sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Don't Open That Door - pt II (final)

 

Foram dias diferentes de tudo o que vivi em décadas.

O cheiro dela impregnado na cama, no corredor, até no Ghost, que já parecia ser mais dela do que meu.

Ela tocava em mim com cada vez mais naturalidade, sem hesitar. Punha a mão na minha nuca quando passava por mim, me beijava sem motivo aparente, reclamava das minhas broncas durante os treinos como se já tivesse o direito de me provocar. Às vezes, gargalhava. Gargalhadas que atravessavam a escuridão e me davam angústia e conforto ao mesmo tempo.

Eu sentia como se tivesse conseguido o impossível: transformar prisão em convivência, mentira em rotina, cativeiro em intimidade.

Ela agora vinha até mim sem medo. Deitava a cabeça no meu ombro quando parávamos pra descansar.

E eu, em silêncio, alimentava dois monstros:

O desejo crescente, que se repetia toda noite quando eu a buscava, procurando um alívio que já não bastava.

E o medo corrosivo de que cada risada dela fosse o prenúncio da ruína — de que a memória voltaria a qualquer instante, e o que agora parecia nosso voltaria a ser só meu crime.

As noites haviam deixado de ser solitárias.

O colchão que por anos conheceu só o meu peso, agora rangia em dueto. Primeiro tímida, depois rendida — e logo, inevitável — ela passou a dormir na minha cama. No início, apenas encostada. Depois, colada. E, por fim, entregue.

Não demorou para que as mãos que antes hesitavam de receio, agora corressem pelo meu corpo como se fossem donas dele. Não demorou para que os gemidos que antes vinham de dor se transformassem em súplica, prazer e vício.

Transávamos em todo canto da casa.

Na cozinha, contra a mesa gasta.

Na sala, entre as cortinas fechadas.

No corredor, de costas para a parede fria.

No chão...

Ela fazia amor. Eu a fodia.

E dentro dessa diferença residia o meu umbral.

Porque cada vez que ela sussurrava meu nome como se fosse clamor, eu sabia: ela acreditava que estava apaixonada.

E eu a amava também.

Amava beijar cada pedaço daquela boca marcada por piercings, sentir o corpo pequeno e delicado se abrir para mim como se tivesse sido feito para me receber. Amava o calor dos cabelos curtos roçando minha pele suada. Amava o jeito como ela me procurava de madrugada, como se eu fosse o único abrigo contra o vazio.

Mas por dentro, eu me remoía.

Ela acreditava na mentira que plantei.

Achava que havia escolhido ficar.

E eu a punia por isso cada vez que a tomava com força, como se quisesse apagar qualquer possibilidade de retorno ao mundo lá fora.

Era amor.

Era obsessão.

Era fome.

E era culpa.

Porque eu sabia que, no instante em que a memória voltasse, ela veria tudo pelo que realmente era: um velho cego, traumatizado, faminto e desesperado, que transformou um acidente numa prisão, e uma mentira num romance doentio.

Mas até lá, cada beijo dela era meu combustível.

Cada vez que ela se encaixava em mim e gemia alto era uma sentença adiada por mais um dia.

E quanto mais eu a tinha, mais eu precisava.

Como um vício que só piora quando você pensa que já chegou no fundo.

 

As noites seguintes foram uma tortura doce.

Eu acordava no meio da madrugada, ouvindo a respiração dela lenta, tranquila, encostada em mim. O braço pequeno dela jogado no meu peito, como se eu fosse de fato proteção.

E eu ficava ali, imóvel, tentando gravar aquele instante. Porque sabia: podia ser o último. Bastava um estalo da memória dela, e tudo se desfazia.

Minha mão as vezes tremia sobre o lençol, com vontade de segurá-la, de enfiar os dedos na carne dela de novo só pra garantir que ainda era minha. E ao mesmo tempo, eu me odiava cada vez mais por desejar tanto.

Ela falava coisas que me destruíam.

