Desde
as primeiras marcas deixadas pelo homem nas paredes úmidas das cavernas, eu a
vi. Uma criança, em rabiscos simples, gravada ao lado de figuras de caça e
símbolos rupestres. Quando avancei para os relevos maias, no coração das selvas
onde uma civilização inteira desapareceu sem deixar rastro, ela estava lá novamente.
Dessa vez, eternizada, talhada em pedras.
Nos
hieróglifos egípcios, perdida entre deuses e faraós, sua silhueta pequena
ergue-se ao lado de chacais e falcões, como se fosse tão sagrada quanto eles.
Entre as ruínas gregas, encontrei-a esculpida em estátuas quebradas, com a
inocência petrificada na mesma rigidez dos deuses caídos.
Viajei
ainda mais longe e a encontrei onde jamais deveria estar: pintada nos afrescos
de Pompeia, soterrada pela fúria de um vulcão, e depois no traço delicado de
uma matriosca russa, sorrindo entre camadas de madeira.
Século
após século, a mesma criança voltava, em pequenos souvenires vendidos nas ruas
de Salem, lembranças mórbidas de julgamentos e fogueiras. Hoje, ainda ecoa nas
músicas ciganas que ressoam em praças esquecidas, como uma melodia infantil
escondida entre notas tristes.
Em
pesquisas profundas sobre Stonehenge, os blocos erguidos contra o céu cinzento
parecem alinhar-se apenas para oferecê-la oferendas e preces afoitas.
Não
é possível que tantas culturas, tão distantes no tempo e no espaço, repetissem
a mesma criança por acaso. Ela não pertence a um povo, nem a uma era. Ela
pertence a todos. Ou talvez a nenhum.
Passei
anos acreditando que minha função era decifrar símbolos, separar mito de
realidade, encaixar peças dispersas no grande quebra-cabeça da humanidade. Mas
essa criança... ela destruiu qualquer pretensão de método. Não se trata mais de
ciência. É um chamado.
Cada
vez que revejo sua imagem, algo pulsa atrás dos meus olhos, como se fosse eu o
estudado e não o estudioso. Às vezes penso que ela me observa através dos
séculos, rindo do meu esforço inútil em reduzi-la a datações e hipóteses.
Não
existe teoria acadêmica capaz de explicar a repetição perfeita dessa figura em
culturas que jamais se encontraram. Os colegas riem de mim, chamam de
alucinação, de pareidolia. Mas sei o que vi. E sei que não estou sozinho nisso:
cada civilização que ousou retratá-la, cedo ou tarde, desapareceu ou se calou.
Por
isso continuo. Não pelo prestígio, não pela carreira — embora a glória de ser
lembrado como o homem que revelou o maior segredo da história ainda arda em mim
—, mas porque não consigo parar. Minha vida se tornou essa criança. Ou
melhor... esse algo que se esconde atrás da máscara de inocência.
Evitei
essa palavra por meses. “Vampiro.” Parece preguiçosa, popular, errada. Mas cada
pista me empurrava para ela, mesmo que tudo no que acreditamos sobre vampiros
estivesse torto.
O
primeiro incômodo veio nas cavernas: ao lado da criança, os artistas
pré-históricos desenharam canaletas que corriam da figura até uma fenda no
chão. Não eram linhas decorativas; eram caminhos. Nos relevos maias, a mesma
criança surge com uma tigela funda aos pés e marcas verticais escorrendo, pigmento
vermelho que, em laboratório, se revelou misturado a hematita e traços
orgânicos. Em Pompeia, no canto de um afresco quase apagado, há um semicírculo
de dentes desenhado sob um rosto infantil, e, abaixo, duas linhas paralelas
como se fossem mandíbulas desencaixadas. Em cerâmicas gregas de procedência
duvidosa, encontrei o mesmo motivo: a pequena criatura com a boca além do
ângulo humano, como se a face fosse só uma dobradiça para algo maior.
