Seis meses não é nada.
E ao mesmo tempo é tempo pra caralho.
Tempo suficiente pra aprender o som da tua respiração quando
você dorme pesado. Tempo suficiente pra saber quando você tá fingindo que
dorme. Tempo suficiente pra perceber que eu acordo antes do sol não por causa
dos walkers… mas pra conferir se você ainda tá ali.
A casa é grande pra diacho. Antiga. Daquelas que tinham
família, cachorro, criança correndo pelo corredor. Agora tem arma encostada na
parede, janela com barricada e gente dormindo espalhada como se o mundo pudesse
acabar de novo a qualquer segundo.
Porque pode.
Eu durmo com a espingarda ao alcance da mão e contigo colada
em mim. Teu corpo quente nas minhas costas ou enroscado no meu peito,
dependendo da noite. Às vezes você rouba o cobertor. Às vezes eu acordo com teu
joelho cravado nas minhas costelas. Reclamo, xingo baixo, mas não me mexo.
Não sou idiota.
Sei que isso aqui é perigoso.
Não a casa.
Você.
Porque seis meses atrás eu era só um caipira fodido tentando
sobreviver por raiva. Agora eu tenho rotina. Tenho alguém esperando eu voltar
da ronda. Tenho alguém que me olha como se eu não fosse só um maldito qualquer andando
com uma arma na mão.
E isso me deixa puto pra cacete.
Levanto devagar pra não te acordar. Você resmunga alguma
coisa incompreensível, vira pro meu lado e enfia o rosto no travesseiro. A minha
camiseta velha que você usa sobe um pouco nas costas. Eu paro. Olho. Respiro
fundo.
— Porra… — murmuro, mais pra mim do que pra qualquer coisa.
Não beijo. Não faço carinho. Não sou esse tipo de cara de
manhã cedo. Só puxo o cobertor de volta pra te cobrir direito e saio do quarto,
fechando a porta com cuidado.
Lá fora, o mundo continua feio e fodido.
Faço a ronda da casa, confiro as entradas, as cercas
improvisadas, os pontos cegos. Troco duas palavras com alguém do grupo. Gente
boa, até. Mas ninguém aqui esquece que eu sou o Merle Dixon. E eu gosto assim.
Ninguém chega perto demais de ti.
E quem chega… eu observo.
Não por ciúme bobo, não. Por sobrevivência. Porque eu sei o
que tem lá fora. Sei o que homens fazem quando acham que podem tomar algo que
não é deles.
E você é minha.
Não no sentido bonito. No sentido real. Sujo. Perigoso.
Volto pra dentro da casa quando o sol começa a subir. O
cheiro de café ralo se mistura com poeira e ferrugem. Passo de novo pela porta
do quarto e escuto tua voz lá dentro, rouca de sono, me chamando.
Meu nome do jeito errado. Do jeito certo.
É aí que eu sei. Se algo tentar levar isso de mim… Se
walker, grupo armado, ou o inferno inteiro resolver aparecer… Eu não vou
negociar. Não vou fugir.
Seis meses é tempo suficiente pra aprender a viver.
E mais do que isso, pra saber exatamente por quem eu mato ou
morro.
** Lyra **
Seis meses. Seis malditos meses se passaram desde que a
gente parou de se estranhar como dois velhos cães raivosos, e passou a se
estranhar como casal. Como parceiros. Como... seja lá o que a gente é.
Seria fofo se não fosse tão caótico, tão cheio de palavrões
e discussões por nada.
Você cuida de mim de um jeito possessivo, dedicado, quase
obsessivo, mas nada romântico. Até porque esperar romance de você é a mesma
coisa que esperar a cura desse mundo fodido. E eu não sou o tipo de pessoa que
cria expectativas bobas ou vive de ilusões.
Eu gosto do seu jeito bruto, áspero, principalmente agora
que você está mais manso comigo. Só comigo. Com os outros você continua sendo o
mesmo idiota de sempre, e eu adoro isso.
— Merle! — te chamo ainda sonolenta enquanto me levanto da
nossa cama improvisada, no nosso quarto que mais parece uma zona de guerra
permanente.
Caminho tropeçando nas botas, nas armas, nas roupas sujas
que você larga sempre jogadas pelo chão como se eu fosse tua empregada.
Resmungo xingamentos baixinho, chutando uma bota pro canto.
Desço as escadas de madeira rangendo sob meus pés, ajeitando
a arma na parte de trás da calça jeans rasgada, ainda esfregando os olhos
inchados de sono quando alguém me entrega uma caneca fumegante de café ralo e
amargo, como é costume nessa merda de apocalipse.
— Hey, bonitão... — murmuro com a voz rouca de quem acabou
de acordar, me aproximando de você. — Vai chegar algum dia que você não se
levante antes mesmo do sol nascer, hmn? Ou você tem medo que eu fuja durante a
noite?
Sopro o café quente, te observando de canto de olho com
aquele meio sorriso sonolento nos lábios.
** Merle **
— Fugir? — resmungo sem nem virar a cara direito, encostado
na mesa torta da cozinha, limpando a lâmina da faca com um pano imundo. — Com
essa zona toda ali em cima, você não ia passar nem da escada sem acordar a casa
inteira, mulher.
Levanto o olhar devagar, só o suficiente pra te pegar
chegando mais perto, café na mão, cara de sono e essa mania irritante de sorrir
como se nada no mundo pudesse dar errado enquanto eu tô por perto. Isso me dá
vontade de xingar… e de puxar você pra mais perto ao mesmo tempo.
— E não, eu não levanto cedo por tua causa. — dou um gole no
café frio que alguém largou pra mim. — Levanto porque morto não bate na porta avisando.
E gente viva costuma ser pior.
Dou uma olhada rápida em volta, instinto puro. Porta.
Janela. Escada. Tudo no lugar. A casa ainda respirando. Quando volto pra você,
abaixo um pouco a voz.
— Mas se você tentasse fugir, eu ia atrás. — digo simples,
sem ameaça, sem drama. — Não pra te trazer de volta… só pra saber por quê.
Empurro a faca pra longe, estendo a mão e puxo você pela
cintura, só o bastante pra te encaixar entre mim e a mesa. Não é carinho. É costume.
É posse silenciosa.
— E para de andar sem olhar onde pisa. — murmuro. — Se
tropeçar nessas minhas botas e quebrar o pescoço, eu vou ficar puto pra
caralho.
Apoio a testa de leve na tua, coisa rápida, quase nada.
— Café tá uma merda hoje. — completo. — Mas você tá inteira.
Então tá tudo certo… por enquanto.
Solto você devagar, já pegando a espingarda encostada na
parede.
— Come direitinho. Depois eu te levo comigo pra ver a cerca
do fundo. Não gostei do barulho que ouvi lá de madrugada.
E antes de sair, olho por cima do ombro, sério de novo.
— E nem pensa em fugir enquanto eu não tô olhando.