“Nunca me senti tão segura” — disse uma manhã, enquanto tomava café comigo.

Segura.

Era mentira. Era prisão.

Mas ela acreditava.

Eu queria acreditar também. Queria ser esse homem que ela enxergava — firme, seguro, quase heroico. Mas sabia que não era. Eu era o homem cego que a enganou, que a prendeu, que a fodia com força enquanto ela acreditava estar fazendo amor.

Cada beijo dela, cada vez que ela me montava e gozava meu nome, era uma condenação que eu aceitava de olhos fechados. Os mesmos olhos sem vida que eu tanto relutei em aceitar.

Me afogava nisso dia após dia.

Mas começaram a surgir rachaduras.

Ela olhava as janelas pregadas com mais frequência. Tocava o cadeado da porta dos fundos com os dedos, como quem se pergunta por quê.

Eu ouvia isso com uma aflição que me fazia perder até o apetite as vezes.

Certa noite, ouvi a voz dela baixa no ambiente ao lado, como se falasse sozinha.

“Por que eu não lembro de nada antes daqui?”

Meu corpo inteiro gelou.

No dia seguinte, ela me perguntou:

“Norman, você acha que a memória volta do nada?”

Engoli seco.

Desviei. Empurrei o treino mais forte, bati nela com mais dureza nos golpes fingindo ensinar. Era a única maneira de calar as perguntas sem ter que responder.

E quando ela ria nervosa e me chamava de velho rabugento, eu fingia rir junto. Mas por dentro, a corda já estava esticando até arrebentar.

 

Nessa noite, o quarto estava abafado, pesado.

Eu não pedi, não esperei, não preparei nada. Só subi em cima dela como um bicho que não aguenta mais ficar preso dentro da própria pele.

Minhas mãos cravaram nos pulsos dela, prendendo contra o colchão. Senti o corpo dela tremer debaixo do meu, não de prazer — de susto. Mas não parei. Não conseguia.

Arranquei a roupa do jeito que deu, sentindo a pele dela quente sob minhas mãos brutas. Entrei nela de uma vez, seco, sem ritmo delicado, sem nada. Só força. O som foi um estalo úmido que me fez ranger os dentes.

Até com medo ela conseguia ser perfeita. Molhada.

Eu a fodia como quem quer apagar um incêndio com o próprio corpo. As investidas eram curtas e violentas, o quadril batendo contra o dela até doer. Não me importei com o que ela sentia. Eu precisava. Precisava gozar. Precisava arrancar de mim aquele nó entalado que me corroía há dias.

Os gemidos dela não eram como antes. Não eram doces nem suplicantes. Eram baixos, tensos, quase abafados contra meu peito. Eu ouvia a respiração dela engasgar, e isso só me deixava mais duro, mais faminto.

Segurei a cintura dela com tanta força que sabia que ficariam marcas. Meu corpo inteiro pulsava, a veia da têmpora latejando, o suor escorrendo pela barba. Não demorou. Eu gozei dentro dela com um grunhido rouco, enterrando ainda mais o corpo nela como se quisesse incorporá-la a mim.

Fiquei lá por alguns segundos, arfando, esmagando os seios dela com o meu peso.

E então, simplesmente saí. O vazio veio rápido, cruel.

Me afastei, deitando de costas ao lado, a respiração ainda descompassada. Passei a mão no rosto, suado e quente, tentando recuperar o ar.

Silêncio.

Foi aí que senti.

Ela estava me olhando. Senti aquilo queimar minhas costas.

Ela não falou nada, não se mexeu. Só respirava. O jeito dela era diferente — não era o mesmo de antes, quando acreditava estar segura. Era frio, como se tentasse entender em quem tinha confiado.

E por um instante, senti medo.

Medo não de perder.

Mas de que ela já tivesse começado a lembrar.

 

Pela primeira vez em semanas, ela parou diante da porta da frente e ficou estagnada por mais tempo do que eu gostaria. O som do seu silêncio me deixou com os dentes travados.