As
matrioscas… nelas, a repetição não é só enfeite: a menor, sempre com o traço da
boca alongado, não sorri. Em souvenirs baratos de Salem, vendem-se talismãs com
a inscrição “para que não desça” — desça para onde? — e uma criança gravada sob
um triângulo, como se houvesse um abaixo que ninguém quer nomear. Os ciganos
que gravei numa praça tocaram uma cantiga antiga em que “a pequena fome” bebe
por baixo da terra; o refrão, sussurrado, pede pedras “em roda” — pedras como
as de Stonehenge. Proteção… ou oferenda contida.
Não
é que eu tenha decidido, num estalo, chamar aquilo de vampiro. Foi a função que
me perseguiu: sempre há recipiente, sempre há escoamento, sempre há dentes
sugeridos e, sobretudo, sempre há o subsolo. Onde quer que a criança apareça,
há também um gesto de abaixar, selar, entregar. E as marcas nos ossos que
examinei na caverna do vale — ossos de gentes diferentes, tribos rivais, épocas
que não se falam — trazem estrias em arco, roídas de fora para dentro, como se
a mordida viesse de uma mandíbula que abre mais do que a nossa.
Eu
sei: vampiros de capa e castelo, de espelho e alho, são cómodos. São uma fábula
elegante para um medo real. O que vejo nas imagens não tem nada de elegante. Não
parece temer cruzes, não se desfaz com a aurora. Não boêmia pelas janelas:
sobe. Dos buracos. Das fendas. Dos corredores calcários que as águas milenares
abriram. E quando sobe, não sorve — devora.
Comecei
a desconfiar por exclusão. Se não é deus, se não é mito agrário, se não é
simples “símbolo da infância”, o que resta? A mesma criança imóvel em culturas
que ruíram em silêncio; o mesmo vocabulário visual de sangue guiado; a mesma
boca impossível. Eu não queria a palavra, mas ela se impôs como um rótulo
defeituoso e, ainda assim, o mais próximo do que tenho: vampiro. Não o que
inventaram, e sim o que a história humana tentou avisar.
E
então, foi nas páginas amareladas de um diário russo, esquecido em um arquivo
mofado, que encontrei a pista final. O explorador descrevia uma aldeia inteira
desaparecida na Sibéria, deixando para trás apenas ossadas dispostas em símbolos
inelegíveis sob o gelo, todas voltadas como oferendas a um centro vazio. Dentre
as anotações, ele jurava ter visto a figura de uma criança em meio a neve, com
a mandíbula alongada, aberta ao meio, formando três partes.
Isso
bastou. Não importava a distância, o clima ou a solidão. Se ela resistiu ao
fogo de Pompeia, se atravessou os desertos egípcios e as selvas maias, por que
não sobreviveria também ao gelo eterno?
Os
colegas disseram que eu estava louco, que nenhuma expedição aprovaria tamanha
imprudência. Mas não posso dividir essa descoberta. Se ela existe, será minha.
Eu serei o homem que trouxe a verdade à superfície, que desmentiu séculos de
mitos e mentiras.
Por
isso segui sozinho. Carregando apenas meus instrumentos, minhas anotações, e
uma certeza que me corrói por dentro: algo inominável me espera.
A
Sibéria não acolhe ninguém. O vento corta como lâminas invisíveis, o gelo range
sob meus pés como se pudesse ceder a qualquer instante, e o silêncio aqui é tão
absoluto que parece desnortear cada respiração que consigo arrancar do peito.
Ainda assim, é neste vazio branco que busco as fendas, os corredores
subterrâneos que jamais foram mapeados.
Minha
teoria me sustenta mais que a comida congelada da mochila. Se a criança vampiro
sobreviveu a tantos séculos, teria que haver um equilíbrio, um modo de existir
sem chamar atenção. Aqui, sob quilômetros de gelo, seu metabolismo funcionaria
mais devagar. A fome diluída pelo frio, a necessidade de se alimentar reduzida
a longos intervalos. Não seria obrigada a emergir com frequência, não
precisaria se expor ao olhar humano.
O
mundo moderno não a aceitaria como a credulidade, medo ou até a desinformação
dos povos antigos. Satélites varrem florestas, radares sondam oceanos, drones
cruzam desertos. Só o gelo quase inabitável ainda resiste ao escrutínio,
escondendo segredos desde antes da primeira palavra escrita. Aqui, enterrada,
ela não precisaria se mostrar. E aqui, escondida, não correria o risco de ser
caçada por destruir novamente populações inteiras de uma só vez.
