sábado, 25 de outubro de 2025

Enfermé - pt I

 

Ele jurou proteger a lei.

Ela jurou que era inocente.

Mas mentiras se dissolvem quando os corpos falam mais alto que a razão.

Inspirada no filme francês “Éperdument”, esta é a história de uma obsessão que nasceu no lugar mais improvável, onde o poder se confunde com desejo, e a salvação se parece perigosamente com destruição.

Porque às vezes, a prisão não está nas grades.

Está em querer alguém que você nunca deveria tocar.

 


Penitenciária de Fleury-Mérogis, França. Tarde cinzenta de outono.

 

** Jean **

 

Ajusto os óculos com a ponta dos dedos enquanto repasso mentalmente a agenda da semana. Mais um dia comum na rotina desgastante do sistema penitenciário francês. Vinte anos trabalhando aqui dentro me ensinaram a não esperar surpresas, apenas repetições cansativas de histórias que já conheço de cor.

Estou na sala de observação quando a porta de segurança se abre com o estalo metálico familiar. Um comboio de transferência. Nem ergo o olhar de imediato, acostumado ao vai-e-vem de mulheres sendo realocadas entre estabelecimentos penais.

Mas então sinto.

Algo diferente no ar. Uma mudança sutil na energia do ambiente.

Ergo os olhos por cima das lentes e a vejo.

Merde.

Emma. A ficha diz vinte e cinco anos, dois anos cumpridos, transferida por “questões comportamentais”. Franzo o cenho lendo aquilo. Questões comportamentais. O eufemismo educado para “problemática demais para o presídio anterior”.

Mas quando a vejo atravessar o pátio escoltada por duas guardas, nada na ficha faz jus ao que meus olhos capturam.

Cabelo azul vibrante cortando o cinza opressivo das paredes como uma afronta visual. Tatuagens cobrindo os braços, o pescoço, descendo até desaparecerem sob o uniforme da prisão que parece pequeno demais, justo demais no corpo dela. Piercings brilhando sob a luz fria do corredor; no nariz, nos lábios, nas orelhas.

Ela caminha com a postura de quem não pede licença pra existir. Ombros eretos, queixo erguido, mas nos olhos... nos olhos verdes que vasculham o ambiente como os de um animal enjaulado há tempo demais, vejo algo que me paralisa.

Raiva. Cansaço. E uma centelha perigosa que não consigo nomear.

As outras presas no pátio param o que estão fazendo. Algumas a encaram com desconfiança, outras com interesse mal disfarçado. Emma não olha pra ninguém. Só segue em frente, seguindo as guardas até o bloco de isolamento temporário.

Passo a língua pelos lábios, pousando a caneta sobre a mesa.

Não, Jean. Não.

Conheço esse tipo. Jovem, rebelde, marcada pela vida e pelo sistema. O tipo que quebra as regras só porque pode. O tipo que vai me dar trabalho.

Mas quando ela passa pela janela da minha sala e nossos olhares se cruzam por um segundo — apenas um segundo — algo dentro de mim estala.

Os olhos verdes me atravessam como se lessem cada pensamento que nunca deveria ter. Um canto da boca dela se curva num meio sorriso, desafiador, quase debochado. Como se dissesse: ” Vai ser você quem vai tentar me consertar?”

Ela desvia o olhar primeiro, desaparecendo pelo corredor.

Fico ali parado, a respiração mais pesada do que deveria.

Merde.

Pego a ficha dela de novo, lendo com atenção dessa vez. Emma. Dois anos presa. Injustamente, segundo ela alegou na audiência. Não me importo com inocência ou culpa, não é meu trabalho julgar. Meu trabalho é avaliar, acompanhar, tentar evitar que essas mulheres saiam daqui piores do que entraram.

Mas algo me diz que com Emma... vai ser diferente.

Fecho a pasta devagar, apoiando a testa na mão.

Amanhã tenho a primeira sessão com ela.

E pela primeira vez em vinte anos, não sei se estou preparado.

 

** Emma **

 

Prisão nova, tédio de sempre.

Entro com as mãos algemadas à frente do corpo, seguindo em fila atrás das outras detentas. O metal frio das algemas já não incomoda mais, acostumei com o peso delas nos pulsos, assim como me acostumei com tudo nessa merda de vida.

O tédio já me dói até nos ossos, infiltrado tão fundo que nem sei mais se ainda sinto alguma coisa de verdade. Essa transferência de presídio não desperta em mim absolutamente nada além de desprezo. Mais paredes cinzas, mais grades, mais uniformes laranjas. Que diferença faz?

Quando passo por uma sala com a lateral de vidro, meu olhar vagueia pelo interior e capta um homem mais velho sentado ali. Terno escuro, postura ereta, semblante sério cravado em algum papel sobre a mesa. Ele ergue os olhos no exato momento em que passo, e nossos olhares se cruzam.

Ele me olha nos olhos. Bem no fundo. Sem desviar. Sem aquele medo ou nojo que estou acostumada a ver nos rostos dos funcionários daqui.

Franzindo levemente a testa, avalio ele por um segundo. Deve ser algum advogadinho tentando soltar alguém. Mais um que vai falhar e cobrar caro por isso.

Desvio o olhar com desdém e sigo a fila em silêncio até ser realocada na nova cela, deixando aquele homem e seu olhar intenso pra trás.

 

** Jean **

 

Fico parado ali, o pulso ainda apoiado na mesa, os olhos grudados no corredor vazio por onde ela acabou de desaparecer.

Passo a mão pelo rosto, esfregando os olhos sob os óculos. Estou cansado. Velho demais pra isso. Cinquenta e três anos de vida, vinte deles lidando com mulheres quebradas, violentas, perdidas. Já deveria estar imune.

Mas aqueles olhos verdes...

Merde, Jean. Controle-se.

Pego a ficha dela de novo, releio cada linha como se pudesse encontrar algo que explique a inquietação que sobe pelo meu peito. Condenada por cumplicidade em assalto à mão armada. Ela alega inocência. Claro que alega. Todas alegam.

Mas tem algo na forma como o advogado de defesa escreveu o relato... algo que me incomoda. Falhas no processo. Testemunhas contraditórias. Ela estava no lugar errado, na hora errada, com as pessoas erradas.

Ou não.

Não importa. Não é meu trabalho provar inocência. Meu trabalho é garantir que ela não saia daqui ainda mais fodida do que entrou.

Fecho a pasta com um estalo seco.

A primeira sessão está marcada para amanhã, nove da manhã. Protocolo padrão para transferências: avaliação psicológica, verificação de risco de autolesão, adaptação ao novo ambiente.

Levanto, guardando os papéis na gaveta. Caminho até a janela e olho pro pátio vazio agora. A chuva começa a cair, fina, insistente, manchando o vidro.

Fecho os olhos por um segundo, mas a imagem dela volta. O cabelo. As tatuagens. O corpo todo tenso sob o uniforme laranja. A forma como me encarou, não com medo, não com submissão. Com desdém.