Fiquei parado, sentindo a tensão subir pela coluna.

Só fiquei quieto. E foi aí que percebi: o silêncio, vindo de mim, era mais assustador que qualquer mentira.

Ela suspirou fundo, como quem tenta aliviar. Mas eu sabia. Sabia que aquela sensação não ia embora tão cedo.

Ghost apareceu no corredor. Eu ouvi as patas arranhando o piso antes dela. Ele parou, farejou, e de repente rosnou. Não pra mim — pra ela.

O corpo dela estremeceu.

Eu senti o ar mudar. Até o cachorro sabia que aquilo estava errado.

Me aproximei rápido, segurei o pescoço de Ghost e o puxei de volta. O bicho se calou, mas não tirava a atenção dela.

Aquela porra me fervia por dentro. Até o cão entendia que ela não estava ali por escolha.

De noite, quando ela deitou na cama, eu fiquei em pé no batente. Ouvindo a respiração dela acelerar quando percebeu que eu estava ali.

“Você tá estranho, Norman.” — disse baixo.

A palavra me atingiu como faca. Estranho. Eu era mais que estranho. Eu era o maldito monstro daquela casa.

Avancei até a beira da cama. Passei a mão pelo rosto dela, firme demais.

Disse com a voz grave que ela não faz ideia do que estava dizendo.

Ela respirou fundo, como se quisesse responder, mas não encontrou palavras.

Então eu soltei.

Cru, direto, como chumbo:

— Eu te amo, Ellie.

Não como promessa. Não como afeto. Mas como veredito.

Um amor pesado, traumatizado, de quem não a deixaria nunca mais.

O silêncio que veio depois foi sufocante.

Ela não disse nada. Só se virou devagar, deitando de lado, tentando dormir.

Mas eu ouvi.

O coração dela martelava como um motor prestes a fundir.

E ali eu soube, eu já havia estragado tudo.


Depois disso, acordei no meio da madrugada e esqueci onde estava.

O colchão não é cama, é trincheira. O som do Ghost arranhando o chão não é de um cachorro, é uma metralhadora distante.

Posso até mesmo sentir aquele cheiro ferroso...  do sangue que nunca mais saiu das minhas mãos.

A guerra me tomou meus olhos, meus companheiros de batalha... mas não foi só isso.

Me tomou a chance de ter uma família. De ter paz.

Me deixou cego por fora e ainda mais cego por dentro.

As vezes sinto que meu mundo vai tornar a ser só escuridão e silêncio.

E é aí que a dor bate mais fundo.

Porque quando ela me olha com aqueles olhos verdes que eu nunca vou ver, quando ela me chama de Norm... Eu me sinto menos monstro.

Menos soldado perdido.

Menos fantasma.

Mas é mentira.

E eu sei.

Eu ainda estou do lado errado do céu, preso no inferno que construí com as minhas próprias mãos.

 

Aconteceu de repente, dias depois. Eu senti antes dela falar.

Estávamos no quarto, o silêncio pesado, o tipo de silêncio que anuncia tempestades. O ritmo da respiração dela mudou. As batidas do coração dela aceleraram de forma diferente, não era excitação, era tensão. Pavor. Eu sabia distinguir.

Ela se afastou de mim. O colchão rangeu quando o corpo dela se moveu com pressa. O som das mãos passando pelo rosto, trêmulas.

E então, o sussurro sufocado se esgueirando pelos lábios dela, dizendo que estava se lembrando de tudo.

A cada palavra, algo em mim rachava.

As imagens voltavam pra ela, eu percebia. O som do vitrô sendo forçado, Ghost rosnando do lado de fora, a queda, o sangue. Eu ouvia essas memórias voltarem porque a respiração dela denunciava cada detalhe, cada fragmento.

Quando ela disse:

“Você é o maníaco que me prendeu… era você todo esse tempo, Norman!”

Aquela palavra me cortou mais do que qualquer lâmina poderia. Maníaco.

