Há sempre um peso que me visita quando a semana do meu
aniversário chega. Invisível, mas tão real quanto a insônia que me mantém
acordada à noite. É como se os dias perdessem as cores, tudo ficando mais
opaco, mais áspero, mais incômodo.
Antes, quando era mais jovem, comemorava com o mundo. Hoje,
não. Prefiro o recolhimento. Planejo apenas algo íntimo com minha família, e
ainda assim me arrasto, como se o corpo estivesse em desacordo com a data que
insiste em se repetir ano após ano.
Já tive dias em que o aniversário era palco. Era barulho,
multidão, abraços de conhecidos que se perdiam no tempo, gargalhadas que não
duravam além da noite. Eu achava bonito me cercar de gente, como se isso
pudesse me proteger da passagem do tempo.
Mas hoje, o palco encolheu. A festa não é mais para o mundo,
é apenas para aqueles que conhecem meus silêncios. É íntima, quase silenciosa,
como se eu estivesse tentando enganar a própria data, dando a ela menos
importância do que gostaria de dar a mim mesma.
Há algo intimidador no aniversário: ele não marca apenas a
chegada de um novo tempo, mas a despedida silenciosa de todas as versões que já
fui. Cada vela que apago não ilumina apenas o presente, ela lança sombra sobre
a criança que correu pela casa, a adolescente que acreditava que teria o mundo
nas mãos, a jovem que queria abraçar a vida como quem não teme o futuro. Todas
elas se afastam, ficam em algum ponto inalcançável, como se eu tivesse que
enterrá-las de novo e de novo a cada ano que chega.
Na juventude, a data tinha uma aura quase mística. As roupas
escolhidas, os convites espalhados, o riso que transbordava mesmo dos
desconhecidos que vinham brindar. Havia pressa em viver, havia fome em
compartilhar. Hoje, ao contrário, sinto uma espécie de retraimento. É como se a
vida tivesse me ensinado que a festa não está nos outros, mas no pouco que
resiste em mim. Não preciso mais do eco das vozes, nem da multidão em volta.
Preciso apenas dos rostos que sei de cor, das mãos que não me soltam quando as
horas pesam, do olhar que me reconhece mesmo quando o meu se perde.
O que antes era barulho virou silêncio; o que antes era
espetáculo virou rito. E nesse rito íntimo, quase secreto, há uma estranha
mistura de luto e gratidão. Luto pelas partes de mim que ficaram para trás.
Gratidão pelo que ainda permanece.
O tempo é paradoxal. Ele me rouba com uma mão e me entrega
com a outra. Leva embora a leveza da menina que eu já fui, o riso fácil da
adolescente que acreditava em eternidade, mas me devolve em forma de
cicatrizes, memórias e alguma sabedoria que às vezes parece pesar mais do que
confortar.
Não é só inimigo: o tempo também é cúmplice. Foi ele quem me
ensinou a enxergar beleza no silêncio, a valorizar um abraço mais do que uma
sala cheia, a saber que a insônia também guarda revelações. Foi ele quem me
mostrou que há certa dignidade em aceitar que nem todas as versões de mim
sobreviveram — e que talvez isso seja necessário para que eu ainda esteja aqui.
Chego a este aniversário como quem ergue um copo em meio ao
vazio. Brindo não às velas, não a data que me consome, mas a mim mesma, à
resistência em continuar mesmo quando os dias parecem turvos. E talvez seja
isso que reste de todo aniversário: um pacto secreto com o tempo, esse algoz
que também me molda, para que eu siga adiante mesmo que carregue sobre os
ombros um peso invisível.
As marcas do tempo não aparecem apenas no calendário, elas
se insinuam no espelho. Pequenos sulcos que antes não estavam ali, linhas que
se formam como mapas de tudo o que já vivi. A pele já não tem o mesmo frescor,
já não reflete a juventude intacta que um dia a habitou. Há dias em que isso
pesa, em que a lembrança da beleza de outrora parece caçoar daquilo que ainda
resta.
Mas também descubro que há outra face nisso tudo: com os
anos vieram a maturidade, a segurança que não se veste de pressa, o charme que
mora no olhar mais demorado, mais profundo. Já não preciso da juventude para
ser inteira; o tempo me deu outras armas. A mente se desenhou em novos
contornos, aprendeu a desconfiar das ilusões fáceis e a valorizar aquilo que
permanece mesmo quando a pele cede.
O corpo pode perder o colágeno, mas o olhar ganha
intensidade; a juventude se vai, mas a mulher que fica carrega em si uma força
que nenhuma menina jamais teve. É nesse equilíbrio frágil, entre perda e ganho,
que caminho rumo à cada aniversário.
O espelho não mente: nele se acumulam os traços que a vida
escreveu em mim. Cada linha, cada sombra que se insinua é testemunha de um riso
que se prolongou, de uma dor que ficou tempo demais dentro do peito, de uma
noite que não terminou em sono. O vigor se despede aos poucos, como se
evaporasse a cada ano, mas em troca algo em mim se aperfeiçoa. E nesse abismo
novo há uma beleza que não se mede em juventude.
O tempo, esse artífice impiedoso, não apenas retira. Ele
também esculpe. Na ausência da antiga leveza, há agora uma densidade rara; no
lugar do brilho imediato, um lume secreto que só se revela a quem ousa demorar
os olhos. A juventude pode ser um clarão, mas a maturidade é fogo que arde
lento, que aquece sem se apagar.
E é isso que resta a cada aniversário: comemorar não como
quem celebra um ano que chega, mas como quem sela um pacto com o próprio tempo.
Uma brasa se desfaz, mas outra se acende dentro — discreta, persistente, feita
da matéria invisível que só os anos sabem lapidar.
A cada vela que se apaga diante de mim, descubro que a verdadeira chama nunca esteve sobre o bolo, mas no escuro daquilo que ainda insiste em arder dentro da minha alma.

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