Como se eu não valesse nada.

Aperto os dedos contra o parapeito da janela.

Amanhã ela vai sentar na minha frente. Vai me olhar com aqueles mesmos olhos, vai tentar me testar, me provocar, me empurrar pra fora da minha zona de conforto.

E eu vou ter que manter a postura. A distância. O profissionalismo que me protege há vinte anos.

Mas porra...

Pego o casaco, desligo as luzes e saio.

Na porta, antes de trancar, olho uma última vez pro corredor onde ela desapareceu.

— Que merda... — murmuro baixo, com um meio sorriso amargo.

Amanhã ela vai descobrir quem eu sou de verdade.

E talvez... eu também descubra quem ela é por trás de toda essa armadura de tinta e metal.

 

** Emma **

 

Na manhã seguinte, sou guiada por uma das guardas até uma sala afastada do pátio principal.

O corredor é silencioso, apenas o eco dos nossos passos e o tilintar das chaves na cintura da guarda quebrando o vazio. Disseram-me que teria uma espécie de conversa, avaliação psicológica. Sei lá. Mais um protocolo idiota que não vai mudar absolutamente nada na minha situação.

Reviro os olhos enquanto a guarda destrava a porta.

Quando entro na sala, reconheço imediatamente o mesmo homem de ontem. O do olhar intenso. Camisa alinhada, gravata discreta, barba já meio grisalha que parece estar há semanas por fazer. Ele está ali, sentado atrás de uma mesa modesta, com uma pasta na minha frente e aquela postura de quem se acha no controle de tudo.

Suspiro fundo e me jogo na cadeira como uma criança obrigada a se sentar no cantinho do castigo. Não faço questão de disfarçar minha falta de interesse.

— Essa é nova. — A voz sai carregada de tédio e deboche na mesma medida. — Agora a cadeia tem psicólogo, é? Que inovador.

Faço uma pausa, deixando o sarcasmo pairar no ar.

— Já vou me inscrever pras aulas de artesanato e cerâmica também. Quem sabe faço um cinzeiro pro meu pai de Natal.

Afundo ainda mais o corpo na cadeira, escorrendo pelo assento numa postura propositalmente desrespeitosa. Cruzo os braços sobre o colo e o encaro com o olhar estreito e o cenho franzido, esperando que ele solte o discursinho motivacional de praxe que todos esses caras decoram na faculdade.

 

** Jean **

 

Levanto e fecho a porta atrás da guarda com um aceno silencioso, indicando que pode ir. O som da chave girando na fechadura ecoa pela sala pequena, e fico ali parado por um segundo, te observando.

Você está sentada como se o mundo inteiro te devesse desculpas. Braços cruzados, corpo escorregado na cadeira, aquele olhar estreito que tenta me desafiar antes mesmo de eu abrir a boca.

Dou dois passos até minha cadeira, puxo-a devagar e me sento com calma. A pasta pousada sobre a mesa entre nós, mas não a abro. Apenas te encaro por cima dos óculos, deixando o silêncio pesar por alguns segundos.

— Essa é velha, Emma. — Minha voz sai firme, grave, sem pressa. — Prisão tem psicólogo há mais tempo do que você imagina. Mas entendo... você deve ter passado os últimos dois anos sem ver um.

Cruzo as mãos sobre a mesa, inclinando levemente o corpo pra frente.

— Artesanato e cerâmica também têm, se quiser. Mas duvido que seja seu estilo. — Um meio sorriso atravessa meu rosto, rápido, quase imperceptível. — Imagino que prefira algo mais... explosivo.

Te observo de perto agora. O cabelo azul caindo sobre os ombros, as tatuagens subindo pelo pescoço, os piercings brilhando sob a luz fria da sala. Você é uma afronta visual nesse lugar cinza. E sabe disso. Usa isso como armadura.

— Meu nome é Jean Firmino. Sou o psicólogo responsável pelas transferências e casos de acompanhamento prolongado. — Faço uma pausa. — E sim, você vai ter que me ver toda semana, quer queira ou não. Protocolo.

Folheio a pasta finalmente, mas não leio. Só a deixo ali, aberta, como uma ameaça silenciosa de tudo que sei sobre você.

— Dois anos presa. Transferida por “questões comportamentais”. — Ergo o olhar de volta pra você, os olhos fixos nos seus. — O que aconteceu no último presídio? Brigou com alguém? Desrespeitou uma guarda? Ou só cansou de fingir que se importa?

Minha voz não carrega julgamento. Apenas curiosidade. Como se eu realmente quisesse saber, não pra te condenar, mas pra te entender.

E enquanto espero sua resposta, percebo algo que não deveria: a forma como minha respiração acelera só de ter você sentada ali, a poucos centímetros de distância. A forma como meus olhos traçam involuntariamente a linha do seu pescoço, das tatuagens que descem e somem sob o uniforme.

Controle-se, Jean. Ela é sua paciente. Nada mais.

Mas os olhos verdes que me encaram de volta dizem outra coisa.

Que isso vai ser muito mais complicado do que eu imaginava.

 

** Emma **

 

— Não aconteceu nada... — respondo seco, cortante. — Eles só achavam que eu não me adequava àquele ambiente “hostil demais”. — Faço aspas no ar com os dedos, irônica. — Como se esse lugar fosse um resort cinco estrelas. Aquilo era um buraco, e esse aqui provavelmente não é melhor.

Viro o rosto para o lado, desviando do seu olhar penetrante. Meus olhos pousam em um porta-retratos sobre a mesa. Uma foto sua — mais jovem, sorridente — ao lado de uma mulher bonita de cabelos castanhos e uma menininha loira no colo. Família perfeita. Vida perfeita.

Sinto algo apertando no peito, mas engulo.

Volto a vista para você por um instante, e me pego te olhando por mais tempo do que deveria. Estudando as linhas ao redor dos seus olhos, a forma como a barba grisalha moldura seu rosto, o vinco entre as sobrancelhas que parece permanente.

— Eu não vou causar problemas. — A voz desce um tom, perdendo parte da agressividade defensiva. — Eu não deveria sequer estar aqui.

Faço uma pausa, sentindo o peso das próprias palavras.

— Mas tanto faz, né? — Dou de ombros com indiferença forçada. — Você deve ouvir isso todos os dias. “Eu sou inocente, senhor, me ajude.” Aposto que já perdeu a conta de quantas vezes escutou essa ladainha.

Volto a cruzar os braços, erguendo levemente o queixo.

— Soube que você também é o diretor desse inferno. — Um sorriso amargo curva meus lábios. — Então imagino que possa me ferrar de várias formas diferentes se eu pisar fora da linha, não é?

 

** Jean **

 

Sigo seu olhar até o porta-retratos. A foto está ali há anos; eu, Claire, e Sophie quando ainda era pequena. Outra vida. Outra versão de mim que tentava acreditar que tudo fazia sentido.

Quando você volta a me encarar, seguro o olhar. Não desvio. E percebo que você também não. Fica ali, me estudando com aqueles olhos que parecem querer arrancar cada segredo que guardo.

