no teto
sujo e rachado do quarto que foi testemunha silenciosa do nosso sexo e agora
está presenciando meu passado sendo arrancado pra fora.
— Passamos meses juntos, com um
grupo pequeno. Sobrevivendo. Nós brigávamos feito cão e gato, nos amamos de um
jeito torto e violento, nos tornamos um só. — a voz começa a falhar. — Ele me
ensinou tudo que sei hoje. Tudo que sou. Se sobrevivi todos esses anos sozinha
depois... foi só pra honrar o sacrifício que ele fez.
Sinto os olhos arderem, marejarem dolorosamente,
mas as lágrimas que teimam em não cair doem muito mais do que qualquer coisa
física poderia doer.
Me levanto num impulso brusco da
cama, fugindo do toque, do calor. Visto a calcinha de qualquer jeito, puxo a
camiseta pela cabeça com pressa antes de conseguir continuar falando.
— Ele morreu numa emboscada... — a
voz sai engasgada agora. — Pra me salvar dos Salvadores e de uma horda de
podres. — pausa — Merle Dixon. Ele quem fez a letra na minha mão.
Quando finalmente viro na sua
direção e me obrigo a olhar pra você, vejo seu olhar completamente estático
fixo em mim, a expressão congelada. Como se estivesse digerindo e processando
muito mais do que simplesmente o que eu acabei de contar.
Como se tudo que falei
significasse alguma coisa.
— Daryl... — minha voz hesita. — Por
que está me olhando assim?
** Daryl **
Merle Dixon.
O nome ecoa na minha cabeça como
um tiro. Não um tiro de espingarda, mas um tiro que acerta bem no meio do
peito, arrancando o ar dos pulmões. Minha expressão congelada não é por falta
de reação. É por excesso. É como se o mundo inteiro tivesse parado de girar, e
eu tô ali, no meio do olho do furacão, vendo tudo desabar.
Você me olha, os olhos marejados,
a voz hesitando. “Por que está me olhando assim?”. Como se eu pudesse
responder. Como se as palavras pudessem sair da minha garganta agora, sem
quebrar. Como se eu pudesse explicar que o homem que você amou, o homem que te
salvou, o homem que você honra com uma cicatriz na mão... é o meu irmão. Meu
sangue.
Minha mente corre, rápida demais,
confusa demais. As lembranças dele, as brigas, o jeito fodido que ele tinha de
ser, a raiva que eu sentia por ele, o amor torto que nunca consegui admitir. E
agora, tudo isso se mistura com você. Com a mulher que eu acabei de foder, a
mulher que eu amo de um jeito que nunca amei nada nem ninguém. A mulher que me
fez sentir vivo de novo, depois de uma vida de merda.
Você se afasta, veste a calcinha
de qualquer jeito, puxa a camiseta. Fugindo. Como sempre. Mas dessa vez, não é
de mim. É da memória dele. Da dor. E eu não consigo me mover. Não consigo
estender a mão e puxar você de volta, como fiz momentos atrás. Minhas mãos
estão pesadas. Vazias. Como se tivessem acabado de segurar o mundo e ele
escorregou pelos meus dedos.
Merle. Lyra. Os dois nomes se
chocam na minha cabeça, uma colisão violenta que me deixa zonzo. O seu cheiro
ainda tá em mim. Seu gosto ainda tá na minha boca. E a porra do nome dele tá no
ar, entre nós, como um fantasma que se recusa a ir embora.
Você me olha de novo, esperando
uma resposta. Uma explicação. E eu não tenho. Só tenho um nó na garganta, um
peso no peito e a imagem do meu irmão se misturando com a mulher que eu quero
mais do que tudo. A mulher que, porra, amou o Merle.
Eu só consigo balançar a cabeça,
devagar, quase imperceptível. Não é negação. É desespero. É a porra de um mundo
novo desabando em cima de mim, de novo. E dessa vez, não tem walker pra matar.