** Lyra **
— Céus, antes de transar comigo, me chamava de florzinha...
— reviro os olhos rindo, mas com aquele tom de quem reclama sem reclamar de
verdade. — Agora é só “mulher” pra cá, “mulher” pra lá. Seis meses e já acabou
o love, Dixon. Cadê o romantismo?
Termino o café ruim numa única golada longa, sentindo o
líquido amargo descer quente pela garganta. Limpo a boca nas costas da mão, sem
cerimônia nenhuma. Tenho pegado umas manias bem bostas com você ultimamente.
Como falar de boca cheia, por exemplo. Ou arrotar depois de comer sem pedir
desculpas.
Pego uma maçã meio amassada que estava largada sobre a mesa,
e saio mastigando apressada enquanto já sigo seus passos largos.
— Mesmo dormindo, sei quando você sai do quarto, sabia? —
provoco com a boca cheia, dando um tapinha safado na sua bunda com a mão livre.
— Porque o vazio que o seu ronco irritante deixa me permite dormir melhor por
mais uma hora inteira.
Caminho atrás de você enquanto você resmunga sobre a cerca,
sobre a segurança, paranoico como sempre. Controlador. Protetor. E é quando
vejo um daqueles podres enroscado no arame farpado, se contorcendo feito barata
tonta e emitindo aqueles sons guturais que eu detesto com todas as minhas
forças.
— Olha só o que eu aprendi a fazer. — murmuro mastigando o
último pedaço da maçã.
Puxo uma faca de arremesso do coturno, ajusto o peso na mão,
miro, e arremesso com força na direção do walker enroscado. A lâmina gira no ar
e se crava bem no meio do crânio podre dele. O corpo para de se mexer na hora.
— Eu sou foda, admite! — digo já correndo na direção do
corpo caído, orgulhosa feito criança que acertou o alvo pela primeira vez. —
Viu isso? Acertei na primeira! Você que me ensinou, mas agora eu estou melhor
que você, velhote!
Piso na cabeça do walker morto, arranco minha faca com um
puxão seco e limpo a lâmina na própria roupa dele antes de guardar de volta no
coturno.
** Merle **
— Romantismo morreu junto com o resto do mundo, florzinha. —
rosno sem nem olhar pra trás, continuando a andar. — E eu ainda te chamo de
mulher porque você já passou faz tempo da fase de ser só um problema bonito.
Ouço tua risada atrás de mim e, logo depois, sinto o tapa na
minha bunda. Paro na hora. Viro só o rosto, devagar, aquele meio sorriso torto
surgindo sem pedir licença.
— Faz isso de novo em público que eu te faço capinar esse
quintal inteiro sozinha, — aviso, mas não tem raiva nenhuma ali. Só costume. Só
nós.
O barulho do arame farpado me chama atenção antes mesmo de você
falar. Walker preso. Sempre aparece um. Sempre aparece quando a gente começa a
relaxar demais.
Vou levantar a arma, e então a faca corta o ar. Crava seco.
Limpo. Direto na cabeça.
Fico parado por meio segundo. Só olhando.
— Porra… — solto, baixo, quase um elogio engasgado.
Vejo você sair correndo toda orgulhosa, igual criança
arteira, pisando no crânio do podre como se fosse coisa de todo dia. Arranca a
lâmina, limpa na roupa imunda dele sem nojo nenhum.
Cruzo os braços.
— Olha ela… — balanço a cabeça. — Toda convencida agora.
Chego mais perto, dou um chute no corpo pra garantir que não
vai levantar de novo. Nunca confio em morto recente.
— Tá ficando boa demais nisso. — admito, contrariado. —
Daqui a pouco vai querer liderar patrulha sozinha.
Dou um passo à frente, paro bem na tua frente, olhar sério
de novo.
— Só não esquece uma coisa, tá? — aponto com o queixo pro
arame. — Você manda bem. Mas não manda sozinha. Nunca.
Estendo a mão e puxo teu queixo pra cima com dois dedos, só
o bastante pra te obrigar a me olhar.
— Aprende rápido, atira bem…, mas ainda é minha
responsabilidade. — solto, firme. — E eu não perco o que é meu pra walker
nenhum.
Solto teu rosto e me afasto, já voltando pro trabalho.
— Agora anda. Vamos limpar essa merda antes que outro podre
resolva aparecer.
** Lyra **
— Limpar nada. Você se livra do corpo, eu vou até o posto
com Dona e Zeke pra procurar suprimento e munição. — murmuro já me virando, já
sabendo que você vai reclamar, que vai tentar me impedir como sempre faz. — O
pessoal da ronda de ontem encontrou um lugar abandonado a uns cinco quilômetros
daqui. Parece promissor.
Enquanto falo, ajeitando a faca de volta no coturno, outro
integrante do grupo chega correndo na nossa direção, afoito, suado, a
respiração descompassada. Ele fala atropelando as palavras, dizendo que um tal
de Negan tem pegado forasteiros e grupos pequenos como o nosso, levando à força
pra um lugar onde uns tais de Salvadores controlam tudo. Dezenas de homens e
mulheres armados até os dentes. Talvez uma centena.
Meu estômago se contrai.
— Eu já ouvi falar desse cara. — digo com a voz baixa, mais
séria agora, receosa. O tom de brincadeira sumiu completamente. — Todo mundo
morre de medo dele. Mais até do que dos walkers. Dizem que ele é pior do que
qualquer podre por aí.
Olho pra você, procurando seus olhos, e te vejo apertar a
mandíbula com força, os músculos saltando sob a pele, como se soubesse mais do
que admite dizer em voz alta. Como se já tivesse ouvido as histórias. Como se
já conhecesse o nome.
— Você sabe de alguma coisa sobre isso? — pergunto diretamente,
cruzando os braços, estreitando os olhos na sua direção. — Merle?
** Merle **
Paro.
Não de susto. De atenção.
O nome bate diferente quando chega no ouvido. Não é como
walker. Não é como grupo qualquer. É daqueles nomes que vêm carregados de merda
antes mesmo de alguém terminar a frase.
— Negan… — repito baixo, mais pra mim do que pra vocês.
O cara que trouxe a notícia tá quase se dobrando pra
recuperar o fôlego, mas eu já nem olho mais pra ele. Meu maxilar trava. A mão
fecha devagar, os dedos rangendo como se quisessem quebrar alguma coisa
invisível no ar.
Já ouvi esse nome antes, sim. Histórias demais. Gente demais
sumindo. Gente viva pedindo pra morrer.
Levanto o rosto e te encaro.
— Sei. — respondo curto. Seco. — E não gosto nem um pouco.
Dou dois passos pra longe do corpo do walker, como se ele
tivesse deixado de importar completamente. Porque deixou. Quando gente viva
começa a caçar gente viva, morto vira detalhe.
