sexta-feira, 7 de novembro de 2025

The Last Sermon. - pt I

 

O mosteiro era seu refúgio...
...Até ela chegar.

Juntos, reinventaram o significado do sagrado.
Agora, nem Deus o escuta mais.

Uma releitura alternativa, erótica e sombria inspirada em "O Monge" — onde a fé se curva diante do desejo, e o divino aprende o gosto do profano.


Eu me lembro bem do dia em que vi aquele “rapaz” pela primeira vez.

Surgiu no claustro como uma sombra nova entre as pedras antigas. Chegou calado, escondido sob uma túnica escura demais, larga demais, com o capuz sempre baixo, uma máscara pálida e a postura sempre recolhida. Ninguém parecia saber o nome dele. Ninguém nunca o tinha visto comer. Dormia pouco, quase não interagia. Diziam que era mudo, que vinha de um passado sofrido, que buscava se isolar dos pecados através do silêncio. Eu aceitei aquilo como verdade — até demais, talvez.

Mas havia algo. Algo que me incomodava. Que mexia com minha mente, com minha carne.

Primeiro foram os olhos por trás da máscara. Verdes, tão intensos, que quando se fixavam em mim durante os sermões, faziam o ar parecer mais denso ao meu redor. Eu sentia o calor subir por dentro da batina como se tivesse cometido um erro grave, só por notar aqueles olhos por mais de três segundos. Comecei a pregar com menos entusiasmo. Minhas palavras tropeçavam. Meus pensamentos se embaralhavam quando aquela silhueta se fazia presente na capela.

Depois, foram os gestos. Sempre contidos, quase teatrais. Um jeito de tocar as páginas dos livros como quem toca a própria pele. As mãos delicadas. Um modo de andar como quem dança entre as colunas do monastério. E, acima de tudo, um silêncio que gritava. Que me prendia. Que me chamava. Algo naquela presença parecia me despir sem nunca me tocar.

Comecei a sonhar com o “jovem”. Sonhos febris, sujos, cheios de culpa e confusão. Às vezes acordava com o lençol úmido de suor, ou de outra coisa que preferia não falar. Me ajoelhava em confissão, mesmo sem confessar. Orava, mas a voz da oração saía manchada pelo desejo.

E então vieram as conversas. Curtas no início, respostas mínimas. Mas a voz… aquela voz. Um timbre baixo, doce, macio, carregado de algo que não combinava com o corpo por baixo da túnica. Um tipo de feminilidade abafada, mas presente. Aquilo me desestabilizou.

Ele — ou ela — falava pouco, mas quando falava, cada palavra parecia um teste. Cada frase, uma isca. Certa vez, disse que usava a máscara como penitência. Outra vez, que carregava seus flagelos. E eu, tolo, me via tentando consolar, tentando entender. Mas no fundo, era só desejo. Era o fogo crescendo na minha barriga, me queimando por dentro sem deixar marcas visíveis.

Passei a observá-la — sim, ela, pois eu já sabia, mesmo que não quisesse admitir.

O jeito como se sentava durante os sermões, sempre na penumbra, sempre com as mãos repousadas nos joelhos. As mangas longas escondendo tudo, menos as pontas dos dedos. O modo como olhava para mim. Como me escutava. Como existia ali como se fosse feita para me tentar.

Minha mente se partiu. Comecei a errar os versículos. Esquecer horários. Me pegava pensando nela enquanto limpava o altar. Enquanto caminhava pelos corredores. Enquanto meu corpo me traía a noite, envergonhado e desesperado. Eu me odiava por isso. Mas voltava a pensar nela no instante seguinte.

E então, uma noite, ela veio até mim.

Disse que queria se confessar.

Se ajoelhou à minha frente com a mesma serenidade de sempre, e falou sobre pensamentos impuros. Disse que não buscava perdão, porque gostava de se flagelar com eles. Disse que queria que fosse eu, ali, ouvindo aquilo. E tudo em mim gritou. A carne, a alma, o espírito.

Eu não consegui dormir naquela noite.

E no dia seguinte... tudo desmoronou.

 

** Maxine **

 

Não final de uma tarde, quando você bate à minha porta, não digo uma única palavra.

A maçaneta gira com lentidão calculada, e quando a porta se abre, dou um passo para trás, sem surpresa, sem hesitação. Meu gesto com a mão é firme, mas convidativo, como se te desse passagem não apenas ao quarto..., mas a um segredo que você vem tentando decifrar desde o primeiro dia.

— Sente-se, por favor.

A madeira range suavemente quando fecho a porta atrás de você. A chave gira com um clique seco e abafado, quase simbólico, selando algo que não pode mais ser desfeito. Puxo uma cadeira e a coloco no centro do cômodo, posicionada de frente para a cama onde me sento logo em seguida, mantendo o corpo ereto, as mãos repousadas com uma calma que chega a ser desconcertante.

— Talvez agora você compreenda o que tem assombrado sua mente... noite após noite.

Não há provocação na minha voz. Há algo mais perigoso: certeza. Um prenúncio.

Então, com um gesto lento, cerimonial, levo as mãos ao rosto. Meus dedos tocam a máscara de couro que sempre me envolveu como uma armadura. E quando ela sobe, revelando enfim o que se esconde por trás do silêncio, a touca da túnica escorrega para trás com leveza, como se ela própria soubesse que chegou a hora da revelação.

Cabelos castanho-claros caem até a altura dos ombros, soltos, livres, emoldurando um rosto de feições suaves demais para pertencerem àquele lugar. A pele, pálida como cera. Os lábios, cheios, rosados, vívidos, como se feitos para murmurar pecados. E os olhos... Verdes como tentação antiga. Ardendo. Fixos em você com a mesma febre que tem te consumido — lenta, constante, inevitável.

Naquele instante, com a máscara aos meus pés e o véu das mentiras finalmente rasgado, algo entre nós muda de forma definitiva.