— Sim, ouço isso todos os dias. — Minha voz sai mais baixa agora, quase íntima. — “Eu sou inocente”, “Não devia estar aqui”, “Foi um erro”. Toda presa que passa por essa porta me diz a mesma coisa.

Inclino o corpo um pouco mais pra frente, diminuindo a distância entre nós.

— Mas você sabe qual é a diferença entre você e as outras, Emma?

Faço uma pausa. Deixo o silêncio pesar.

— Eu acredito em você.

As palavras saem antes que eu possa filtrá-las. Merda. Isso não é protocolo. Isso não é profissional. Mas é verdade. Li o processo. Vi as falhas. E quando você me olha daquele jeito... algo em mim sabe que você não deveria estar aqui.

Passo a mão pela barba por fazer, o som áspero preenchendo o silêncio.

— E sim, sou o diretor. Psicólogo e diretor. — Um sorriso amargo aparece no canto da minha boca. — O que significa que tanto posso te ajudar... quanto posso te foder completamente se você pisar fora da linha.

Me recosto na cadeira, cruzando os braços, mas os olhos não te largam.

— Mas não vim aqui pra te ameaçar, Emma. Vim pra te entender. Porque se você vai passar os próximos anos aqui dentro, eu preciso saber com quem estou lidando. — Faço uma pausa. — E você precisa saber que pode confiar em alguém. Mesmo que seja só em mim.

Observo a forma como você se mantém tensa, escorregada na cadeira, mas com os músculos prontos pra reagir a qualquer provocação. Como um animal acuado que aprendeu a atacar primeiro.

— Dois anos é muito tempo sozinha. — Minha voz desce ainda mais, rouca. — Especialmente quando você não deveria estar aqui.

Deixo isso no ar. Não é uma promessa. Não é uma garantia. É só... verdade crua.

E quando nossos olhares se cruzam de novo, sinto algo que não deveria sentir. Algo que vai muito além de empatia profissional.

Porra, Jean. Você está fodido.

— Então... vai me contar o que realmente aconteceu? Ou vamos continuar nesse jogo de gato e rato onde você finge que não se importa e eu finjo que acredito?

 

** Emma **

 

— Me foder... — interrompo sua fala com um riso anasalado, quase incrédulo.

A palavra sai carregada de ironia, ecoando entre nós nessa sala pequena e abafada. Mordo o lábio inferior tentando segurar a risada que ameaça escapar. Não é engraçado. Nada disso é engraçado. Mas tem algo no absurdo da situação que me faz querer rir ou gritar, ainda não decidi qual.

— E por que diabos eu confiaria em você? — A pergunta sai direta, crua. — Sério, me diz. O que de útil você pode fazer por mim? Me colocar em algum trabalho menos insuportável do que faxina ou cozinha? Me dar uma cela com menos infiltração? Uau, que generosidade.

Noto como você me encara. Não é um olhar casual. É analítico, intenso, como se avaliasse cada mínima expressão minha, como se estudasse até a forma como eu respiro, como meus ombros sobem e descem, como meus dedos tamborilam nervosos no braço da cadeira.

Isso me incomoda. E me intriga.

Endireito a postura na cadeira num impulso, arrastando-a pelo chão com um rangido alto que corta o silêncio. Aproximo-me da sua mesa sem pedir licença, invadindo seu espaço. Apoio os cotovelos ali, sobre a superfície de madeira gasta, e recosto o rosto em uma das mãos, te encarando de perto agora.

— Olha, Jean... — Digo seu nome pela primeira vez, testando como soa na minha boca. — Eu sou inocente. De verdade. Mas não há absolutamente nada que eu diga ou faça que mude o fato de eu estar presa. E assim vai continuar. Até sabe-se lá quando.

Suspiro fundo, cansada.

— Então me poupe do discurso motivacional, tá? Eu já ouvi o suficiente.

 

** Jean **

 

Quando você ri, algo em mim se desestabiliza. Não é o riso em si, é a forma como soa. Cínico, cansado, mas ainda assim... vivo. Como se sob toda essa armadura de indiferença, ainda houvesse uma fagulha que se recusa a apagar.

Observo você arrastar a cadeira, o som áspero do metal contra o chão ecoando pela sala. Você se aproxima, apoiando os cotovelos na minha mesa como se invadisse meu território. O rosto inclinado na mão, tão perto agora que consigo ver cada detalhe.

As tatuagens que sobem pelo pescoço. Os piercings que brilham sob a luz. A curva dos lábios ainda marcada pelo sorriso debochado. E os olhos... porra, esses olhos claros que me atravessam como se lessem tudo que não digo.

Não recuo. Deveria, mas não recuo.

— Te foder? — Repito, deixando-a pairar no ar entre nós, carregada de um peso que não deveria ter. — Emma, se eu quisesse te foder, não seria dessa forma.

Minha voz sai grave, rouca, perigosamente baixa. Sei que cruzei uma linha. Mas algo em você me provoca a fazer isso. Como se testasse até onde posso ir antes de quebrar.

Me inclino também, diminuindo ainda mais a distância. Nossos rostos agora separados apenas pela largura da mesa.

— Você quer saber o que posso fazer por você? — Meus olhos descem brevemente pros seus lábios antes de voltar pros olhos. — Posso te colocar em atividades melhores, sim. Biblioteca, talvez. Oficina de escrita. Lugares onde você não precise fingir ser burra só pra sobreviver.

Faço uma pausa.

— Mas posso fazer mais do que isso. Posso revisar seu caso. Falar com o juiz responsável. Levantar as inconsistências que ninguém quis ver. — Minha voz endurece. — Porque você tem razão, Emma. Você não deveria estar aqui. E eu sei disso.

Passo a língua pelos lábios, sentindo a boca seca.

— Mas pra isso... você precisa confiar em mim. E sei que isso é pedir muito de alguém que passou dois anos aprendendo que ninguém aqui dentro vale merda nenhuma.

Minha mão desliza pela mesa, parando a poucos centímetros da sua. Não te toco. Mas o gesto está ali, suspenso, carregado de uma tensão que não deveria existir entre diretor e presa.

— Então me diz, Emma. — Minha voz desce pra um sussurro rouco. — Vai continuar fingindo que não se importa? Ou vai me deixar te ajudar?

Seus olhos me encaram de volta, desafiadores, mas por trás disso... vejo algo. Cansaço. Solidão. Uma vontade desesperada de acreditar em alguém, mesmo que seja no “qualquer” que você desprezou ontem.

E porra... eu quero ser esse alguém.

Mesmo sabendo que isso vai me destruir.

 

** Emma **

 

Enquanto você fala, realmente parecendo se importar, e não só fingindo como todos os outros sempre fizeram, algo dentro de mim parece se revirar.

É estranho. Desconfortável. Como se uma armadura que visto há tanto tempo começasse a rachar, e eu não soubesse mais como me proteger sem ela.