— Esse filho da puta não é boato. — continuo, a voz mais
baixa, mais dura. — Ele não só rouba suprimento. Ele quebra gente. Faz exemplo.
Faz questão de que todo mundo saiba quem manda.
Cuspo no chão.
— Salvadores… — balanço a cabeça. — Nome bonito pra um bando
de doente armado até os dentes.
Olho em volta rápido. Dona. Zeke. O mensageiro. Todos. A
casa ao fundo. As cercas. Tudo que agora parece pequeno demais. Quando volto
pra você, meu olhar não é de controle. É de cálculo.
— Se esse Negan tá pegando grupo pequeno, então esse posto
“promissor” que você quer visitar deixa de ser ideia boa. — digo firme. — Vira
armadilha em potencial.
Dou um passo na tua direção, a voz ainda contida, mas
pesada.
— E antes que você abra essa boca pra discutir, presta
atenção: isso não é sobre te prender aqui. É sobre não andar feito isca
enquanto um maníaco com exército resolve brincar de rei.
Passo a mão no rosto, irritado.
— A gente não vai sair espalhado. Nem em dupla. Nem em trio.
— aponto com o queixo pro mensageiro. — Junta o grupo. Agora. Quero todo mundo
ciente dessa merda.
Volto pra você uma última vez, mais baixo, só pra nós dois.
— E sim… — admito, sem rodeio. — Eu já conhecia o nome. E se
esse Negan cruzar nosso caminho…
Meu olhar endurece de um jeito feio.
— …eu prefiro enfrentar dez walkers do que negociar com ele.
Fico ali, esperando tua reação. Porque sei que essa conversa
tá longe de acabar.
** Lyra **
Engulo em seco vendo o jeito que você reage ao nome e à
notícia. Nunca te vi tenso assim. Nem mesmo cercado por uma horda de podres,
nem quando quase morremos naquela emboscada mês passado. Isso me assusta mais
do que qualquer coisa.
— Eu entendi. Não vou pra lugar nenhum sozinha. — digo
baixo, a voz saindo mansa, quase falando pra dentro, sem te encarar.
Dou de ombros num gesto de rendição, volto em direção à casa
com passos lentos, mas paro ali na frente da varanda quando ouço um dos
integrantes mais velhos do grupo, o Mad, dizendo com voz grave que se estamos
realmente na rota de Negan, deveríamos sair dali ainda aquela noite. Antes que
seja tarde demais.
Sinto meu estômago comprimir dolorosamente, o coração
apertar dentro do peito. Esse lugar... era o mais próximo de um lar que a gente
teve nesses últimos meses.
— Se tivermos realmente que ir embora na surdina essa
noite... — minha voz sai mais fraca agora, quase quebrando. — Eu vou me
despedir daqui então. Do jeito que eu posso.
Viro pra você, os olhos já brilhando úmidos, suplicantes.
Vulnerável de um jeito que odeio ser.
— Posso ir ali no lago então? Nadar uma última vez? — peço
baixinho, mordendo o lábio. — Depois volto pra dentro e arrumo as coisas com os
outros. Prometo.
Você assente com a cabeça depois de um momento longo, tenso.
Seus olhos me acompanham com aquela intensidade possessiva de sempre.
Eu sigo caminhando devagar até o lago que fica próximo ao
final da estradinha de terra batida. O sol já está começando a esquentar a
pele.
Descalço os coturnos pretos, tiro o jeans rasgado deixando-o
dobrado com cuidado junto com a arma e a faca em cima da pilha de roupa ali na
beirada da água. E entro no lago frio só de calcinha e aquela maldita camiseta
velha e desbotada que carrega seu cheiro. Que sempre vai carregar seu cheiro.
A água me abraça gelada, fazendo minha pele arrepiar toda.
Fecho os olhos, mergulho a cabeça, deixando o silêncio subaquático me engolir
por alguns segundos preciosos.
Quando emerjo, passo as mãos pelo cabelo molhado, afastando
as mechas desbotadas do rosto, e olho pra trás. Procurando você com os olhos.
Sabendo que mesmo longe, você está me vigiando.
**Merle**
Fico ali parado na margem, encostado numa árvore velha,
fumando. Só olhando.
Você na água, toda molhada, a camiseta grudada no corpo, o
cabelo escorrendo. Seis meses e ainda me fode a cabeça do mesmo jeito. Talvez
pior agora.
Jogo o cigarro no chão, esmago com a bota. Tiro a jaqueta,
deixo cair. A arma vem depois, largada em cima do tecido surrado. Chuto as
botas pro lado.
— Tá aí se despedindo sozinha, é? — solto, já desabotoando a
calça. — Que merda é essa, mulher?
Entro na água devagar, sentindo o frio subir pelas pernas.
Quando chego perto, paro na tua frente, te olhando daquele jeito que sei que te
desarma.
— A gente sai daqui hoje à noite. — falo sério, passando o
polegar molhado pelo teu rosto, tirando uma mecha de cabelo grudada. — Mas
antes dessa merda toda lá fora... antes de qualquer coisa...
Te puxo pela cintura, colando teu corpo molhado no meu, a
água gelada entre nós.
— Eu vou te foder aqui. Nessa água. — minha voz sai mais
baixa, rouca. — Porque se o mundo vai virar de cabeça pra baixo de novo, eu
quero pelo menos levar isso comigo.
Seguro teu rosto com as duas mãos, te olhando nos olhos.
— E depois... depois a gente arruma as merdas e sai daqui.
Juntos. Como sempre.
** Lyra **
Enrosco os braços em torno do seu pescoço enquanto você cola
seu corpo molhado ao meu, a água fria contrastando com o calor que emana da sua
pele.
— Tão romântico você falando isso só de cueca aqui no meio
da água. — provoco com um sorriso de canto nos lábios, mas minha voz sai mais
suave do que eu pretendia.
Minhas pernas bailam soltas na água, deslizando pelas suas
enquanto passo a língua devagar pela sua boca, saboreando o gosto de café e
cigarro que sempre fica grudado em você. Subo pela lateral da sua face áspera,
a barba por fazer raspando meus lábios, até chegar na sua orelha, onde deixo
uma mordiscada provocante no seu lóbulo.
— Então, que tal você abaixar um pouco essa cueca... —
murmuro rouca contra seu ouvido, a respiração quente. — Puxar minha calcinha de
lado, e aproveitar as ondulações da água pra me tirar o juízo? Coisa que você
sabe fazer muito bem, Dixon.
Aperto meu corpo contra o seu com força, sentindo cada
músculo tenso, cada centímetro de pele colado na minha. Meus lábios descem
sugando seu pescoço com vontade, deixando marcas vermelhas que vão durar,
enquanto as unhas arranham de leve sua nuca do jeito que você sempre finge não
gostar, mas eu sei que te arrepia todo.
— Vamos, velho... — insisto mordendo seu maxilar, os quadris
já se movendo contra você embaixo d’água. — Me fode aqui mesmo. Rápido e sujo.