Você sabe disso.

E eu também.

 

** Ambrosio **

 

Fico parado no limiar da porta como se meus pés pesassem mais que o mundo.

Você me dá passagem. Eu entro.

Mas é como atravessar um umbral. Um ponto sem retorno.

Quando a chave gira atrás de mim, o som é nítido demais.

Definitivo demais.

Aceito o gesto e me sento.

O corpo tenso. As mãos entrelaçadas no colo.

Mas os olhos não desgrudam de você.

A cadeira que você puxa…

A forma como se senta...

A serenidade.

Tudo me fere com beleza.

Mas nada — nada — se compara ao momento em que suas mãos sobem até o rosto.

E a máscara cai.

Meus olhos não piscam.

Não podem.

Porque seria o mesmo que tentar fugir da verdade estampada ali, nua.

Os cabelos escorrem como um feitiço antigo quebrado diante de mim.

A boca entreaberta.

A pele clara, pura e impura ao mesmo tempo.

E os olhos…

Aqueles malditos olhos.

Eu sou o único a vê-los de verdade agora.

Minha garganta se fecha. O ar falha.

— Deus…

Mas não termino.

Porque Ele já não está mais aqui.

Só nós dois.

E a verdade.

Você.

A verdade que me queimou por dentro durante noites inteiras.

A verdade que agora tem forma, rosto… e nome.

— Quem… quem é você?

A pergunta sai sussurrada.

Mas é só uma formalidade.

No fundo, já sei.

Sempre soube.

 

** Maxine **

 

— Meu nome é Maxine. — minha voz sai calma, quase serena demais diante do que acabei de te revelar.

Não há hesitação no meu semblante, nem medo. Só uma estranha paz, como se essa verdade estivesse viva dentro de mim há muito tempo, esperando o momento certo pra sair.

— Foi a única maneira que encontrei de me aproximar de você. De tocar algo que parecia inalcançável... intocável.

Estendo a mão no ar, como se buscasse a tua pele, como se quisesse provar que você é real. Mas recuo antes de chegar perto demais, antes de te incendiar com o calor que carrego nos dedos.

— Eu não sou uma mulher de fé. Não sou guiada por dogmas ou rituais. Mas quando ouvi sua voz pela primeira vez, quando te vi... algo dentro de mim queimou. E não apagou desde então.

Meus olhos te buscam por trás de cada camada de dúvida que você tenta vestir. E eu sei. Sei que essa chama acesa em mim… já começou a queimar em você também.

 

** Ambrosio **

 

Maxine.

O nome cai como uma sentença no ar.

Não há trovões. Nem terremoto.

Só um silêncio… abissal.

Sinto o peso desse nome me atravessar com mais força do que qualquer confissão já ouvida neste mosteiro.

Você estende a mão, e mesmo sem me tocar, sinto o calor.

Sinto como se tivesse me alcançado por dentro, como se já conhecesse o caminho.

Engulo em seco.

Não consigo encará-la por completo.

Mas não consigo desviar também.

— Você mentiu.

Minha voz sai baixa, mas não há fúria nela.

Há medo.

E desejo.

— Você usou a fé deste lugar… usou a minha fé… Pra se aproximar de mim?

Levanto devagar, cada músculo tremendo com o esforço de conter algo maior do que qualquer voto de castidade.

— O que você quer de mim, Maxine?

Dou um passo à frente, apenas um.

Mas já estou longe demais de quem fui.

— Se veio aqui pra me destruir... então diga.

Mas não minta mais.

Não use a fé como véu.

Fale comigo como quem olha no fundo — e arranca o que resta.

Porque você já levou quase tudo.

 

** Maxine **

 

Você se levanta num ímpeto, dá um passo à frente, as palavras escapam de você em tom afoito, desordenado.

Então eu também me ergo. Fico diante de você, a poucos centímetros de distância, como se o ar entre nós estivesse prestes a incendiar.

— Pode negar pra mim, se quiser. Mas não negue a si mesmo que já perdeu a fé… em você.

Fico na ponta dos pés, inclinando o rosto até quase tocar sua boca com a minha. Meus lábios roçam os seus, mas não te beijo — ainda não. Quero que sinta a tentação em carne viva.

Seguro sua mão e a guio até meu seio, por cima da túnica, deixando que você sinta o calor que pulsa por trás do tecido.

— Você quer arder tanto quanto eu, Ambrosio…

Mas então você recua.

Seus olhos, desolados. Seu semblante, em ruínas. Você vira o rosto como quem se pune por sentir. Caminha até a porta. Destranca. E parte apressado, como se fugir de mim fosse fugir de si mesmo.

Mas eu sei.

Sei que você não vai contar a ninguém.

E também sei — com a mesma certeza que tenho do desejo que te consome — que mais hora, menos hora, numa dessas noites onde o silêncio grita, você vai voltar. Vai me buscar.

 

** Ambrosio **

 

Algumas noites depois...  A vela quase no fim lança sombras errantes pelas paredes.

Já perdi a conta de quantas vezes levantei da cama esta noite.

De quantas vezes me sentei, suando, com o coração acelerado, como se tivesse acabado de despertar de um pesadelo… ou de um sonho.

Duas noites se passaram.

E você continua lá.

Masculino aos olhos dos outros.

Silencioso como um voto sagrado.

Mas eu sei.

Sei o que há por baixo daquela máscara, por trás daquele disfarce.

Maxine.

Você anda entre os monges como se nada tivesse acontecido, como se fosse apenas mais um noviço. Mas cada passo seu soa mais alto pra mim do que todos os salmos do dia.

E isso me enlouquece.

Penso no toque.

No calor do seu corpo tão perto do meu.

Na sua boca roçando a minha.

Na sua mão me guiando até o limite.

E então, penso no que não fiz.

No beijo que não dei.

Na pele que não desviei.