Não o soldado quebrado pela guerra. Não o homem que sobreviveu sozinho por décadas. Não o “abrigo” que inventei ser. Apenas o monstro.

Ela chorava. A voz dela falhava dizendo que menti para ela por todo esse tempo.

E a sentença final:

“Eu achei que era amor.”

O chão pareceu sumir sob meus pés. Eu estendi a mão, mas não alcancei nada além do vazio. Ela já não estava ali — não no corpo, mas no espírito.

O que eu construí com silêncio, medo e mentira se desfez em segundos.

E quando a ouvi correr pelo corredor, os pés descalços batendo como tiros, o ranger da porta sendo forçada, Ghost saindo do caminho...

Eu soube que estava sozinho outra vez.

E que talvez, dessa vez, para sempre.

A casa voltou a ser só paredes.

O silêncio não era mais abrigo, era tortura. Cada estalo da madeira parecia um eco vazio da voz dela. Cada corrente de ar pela fresta da porta trazia o perfume que já não estava mais ali.

Eu me sentei na beira da cama, noite após noite, esperando ouvir os passos pequenos pelo corredor, o ranger do colchão no quarto ao lado que fosse. Não veio.

Nunca mais veio.

Ghost também sentiu. Ele rondava pela casa, farejava os lençóis, parava na porta fechada do quarto e choramingava baixo. Às vezes se deitava no tapete, como se esperasse que ela voltasse a qualquer momento para coçar atrás da orelha dele.

Eu tentava me convencer de que era melhor assim.

Melhor não a ver — melhor não a ter ali, cada dia mais perto de descobrir a verdade.

Mas era mentira.

O vazio me devorava por dentro, lento, metódico, mais cruel do que qualquer inimigo da guerra.

Os dias passaram. O café perdeu o gosto. A comida era só mastigar e engolir.

O tempo deixou de existir, virando um borrão entre manhã e noite.

Eu me peguei, mais de uma vez, de pé na varanda, com a respiração presa, pensando em segui-la. Procurar fora dali. Encontrar onde diabos ela vive.

Mas não consegui.

As pernas não obedeciam. O coração não deixava.

E se eu a encontrasse sorrindo com alguém? Se tivesse apagado tudo de mim, jogado fora como se eu nunca tivesse existido?

Esse seria o golpe final.

Então fiquei.

Afundei.

Às vezes, no silêncio mais profundo, eu me pegava falando o nome dela sozinho. Como quem chama por um fantasma.

A casa, que por semanas esteve cheia de vida, voltou a ser sepulcro. Mas agora, um sepulcro que sussurra o nome dela em cada canto.

Eu sobrevivi à guerra.

Sobrevivi ao tempo.

Sobrevivi à escuridão.

Mas sem ela, eu não tinha certeza se sobreviveria ao que restava de mim.

 

Passei dias esperando sirenes.

Passos no portão. Vozes de oficiais chamando meu nome.

A prisão não me assustava. A verdade, sim — mas a punição, não. Eu já vivia preso em mim mesmo.

Mas nada aconteceu.

Nenhum carro parou na rua. Nenhum policial veio até aqui.

Ela não contou.

Não me denunciou.

Não disse ao mundo que eu a tranquei, que eu a fodi, que eu transformei abrigo em cativeiro.

E isso me corroeu ainda mais do que o silêncio da casa.

Porque significava que, mesmo na mentira, algo entre nós foi real.

Ela me odiava, talvez.

Mas também me desejou.

E esse desejo era meu.

À noite, encostado na parede do quarto vazio, eu ouvia minha mente me torturar, me flagelar de dentro pra fora.

Se Deus pudesse me ver agora, ele estaria envergonhado de mim. Sobre o que fiz, o que me tornei. E sequer posso culpar o diabo por isso... Sequer posso me defender.

Era isso.

Eu sabia que estava errado naquela história que inventei.

Mas se até no inferno ela tinha me olhado com amor por um instante…

Então não foi só mentira.