Do jeito que a gente gosta.
Meus dedos descem pelas suas costas molhadas, arranhando de
leve, te puxando ainda mais pra perto enquanto minhas pernas se enroscam na sua
cintura.
— Antes que a gente tenha que abandonar esse lugar... quero
levar mais uma memória sua comigo.
**Merle**
— Romântico... — rosno contra tua boca, mas minhas mãos já
estão descendo pela tua cintura, apertando tua bunda por baixo d’água com
força. — Eu não faço romance. Faço o que precisa ser feito.
Quando você morde meu lóbulo e fala essas merdas todas no
meu ouvido, sinto meu corpo reagir na hora. Tanto tempo e você ainda sabe
exatamente como me quebrar.
— Você e essa boca suja... — murmuro rouco, já puxando tua
calcinha de lado com um movimento brusco, sem delicadeza nenhuma. — Vai ser a
minha morte um dia, florzinha.
Abaixo a cueca o suficiente, te segurando firme pelos
quadris enquanto te posiciono. A água balança ao nosso redor, fria pra caralho,
mas meu corpo tá fervendo.
— Rápido e sujo, você quer? — minha voz sai mais grave,
quase um rosnado. — Então segura, porque eu não vou ter paciência hoje.
Te penetro de uma vez, sentindo teu corpo me receber quente
mesmo com a água gelada. Solto um gemido abafado contra teu pescoço, mordendo a
pele ali com força.
— Porra... — a palavra escapa entre dentes cerrados. —
Sempre tão apertada, sempre me fodendo a cabeça.
Começo a me mover, as mãos cravadas na tua bunda, te usando
pra controlar o ritmo. A água oscila ao nosso redor, o som se misturando com
teus gemidos e minha respiração pesada.
— Isso... — rosno no teu ouvido. — Geme meu nome. Deixa eu
ouvir essa voz antes da gente ter que sair daqui e encarar o inferno de novo.
Minha boca desce pelo teu pescoço molhado, chupando,
mordendo, marcando. Porque mesmo sabendo que vamos embora, mesmo sabendo que a
merda tá prestes a bater no ventilador...
Você ainda é minha. E eu vou fazer questão que você lembre
disso.
— Seis meses, Lyra... — murmuro entre uma estocada e outra,
a voz saindo mais crua, mais honesta. — Seis meses e você ainda é a melhor
coisa que sobrou nessa porra de mundo.
Te puxo mais forte, mais fundo, sentindo teu corpo tremer
nos meus braços.
— E se alguém tentar te tirar de mim... — minha mão sobe,
segurando teu rosto com força, te obrigando a me olhar nos olhos. — Eu mato.
Seja quem for. Walker, Negan, ou o próprio inferno.
Beijo tua boca com violência, com fome, com tudo que não sei
dizer de outro jeito.
** Lyra **
Seus músculos retesam ainda mais sob minha palma, ficando
aparentes enquanto me segura com força, movendo meu corpo contra o seu com
aquela urgência que já conheço tão bem.
Minhas mãos percorrem sua pele molhada, os dedos deslizando
com leveza pelas cicatrizes que já decorei com todos os meus sentidos; tato,
visão, até com a ponta da língua nas noites em que te exploro inteiro.
— E se... — começo falando baixo, quase num sussurro,
murmurando contra o seu ouvido com a voz mais sacana e provocante que já usei
contigo. — E se hoje a gente fizer por trás? Hmn?
Falo tentando soar confiante, mas assim que termino a frase,
já me arrependo ao sentir sua respiração pesar contra meu pescoço e você soltar
um rosnado rouco daqueles que antecedem o caos absoluto.
Droga.
— Você sempre me pediu tanto isso... — continuo mesmo assim,
nervosa agora, as palavras saindo atropeladas. — Que acabei ficando instigada
em saber como é. Como você faz. Se é tão bom quanto você jura que é.
Afasto um pouco o rosto, o suficiente pra te ver direito, e
meu Deus, o olhar faminto que você me devolve me faz arrepiar inteira dos pés até
a raiz do cabelo molhado.
— Só que... — engulo em seco, o coração disparado. — Com
cuidado, tá ouvindo? Seu desgraçado!
Mordo o lábio inferior, já sentindo meu corpo inteiro
formigar de nervosismo e excitação misturados.
— Não vai querer me rasgar ao meio logo na primeira vez, né?
— brinco, mas minha voz trai o quanto estou nervosa. — Promete que vai...
devagar no começo?
Minhas mãos sobem até seu rosto, segurando com firmeza, te
forçando a me olhar nos olhos.
— Eu confio em você, Merle. — admito baixinho. — Então não
me fode... literalmente.
**Merle**
Paro.
Completamente.
Te olho com aquela intensidade que já derrubou muito filho
da puta no chão, mas com você é diferente. Sempre foi.
— Você... — minha voz sai rouca, travada, como se eu tivesse
levado um soco no estômago. — Tá falando sério agora?
Minhas mãos apertam tua cintura com mais força, te segurando
ali, colada em mim, enquanto processo o que você acabou de dizer.
— Porra, Lyra... — solto num suspiro pesado, fechando os
olhos por um segundo. — Você não pode falar uma merda dessas do nada e esperar
que eu mantenha a linha.
Quando abro os olhos de novo, te encaro com aquela mistura
de desejo e algo mais profundo que eu raramente deixo escapar.
— Eu pedi, sim. Várias vezes. — admito sem rodeio. — Mas
nunca forcei. E não vou forçar agora.
Passo o polegar pelo teu rosto molhado, num gesto quase
carinhoso demais vindo de mim.
— Se é isso que você quer... se tá me dando isso... — minha
voz fica mais baixa, mais séria. — Então eu vou fazer direito. Com cuidado. Do
jeito que merece ser feito na primeira vez.
Te puxo pra fora da água devagar, te carregando nos braços
até a margem. Pego minha jaqueta do chão e estendo no chão, fazendo uma cama
improvisada.
— Deita aí. — ordeno, mas minha voz não tem brutalidade
agora. Tem controle. Tem promessa.
Me ajoelho ao teu lado, a água escorrendo do meu corpo
enquanto te olho ali deitada, vulnerável, confiando em mim.
— Eu vou te preparar primeiro. — explico, já tirando tua
calcinha molhada com cuidado. — Vou usar os dedos, vou te acostumar. E só
quando você tiver pronta... só quando você pedir...
Minha mão desce pela tua barriga, devagar, provocante.
— Aí sim eu te fodo desse jeito. — termino rouco. — Mas não
hoje. Hoje eu só vou te mostrar como pode ser bom. Te preparar pra quando a
gente tiver tempo de verdade.
Beijo tua boca com vontade, mas controlado.
— Confia em mim?