Na noite que não aconteceu.

Levanto.

O frio do chão me desperta por um segundo. Mas o ardor na mente, na pele, nos sentidos… me faz esquecer qualquer penitência.

Me aproximo da janela. Observo o pátio vazio. O céu encoberto. O mosteiro adormecido.

Menos eu.

E você.

Sinto.

Você está acordada.

Caminha como sempre.

Em silêncio.

Mascarada.

Imaculada aos olhos de todos, e completamente marcada nos meus.

Não há oração que me salve essa noite.

E já não quero ser salvo.

Quero a verdade.

Quero você.

Volto à mesa.

Sento.

As mãos apoiadas no tampo de madeira, firmes.

O olhar preso na porta.

A vela queima.

O tempo escorre.

E sei.

Se você não vier até mim essa noite…

Eu irei até você.

 

** Maxine **

 

As horas se arrastam, espessas, e o silêncio do meu quarto grita mais alto do que qualquer prece recitada no convento.

Estou deitada, mas não durmo. Espero. Porque eu senti... Senti o peso no seu olhar hoje, mais denso que o habitual. O modo como seus dedos tremiam em oração, como sua boca hesitava em pronunciar palavras sagradas. Como se elas já não fizessem mais sentido.

Você está se esfarelando, Ambrosio. Tentando agarrar os últimos fiapos da fé, da sanidade, da lucidez..., mas eu sei. Sei que está por um fio.

Dois dias se passaram desde que você fugiu de mim.

Mas guardou o segredo.

Nosso segredo. Profano. Ardente. E ainda assim… mal começou.

E agora eu me pergunto, com os olhos abertos na escuridão e o corpo pulsando em expectativa:

Até quando você vai se segurar antes de vir atrás de mim de novo?

 

** Ambrosio **

 

As badaladas da meia-noite soam como marteladas no meu crânio.

O silêncio da cela não é mais silêncio.

É grito.

Um zumbido sufocante, como se cada centímetro das paredes estivesse me lembrando do que não fiz.

Do que ainda posso fazer.

A vela se apaga.

Mas continuo ali.

Imóvel.

Até quando?

A pergunta paira como fumaça.

Até quando vai se segurar, Ambrosio?

Meu peito aperta.

As mãos coçam.

A mente ruge.

A cadeira arrasta no chão com um ruído seco.

Levanto.

Paro diante da porta.

A maçaneta parece quente demais.

Não.

Dou um passo pra trás.

Outro.

Mas a lembrança do seu rosto… da sua voz… da sua mão levando a minha até o seio coberto pela túnica…

Basta.

Abro a porta.

Caminho em silêncio.

Mas cada batida do meu coração parece ecoar pelos arcos de pedra.

Cruzo o claustro.

Passo pelas celas vazias.

Até parar diante da sua.

Não há mais hesitação.

Nem escudo.

Nem prece.

Só desejo.

E culpa.

E a certeza:

Essa noite, não saio dali o mesmo homem.

Bato.

Duas vezes.

Firmes.

Irrevogáveis.

 

** Maxine **

 

Me levanto num impulso ao ouvir as batidas na porta.

Não preciso perguntar. Eu sei que é você.

Abro sem uma palavra, e ali está, a sua silhueta recortada pela penumbra do corredor, os olhos queimando de algo que você ainda não sabe nomear.

Meu coração dispara, violento, mas por fora permaneço serena. Silenciosa.

Dou um passo para o lado, permitindo sua passagem. Não te convido — porque não preciso.

Te observo por trás da máscara de couro que ainda cobre meu rosto, como sempre. Mas sei.

Sei que você já se perdeu aqui.

E agora, tudo que resta…

É esperar você atravessar esse limiar por vontade própria. Ou confessar, com a voz embargada, o que já não consegue calar.

 

** Ambrosio **

 

Seus olhos me atravessam como se a máscara não existisse.

Fico parado por um instante, preso entre o pecado e o que sempre chamei de fé.

Mas a verdade é que não há mais linha entre os dois.

Entro.

Fecho a porta atrás de mim, mas não olho pra ela.

Olho pra você.

Você permanece ali, em silêncio. O mesmo silêncio que usou pra me seduzir, pra me desarmar, pra me despir por dentro.

Mas agora, ele não é arma.

É sentença.

Dou dois passos.

Talvez três.

— Eu lutei contra isso.

— Por dias. Por noites.

— Mas você…

Minha voz falha. O peito se move com um suspiro preso entre o arrependimento e o desejo.

— Você plantou algo em mim, Maxine.

Algo que nem a oração mais longa conseguiu arrancar.

Dou mais um passo.

Agora estamos perto demais.

De novo.

— Diga…

Diga que sabe o que está fazendo comigo.

Diga que não é só minha queda.

Diga que também está caindo.

E se não disser…

Toque.

Porque essa noite, já não sou homem de Deus.

Sou só homem.

Diante de você.

 

** Maxine **

 

A máscara cai ao chão com um som seco, como se rompesse não apenas o disfarce, mas toda a resistência que ainda pairava entre nós.

Sua respiração está ofegante — audível, trêmula — como o suspiro de um homem que lutou contra o próprio desejo até que não restasse mais força alguma.

Você enfim cedeu.

— Eu não vou deixar você cair sozinho. — sussurro, e minha voz não é consolo, é convite.

Minha mão sobe lentamente até sua nuca, dedos se enroscando no seu cabelo enquanto te puxo para mim, selando nossos lábios com um beijo quente, profano, sem culpa ou hesitação.

Sinto a tensão se desfazer no seu corpo.

Sinto o arrependimento morrer na sua boca antes mesmo de nascer.

E o que me incendeia, o que me faz tremer por dentro, é saber...

Você nunca fez isso antes.

Nunca tocou uma mulher desse jeito.

Nunca foi tocado assim.

E ainda assim, vai se perder comigo como se tivesse esperado por isso a vida inteira.