Não tem cerca pra consertar. Só tem isso. E a verdade. A verdade que me quebra
em mil pedaços.
Abro a boca, sinto o ar raspar na
garganta seca, mas nada sai. O som morre antes de virar palavra. Como é que eu
vou dizer? Como é que eu vou explicar que o cara que você descreveu — o
ranzinza, o boca suja, o machista que ficou quando ninguém mais ficaria — é o
mesmo sangue que corre nas minhas veias?
Minha mão, que ainda tá apoiada no
colchão, se fecha num punho tão forte que as juntas estalam. Eu sinto o suor
esfriar no meu corpo, o rastro do seu toque na minha pele agora parece queimar.
Não por nojo, nunca por nojo de você, mas porque agora tem um terceiro corpo
nesse quarto. Merle tá aqui. Entre a gente. Rindo da minha cara com aquele
jeito debochado dele, me lembrando que, mesmo morto, ele ainda chega primeiro.
Você termina de se vestir, o
movimento é rápido, nervoso. Você tá esperando que eu diga que tá tudo bem, que
eu te abrace, que eu seja o Daryl de sempre...
Eu desvio o olhar. Não consigo
sustentar o seu. Se eu olhar pra você agora, vou ver o Merle. Vou ver a
emboscada. Vou ver o sacrifício que ele fez por você — o único ato de decência
que aquele filho da puta teve na vida — e vou sentir uma inveja tão podre que
me dá nojo de mim mesmo. Inveja porque ele te teve primeiro. Inveja porque ele
morreu sendo o seu herói, enquanto eu tô aqui, vivo, sendo o cara que tá
prestes a destruir o pouco de paz que você construiu.
— Merle... — o nome sai num
sussurro tão baixo que eu mal ouço. Minha voz tá estraçalhada.
Eu me levanto da cama, devagar,
sentindo cada músculo pesado como chumbo. Não olho pra você. Pego minha calça
no chão, minhas mãos tremendo tanto que eu quase não consigo acertar o botão.
Eu preciso sair daqui. Preciso de ar. Preciso de mato, de silêncio, de qualquer
coisa que não seja esse quarto sufocante cheio de fantasmas.
— Eu... eu preciso... — eu travo
de novo.
Giro o corpo em direção à porta,
fugindo do seu olhar que me queima as costas. Eu sei que você tá confusa. Sei
que você tá achando que eu tô te rejeitando pelo que você contou. Mas a verdade
é muito pior. A verdade é que eu também sou um Dixon. E ser um Dixon sempre foi
sinônimo de estragar tudo que é bonito.
Saio do quarto sem olhar pra trás,
deixando você lá sozinha com a sua cicatriz e as suas perguntas. O corredor tá
cheio de corpos, o cheiro de morte tá em todo lugar, mas nada cheira tão mal
quanto o segredo que tá entalado no meu peito.
** Lyra **
Você sempre foi de falar pouco,
econômico nas palavras, mas a forma com que age agora, esse silêncio dolorido e
cortante, esse olhar vazio e distante, faz eu me sentir mais assustada e
perdida do que nunca me senti nesses anos todos de fim de mundo.
Você abre a boca pra falar, os
lábios se movem, mas nenhum som sai. Nada. Apenas silêncio sufocante
preenchendo o espaço entre nós. Sinto sua respiração pesar e falhar daqui de
onde estou parada.
— Daryl? — repito seu nome com um
peso na voz que não imaginei carregar depois do que acabamos de fazer, depois
de me entregar pra você daquele jeito.
Seguro com firmeza desesperada na
barra da minha camiseta, afundando os dedos no tecido amarrotado como se isso
pudesse me ancorar, me impedir de pensar mil coisas ruins sobre o seu silêncio
cruel.
Isso não me parece ciúmes de homem
comum. Será nojo então? Raiva por algo específico que não consigo entender?
Arrependimento?