Minha expressão muda involuntariamente. Sinto minhas sobrancelhas relaxarem, a tensão no maxilar afrouxando. A máscara de indiferença escorrega por um segundo, e eu fico exposta. Vulnerável. E odeio isso.

— Biblioteca... seria ótimo, na verdade. — A resposta sai desconcertada, quase num sussurro. Desvio o olhar, incapaz de sustentar a intensidade dos seus olhos. Olho pro chão, pra mesa, pro nada. Qualquer lugar. Menos pra você.

Meus olhos pousam na sua mão sobre a mesa, a poucos centímetros da minha. Tão perto. Engulo a seco, sentindo meu coração acelerar sem entender direito o porquê. Sem saber o que esperar. Sem saber o que eu mesma quero que aconteça.

— Se você... — Hesito, a voz falhando. — Se você realmente puder e quiser ajudar... eu... — As palavras tropeçam umas nas outras. — Eu aceito sim.

Forço-me a voltar o olhar pra você, encontrando seus olhos de novo. Mas a proximidade é demais. Retraio um pouco o corpo, criando uma distância mínima, segura. Me ajeito novamente na cadeira, tentando recuperar a compostura.

— Podemos tentar então. — A voz sai mais firme agora, mas ainda carrega algo que não costumo mostrar: esperança. — Eu... agradeço. De verdade.

E pela primeira vez em muito tempo, eu realmente quis dizer isso.

 

** Jean **

 

Quando você desvia o olhar, quando a máscara cai por um segundo e vejo a vulnerabilidade nua por trás de toda essa armadura... algo dentro de mim se parte.

Não é pena. Não é compaixão profissional.

É outra coisa. Algo perigoso. Algo que não deveria estar sentindo por uma mulher quase trinta anos mais nova, presa, sentada na minha frente como se eu fosse sua última esperança.

— Biblioteca, então. — Minha voz sai mais suave agora, quase gentil. — Vou providenciar isso hoje mesmo. Você começa amanhã.

Observo você se retrair, se afastar alguns centímetros, como se tivesse percebido que chegou perto demais de mim, da verdade, de si mesma.

Minha mão ainda está ali, parada sobre a mesa. Quando você agradece, algo em mim quer alcançar a sua. Tocar. Apenas uma vez. Só pra sentir se sua pele é tão quente quanto parece.

Mas não faço isso.

Em vez disso, retiro a mão devagar, passando-a pelo rosto, esfregando os olhos sob os óculos. Preciso recuperar o controle. Preciso voltar a ser o diretor, o psicólogo, o profissional que sempre fui.

— Emma... — Digo seu nome baixo, como se saboreasse o gosto dele na minha boca. — Vou revisar seu processo. Vou falar com quem for preciso. Mas isso leva tempo. E enquanto isso... você precisa se manter longe de problemas. Entendido?

Me recosto na cadeira, cruzando os braços, mas os olhos não te largam.

— Nada de brigas. Nada de desacatos. Você me dá o seu melhor comportamento, e eu te dou a minha palavra de que vou fazer tudo ao meu alcance pra te tirar daqui.

Faço uma pausa, deixando o peso da promessa preencher o espaço entre nós.

— E se precisar de algo... qualquer coisa... você me procura. Não as guardas, não as outras presas. A mim. — Minha voz desce, rouca. — Porque a partir de agora, Emma, você é minha responsabilidade.

As palavras saem carregadas de um duplo sentido que nem eu mesmo quero admitir.

Minha responsabilidade.

Como se você fosse algo mais do que apenas mais uma presa no meu arquivo. Como se eu tivesse acabado de assumir um compromisso que vai muito além do profissional.

Me levanto devagar, indicando que a sessão chegou ao fim. Mas antes de chamar a guarda, me inclino levemente sobre a mesa, diminuindo a distância mais uma vez.

— E Emma... — Minha voz é um sussurro agora, quase íntimo. — Obrigado por confiar em mim. Sei que não foi fácil.

Nossos olhos se encontram. E por um segundo — apenas um segundo — deixo que você veja o que não deveria ver.

Que isso não é só sobre te ajudar.

Que algo em você me fisgou desde o momento em que cruzou aquele pátio.

E que, por mais errado que seja... eu não quero mais lutar contra isso.

Toco o interfone, chamando a guarda.

— Até amanhã, Emma. Na biblioteca.

Mas quando você se levanta e caminha até a porta, eu fico ali, parado, observando cada movimento seu até você desaparecer pelo corredor.

E pela primeira vez em vinte anos...

Tenho medo do que estou prestes a fazer.

 

** Emma **

 

Passo aquele dia inteiro tentando compreender por qual razão alguém na sua posição — diretor, psicólogo, claramente com uma vida estruturada fora desses muros — iria se importar em revisar meu caso ou me ajudar ali dentro.

Não faz sentido. Ninguém faz nada de graça nesse lugar. Sempre tem um preço, uma intenção oculta, um interesse escuso. Sempre.

Mas algo na forma como ele me olhou... como falou comigo... parecia diferente. E isso me assusta mais do que deveria.

Evitei problemas o dia inteiro. Evitei proximidades, evitei conversas desnecessárias, evitei tudo e todos. Mantive a cabeça baixa, os olhos no chão, a boca fechada. Passei o dia em silêncio auto imposto, sentada no pátio ao sol tentando não pensar, sentada sozinha no refeitório empurrando comida sem gosto pelo prato, vendo tv na cela sem prestar atenção em nada que passava na tela.

Dormir foi bem difícil. Revirei na cama estreita por horas, encarando o teto rachado, ouvindo os sons noturnos da prisão. E a imagem do rosto daquele homem — Jean — não saía da minha mente.

Os olhos escuros por trás dos óculos. A barba grisalha. A forma como segurou minha atenção sem esforço. A voz grave prometendo coisas que parecem impossíveis.

Eu me peguei suspirando pensando nele, e isso me irritou profundamente.

— Ahh, foda-se. — Murmurei sozinha na escuridão da cela. — Só faltava essa. Me apaixonar pelo diretor da prisão. Que clichê patético.

Mas não era paixão. Não podia ser. Era só... curiosidade. Talvez gratidão antecipada. Ou desespero disfarçado de esperança.

Na manhã seguinte, quando as guardas abriram as celas logo cedo com o estalo metálico familiar das fechaduras, saí com o coração batendo mais rápido do que o normal.

Caminhei devagar pelo corredor, fingindo distração, mas na verdade procurando. Esperando que ele aparecesse. Esperando que dissesse algo. Qualquer coisa que confirmasse que ontem não foi só um sonho ou uma crueldade do destino.

 

** Jean **

 

Chego cedo. Sempre chego cedo.

Mas hoje é diferente. Hoje não consigo tirar ela da cabeça.

Passei a noite inteira revirando na cama, Claire dormindo do meu lado, alheia ao tormento que me corrói. Cada vez que fechava os olhos, via os dela. Verdes, intensos, desafiadores. Via a forma como ela se inclinou sobre minha mesa, tão perto que senti o calor da sua pele.