 

** Ambrosio **

 

Seus lábios encontram os meus, e toda resistência se desfaz num único instante.

A sensação é brutal. Quente. Impiedosa.

Como se sua boca fosse feita pra me reescrever, arrancando de mim cada vestígio de fé, de contenção, de Deus.

Gemo contra você, baixo, contido, como um homem ainda tentando se agarrar a algo que já não existe.

Minhas mãos vão até sua cintura por puro instinto.

Tremem.

Mas não recuam.

— Maxine… — murmuro entre os beijos, como quem invoca e se condena ao mesmo tempo.

Nunca beijei ninguém.

Nunca toquei alguém assim.

Nunca fui tocado por desejo verdadeiro.

Mas agora, tudo que fui… já não me serve.

Te aperto contra mim, o corpo rígido de culpa e fome.

Sinto seus seios contra meu peito, seu calor me queimando sob o tecido.

Minhas mãos sobem pelas suas costas, inseguras, inexperientes, famintas.

E minha boca desce pelo seu pescoço, lenta, reverente, como se beijasse o próprio altar da perdição.

— Me diz que isso não é um castigo.

Me diz que é real.

Me diz que é só o começo.

Porque eu já caí.

Mas se for com você…

Então que o inferno me receba de braços abertos.

 

** Maxine **

 

— Isso não é um castigo. — murmuro contra sua pele, enquanto sua boca desliza pelo meu pescoço como se procurasse redenção onde só existe perdição.

— Isso é o resultado de todas as preces que você não fez.

Dou um passo para trás, o suficiente para ver seus olhos dilatados, confusos, latejantes de desejo. Seu corpo treme como se a própria fé estivesse por um fio.

Seguro a barra da túnica escura entre os dedos e, sem pressa, deslizo o tecido pelo meu corpo, puxando-o por sobre a cabeça.

O som abafado do pano tocando o chão parece ecoar como um sino de profanação.

Ali estou. Despida.

De carne, de pele, de tudo que o mundo tentou apagar em mim.

Despida de todas as mentiras que vesti pra chegar até você.

— Eu sou real, Ambrosio. — digo com a voz baixa, mas firme, queimando no ar entre nós. — Feita de carne, de desejo... e de tudo que sua mente santa jamais teve coragem de imaginar.

 

** Ambrosio **

 

Meus olhos percorrem seu corpo como se estivessem vendo o mundo pela primeira vez.

E talvez estejam.

Você ali, despida — não só das vestes, mas da mentira, da máscara, do disfarce — é a visão mais crua e cruel que já tive.

Não pela nudez.

Mas porque agora… não tenho mais como voltar.

Sinto o corpo inteiro pulsar, como se meu sangue carregasse fogo.

Cada batida do coração me empurra mais fundo nesse abismo que você abriu com um sussurro.

— Maxine…

Seu nome se arrasta pela minha garganta como um salmo profanado.

Me aproximo mais.

Devagar.

Com as mãos ainda trêmulas, mas decididas.

Encosto os dedos na sua cintura.

Pele quente. Macia.

Real.

Desço as mãos pelas curvas com reverência e culpa, como se meu toque fosse uma oração dita de joelhos.

E quando meus olhos voltam aos seus, não há mais Ambrosio.

Só o homem.

Desarmado.

Faminto.

— Se isso é pecado…

Que me consuma até o último suspiro.

E te beijo de novo, com tudo que neguei a mim mesmo durante noites.

Com entrega.

Com fome.

Com fé…

Em você.

 

** Maxine **

 

Agarro sua túnica entre os dedos, te puxando com força pra perto, sentindo o volume rígido do seu desejo pulsar sob o tecido escuro que ainda te cobre. Um lembrete vivo da culpa que você ainda carrega… e que está prestes a abandonar.

Nossos lábios colidem com fúria contida.

Minha língua invade sua boca, dança com a sua num frêmito de urgência, desespero, luxúria.

Você geme baixo, sufocado pelo próprio arrependimento que se desfaz a cada segundo contra minha boca.

Sua respiração quente e errática se espalha pela minha pele, e por um instante, somos apenas carne e impulso.

Suas mãos me agarram com uma devoção suja, como se finalmente aceitasse que não há mais Deus nos teus dedos — apenas eu.

E pela primeira vez, você se permite afundar as mãos em carne viva, se agarra ao pecado com força, renega a fé, o altar, o céu.

Se entrega ao inferno com olhos abertos… e meu corpo como única salvação.

 

** Ambrosio **

 

Meus dedos se enterram na sua pele como se estivessem procurando abrigo ou redenção.

Mas não há nada sagrado aqui.

Só carne.

Só nós.

Você me beija como se me exigisse inteiro, e eu cedo como se não houvesse mais mundo fora da sua boca.

A túnica começa a sufocar. O tecido grosso agora é prisão.

Sinto você me puxar com força, o corpo colado ao meu, e o calor entre nós me desfaz.

— Eu não sei… — sussurro com os lábios entreabertos, ofegante contra a sua boca — …não sei como fazer isso direito.

A frase sai quebrada, desesperada, mas carregada de verdade.

Nunca toquei ninguém assim.

Nunca desejei ninguém assim.

Nunca… fui tocado assim.

Mas ainda assim, minhas mãos seguem pelo seu corpo, trêmulas, mas decididas, como se o instinto falasse por mim.

Como se meu próprio corpo tivesse rezado por isso em silêncio durante anos.

Te ergo pelas coxas e te levo até a cama com passos curtos, tropeçados.

Deito você ali como se carregasse algo sagrado.

Mas me debruço sobre você como um homem perdido em febre.

E ali, com seus cabelos espalhados pelo travesseiro e os olhos cravados nos meus, eu entendo.

Você é minha danação.

Mas também é minha única verdade.