** Lyra **
Engulo em seco, me ajeitando melhor sobre sua jaqueta velha
e áspera estendida na margem enquanto você enfia seus dedos médio e indicador
na boca, deixando-os totalmente babados, ensalivados. O jeito que você me olha
enquanto faz isso... puta merda.
— Se começar, e for bom... — falo com o olhar enviesado,
tentando manter aquela pose provocante mesmo tremendo por dentro. — Vai ter que
ir até o fim, Dixon. Sem me deixar literalmente na mão no meio do caminho.
Afasto as pernas devagar, exposta de um jeito que nunca fui
com ninguém. Apoio minhas mãos sobre meu abdômen num gesto quase defensivo,
como se minha mente estivesse relutante de vergonha, ao contrário do meu corpo
que já pulsa de antecipação.
— E sim... — respiro fundo, te encarando com seriedade. — Eu
confio em você, Merle. Completamente.
Você se inclina sobre mim, aquele corpo grande cobrindo o
meu, e meu coração começa a martelar tão violentamente dentro do peito que
parece que vai explodir, saltar pra fora e sair correndo pra longe.
Fecho os olhos com força, as mãos agarrando a jaqueta
embaixo de mim, e deixo então fluir...
Me entrego completamente a você.
Confiando que você vai cuidar de mim do jeito que sempre
cuidou.
Mesmo quando dói.
Principalmente quando dói.
**Merle**
— Olha pra mim. — ordeno baixo, a voz saindo mais firme do
que eu esperava. — Não fecha os olhos. Eu quero que você me veja. Que saiba que
sou eu fazendo isso.
Quando você abre os olhos de novo, todo nervosa, toda
entregue, algo dentro de mim se desarma completamente.
— Relaxa. — murmuro, beijando tua boca devagar, acalmando. —
Eu vou cuidar de você. Sempre cuido.
Minha mão livre desce pelo teu corpo molhado, acariciando
tua barriga, teus quadris, te acostumando com o toque antes de ir mais longe.
Não tenho pressa agora. Não quando é isso. Não quando você tá me dando algo tão
fodidamente íntimo.
— Se doer, você fala. — aviso sério, te olhando nos olhos. —
Se não gostar, você para. Entendeu?
Espero tua confirmação antes de continuar.
Minha mão desce mais, passando pela tua intimidade primeiro,
te tocando ali onde já conheço tão bem, te preparando, te deixando molhada e
pronta. Meus dedos trabalham devagar, circular, fazendo teu corpo relaxar sob o
meu.
— Isso... — murmuro rouco quando sinto você começar a se
soltar. — Assim que eu gosto. Toda entregue pra mim.
Só então, com cuidado, meu dedo ensalivado desliza mais pra
trás, roçando de leve, testando. Te observo o tempo todo, cada reação, cada
respiração.
— Respira fundo. — instruo baixo, começando a pressionar
devagar, muito devagar, deixando teu corpo se acostumar. — E relaxa essa bunda
pra mim, florzinha.
Quando finalmente entro com a ponta do dedo, paro. Te dou
tempo. Beijo teu pescoço, tua boca, distraindo enquanto teu corpo se adapta.
— Tá tudo bem? — pergunto rouco contra teus lábios. — Fala
comigo.
Minha outra mão continua te tocando na frente, te dando
prazer, fazendo teu corpo associar as duas sensações. Quero que você sinta que
pode ser bom. Que comigo sempre é.
— Você é minha, Lyra. — murmuro no teu ouvido, começando a
mover o dedo devagar, entrando um pouco mais. — E eu vou te mostrar cada jeito
de sentir prazer. Cada jeito de ser minha.
** Lyra **
Quando você começa, sinto vergonha, medo, receio, tudo ao
mesmo tempo me atravessando como uma onda gelada. Meu corpo se retesa
instintivamente, os músculos se contraindo.
Mas então você me beija com fome, com dedicação, me estimula
exatamente onde sabe que gosto, os dedos trabalhando magicamente naquele ponto
que me faz derreter. E eu sinto meu corpo começar a relaxar aos poucos,
cedendo, se abrindo pra você.
No começo penso que é estranho, diferente, quase
desconfortável. Mas alguns segundos depois, conforme você continua com
paciência, começo a sentir prazer. Um prazer tão sórdido e errado que me sinto
uma completa depravada por estar gostando disso.
E eu gosto. Porra, como eu gosto.
— Isso é bom... — murmuro entre gemidos baixos, quase
tímidos, tão diferente dos meus gritos costumeiros. — De um jeito esquisito,
mas... é bom.
Meus quadris se movem devagar, ainda inseguros, por
instinto, por necessidade, de encontro ao seu ritmo calculado, ao seu toque
cuidadoso em mim. Testando os limites, aprendendo essa nova linguagem entre
nossos corpos.
O tempo corre de uma maneira distorcida que eu nem percebo
mais. Só consigo sentir isso. Você. Nós. A água do lago secando na minha pele,
o sol quente nas suas costas, seus dedos me preparando.
— Eu quero você, Merle... — a voz sai rouca, urgente,
necessitada. — Quero você inteiro dentro de mim. Todo. Agora.
Afundo os dentes no lábio inferior com força, as mãos
subindo até se apoiarem firmes nas suas costelas, te puxando, te trazendo mais
sobre mim. Como se pedisse sem palavras, como se meu corpo inteiro gritasse
“vai, por favor, vai”.
Abro os olhos devagar, te encarando com aquele olhar entre
medo e desejo.
— Me fode, Dixon. Do jeito que você sempre quis.
**Merle**
— Cacete... — a palavra sai num suspiro rouco quando você
diz isso, me olhando desse jeito.
Tiro meus dedos devagar e arranjo um jeito de me posicionar
melhor, te virando de lado com cuidado. Coisa rara vinda de mim.
— De lado primeiro. — explico baixo, já me encaixando atrás
de você, teu corpo pequeno colado no meu. — Assim eu controlo melhor. E você
relaxa mais.
Puxo tua perna pra cima, abrindo espaço, expondo você
completamente pra mim. Minha mão livre volta a te tocar na frente, estimulando,
mantendo teu corpo no limite do prazer enquanto me posiciono.
— Respira fundo. — ordeno rouco no teu ouvido. — E não
prende a respiração. Isso só piora.
Cuspo na mão, me lubrificando melhor, e então pressiono
devagar contra você. A resistência é imediata, mas eu não forço. Só mantenho a
pressão constante, deixando teu corpo ceder no próprio tempo.
— Relaxa essa bunda pra mim... — murmuro, beijando teu
ombro, tua nuca. — Deixa eu entrar, florzinha.
Quando finalmente a cabeça entra, eu paro imediatamente. Te
sinto apertar ao meu redor de um jeito que quase me faz perder o controle.
— Caralho... — rosno entre dentes cerrados. — Tão
apertada... tão quente...
Minha mão trabalha mais rápido na frente, te distraindo da
invasão, fazendo teu corpo associar a sensação nova com prazer.