Porra, Jean. Ela tem vinte e cinco anos. Você tem cinquenta e três. Ela é sua presa.

Mas nada disso importou quando me vi levantando às cinco da manhã, tomando banho frio, vestindo a camisa com mais cuidado do que o normal. Como se hoje fosse... diferente.

Entro no presídio às sete, duas horas antes do necessário. Passo pela segurança, cumprimento as guardas com um aceno mecânico, tranco-me no escritório.

Pego seu processo. Leio cada linha de novo. As inconsistências gritam pra mim. Testemunhas que se contradizem. Falta de provas concretas. Um advogado de defesa incompetente que mal fez seu trabalho.

Ela não deveria estar aqui.

E eu vou tirá-la a daqui. Não só porque é o certo..., mas porque a ideia de vê-la apodrecendo nesse lugar por mais anos me corrói por dentro de uma forma que não consigo explicar.

Fecho a pasta com força. Olho pro relógio. Oito e meia.

As celas vão abrir em dez minutos.

Me levanto, ajusto a gravata, pego a pasta. Caminho até o corredor principal, parando perto da entrada da biblioteca. Finjo revisar alguns papéis, mas meus olhos estão grudados na porta do bloco onde ela está.

Oito e quarenta.

O som das fechaduras se abrindo ecoa pelo corredor. Uma a uma. As presas começam a sair, algumas arrastando os pés, outras conversando baixo.

E então... te vejo.

Caminhando devagar. Sozinha. Os olhos percorrendo o corredor como se procurasse algo. Alguém.

Meu peito aperta.

Dou dois passos à frente, parando no meio do corredor. Você me vê. Nossos olhos se encontram. E por um segundo, o mundo ao redor desaparece.

— Bom dia, Emma. — Minha voz sai mais rouca do que deveria. Limpo a garganta. — Dormiu bem?

Idiota. Que pergunta idiota.

Mas não consigo evitar. Não consigo fingir que não passei a noite inteira pensando em você. Que não estou aqui, agora, porque queria te ver antes de qualquer outra coisa.

— A biblioteca fica ali. — Aponto com o queixo pra porta ao lado. — Mas antes... preciso de alguns minutos com você. No meu escritório.

Não é verdade. Não preciso de nada. Só quero você sozinha comigo de novo. Só quero... porra, nem sei mais o que quero.

Me viro, caminhando de volta pro escritório. Não olho pra trás, mas sei que você está me seguindo. Sinto sua presença atrás de mim como se queimasse.

Entro. Deixo a porta aberta pra você. Quando você entra, fecho-a devagar.

O som da chave girando parece mais alto do que deveria.

Me viro pra te encarar. E pela primeira vez desde que te vi... permito que você veja o que realmente estou sentindo.

— Eu não consegui parar de pensar em você. — As palavras saem antes que eu possa detê-las. Cruas. Honestas. Perigosas. — E isso... isso não deveria estar acontecendo.

Passo a mão pelo rosto, tentando recuperar o controle que já perdi.

— Mas revisei seu caso a noite toda. E você tinha razão. Não há merda nenhuma que te coloque aqui com certeza. Vou entrar com pedido de revisão hoje mesmo.

Me aproximo. Devagar. Como se cada passo fosse uma decisão consciente de cruzar uma linha que não deveria cruzar.

— Mas preciso que você entenda uma coisa. — Minha voz desce pra um sussurro rouco. — Se eu fizer isso... se eu te ajudar... vai ter gente questionando meus motivos. Vai ter gente de olho em nós.

Paro a poucos centímetros de você. Tão perto que sinto seu perfume misturado ao cheiro de sabonete barato da prisão.

— Então me diz agora. Você quer mesmo que eu faça isso? Ou prefere que eu te deixe em paz?

Mas meus olhos dizem outra coisa.

Por favor, não me peça pra te deixar em paz. Porque eu não sei se consigo.

 

** Emma **

 

— Nunca durmo bem, senhor Jean. — A resposta sai em tom baixo, automático, antes que eu possa filtrar.

Senhor. Merda. Saiu sem querer. Mordo o lábio inferior por dentro, irritada comigo mesma. Apesar de que, pela sua idade, é de se considerar tal formalidade. Não é como se fossemos iguais. Você tem poder aqui. Eu não tenho nada.

Caminho em silêncio atrás de você, observando seus ombros largos sob a camisa alinhada, a forma como seus passos ecoam firmes pelo corredor vazio. Ouço apenas isso — o eco dos nossos passos, o meu mais hesitante, o seu mais decidido — até chegarmos à sua sala.

A porta se fecha atrás de nós com um clique que parece alto demais no silêncio.

Quando você para tão perto de mim — invadindo meu espaço pessoal de uma forma que deveria me incomodar, mas não incomoda —, consigo sentir o calor do seu corpo irradiar sem sequer te tocar. O cheiro da sua colônia misturado com café e algo masculino que não consigo identificar.

Meu coração dispara.

— Mas... o que você vai ganhar com isso, senh... — Paro, me corrigindo. — Digo, Jean?

Ergo os olhos para encontrar os seus, e a proximidade me desarma.

— Por que se arriscar assim? — A pergunta sai genuína, vulnerável. — Você tem tudo a perder. Família, carreira, reputação... E eu não tenho nada pra te oferecer em troca.

Meus olhos percorrem seu rosto sem permissão; as linhas de expressão ao redor dos olhos, a mandíbula marcada, a barba que pede a mão de alguém para acariciar. Pousam nos seus lábios por um segundo a mais do que deveriam, e minha respiração falha.

Forço o olhar a voltar para os seus olhos, mas o dano já está feito. Já revelei demais.

 

** Jean **

 

Senhor.

A palavra sai da sua boca e algo dentro de mim se incendeia. Não deveria. Mas a forma como você diz... formal, mas carregada de uma tensão que nenhum de nós consegue disfarçar...

Engulo em seco quando vejo seus olhos descerem pros meus lábios. Apenas um segundo. Mas foi o suficiente pra me fazer perder completamente o controle que tento manter.

— O que eu ganho? — Repito a pergunta, a voz saindo num sussurro rouco.

Dou mais um passo. Agora não há mais espaço entre nós. Apenas o ar pesado, carregado de tudo que não dizemos.

Minha mão se ergue — devagar, trêmula — e os dedos roçam de leve na lateral do seu rosto. Apenas um toque. Leve. Mas o suficiente pra sentir sua pele quente sob a minha.

— Não ganho nada, Emma. — Meus olhos descem pros seus lábios também, demorando ali mais do que deveriam. — Pelo contrário. Perco tudo. Minha carreira. Minha reputação. Talvez até minha liberdade, se alguém descobrir o que...

A frase morre na minha garganta.

O que estou sentindo.

Minha testa se aproxima da sua. Não encosto. Mas estamos tão perto agora que sinto sua respiração batendo contra minha boca.

— Eu deveria te deixar em paz. — Minha voz falha. — Deveria manter distância. Deveria lembrar que sou casado, que tenho uma filha, que você é jovem demais, que está presa...