Foi verdade.

Uma verdade que me arrastava pra mais fundo do que eu já estive.

Ghost ainda choramingava deitado no tapete, o focinho enfiado no lençol que ainda guardava o cheiro dela.

Eu passava a mão na cabeça dele em silêncio, e pensava:

Se ela não me entregou, se não me apagou do mundo dela…

Talvez ainda volte.

Ou talvez só tenha me condenado a viver sozinho com essa maldita esperança.

 

Pouco mais de uma semana. Foi o tempo suficiente pra casa apodrecer em silêncio de novo.

Ghost já parecia ter perdido as esperanças também.

Então, na noite em que ouvi o rangido da porta da frente, meu corpo reagiu antes do cérebro.

Os pés pesados, a respiração contida. Uma invasão. Outra vez.

Corri pelo corredor e quando senti o deslocamento de ar, a presença à frente, agarrei o corpo com força e o joguei contra a parede. A madeira estralou com o impacto.

Meu antebraço pressionava a garganta, a mão firme no pulso prendendo alto, como sempre fiz em guerra.

O coração batia no meu ouvido, um martelo surdo.

O som da respiração… familiar.

O silêncio de Ghost… revelador.

E só então percebi.

Era ela.

De novo.

Soltei seu braço devagar, mas não a distância. Os meus olhos vazios não podiam ver, mas eu sabia: estavam fundos, opacos, carregando a dor do mundo e mais um pouco.

Ela não fugiu.

Não gritou.

Não empurrou.

Só ficou ali, encostada contra a parede, como se estivesse tão confusa quanto eu.

E naquele segundo, o mundo se partiu outra vez.

Meus dedos ainda tremiam quando passei a mão pelo rosto, pela barba molhada de suor, tentando acalmar o próprio corpo. Mas por dentro eu estava em pedaços.

— Você não devia ter voltado — foi o que consegui dizer. Mas a voz saiu fraca, quebrada, sem a dureza que eu sempre carreguei.

Ela não respondeu de imediato. Só encostou de costas na parede, respirando como se tivesse corrido quilômetros. O silêncio dela doía mais do que qualquer grito.

E foi nesse vazio que eu entendi.

Ela não tinha voltado porque era refém. Não tinha voltado porque estava perdida.

Ela voltou porque não conseguia mais fingir que o que vivemos não aconteceu.

Eu também não conseguia.

A ausência dela foi pior do que qualquer guerra que já lutei. Mais cruel do que a cegueira.

Meu peito apertou, e eu soltei num fio de voz, rouco, quase suplicante:

— Eu senti a sua falta.

E no fundo, soube. Ela também.

O mundo lá fora não a acolheu como antes. Assim como eu não consegui voltar ao meu silêncio depois dela.

Mas eu sabia o risco.

Sabia que talvez fosse amor. Ou talvez fosse só a doença que a solidão plantou em nós dois.

Síndrome de Estocolmo, diriam.

Mas não.

Era algo pior.

Era real.

Fico imóvel quando a boca dela cola na minha.

As mãos pequenas me seguram o rosto com força, e eu sinto o desespero vibrar nos lábios dela. Não é beijo doce, não é carinho. É saudade. É mágoa travestida de necessidade.

Quando ela se afasta, meu peito ainda pulsa, e antes que eu possa reagir, sinto a mão dela agarrar meu pulso e me puxar pelo corredor.

Os passos são rápidos, decididos. O som do sofá rangendo denuncia quando me joga contra o assento.

Fico estático.

Não porque não quero, mas porque por um instante eu não entendo.

Ela se recordou chorando, me chamou de maníaco, correu daquela casa como quem foge do inferno. E agora… agora me joga aqui como se eu fosse o único pedaço de chão firme embaixo dela.

O ar pesa.

Ouço o som das roupas dela caindo, o zíper, o tecido deslizando pela pele.

Minha mente, treinada pra farejar cada ruído como ameaça, dessa vez só se prende a um pensamento: ela voltou pra mim.