 

** Maxine **

 

Você me ergue pelas coxas por puro instinto, como se seu corpo já soubesse o caminho da perdição antes da sua alma aceitar o convite.

E por Deus… isso me faz querer te arrastar comigo direto pro fundo da danação.

Você me deita na cama com urgência, o peso do seu corpo febril esmagando meu peito nu como se quisesse se fundir a mim, colar sua culpa na minha pele quente.

A luz trêmula das velas dança pelas paredes, projetando sombras que se contorcem como pecadores em oração.

Mas aqui não há salvação — apenas desejo.

Seus olhos buscam os meus. Seus lábios quase roçam os meus.

Eu murmuro, com a voz rouca de luxúria e promessa:

— Tira sua túnica…

— Se livre disso.

Minha boca roça a sua, mal tocando, como se cada palavra fosse uma ordem sagrada.

— Eu quero o homem, não o monge. Quero o corpo, não o dogma.

E você, ofegante, hesitante, perdido… começa a descer as mãos pelo próprio peito, pronto pra se despir da fé e vestir o pecado com o meu nome.

 

** Ambrosio **

 

Seu sussurro cola na minha pele como brasa.

“Tira sua túnica.”

As palavras são simples.

Mas nunca algo soou tão obsceno.

Tão inevitável.

Me afasto o suficiente pra me ajoelhar entre suas pernas sobre a cama.

Minhas mãos vão até o cinto de tecido — e por um segundo, hesito.

Não por vergonha.

Mas porque sei que, ao tirá-lo, não sou mais Ambrosio.

Sou só o homem que você destruiu com um beijo.

E recriou com um toque.

Desfaço o nó.

Puxo a túnica por cima da cabeça.

Deixo cair ao lado da cama.

Fico nu à sua frente, ofegante, despido não só de roupa, mas de votos, de fé, de identidade.

Minhas mãos repousam sobre suas coxas, subindo devagar.

E meus olhos cravam nos seus.

— Eu sou seu agora.

Não por escolha.

Mas porque não existe mais nada antes de você.

E me debruço novamente, descendo a boca pelo seu colo, entre os seios, o ventre…

Pronto pra me perder.

E nunca mais me encontrar.

 

** Maxine **

 

Sua boca desce pelo meu corpo como uma promessa ardente, tirando de mim gemidos baixos, contidos, que escapam por entre os lábios apertados, como se cada som fosse uma confissão indizível.

Meus dedos se afundam nos seus braços, te puxando de volta pra cima, querendo o peso do seu corpo sobre o meu, a pele quente contra a minha, o membro rígido pressionando meu ventre, implorando por redenção e condenação.

— Já sentiu algo assim antes? — sussurro com os olhos cravados nos seus, a boca entreaberta de desejo e provocação.

Abro mais as pernas, lenta, decidida, me posicionando sob você com o pecado da sua vida prestes a ser cometido com todos os sentidos.

— Quero olhar nos seus olhos quando você sentir isso.

E então, ajeito o corpo sob o seu, minhas mãos deslizando pelas suas costas, e te puxo pra mim.

Forço os quadris pra cima com um movimento que beira a loucura.

Você me invade devagar — e mesmo assim, tudo dentro de mim grita como se estivesse sendo tomada por algo mais forte que carne e sangue.

E eu não desvio os olhos.

Porque quero ver a sua alma se partir.

E renascer em mim.

 

** Ambrosio **

 

Seu corpo se molda ao meu como se tivesse sido esculpido pra isso; pra me receber, pra me consumir.

Quando você me puxa e força os quadris pra cima, arfando contra minha boca, eu invado você pela primeira vez… e tudo para.

O mundo.

O tempo.

A culpa.

— Ah... Maxine...

Minha voz morre contra a sua pele enquanto o calor do seu corpo me engole por inteiro.

Nunca senti algo assim.

Nunca imaginei.

Meu quadril se move devagar, como se cada centímetro fosse uma passagem sendo rasgada.

Você é quente, apertada, viva — tão viva que me faz sentir humano pela primeira vez… e nunca tão longe de Deus.

Seguro seu rosto com as duas mãos, os olhos cravados nos seus.

A respiração falha.

O prazer começa a se espalhar pelo meu corpo como um veneno doce.

— Olha pra mim…

Deixa-me morrer aqui, e renascer dentro de você.

Me afundo mais uma vez, sentindo você me apertar por dentro, seus quadris acompanhando meus movimentos, como se soubesse exatamente onde minha sanidade desaba.

Essa noite, sou só carne.

Sou só seu.

 

** Maxine **

 

Minhas mãos deslizam lentamente pelos seus braços, sentindo cada tensão, cada centímetro de pele quente e trêmula. Descem pelas suas costas, firmam-se nas laterais do seu corpo como se quisessem te moldar ali, inteiro dentro de mim, onde você já não consegue mais se distinguir do que é meu ou seu.

Minhas sobrancelhas se apertam, os lábios entreabertos buscam o silêncio com desespero, mas a cada estocada sua, escapa um som novo, íntimo, desobediente.

Meus olhos se fecham, só por um instante, e então encosto o rosto no seu. A boca úmida alcança sua orelha e deixo cada gemido escapar ali, proposital, rouco, úmido, indecente.

— Gosta disso? Gosta dessa sensação, Ambrosio?

Minha voz sai como uma maldição disfarçada de reza.

E então, meus quadris se erguem em um movimento natural, animalesco, obedecendo o chamado do seu corpo contra o meu.

Nos movemos juntos. Ritmados. Sagrados. Profanos.

Te recebo com prazer, com reverência, como se meu corpo existisse apenas pra te guardar.

E ao observar suas expressões, seus olhos dilatados, seu semblante perdido entre culpa e êxtase...

Eu perco a sanidade.

Porque ver você sentir tudo isso pela primeira vez — em mim — É o que me leva direto ao delírio.