Fecho os olhos por um segundo. Quando abro, a intensidade neles queima.

— Mas desde que te vi atravessando aquele pátio... não consigo pensar em mais nada além de você.

Minha mão desliza pelo seu rosto, os dedos se enroscando de leve nos fios azuis do seu cabelo.

— E isso é errado. Em todos os sentidos possíveis. Mas a verdade? — Minha voz desce ainda mais, rouca, quase um rosnado. — A verdade é que eu não me importo mais.

Meu polegar roça seu lábio inferior. Devagar. Como se testasse até onde posso ir antes que você me empurre, me xingue, me lembre do absurdo que isso é.

— Então me diz. — Meus olhos cravados nos seus. — Me diz pra parar. Me diz que isso é loucura. Me diz qualquer coisa que me faça recuar... porque sozinho, Emma, eu não consigo mais.

Estamos no limite. A porta trancada atrás de nós. Minha mão no seu rosto. Nossos corpos quase colados. A respiração descompassada.

E pela primeira vez em vinte anos de profissão...

Não sei mais quem sou.

Se sou Jean Firmino, diretor respeitado.

Ou apenas um homem faminto, desesperado por algo que não pode ter.

Mas que já quer como se fosse seu.

 

** Emma **

 

Apoio as mãos na mesa atrás de mim, me sentindo encurralada entre o móvel e seu corpo. Mas por algum motivo — um motivo que não quero nomear, que não quero entender —, nem se eu pudesse eu fugiria disso. Dessa proximidade perigosa. Desse calor que emana de você e me consome.

Algo dentro de mim se rompe.

Inclino o rosto pra frente, fechando a distância mínima que ainda nos separa, e encontro meus lábios nos seus. Choco-os com a mesma fome desesperada com a qual você me olha sem disfarçar, sem esconder mais nada.

— Foda-se. — Murmuro contra sua boca, a palavra saindo num suspiro rendido. — Foda-se tudo.

Minhas mãos abandonam a mesa e se afundam no seu cabelo, deslizando pela sua nuca, arrastando os dedos entre os fios escuros com uma urgência que não sabia que existia em mim. Puxo você mais perto, mais fundo, como se não fosse o suficiente. Como se nunca fosse o suficiente.

Meu coração martela como uma bomba relógio prestes a explodir dentro do peito. Cada batida grita que isso é loucura, que vamos nos ferrar, que não há volta. Mas eu estou disposta a correr o risco. Disposta a queimar se for preciso.

Sinto seu membro enrijecendo contra mim mesmo através das suas vestes, e isso me deixa ainda mais desesperada. Mordo seu lábio inferior com força, arrancando um som rouco da sua garganta. Gemo baixo contra sua boca úmida do meu beijo, do nosso beijo, perdida em você de uma forma que assusta e liberta ao mesmo tempo.

 

** Jean **

 

Merde. Merde. Merde.

No instante em que seus lábios tocam os meus, tudo desmorona. Vinte anos de controle, de profissionalismo, de distância calculada... tudo se esfacela como vidro sob pressão.

Você me beija com fome. Com raiva. Com desespero. E eu respondo da mesma forma, a mão no seu cabelo se fechando com força, puxando sua cabeça pra trás enquanto minha língua invade sua boca sem pedir licença.

— Porra, Emma... — A voz sai rouca, arrastada, perdida entre o beijo e a loucura.

Meu corpo se prensa contra o seu, te empurrando contra a mesa. Sinto suas mãos na minha nuca, os dedos se enroscando nos meus cabelos, arranhando de leve, e isso só me deixa mais alterado.

Quando você morde meu lábio, um gemido baixo escapa da minha garganta. Animalesco. Sujo. Nada a ver com o homem controlado que finjo ser.

Minhas mãos descem pelo seu corpo, uma segurando sua cintura com força, a outra subindo pela lateral das suas costelas, sentindo cada curva sob o uniforme laranja que eu quero arrancar com os dentes.

Sinto meu pau latejando, duro, pressionado contra você. E você sente também. Geme contra minha boca quando percebe, e isso quase me faz gozar ali mesmo, como um adolescente fodido de tesão.

— Isso é loucura. — Murmuro contra seus lábios, mas não paro. Não consigo parar. — Vão nos pegar. Vão me destruir. Vão te colocar em isolamento...

Mas mesmo dizendo isso, minha boca desce pelo seu pescoço, mordendo, chupando, deixando marcas que vão gritar amanhã.

Minha mão sobe até seu rosto, segurando seu queixo com firmeza, obrigando você a me olhar.

— Você tem certeza? — Meus olhos queimam nos seus. — Porque se a gente fizer isso... não tem volta, Emma. Eu vou te querer de novo. E de novo. E de novo. Até me destruir completamente.

Meu corpo treme de desejo e medo em partes iguais.

— Me diz que você quer isso tanto quanto eu. — Minha voz é um sussurro desesperado. — Me diz que não sou só eu enlouquecendo sozinho.

Porque se for só eu... se você me empurrar agora... não sei se sobrevivo.

Mas se você me puxar de volta...

Porra. Se você me puxar de volta, eu te fodo aqui mesmo. Nessa mesa. Nessa sala. Com a porta trancada e o inferno batendo do lado de fora.

E não vou me arrepender de nada.

 

** Emma **

 

— Eu tenho certeza. — murmuro com a boca roçando de leve sua barba áspera, sentindo os pelos rasparem meus lábios. — Eu quero que você me foda, Jean. Agora.

Enquanto você ainda tenta se agarrar aos últimos fiapos da sua moralidade, minhas mãos já descem pela sua camisa, abrindo os botões com pressa desesperada, sem pensar em consequências, sem me importar com o que vem depois.

Os botões cedem um a um, revelando pouco a pouco os pelos negros do seu peito contrastando com a pele branca, quente, que pulsa sob meus dedos.

Empurro a camisa pra trás com força, arrancando-a pelos seus ombros enquanto minha língua invade sua boca de novo, percorre a lateral da sua face, desce até sua orelha. Mordo o lóbulo de leve antes de sussurrar:

— Me fode. — A frase cai entre nós como rendição absoluta, crua, tão entregue quanto eu já estou. — Por favor... me fode logo.

 

** Jean **

 

As palavras saem da sua boca e qualquer resquício de razão que ainda restava em mim se evapora como fumaça.

Quando você abre minha camisa, quando seus dedos tocam meu peito nu, quando sua língua percorre minha pele e sua voz sussurra “me fode” no meu ouvido...

Eu perco completamente o controle.

— Porra... — rosno baixo, virando você de costas num movimento brusco, te prensando contra a mesa com o peso do meu corpo.

Minhas mãos agarram seus quadris com força, puxando você contra mim, te fazendo sentir cada centímetro do meu pau latejando através da calça.

— Você não faz ideia do que tá pedindo, Emma. — Minha boca desce pelo seu pescoço, mordendo, chupando, deixando marcas que vão te lembrar disso por dias. — Faz dois anos que eu não fodo ninguém. Dois anos acumulando isso aqui dentro...