— Mais um pouco... — aviso baixo, entrando devagar,
centímetro por centímetro. — Me diz se tiver ruim demais.
Mas continuo, firme, controlado, até estar completamente
dentro de você. Fico parado então, te dando tempo, sentindo teu corpo pulsar ao
meu redor.
— Olha só você... — murmuro rouco, a voz carregada de posse
e orgulho. — Me tomando inteiro assim. Tão fodidamente perfeita.
Beijo teu pescoço com força, mordendo de leve.
— Agora eu vou me mover. Devagar no começo. — aviso. — E
você vai gemer meu nome igual sempre faz. Porque mesmo assim... você ainda é
minha.
Começo a me mover, lento, controlado, cada estocada medida,
te dando tempo de se acostumar enquanto minha mão continua trabalhando na
frente.
— Isso... — rosno quando sinto você começar a se mover
comigo. — Rebola nessa porra. Me mostra que tá gostando.
** Lyra **
Quando você cospe na mão, eu quase rio da cena. Do absurdo,
da falta de romantismo, da crueza disso tudo.
Quase.
Porque em seguida você começa a se forçar contra mim, devagar,
mas firme, me invadindo centímetro por centímetro, me tomando, me possuindo, me
— literalmente — fodendo em todos os sentidos da palavra e em lugares que nunca
foram tocados antes.
— Ai, que ódio... — gemo de um jeito completamente
diferente, a voz saindo rasgada, dolorida, mas prazerosa ao mesmo tempo.
Sofrida e entregue. — Isso é bom, porra. É tão bom, Merle!
Você me toca com uma das mãos enquanto me fode devagar,
estimulando meu clitóris em círculos perfeitos, e meu corpo começa a reagir instintivamente.
As costas envergando num arco obsceno, o quadril fazendo movimentos de
ondulação contra seu membro, buscando mais mesmo com a ardência.
Sua mão livre se firma com força na minha coxa, erguendo-a
mais alto, me abrindo ainda mais pra você, mudando o ângulo. E isso... puta
merda, isso me deixa completamente devastada de prazer.
— Caralho, caralho. Porra! — as palavras disparam da minha
boca sem controle, tropeçam umas nas outras, param, voltam. — Eu vou gozar,
Dixon. Eu vou gozar assim, PORRA!
Sem nem raciocinar direito, perdida no meio desse furacão de
sensações, eu começo a aumentar o ritmo e a força dos meus movimentos,
empurrando contra você. E você corresponde. Sempre corresponde.
Se força tanto contra mim, me dando tudo de você sem piedade
agora, atravessando meu prazer com sua fome animal, com seu membro que parece
dez vezes maior e mais grosso dessa forma, me preenchendo de um jeito que nunca
senti antes.
— Não para... não para... — imploro entre gemidos altos, uma
das mãos jogada para trás, te buscando, as unhas cravando nas suas costelas.
**Merle**
— Não vou parar, porra nenhuma. — rosno no teu ouvido,
mordendo o lóbulo com força enquanto minha mão trabalha mais rápido na frente,
te levando pro abismo. — Você pediu, agora aguenta.
Te seguro com mais força, a mão na tua coxa subindo até
agarrar teu quadril, te controlando, te usando, te fodendo sem piedade agora
que seu corpo já se acostumou.
— Assim que eu sempre quis... — murmuro rouco, cada estocada
mais profunda, mais forte. — Te ter assim. Toda minha. Em cada buraco. De cada
jeito possível.
Sinto teu corpo começar a tremer, apertando ao meu redor de
um jeito que quase me faz gozar junto. Mas eu seguro. Quero sentir você
primeiro. Quero te sentir se desfazendo enquanto eu te como assim.
— Goza pra mim. — ordeno baixo, virando teu rosto pra trás,
te beijando com violência. — Goza na minha mão enquanto eu te fodo esse rabo
apertado, florzinha.
Minha mão acelera na frente, circulando, pressionando
exatamente onde sei que te destrói. E ao mesmo tempo continuo metendo, forte
agora, sem cuidado, te dando tudo que você tá pedindo.
— Porra, Lyra... — gemo contra tua boca. — Você é perfeita
demais. Perfeita demais pra um fodido como eu.
Te envolvo com os braços, te aperto mais contra mim, sentindo
cada tremor do teu corpo, cada gemido que escapa da tua garganta. A água do
lago já secou na nossa pele, o sol queimando nossos corpos, e tudo que existe é
isso. Nós dois. Vivos. Reais. Completamente entregues.
— Goza. Agora. — rosno no teu ouvido, mordendo teu pescoço
com força enquanto te fodo sem parar. — Deixa eu sentir você apertando assim.
Me ordenhando todo.
** Lyra **
Você mal termina de falar, e eu gozo. Gozo violentamente com
o corpo inteiro, com a mente explodindo, com a alma se despedaçando. Com tudo
que existe em mim.
É diferente de qualquer orgasmo que já tive. Não tem poesia,
não tem beleza romântica, não tem delicadeza. Mas tem prazer. Prazer pra
caralho, cru e visceral, me atravessando como um disparo.
Meu corpo treme incontrolavelmente sob o seu, os músculos se
contraindo em espasmos que eu não consigo controlar. Os gemidos baixos e
contidos se transformam em gritos intensos, altos, rasgados, sem vergonha
nenhuma de quem possa ouvir.
— Eu te amo, Merle... — escapa da minha boca sem que eu
pense, sem filtro, sem medo. — Eu te amo mais que tudo nessa merda de mundo.
Mas é verdade. Cada palavra é verdade nua e crua.
Eu te amo há muito tempo. Desde antes de admitir pra mim
mesma. Desde aquela primeira noite bêbada. Talvez desde o dia que te mostrei o
dedo do meio com a chave de grifo na mão.
Meu corpo ainda pulsa ao redor do seu, te apertando, te
sentindo pulsar dentro de mim também, nos perdendo juntos nesse momento sujo e
perfeito.
**Merle**
Quando você diz isso — essas três palavras fodidas que eu
nunca pedi, nunca mereci — eu travo completamente.
Por meio segundo, meu corpo para. Minha mente para. Tudo
para.
Então algo dentro de mim se rompe.
— Porra... — a palavra sai num gemido rouco, quase um
rosnado de dor e prazer misturados.
Dobro tua pena, e te viro bruscamente de frente pra mim,
ainda dentro de você, te puxando pra cima do meu colo enquanto me sento.
Preciso ver teu rosto. Preciso te olhar quando eu...
— Eu também, caralho. — confesso contra tua boca, as
palavras saindo rasgadas, difíceis. — Eu te amo, florzinha. Te amo tanto que me
assusta.
Seguro teu rosto com as duas mãos, te forçando a me olhar
enquanto volto a me mover, agora de frente, mais intenso, mais profundo, mais
desesperado.
— Desde aquele primeiro dia... — murmuro entre estocadas. —
Desde que você me mostrou o dedo do meio... eu já sabia que tava fodido.