 

** Ambrosio **

 

Seu corpo me envolve por completo — quente, úmido, vivo — e cada movimento seu me arranca da realidade.

Sou apenas impulso agora.

Instinto.

Sinto suas mãos me puxarem mais fundo, e retribuo com força, com entrega, como se te alcançar fosse o único sentido da minha existência.

Sua boca encostada na minha orelha, os gemidos ali, tão próximos, tão íntimos, me fazem perder o ritmo por um instante.

— Sim... — arfando, entrecortado — sim, meu Deus, eu...

Mas não há mais Deus aqui.

Só você.

Meus quadris acompanham os seus, mais intensos, mais profundos, e os sons que você faz contra minha pele me queimam.

Você me olha.

E eu me desfaço.

Seus olhos me prendem, e quando vejo sua expressão, sua entrega, sua fome...

Quero dar tudo.

Ser tudo.

Inclino o rosto, beijo sua boca com desespero, com fome, como se respirasse através de você.

— Maxine... Você é minha fé agora.

E me afundo mais uma vez.

Como um homem que não quer mais se salvar.

Só se perder.

Dentro de você.

 

** Maxine **

 

Você acompanha meu ritmo, se perde na minha fome.

Mas isso não me basta. Eu quero te consumir até você esquecer quem era antes de mim.

Quero marcar minha presença em cada fibra sua. Ser tua obsessão, tua perdição... tua ruína.

Minhas mãos deslizam até seu peito, e com firmeza o empurro de volta contra a cama. Te forço a se deitar, o corpo colando nos lençóis ainda marcados pelo que já fizemos.

Subo por cima de você com a lentidão calculada de quem sabe o efeito que causa. Meus joelhos se abrem em torno da sua cintura, te prendendo ali, entre minhas coxas, como se eu fosse a sentença da qual você não vai escapar.

Deslizo o quadril contra o seu, lenta, provocante, sentindo sua pele queimar sob a minha.

Uma das mãos repousa firme no seu peito, sentindo seu coração disparado. A outra, segura seu punho, o conduz até meu seio exposto, quente, arfando pelo toque.

Inclino o rosto, deixando minha boca roçar a sua.

— Me diga que você quer mais… A voz sai baixa, quase uma ameaça sedutora. — …que eu continuo o que comecei, Ambrosio.

Minha respiração se mistura à sua.

A pressão entre nossos corpos é febril.

E o silêncio que vem antes da sua resposta é tão sagrado quanto pecaminoso.

 

** Ambrosio **

 

Quando suas mãos me empurram e meu corpo cede contra o colchão, não há resistência.

Nenhuma.

Deixo você me montar, me tomar, me dominar, como se isso fosse inevitável.

Porque é.

Seu corpo sobre o meu, as coxas me apertando, seus quadris se esfregando com o ritmo de uma tentação nua, feita sob medida pra me quebrar… e me refazer.

Você guia minha mão até o seu seio, e o calor da sua pele na palma da minha me faz gemer baixo, rouco, mais homem do que jamais fui.

Meu nome na sua boca já não é sagrado.

É carnal.

É tudo.

Seguro firme sua cintura com a outra mão. Meus olhos presos aos seus — abertos, entregues, devastados.

— Eu quero tudo.

A voz sai baixa, crua, desesperada.

— Quero sua boca, sua pele, seu corpo me fodendo como se eu nunca tivesse sido de mais ninguém — porque não fui. Porque agora sou seu.

Me arqueio sob você, te querendo como se minha alma dependesse disso.

— Termina o que começou.

Mas não me deixa inteiro.

Me destrói.

 

** Maxine **

 

Num movimento lento de quadril, me encaixo em você novamente, descendo com uma lentidão quase cruel, como se quisesse castigar cada parte do seu ser com o peso do meu corpo e do meu desejo.

— Hoje... você vai aprender que o pecado da carne é o mais doce de se cometer.

Minha voz é baixa, quente, carregada da luxúria que governa cada gesto meu.

Começo a me mover sobre você, devagar, como se girasse em torno do seu próprio inferno particular. Meus quadris traçam círculos lentos, úmidos, precisos, esculpindo a perdição entre nós.

Meu corpo roça no seu, se arrastando, marcando cada centímetro da sua pele com o calor do meu íntimo.

Minhas mãos se apoiam no seu peito, os dedos se curvam, as unhas afundam na sua pele quente, deixando rastros, exigindo, possuindo.

Tombo a cabeça pra trás, o cabelo se desalinhando, os seios se projetando mais ainda contra você.

E então, gemidos me escapam — impuros, viscerais — à medida que te sinto se perder, a cada movimento meu.

A cada deslizar, a cada investida lenta, você se rende mais.

E eu... me alimento disso.

Do seu desejo.

Da sua fraqueza.

Do seu vício.

 

** Ambrosio **

 

Seu corpo me envolve de novo, devagar, com crueldade divina, como se cada segundo da sua descida fosse uma lição.

Uma punição.

Uma revelação.

Quando você fala, a voz entre gemido e sentença, sinto o ventre contrair.

O pecado da carne.

— Maxine…

Sua boca não precisa mais tocar a minha pra me dominar.

Seus quadris fazem isso por você.

Cada círculo, cada fricção me consome com uma intensidade que nunca conheci, nunca ousei imaginar.

Minhas mãos sobem pelas suas coxas, deslizam pela sua cintura até o quadril, mas não consigo te conter. Você dita o ritmo, o tempo, a precisão.

Suas unhas afundam no meu peito, e o ardor só me excita mais.

Você está me marcando.

Fazendo de mim um corpo seu.

Pra sempre.

Quando sua cabeça tomba pra trás e você geme alto, com abandono, eu te vejo.

Te vejo inteira.

E isso me destrói de um jeito novo.

Minha voz sai rouca, cravada no limite:

— Isso…

Isso é céu.

E você…

É o único deus que eu sirvo agora.