Minha mão sobe pela frente do seu uniforme, apertando seu seio por cima do tecido, sentindo o mamilo contra minha palma.

— E agora você... — puxo seu cabelo, virando seu rosto pra mim, minha boca colando na sua de novo num beijo brutal — ...você aparece com esse corpo, esses olhos, essa boca...

Minha outra mão desce, encontrando o cós da calça do uniforme. Abro com pressa, enfiando a mão lá dentro sem cerimônia, sentindo o calor da sua pele, a umidade entre suas pernas.

— Caralho, você tá molhada. — Minha voz sai num rosnado admirado. — Molhada só de me beijar...

Meus dedos deslizam pela sua intimidade, provocando, testando, sentindo como seu corpo reage ao meu toque.

— Isso vai ser rápido e sujo. — Murmuro contra seu ouvido, a voz rouca de desejo. — Não tenho tempo pra te foder direito aqui. As guardas fazem ronda em vinte minutos.

Retiro a mão, arrancando sua calça pra baixo com pressa desesperada. O som do tecido rasgando ecoa pela sala.

Foda-se. Vou dar outro uniforme pra ela depois.

Abro minha calça, liberando meu pau que lateja, duro, pulsando de vontade. Te viro de frente pra mim, te erguendo e te sentando na beirada da mesa.

Meus olhos percorrem seu corpo. A pele pálida marcada por tinta e metal. Você é a coisa mais linda que já vi na vida.

— Abre as pernas. — Ordeno, a voz saindo num tom de comando que não uso com mais ninguém.

Quando você obedece, me posiciono entre elas, a cabeça do meu pau roçando sua entrada molhada.

— Isso vai mudar tudo entre nós. — Meus olhos cravados nos seus, dando uma última chance pra você recuar. — Depois disso, você é minha, Emma. Entendeu? Não importa quantas grades nos separem... você vai ser minha.

E sem esperar resposta, empurro pra dentro.

De uma vez.

Fundo.

Sentindo seu corpo me engolir, quente, apertado, perfeito.

Minha testa cola na sua, um gemido rouco escapando da minha garganta.

— Porra... — A palavra sai trêmula. — Você é perfeita. Caralho... você é...

Começo a me mover. Devagar no início, sentindo cada centímetro. Depois mais rápido. Mais duro. Mais desesperado.

A mesa range. Os papéis caem. O porta-retratos com a foto da minha família tomba de lado.

Claire. Sophie. Perdão.

Mas mesmo pensando nisso, não paro. Não consigo parar.

Porque eu me sinto vivo.

E tudo que quero é me perder completamente em você.

 

** Emma **

 

Fico sem reação, sem fala, completamente paralisada enquanto você me toca, me vira, me provoca como se eu fosse um brinquedo seu desde sempre, como se meu corpo já te pertencesse há tempos e você só estivesse reivindicando o que é seu.

Meu corpo se contorce involuntariamente quando sinto você esfregar o pau em mim, duro, quente, pulsando contra minha entrada já encharcada. A vontade de implorar pra você me penetrar logo queima na ponta da língua, mas me seguro, mordendo o lábio com força.

— Agora é tarde demais pra arrependimento, Jean. — A voz sai arrastada, embargada, misturada com gemidos baixos que escapam entre meus lábios contraídos, tentando se conter, mas falhando miseravelmente.

E quando você finalmente me invade sem aviso nenhum, enfiando tudo de uma vez, todo meu corpo treme violentamente, vibra como se estivesse conectado a uma corrente elétrica, quase implode sentindo você se afundar em mim até o limite, me preenchendo de um jeito que nunca senti antes.

— Porra... — A palavra escapa num sussurro sufocado.

Eu mesma tapo minha boca com a mão, tentando abafar os gemidos que ameaçam explodir, enquanto a outra se agarra desesperada ao seu ombro, os dedos se cravando na sua carne com força suficiente pra deixar marcas de lua nas costas.

A mesa range e se move alguns centímetros pelo chão a cada investida sua, mas você não se importa, não para, não diminui o ritmo. Você me invade com brutalidade controlada, e cada estocada funda faz meus olhos revirarem pra dentro da cabeça, meus músculos internos se contraírem ao redor do seu pau como se quisessem te prender ali pra sempre.

— Meu deus... eu vou... — Tento avisar, mas não consigo terminar a frase.

As palavras morrem na minha garganta quando o orgasmo me atinge como uma onda violenta. Entrelaço as pernas em torno do seu corpo com força, te puxando, te forçando a ir ainda mais forte, mais fundo, me fodendo através do clímax que me despedaça por dentro.

Colo meus seios contra o seu peito suado, minha boca buscando qualquer pedaço de pele pra morder — seu queixo, seu maxilar, seu pescoço — tentando desesperadamente abafar os gemidos altos contra sua pele áspera, sua barba que arranha meu rosto e só me excita mais.

— Jean... — Seu nome escorre pela minha boca como uma promessa indecente, como uma confissão suja, como se cada sílaba carregasse tudo que não posso dizer em voz alta.

 

** Jean **

 

Quando você goza, quando sinto seu corpo se contraindo ao redor do meu pau, quando você morde meu maxilar tentando abafar os gemidos...

Eu perco tudo.

— Porra, Emma... — Rosno contra sua pele, as mãos apertando suas coxas com tanta força que sei que vão ficar marcas. — Isso... caralho... você gozando pra mim...

Continuo me movendo, mais rápido, mais forte, te fodendo através do seu orgasmo como um homem possuído. A mesa bate contra a parede, o barulho obsceno dos nossos corpos se chocando preenchendo a sala.

Deveria ter medo de alguém ouvir. Deveria parar. Mas não consigo.

Quando você diz meu nome daquele jeito — Jean — carregado de desejo, de rendição, de promessa...

Algo em mim se rompe definitivamente.

Sinto meu próprio orgasmo se aproximando, a pressão na base da espinha se tornando insuportável. Meus movimentos ficam erráticos, desesperados.

— Vou gozar... — Aviso entre dentes cerrados. — Porra, Emma... vou gozar dentro de você...

Deveria perguntar. Deveria ter cuidado. Mas não há racionalidade sobrando em mim.

Empurro fundo uma última vez, me enterrando até o limite, e gozo com um gemido abafado contra seu ombro. Ondas violentas percorrendo meu corpo, me esvaziando dentro de você como se tudo que acumulei nesses anos saísse de uma vez.

— Caralho... — A palavra sai trêmula, a respiração descompassada. — Caralho...

Fico ali, ainda dentro de você, tremendo, tentando recuperar o fôlego. Meus braços te envolvem, te segurando contra mim como se você fosse desaparecer se eu soltar.

A realidade começa a voltar aos poucos.

O escritório bagunçado. As roupas pelo chão. O porta-retratos tombado. A evidência do que acabamos de fazer gritando em cada canto.

O que eu fiz? Porra, o que eu fiz?