Minha mente vira um turbilhão
caótico de hipóteses e suposições pra tentar explicar a forma com que você está
reagindo agora, mas nenhuma delas me soa plausível o suficiente pra justificar
esse tipo de reação tão extrema.
Estendo a mão trêmula ao ar na sua
direção, num gesto patético de súplica silenciosa. Mas você murmura algo tão
baixo que não consigo captar as palavras, se vira de costas e sai do quarto sem
olhar pra trás sequer uma vez.
Sem olhar pra mim.
Eu fico ali parada, sozinha no
meio do quarto que ainda cheira a sexo e suor. Me abraço com os próprios braços
por um longo segundo, as mãos deslizando pelos antebraços nus tentando buscar
algum conforto que não vem, que não existe.
Tentando me convencer
desesperadamente de que você não simplesmente me usou e agora vai evaporar da
minha vida como fumaça, como se eu não fosse absolutamente nada.
Como se os últimos doze meses
significassem nada.
— Maldito filho da puta... —
murmuro baixo, a voz quebrando, mais pra mim mesma do que pra você que já sumiu
completamente pelo corredor escuro com passos pesados ecoando na distância.
Me deixando sozinha, pela primeira
vez.
**Daryl**
Eu escuto o seu sussurro. E dói.
Dói porque você tá certa, mas pelo motivo errado. Eu sou um filho da puta por
estar te deixando lá, mas sou um filho da puta maior ainda por ser quem eu sou.
Meus passos ecoam no corredor,
pesados, esmagando a pouca dignidade que me sobrou depois de fugir de você. Eu
não tô fugindo do que a gente fez. Eu não tô com nojo. Porra, eu nunca quis
tanto ficar num lugar quanto eu quis ficar naquele quarto com você. Mas como é
que eu fico? Como é que eu te toco de novo sabendo que a mão que te acaricia
tem o mesmo formato da mão do cara que te marcou?
Eu chego na escada e desço os
degraus de dois em dois, quase tropeçando na minha própria pressa. O ar da
cidade é parado, podre, mas eu puxo ele pra dentro como se estivesse sufocando.
Eu preciso de espaço. Preciso que o fantasma do Merle pare de soar no meu
ouvido.
“Mandou bem, caipira. Escolheu a
melhor de todas pra dividir o lençol, hein?” — a voz dele, a voz real que eu
guardei na memória, parece vibrar nas paredes descascadas desse prédio de
merda.
Eu saio pela porta dos fundos e
bato com as costas no muro de tijolos frios. Minha respiração tá errática, um
rosnado preso na garganta que eu não consigo soltar. Eu soco a parede. Uma,
duas vezes. A dor nos nós dos dedos é a única coisa que parece real agora. A
única coisa que faz o turbilhão na minha cabeça diminuir um pouco.
Eu não te usei. Nunca. Cada
segundo ali em cima foi a coisa mais honesta que eu já fiz na vida. Mas agora a
honestidade virou uma faca de dois gumes. Se eu te contar a verdade, eu destruo
a imagem do “herói” que você guarda dele. Se eu não contar, eu vivo uma mentira
toda vez que eu olhar pra você.
Eu olho pro céu escuro, pras
janelas quebradas do andar onde eu te deixei. Eu sei que você tá lá se
convencendo de algo, achando que é lixo. E isso me rasga por dentro mais do que
qualquer horda.
Eu sou um Dixon, Lyra. E a gente
não sabe amar sem machucar.
Eu me agacho no chão sujo, a besta
jogada de lado, a cabeça entre os joelhos. Eu não vou evaporar. Eu não consigo
ir embora, mesmo que eu quisesse. Meus pés não me levam pra longe de você. Mas
eu também não sei como voltar. Não ainda.
Eu fico ali, no escuro, ouvindo o
silêncio da cidade e o som do meu próprio coração batendo o nome do meu irmão e
o seu, num ritmo que eu não sei como consertar.
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