 

** Maxine **

 

Te puxo pelos braços, fazendo você se sentar sob mim, encaixando nossos corpos com um encaixe que já parece inevitável.

Meus seios se espremem contra seu peito quente, a fricção da nossa pele nua alimentando o incêndio que já não conseguimos conter.

Envolvo seu pescoço com os braços, minha boca colada à sua orelha, e a voz arrastada pelos gemidos contidos:

— Ainda não chegamos na melhor parte.

Forço os joelhos e as pontas dos pés contra o colchão, cavando apoio pra começar a cavalgar você com um ritmo mais frenético, mais desesperado.

Subo e desço, te sentindo todo dentro de mim, como se meu corpo te sugasse pra dentro de um abismo que eu mesma abri e do qual não pretendo sair sozinha.

Minha musculatura se contrai em espasmos de prazer, e o suor escorre pelas costas. A respiração se desfaz em arfadas, em gemidos entrecortados, e meus olhos não conseguem mais esconder — estou à beira.

Apoio a mão na sua nuca, me ancorando em você como se só você me mantivesse de pé, e olho direto nos seus olhos.

Na hora que o orgasmo me atinge, meu corpo inteiro estremece, pulsa, goza em cima de você. O som, abafado, escapa mesmo assim pela minha boca entreaberta.

Mas eu não paro.

Porque agora, o que eu quero… é te arrastar comigo pro fundo desse pecado.

E fazer com que nunca mais exista um “depois” sem esse vício. Sem mim.

 

** Ambrosio **

 

Quando você me faz sentar, o mundo inteiro se dobra com a gente.

Seus braços ao redor do meu pescoço. Seus seios contra meu peito.

Pele contra pele.

Desejo contra fé.

Você… inteira.

E então sua boca encosta na minha orelha, suas palavras quebram tudo que sobrou de sagrado em mim.

Quando você começa a se mover sobre mim com mais força, mais urgência, eu agarro sua cintura com as duas mãos como se segurasse minha própria salvação.

Mas é inútil.

Você está me arrastando com você — pro fundo, pro vício, pra perdição.

Seus gemidos contra meu pescoço, sua pele vibrando, sua respiração falhando…

E então, seus olhos.

Você me encara enquanto se desfaz, e eu vejo.

Vejo sua entrega, sua loucura, sua força.

Sinto você tremer, se apertar ao meu redor, e isso me arranca um gemido rouco, arrastado, desesperado.

Mas você não para.

E quando continua me cavalgando mesmo depois de gozar, mesmo depois de explodir, algo em mim se rompe.

— Maxine… — sussurro, entre os dentes, cravando os dedos nos seus quadris. — Por Deus… eu não aguento...

O prazer sobe com violência.

O corpo todo se contrai.

Meus olhos fecham.

E eu gozo com um gemido preso no peito, arfando contra sua boca, com você me prendendo, me tomando, me esvaziando.

Você me levou ao limite.

E me atravessou.

Fico ali, colado a você.

Ainda dentro de você.

Ofegante.

Morto e renascido.

E no silêncio que se segue, só consigo pensar em uma coisa:

Eu nunca mais vou te deixar.

 

** Maxine **

 

Seu corpo ainda pulsa contra o meu, como se não houvesse separação possível entre nós.

A cada pequeno espasmo, sinto sua respiração falhar, o coração errático e forte colado ao meu peito. Suamos juntos. Gozamos juntos. Arfamos como dois animais que cruzaram com o desespero de quem nunca teve, e agora teme perder.

— Você sente isso? — sussurro, arrastando os lábios úmidos pelo seu maxilar, como se estivesse selando o que fizemos ali. — O eco do que acabamos de fazer ainda vibra dentro de mim.

Deslizo as unhas suavemente por suas costas, marcando de leve, desenhando o caos que plantamos juntos.

Minha perna entrelaçada à sua. Meu ventre ainda quente. Você ainda duro dentro de mim. Ainda latejando.

E, mesmo assim, não há pressa para sair.

Porque agora você sabe: o paraíso e o inferno estavam aqui o tempo todo.

Debaixo da sua pele.

Debaixo da minha.

E mesmo que tente fugir depois...

Já é tarde demais.

Você foi meu desde o primeiro olhar.

Agora, é só questão de tempo até se ajoelhar novamente — Não diante de Deus.

Mas de mim.

 

** Ambrosio **

 

Seu corpo ainda pulsa ao redor do meu.

O calor da sua pele, o suor grudado entre nós, o cheiro da nossa transgressão se espalhando pelo quarto. Tudo é sagrado e profano ao mesmo tempo.

Estou dentro de você.

E já não sou de mais ninguém.

Minha testa encosta na sua clavícula, os lábios entreabertos, tentando recuperar o ar que você arrancou de mim.

Meu coração ainda bate forte. O seu, também. Sinto a vibração dele na ponta dos meus dedos que agora repousam suaves sobre suas costelas, como se ainda não acreditassem que tocaram tudo que um dia julguei impuro.

— Eu... — a voz sai baixa, rouca, quebrada — eu não sei como voltar.

Minhas mãos sobem até seu rosto.

Quero olhar nos seus olhos.

Quero ver se você também se perdeu.

Ou se foi sempre parte do plano — me arrastar, me tomar, me ver desmoronar.

Mas quando te olho...

Não há vingança, nem jogo.

Só você.

Desnuda.

Real.

Minha tentação e minha verdade.

Permanecemos assim.

Unidos.

Ainda dentro.

Ainda dentro um do outro.

E por um instante, não existe o mosteiro.

Nem Deus.

Nem pecado.

Só esse silêncio...

Que grita o quanto agora sou seu.

 

** Maxine **

 

Me levanto devagar, sentindo você escorregar pra fora de mim, te deixando apenas com o vazio do que foi comigo.

— Você precisa ir agora, Ambrosio. — murmuro com ternura, a voz arrastada como se ainda escorresse prazer entre as palavras.