Mas quando você me olha — os olhos verdes ainda nublados de prazer, os lábios inchados, o cabelo azul desgrenhado — não sinto arrependimento.

Sinto fome.

Mais fome do que antes.

— Vinte minutos. — Murmuro rouco, ainda tentando recuperar o ar. — As guardas passam aqui em breve.

Saio de dentro de você devagar, sentindo o vazio imediato. Pego um lenço da gaveta, limpo você com cuidado, um gesto íntimo demais, quase terno, completamente fora de lugar depois do que acabamos de fazer.

— Você vai precisar de outro uniforme. — Minha voz sai mais controlada agora, mas os olhos ainda queimam. — Esse aqui... eu meio que rasguei.

Um meio sorriso torto aparece no meu rosto. Culpa e satisfação em partes iguais.

Me visto rapidamente, ajeitando a camisa, fechando a calça. Passo a mão pelo cabelo, tentando parecer minimamente apresentável.

— Emma... — Seguro seu rosto entre minhas mãos, forçando você a me olhar. — O que aconteceu aqui... não pode acontecer de novo. Não assim. Não tão descuidado.

Faço uma pausa.

— Mas vai acontecer de novo. — Minha voz desce, rouca, honesta. — Porque agora que eu te tive... não consigo mais fingir que não quero.

Beijo você. Devagar dessa vez. Profundo. Como se selasse algo entre nós.

— Biblioteca. Às três da tarde. Tem uma sala nos fundos onde guardam livros antigos. Ninguém vai lá. — Meus olhos cravados nos seus. — Eu vou estar lá. E você também.

Não é um pedido. É uma ordem disfarçada de convite.

Solto você, me afastando, voltando a ser o diretor. A máscara profissional voltando ao lugar.

— Agora vai. Antes que alguém perceba que você não saiu daqui ainda.

 

** Emma **

 

Permaneço sentada sobre sua mesa, as pernas ainda tremendo levemente, enquanto você me limpa com cuidado, passando o lenço entre minhas coxas como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se isso fosse apenas mais uma terça-feira qualquer na sua rotina de diretor.

Olho pro uniforme laranja rasgado jogado no chão, esquecido como prova do nosso crime, e não consigo evitar o sorriso que nasce nos meus lábios. Aquele tipo de sorriso que chega até os olhos, que afunda as covinhas nas bochechas, que denuncia tudo que estou sentindo mesmo quando tento esconder.

— Espero que isso aconteça de novo, e de novo... — falo com a voz ainda rouca, embargada, carregada de prazer sujo que ainda percorre meu corpo em ondas lentas. — Porque agora que eu te tive assim, Jean... não consigo imaginar parar.

Você me beija de novo, e naquele instante o mundo inteiro parece ter virado do avesso, como se o lado errado fosse na verdade o lado certo, como se tudo que sempre me disseram ser proibido fosse exatamente onde eu deveria estar.

Me visto com uma calma que não deveria ter, puxando o uniforme pelos quadris ainda sensíveis, ajeitando o tecido com movimentos lentos, deliberados. Enquanto isso, te observo tentando desesperadamente recuperar a dignidade, a compostura profissional, a máscara de diretor respeitável que acabou de rachar em mil pedaços.

E é quase engraçado ver você se esforçando tanto pra parecer que nada aconteceu.

Quando finalmente saio da sala, carrego comigo a sensação fantasma de você ainda entre minhas pernas, o calor que persiste mesmo depois, a marca invisível que vai me lembrar disso o dia inteiro.

E junto com isso, carrego também a vontade ardente de fazer muito mais, muito pior na próxima vez.

Porque agora que provei você...

Só quero mais.

 

** Jean **

 

Fico parado ali, apoiado na mesa ainda desorganizada, observando você sair.

O jeito que você sorriu — aquele sorriso que chegou aos olhos, que mostrou as covinhas nas bochechas — quase me fez te puxar de volta e foder você de novo. Ali mesmo. Sem me importar com o tempo, com as guardas, com o risco.

Porra, Jean. Controle-se.

Mas não há mais controle. Não depois disso.

Fecho a porta atrás de você e me viro, passando as mãos pelo rosto. O cheiro de sexo ainda impregna o ar. Meu pau ainda lateja, como se reclamasse por ter que parar. O gosto da sua boca ainda queima nos meus lábios.

Olho pro porta-retratos tombado sobre a mesa. Claire me encara da foto, Sophie nos braços, sorrisos congelados numa vida que parece pertencer a outra pessoa.

Deveria sentir culpa. Deveria me odiar.

Mas tudo que sinto é sede.

Sede de você. De novo. E de novo. Como você disse.

Arrumo a mesa mecanicamente. Guardo os papéis. Endireito o porta-retratos, mas não o olho. Não consigo.

Abro a janela, deixando o ar frio da manhã invadir a sala. Acendo um cigarro — algo que não faço há anos — e deixo a fumaça queimar minha garganta.

Três da tarde. Sala dos fundos da biblioteca.

Já sei o que vou fazer. Já sei que vou te ter de novo. Mas dessa vez... dessa vez vou ter tempo. Vou te foder do jeito que você merece. Devagar. Com calma. Até você implorar.

Até você gritar meu nome tão alto que vai precisar morder minha mão pra não nos entregar.

O cigarro queima entre meus dedos enquanto observo o pátio lá embaixo. As presas começam a sair pro café da manhã. Você está lá, caminhando sozinha como sempre, mas agora... agora há algo diferente em você.

Um brilho. Uma satisfação. Como se carregasse um segredo que ninguém mais sabe.

Nosso segredo.

Apago o cigarro, fecho a janela. Vou até o armário, pego um uniforme novo — tamanho pequeno — e saio da sala.

Preciso entregar isso pra você. Pessoalmente.

Mas quando te vejo no refeitório, sentada sozinha com a bandeja na sua frente, algo em mim muda.

Não posso simplesmente te entregar o uniforme na frente de todo mundo. Não sem levantar suspeitas.

Então faço o que sempre faço. Finjo profissionalismo.

Me aproximo da sua mesa, o uniforme dobrado debaixo do braço.

— Emma. — Minha voz sai firme, controlada. Como se nada tivesse acontecido meia hora atrás. — Preciso falar com você. Agora.

As outras presas olham. Algumas com curiosidade, outras com inveja.

Você ergue o olhar pra mim, e por um segundo — apenas um — vejo o brilho nos seus olhos. Aquele mesmo brilho de quando você estava sentada na minha mesa, gemendo meu nome.

— Levante. — Ordeno, mantendo o tom profissional.

Mas quando você passa por mim, quando nossos corpos quase se tocam no corredor estreito enquanto te entrego o uniforme...

Sussurro baixo, só pra você ouvir:

— Três da tarde, Emma. Não me faça esperar.

E sigo em frente, sem olhar pra trás.

Mas sei que você vai estar lá.

Porque agora... você é tão viciada em mim quanto eu em você.

E isso...

Isso é só o começo da nossa perdição.

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