Te beijo com violência, com fome, com tudo que não sei dizer
de outro jeito. Minhas mãos descem, agarrando tua bunda, te ajudando a
cavalgar, te usando, te amando do jeito mais torto possível.
— Você é minha... — rosno contra teus lábios. — Minha pra
sempre. E eu sou teu, porra. Completamente teu.
Sinto meu corpo inteiro começar a tremer, o prazer subindo
pela espinha.
— Vou gozar dentro de você... — aviso rouco, já perdendo o
controle. — Vou te encher todinha... marcar você por dentro de novo...
E então eu explodo, te enchendo, te segurando tão forte que
provavelmente vou te machucar, pra variar. Mas não consigo parar. Não consigo
fazer outra coisa além de te apertar contra mim e gemer teu nome como se fosse
a merda de uma oração.
— Te amo... — repito baixo, a testa colada na tua, os corpos
ainda tremendo juntos. — Te amo, Lyra. E não vou deixar nada nem ninguém te
tirar de mim.
Fico ali, te segurando, respirando junto contigo, sabendo
que depois dessa confissão... depois disso...
Não tem mais volta.
Nunca teve.
** Lyra **
Horas mais tarde, já de volta na casa, arrumando as coisas
para a fuga noturna...
Toda vez que cruzo olhares com você pelo quarto, não contenho
o riso nervoso que me faz corar como se tivesse tomado um tabefe bem dado no
meio da cara.
Vergonha? Sim, um pouco. Arrependimento? Jamais na puta
vida!
— Por que caralhos toda vez que você passa por mim, fica
fazendo essa cara de traste? — pergunto pigarreando, tentando disfarçar o
constrangimento que me queima por dentro. — Para de me olhar assim, Dixon.
Termino de arrumar minha mochila velha, enfiando as últimas
peças de roupa e munição, fecho o zíper com força. Jogo ela nas costas com um
suspiro pesado e paro na ponta superior da escada de madeira.
— Se fizer alguma piadinha idiota hoje sobre o que a gente
fez no lago... — aponto o dedo na sua direção, estreitando os olhos. — Eu juro
por Deus que espremo suas bolas com as minhas próprias mãos até virarem purê.
Desço os degraus devagar, tentando fingir seriedade,
postura, mas segurando com todas as forças pra não rir da cara de satisfação
que você está fazendo.
— E para de andar desse jeito todo cheio de si, parece um
galo no galinheiro. — resmungo passando por você, mas não resisto e dou um
tapinha de leve na sua bunda. — Idiota convencido.
Mas tem um sorriso bobo grudado nos meus lábios que eu não
consigo apagar.
**Merle**
— Cara de traste? — repito com aquele meio sorriso de sempre,
passando a mão pela boca pra disfarçar. — Eu tô normal, mulher. Você que tá
toda desconcertada.
Continuo arrumando minha mochila, guardando munição, faca,
algumas latas de comida que sobraram. Mas não consigo evitar de te olhar de
canto de olho, vendo você toda nervosa, toda envergonhada.
É fofo pra caralho.
Quando você desce a escada e dá aquele tapa na minha bunda,
eu solto uma risada baixa, rouca.
— Ô, ô... — te puxo pelo braço, te trazendo pra perto. —
Quem tá convencido aqui é você, florzinha. Toda gingando diferente, toda...
Abaixo a voz, rouco no teu ouvido.
— ...toda arrombadinha.
Solto você antes que possa me acertar um soco, rindo daquele
jeito debochado que sei que te irrita.
— Relaxa. — digo já pegando minha própria mochila. — Ninguém
precisa saber dos detalhes. Só que você é minha e pronto.
Passo por você em direção à porta, mas paro, sério de novo
por um segundo.
— E sobre aquilo que você disse no lago... — minha voz sai
mais baixa, sem a piada. — Eu falei sério também. Tá anotado?
Te olho nos olhos, firme.
— Agora vamos. Quanto mais cedo sairmos daqui melhor.
Do lado de fora, o grupo já está se reunindo. Todo mundo
tenso, olhando ao redor como se walker ou coisa pior pudesse aparecer a
qualquer momento.
— horas mais tarde —
** Lyra **
Já se passaram horas enquanto nosso pequeno grupo caminha no
breu da noite, tropeçando em raízes e pedras invisíveis.
Ainda é meio da madrugada, o céu sem lua nos engolindo
inteiros. E por mais que eu esteja ambientada com o apocalipse, acostumada a
perder as coisas, hoje eu sinto um aperto forte no peito por ter que deixar
parte da nossa história pra trás. Aquele lugar era nosso.
— Espero que a gente encontre um lugar ainda melhor pra
ficarmos, Merle. — digo segurando sua mão com tanta força que meus dedos ficam brancos,
meu gesto denunciando toda a preocupação que tento esconder na voz.
Seguimos caminhando em silêncio tenso, com lanternas
apagadas pra não chamar atenção, conversas sussurradas e baixas entre o grupo.
A sensação de que o amanhã talvez nos prometa algo bom paira no ar, frágil.
Afinal, sempre dizem que mudanças repentinas vêm pra trazer algo melhor, não é?
Mentira. Mas a gente precisa acreditar em alguma coisa.
— Já pensou a gente daqui... sei lá, uns trinta anos? — falo
quebrando o silêncio enquanto te olho sorrindo de canto, mesmo na escuridão. —
Eu vou estar velha, e você... bem, você vai estar mais velho ainda. Tipo,
antigo mesmo.
Apoio o rosto cansado no seu braço forte enquanto caminho,
seguindo o ritmo dos seus passos largos, deixando você me guiar no escuro.
— Você ainda vai me amar até lá? — a pergunta sai baixa,
vulnerável, quase engolida pelo som dos nossos passos na terra.
Aperto sua mão mais forte, como se a resposta pudesse me sustentar
nesse mundo que insiste em desmoronar.
** Merle **
— Trinta anos… — resmungo baixo, andando no escuro, puxando
você um pouco mais pro meu lado sem nem pensar. — Se a gente durar mais trinta
semanas já vai ser lucro nessa porra de mundo.
Mas aperto tua mão de volta. Forte. Não por brincadeira. Por
necessidade.
— E para com essas ideias agora. — murmuro. — Estrada não
gosta de gente distraída.
Continuo andando, olhos varrendo o nada, ouvido atento
demais. O grupo segue junto, passos contidos, respirações controladas. Tudo do
jeito certo.
Só que o certo começa a ficar errado.
Primeiro, é o silêncio. Não o bom. O outro.
Os grilos somem. O vento para. O som dos passos parece alto
demais de repente. Meu estômago aperta daquele jeito que não avisa, só
confirma.
Levanto a mão devagar. Punho fechado. Todo mundo para.
— Merda… — sussurro quase sem voz.
Olho em volta tentando enxergar o que ainda não apareceu.
