quinta-feira, 18 de setembro de 2025

A Crônica do Tempo.

 

Há sempre um peso que me visita quando a semana do meu aniversário chega. Invisível, mas tão real quanto a insônia que me mantém acordada à noite. É como se os dias perdessem as cores, tudo ficando mais opaco, mais áspero, mais incômodo.

Antes, quando era mais jovem, comemorava com o mundo. Hoje, não. Prefiro o recolhimento. Planejo apenas algo íntimo com minha família, e ainda assim me arrasto, como se o corpo estivesse em desacordo com a data que insiste em se repetir ano após ano.

Já tive dias em que o aniversário era palco. Era barulho, multidão, abraços de conhecidos que se perdiam no tempo, gargalhadas que não duravam além da noite. Eu achava bonito me cercar de gente, como se isso pudesse me proteger da passagem do tempo.

Mas hoje, o palco encolheu. A festa não é mais para o mundo, é apenas para aqueles que conhecem meus silêncios. É íntima, quase silenciosa, como se eu estivesse tentando enganar a própria data, dando a ela menos importância do que gostaria de dar a mim mesma.

Há algo intimidador no aniversário: ele não marca apenas a chegada de um novo tempo, mas a despedida silenciosa de todas as versões que já fui. Cada vela que apago não ilumina apenas o presente, ela lança sombra sobre a criança que correu pela casa, a adolescente que acreditava que teria o mundo nas mãos, a jovem que queria abraçar a vida como quem não teme o futuro. Todas elas se afastam, ficam em algum ponto inalcançável, como se eu tivesse que enterrá-las de novo e de novo a cada ano que chega.

Na juventude, a data tinha uma aura quase mística. As roupas escolhidas, os convites espalhados, o riso que transbordava mesmo dos desconhecidos que vinham brindar. Havia pressa em viver, havia fome em compartilhar. Hoje, ao contrário, sinto uma espécie de retraimento. É como se a vida tivesse me ensinado que a festa não está nos outros, mas no pouco que resiste em mim. Não preciso mais do eco das vozes, nem da multidão em volta. Preciso apenas dos rostos que sei de cor, das mãos que não me soltam quando as horas pesam, do olhar que me reconhece mesmo quando o meu se perde.

O que antes era barulho virou silêncio; o que antes era espetáculo virou rito. E nesse rito íntimo, quase secreto, há uma estranha mistura de luto e gratidão. Luto pelas partes de mim que ficaram para trás. Gratidão pelo que ainda permanece.

O tempo é paradoxal. Ele me rouba com uma mão e me entrega com a outra. Leva embora a leveza da menina que eu já fui, o riso fácil da adolescente que acreditava em eternidade, mas me devolve em forma de cicatrizes, memórias e alguma sabedoria que às vezes parece pesar mais do que confortar.

Não é só inimigo: o tempo também é cúmplice. Foi ele quem me ensinou a enxergar beleza no silêncio, a valorizar um abraço mais do que uma sala cheia, a saber que a insônia também guarda revelações. Foi ele quem me mostrou que há certa dignidade em aceitar que nem todas as versões de mim sobreviveram — e que talvez isso seja necessário para que eu ainda esteja aqui.

Chego a este aniversário como quem ergue um copo em meio ao vazio. Brindo não às velas, não a data que me consome, mas a mim mesma, à resistência em continuar mesmo quando os dias parecem turvos. E talvez seja isso que reste de todo aniversário: um pacto secreto com o tempo, esse algoz que também me molda, para que eu siga adiante mesmo que carregue sobre os ombros um peso invisível.

As marcas do tempo não aparecem apenas no calendário, elas se insinuam no espelho. Pequenos sulcos que antes não estavam ali, linhas que se formam como mapas de tudo o que já vivi. A pele já não tem o mesmo frescor, já não reflete a juventude intacta que um dia a habitou. Há dias em que isso pesa, em que a lembrança da beleza de outrora parece caçoar daquilo que ainda resta.

Mas também descubro que há outra face nisso tudo: com os anos vieram a maturidade, a segurança que não se veste de pressa, o charme que mora no olhar mais demorado, mais profundo. Já não preciso da juventude para ser inteira; o tempo me deu outras armas. A mente se desenhou em novos contornos, aprendeu a desconfiar das ilusões fáceis e a valorizar aquilo que permanece mesmo quando a pele cede.

O corpo pode perder o colágeno, mas o olhar ganha intensidade; a juventude se vai, mas a mulher que fica carrega em si uma força que nenhuma menina jamais teve. É nesse equilíbrio frágil, entre perda e ganho, que caminho rumo à cada aniversário.

O espelho não mente: nele se acumulam os traços que a vida escreveu em mim. Cada linha, cada sombra que se insinua é testemunha de um riso que se prolongou, de uma dor que ficou tempo demais dentro do peito, de uma noite que não terminou em sono. O vigor se despede aos poucos, como se evaporasse a cada ano, mas em troca algo em mim se aperfeiçoa. E nesse abismo novo há uma beleza que não se mede em juventude.

O tempo, esse artífice impiedoso, não apenas retira. Ele também esculpe. Na ausência da antiga leveza, há agora uma densidade rara; no lugar do brilho imediato, um lume secreto que só se revela a quem ousa demorar os olhos. A juventude pode ser um clarão, mas a maturidade é fogo que arde lento, que aquece sem se apagar.

E é isso que resta a cada aniversário: comemorar não como quem celebra um ano que chega, mas como quem sela um pacto com o próprio tempo. Uma brasa se desfaz, mas outra se acende dentro — discreta, persistente, feita da matéria invisível que só os anos sabem lapidar.

A cada vela que se apaga diante de mim, descubro que a verdadeira chama nunca esteve sobre o bolo, mas no escuro daquilo que ainda insiste em arder dentro da minha alma.




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