E pela primeira vez em toda uma vida, sinto que sou eu quem está frágil.

Não pela cegueira.

Mas porque não tenho defesa contra isso.

Ela se despe correndo.

Eu continuo imóvel, parado, os músculos tensos, a respiração pesada.

Mas por dentro… por dentro eu sou só necessidade.

As mãos dela puxam a minha blusa, e eu deixo. Sinto o tecido subir, roçar na pele.

Não faço força contrária. Pelo contrário — meus dedos descem até a cintura, desabotoam a calça com pressa, e eu mesmo a empurro até o meio das coxas. Não por conforto, mas por desespero. Por não querer quebrar o momento.

E então ela me monta.

O corpo dela se encaixa no meu com fome, com saudade. Eu sinto a pressão quente dela me engolindo inteiro, devagar, até o fundo.

O gemido que escapa dela me atravessa como um disparo a queima roupa.

Dessa vez, não sou eu quem toma.

É ela quem se move sobre mim.

Quadris lentos, firmes, sem pressa. Como se quisesse me devorar centímetro por centímetro, prolongar cada segundo até doer.

Minhas mãos percorrem todo o corpo dela.

Não como antes, quando só havia fome.

Mas mapeando. Gravando. Reconhecendo cada curva, cada detalhe, cada pedacinho de pele como se fosse meu alfabeto particular.

Eu escuto os gemidos dela, e cada som me guia.

A forma como a respiração prende quando eu aperto sua cintura.

O jeito como ela geme mais alto quando minhas mãos sobem até os seios.

Eu a vejo com os ouvidos. A enxergo no ritmo da voz dela, no balançar do corpo, no estalo da saliva na boca.

Ela se inclina.

Beija meus olhos fechados.

E por um instante, é como se eu realmente a visse. Como se tivesse visão outra vez.

Eu a seguro com força, mas não com brutalidade. Com a calma que nunca tive. Com o medo de que, se soltar, ela desapareça de novo.

E entendo.

Mesmo errado, mesmo torto, mesmo manchado por mentiras e cicatrizes — no final, nós éramos o certo um pro outro.

E tudo que eu quero agora, é que ela escolha ficar.

O beijo dela me pega como prece.

Religioso. Como se estivesse me absolvendo do pecado de existir.

Os braços dela se apertaram ao redor de mim, e o corpo pequeno sobe e desce devagar sobre o meu.

Não havia pressa. Não havia fome. Só algo que ela decidiu viver, agora sem mentira, sem alienação. Por escolha.

E eu senti.

Senti o que é fazer amor.

Não foder pra silenciar a solidão, mas estar dentro de alguém que me queria ali.

O corpo dela me apertava por dentro, lento, como se dissesse fica.

E eu ficava.

Meus dedos correram por cada curva dela, mas não como antes — não marcando, não tomando.

Eu mapeava com calma. imaginava. Cada músculo, cada suspiro, cada linha de calor que ela me entregava.

O jeito que os dedos dela passavam pelas minhas costas, ora leves, ora firmes, me arrancava quase mais do que o próprio prazer.

E quando ouvi a respiração dela falhar, o corpo tremer em cima de mim, o gemido escapar chamando meu nome, não aguentei.

Gozei junto.

Devagar.

Explodindo em ondas, demoradas, me arrastando com ela como se não quisesse que acabasse nunca.

Fiquei ali, abraçando com o corpo e a alma, afundando o rosto no pescoço dela, respirando o cheiro que nunca mais vou esquecer.

Senti uma lágrima descer. Uma maldita lágrima que nem mesmo a guerra conseguiu arrancar de mim.

E então, falei. Sem medo, sem mentira, sem desculpa.

— Eu te amo.

E dessa vez, ela não fugiu da frase.

Dessa vez, ela me respondeu que também.

E eu entendi.

Que mesmo errado, mesmo monstro, eu não estava mais sozinho.

Nunca mais.

 


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