Exploro
cavernas de gelo como quem percorre um templo proibido. As estalactites gélidas
pendem do teto como presas prontas a cravar-se, e o som do degelo escorre pelos
túneis como um sussurro persistente. Lanterna em punho, desço cada vez mais
fundo, convencido de que ela repousa em algum ponto desta escuridão mineral.
E
quando a lâmpada da lanterna dança nas paredes azuladas, vejo formas que não
consigo ignorar: riscos repetidos, vestígios territoriais talvez. Marcas que o
tempo deveria ter apagado, mas que se mantêm ali, preservadas pelo gelo como se
aguardassem apenas a minha chegada.
A
descida me levou a um salão subterrâneo, onde o teto de gelo se arqueia como a
abóbada de uma catedral enterrada. O ar aqui é espesso, antigo, como se não
tivesse sido respirado em milênios.
Foi
ali que percebi: o chão não era natural. Ossadas estavam dispostas em padrões
circulares, tão simétricas que não poderiam ser acaso. Em cada círculo, no
centro, havia uma marca entalhada na própria rocha, sempre a mesma figura: uma
criança. Mas o que me gelou a espinha não foi a repetição. Foi a quantidade.
Não
havia apenas uma. Havia dezenas de círculos. Centenas. Cada um sugerindo um
corpo entregue, cada um com sua pequena figura gravada, cada um talvez um
túmulo, ou pior — um berço.
E
se não era um ser isolado? E se cada cultura apenas registrou a passagem de uma
dessas criaturas? Se uma dorme aqui, sob o gelo, quantas mais repousam em
desertos, vulcões adormecidos, florestas afundadas em pântanos?
A
ideia me devora mais rápido que o frio: não seria o fim da humanidade, se todas
despertassem?
E
outra dúvida me corrói. Sempre vi a imagem de uma criança, sempre esse corpo
pequeno, ingênuo, travestindo o abismo que carrega dentro. Mas… seria apenas
uma forma? Uma a isca inicial? Ou haveriam adultos também, silhuetas maduras,
corpos crescidos, aguardando o momento certo de emergir?
Por
um instante, sinto que não desci para encontrá-la, mas para acordá-la. Ou pior:
para ser a oferenda que faltava no último círculo.
Enquanto
me perdi no tempo, digerindo as inúmeras teorias que pareciam se enraizar na minha
mente, eu a vi.
Num
canto do salão, deitada como uma prenda nunca recolhida. Pequena, magra, pele
translúcida pelo frio, como se fosse feita do mesmo gelo que a cercava. Os
olhos — abertos, fixos — não piscavam. Não respirava. Ainda assim, cada parte
de mim sabia que estava viva.
Eu
deveria ter fugido. Cada instinto gritava para recuar, mas minhas pernas não
obedeceram. Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse o fascínio de, finalmente,
ter diante de mim a prova que buscara por toda a vida. Ou talvez fosse algo
mais primitivo: um medo antigo, o medo de uma presa que se descobre reconhecida
pelo predador.
A
cabeça dela girou devagar, em meu rumo, e naquele instante percebi que não era
inocência o que seus traços infantis carregavam. Era disfarce.
A
boca se abriu. Primeiro um sorriso pequeno, depois um rasgo, depois uma fenda
impossível. A mandíbula descolou além do humano, escorrendo saliva espessa que
caiu sobre o gelo como ácido.
Não
houve tempo para correr. O corpo frágil avançou com uma força que nenhuma
lógica podia explicar, e suas mãos, tão pequenas quanto garras, me cravaram
contra o chão. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões.
Senti
seus dentes rasgando minha carne, não apenas sugando meu sangue, mas
mastigando, arrancando pedaços de mim como um animal faminto. O som dos ossos
partindo ecoou na caverna, misturado ao meu próprio grito, abafado pelo gelo.
O
mundo escurece. Minha descoberta… será lembrada? Ou serei apenas mais um corpo
disposto em círculo, parte de uma fome interminável?
Enquanto
os dentes mergulham de novo, a última verdade me atravessa: ela não estava
sozinha.
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