Inclino o corpo e deixo um beijo no canto da sua boca; quente, lento, sem urgência. Um selo para tudo que queimamos aqui dentro.

Ainda sinto você pulsar, mesmo fora de mim. Ainda vibra, ainda me busca, como se o corpo não soubesse aceitar a separação.

— Esse vai ser nosso segredo.

As palavras escorrem com um sorriso calmo contra a sua pele.

Porque eu sei.

Sei que o que fizemos hoje te marcou de um jeito que nem a confissão mais desesperada poderá apagar.

Você vai voltar pro convento carregando minha marca no corpo, e pior — na alma.

E essa culpa, esse desejo...

Vai te fazer rezar com os punhos cerrados.

Vai te fazer gemer meu nome no escuro.

Vai te fazer me sonhar como uma praga.

Porque a partir de agora...

Você nunca mais vai ser o mesmo.

Nunca mais vai conseguir viver sem me tocar.

Sem se perder no meu corpo.

Sem se perder em mim.

 

** Ambrosio **

 

Seu beijo no canto da minha boca me rasga mais do que qualquer punição já aplicada por mãos humanas.

As palavras me atingem, mas meu corpo hesita. Ainda sinto seu calor. Ainda ouço seu gemido ecoando dentro da minha pele.

Queria dizer que não posso.

Queria ficar aqui, preso entre suas pernas, com sua pele marcada na minha, com meu pecado ainda pulsando dentro do seu corpo.

Mas você sorri.

E esse sorriso...

É o fim da minha fé.

E o início do meu tormento.

— Nosso segredo… — repito, num sussurro sem força.

Fora de você, me sinto como quem se desfaz de algo que nunca teve direito de possuir.

Desço da cama em silêncio.

Minha respiração ainda pesada, o corpo úmido, os músculos doloridos de prazer e culpa.

Visto a túnica.

Mas ela já não me cobre.

Não de verdade.

Antes de sair, olho uma última vez pra você ali, deitada, nua, satisfeita.

Uma deusa vestida de vício.

E então saio.

Com o gosto da sua boca ainda na minha.

A porta se fecha atrás de mim.

Mas você…

Você continua dentro.

Dentro da minha pele.

Dentro da minha mente.

Dentro do meu vício.

 

[Manhã seguinte – Claustro do Mosteiro]

O sol não nasceu hoje.

Está ali fora, sim. Mas não brilha pra mim.

O mundo continua. O cântico dos monges ecoa pelos corredores, o cheiro da lenha queimada invade os pátios, a rotina das orações, os afazeres, os sorrisos humildes.

Mas pra mim, tudo está… abafado.

Como se eu estivesse sob água.

Afogado.

Afundando.

Acordei com o corpo dolorido, ainda marcado por você.

Minhas coxas, meu peito, minhas costas… tudo dói. Mas não é dor física. É lembrança.

É desejo represado.

A túnica colava no corpo enquanto eu caminhava pelos corredores ainda escuros, o suor misturado ao cheiro da sua pele que não sai de mim, por mais que eu lave.

Fui até a capela, ajoelhei no altar, fechei os olhos…

E tudo que vi foi seu corpo montado em mim, as mãos nos meus ombros, sua boca na minha orelha dizendo que ainda não era a melhor parte.

 

[Capela, missa matinal]

Você está entre os monges.

De máscara.

De hábito.

Mudo.

Invisível pra eles.

Mas pra mim…

Pra mim, é como se você brilhasse em vermelho no meio da multidão.

Você não me olha.

Mas eu te sinto.

E debaixo da túnica, meu corpo responde.

Arde.

Tensão acumulada desde que deixei sua cama — se é que consegui sair de verdade.

Ajoelho pra orar, mas só consigo fechar os olhos e sentir meu membro endurecer com a lembrança da sua voz gemendo contra minha boca.

Não consigo respirar.

Levanto no meio da leitura.

Saio da capela com passos apressados.

Ninguém entende.

Mas você sabe.

 

[Refeitório, meio-dia]

Você se senta duas mesas atrás da minha.

Mãos juntas.

Cabeça baixa.

A colher treme na minha mão.

A sopa esfria.

E minha ereção cresce sob o tecido da túnica como uma maldição.

Meus olhos percorrem sua nuca, seu pescoço coberto, o modo como você move os dedos ao segurar a tigela.

Imagino sua boca na minha de novo.

Sua pele sob a minha.

O som que você fez quando gozou pra mim.

Quero levantar.

Quero te arrastar até uma das salas de armazenamento e…

Bebo água. Fria.

Mas o gosto da sua saliva ainda está na minha boca.

 

[Pátio - Final da tarde]

Não espero a noite.

Não espero o chamado pra prece.

Saio vagando pelos corredores, como se você pudesse estar em qualquer canto.

Vou até o jardim interno.

Até o claustro menor.

Até a sala de mantos.

Olho pelos vãos das portas.

Como um louco.

Como um homem viciado.

Se eu te encontrar agora, Maxine…

Se eu te encostar agora…

Não vai ter mais oração.

Não vai ter mais “só uma vez”.

Vai ter parede, pressa, gemido abafado.

Vai ter possessão.

 

[Cela – início da noite]

Me tranco.

Me ajoelho.

Choro.

Choro como nunca.

Mas não pela culpa.

Pelo desespero de querer de novo.

Pelo horror de saber que já não me importo com o que virei.

Desde que possa te ter de novo.

Minha mão desce pela túnica.

Toco a mim mesmo.

Devagar.

Pensando no seu gosto, na sua voz, no jeito que você gemeu quando eu disse que era seu.

Me masturbo em silêncio.

No quarto.

Com a cruz pendurada sobre mim.

E gozo com o seu nome entre os dentes.

Você me quebrou, Maxine.

E agora, eu sou só vício.

Só fome.

Só seu.

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