Caminhões velhos à frente. Mata fechada dos lados. Estrada estreita demais pra
ser coincidência.
Funil.
Aperto tua mão de novo, agora diferente. Alerta puro.
— Fica colada em mim. — digo baixo, sem olhar pra você. —
Não solta.
É quando escuto vozes. Não desesperadas. Não cansadas.
Confiantes.
— …espera passarem mais um pouco. — alguém murmura no
escuro.
— Calma. Tem mulher aí. — outro responde, rindo baixo.
Meu maxilar trava. O sangue esquenta.
— Salvadores… — penso, sem dizer.
Eles aparecem devagar, armas erguidas, lanternas se
acendendo uma a uma, nos cegando por um segundo. São muitos. Mais do que eu
queria contar.
— Relaxa aí. — um deles fala alto. — Só queremos o que vocês
têm. Comida, arma, essas merdas.
Ninguém reage de imediato. O grupo fica tenso, mas quieto.
Ainda parece… negociável.
Eu te puxo um pouco mais pra trás do meu corpo.
— Fica. — murmuro.
Enquanto eles circulam, dois deles param um pouco mais
afastados, achando que ninguém ouve. Mas eu ouço.
— Essas aí vão dar lucro. — um diz, olhando rápido pras
mulheres.
— Negan vai gostar. — o outro responde, rindo. — Leva vivas.
Meu corpo inteiro endurece. Não penso. Não grito. Só olho em
volta.
Vejo o mesmo estalo nos olhos dos outros homens do grupo. Um
movimento quase imperceptível. Ombros se endireitando. Mãos fechando em facas,
em cabos de arma.
Ninguém combinou nada. Mas todo mundo entendeu a mesma coisa
ao mesmo tempo. Isso aqui não é saque.
É captura.
Dou um passo à frente.
— Encosta nela e eu arranco tua garganta com os dentes. —
digo baixo, mas firme, a voz cortando a noite.
O ar muda.
E então…
Os homens do nosso grupo se erguem.
** Lyra **
Quando o primeiro homem do nosso grupo ameaça reagir,
levantando a arma num gesto defensivo, ouço um disparo alto e seco cortando o
ar da madrugada.
Meus olhos demoram a raciocinar mais que meus ouvidos. E
então, em câmera lenta, o corpo dele cai ao chão. Inerte. Morto. Sangue
escorrendo escuro na escuridão.
É quando começa o caos absoluto.
Tiros ecoando de todos os lados, facadas rasgando carne,
sangue jorrando quente. Barulho ensurdecedor, gritos, desgraça pura...
— Merle! — grito desesperada tentando te puxar pra trás, pra
segurança, pra qualquer lugar longe disso.
Mas você solta minha mão com um puxão brusco, puxa a arma da
cintura e começa a matar os Salvadores um por um, sem errar sequer uma bala.
Cada disparo, uma morte. Preciso. Letal.
As pessoas do nosso grupo se empurram, gritam, correm em
todas as direções. E por descuido meu, por um maldito segundo de distração,
perco você de vista no meio da confusão.
— WALKERS! — alguém grita em desespero absoluto, a voz
rasgada de terror.
Meu sangue gela.
Uma horda de podres surge da mata escura, de todos os lados
ao mesmo tempo, atraídos pelo barulho dos tiros e dos gritos. O pânico geral
aumenta exponencialmente. Salvadores, nosso grupo, todos sendo atacados, todos
atacando qualquer coisa que se mova.
Eu puxo minha arma com as mãos tremendo. Atiro. Um cai.
Dois. Três... seis... merda, ninguém aqui tem munição suficiente pra isso.
De repente, sinto mãos fortes segurarem meu braço e me
puxarem violentamente pra trás. Viro esperando ver você, mas a esperança morre
na garganta quando percebo que são dois daqueles malditos homens, Salvadores,
me arrastando na direção de um dos caminhões enormes parado logo à frente.
— SOLTA! FILHO DA PUTA, ME SOLTA! — grito com tudo que
tenho.
Me debato feito animal selvagem, chuto com força, arranhando,
mordendo. Tento alcançar a faca escondida na bota, os dedos quase tocando o
cabo, mas...
— MERLE! — grito o seu nome como um último pedido de
socorro, sabendo que você não pode me ouvir no meio desse inferno.
Mas eles são fortes demais, e eu sou só uma.
** Merle **
O tiro derruba o primeiro dos nossos antes mesmo de terminar
a ameaça. Seco. Limpo. Covarde.
Não dá tempo de pensar.
Eu solto você porque preciso. Porque se eu não soltar agora,
morre todo mundo.
A arma vem pra mão como extensão do braço. Um disparo.
Cabeça. Outro. Garganta. Outro. Peito. Não erro. Não paro. Não sinto nada além
do foco puro. Cada bala é um segundo comprado.
Vejo os Salvadores caindo, mas eles são muitos. Sempre são.
Ouço teu grito no meio do barulho e meu estômago afunda.
— Lyra! — berro de volta, girando o corpo no caos,
procurando teu rosto entre fumaça, sangue e gente caindo.
É quando tudo piora.
— WALKERS!
O som deles vem como uma onda. Gemidos, passos arrastados,
dentes batendo. Eles surgem da mata como se a própria noite estivesse vomitando
mortos.
Munição acaba rápido demais.
Clic.
Merda.
Jogo a arma fora e puxo a faca. Curta. Boa. A que eu confio.
Vejo você. Dois Salvadores te arrastando. Te puxando como
coisa. Como mercadoria.
Algo estala dentro de mim.
Não grito.
Não penso.
Corro.
O primeiro nem vê. A faca entra por baixo do queixo e sai
pela língua. O segundo tenta reagir, eu quebro o nariz dele com a testa e enfio
a lâmina repetidas vezes até parar de se mexer.
Te puxo pra mim num segundo.
— FICA ATRÁS DE MIM! — rosno.
Mais deles vêm. Sempre mais.
Luto no corpo a corpo agora. Mão suja. Sangue quente. Osso
cedendo. Um cai. Outro. Outro. Perco a conta. A faca escorrega, mas eu aperto
mais forte.
Então sinto.
Não vejo. Sinto.
Dentes cravando no ombro. Dor branca, profunda. Um grunhido
escapa de mim, mas eu não paro. Viro e enfio a faca na cabeça do walker, mas
outro já tá em cima. Depois outro. Eles me puxam.
Eu sei.
Não tem mais cálculo. Não tem saída boa.
Olho pra você. Teu rosto tá molhado de sangue que não é teu.
Os olhos arregalados, me procurando.
Arranco a faca da cabeça de um podre e jogo na tua direção. Você
pega no reflexo.
— EI! — grito, segurando um walker pelo pescoço, usando o
corpo dele pra te dar espaço. — OLHA PRA MIM!
Você olha.
— Eu te amo, florzinha. — minha voz sai inteira, sem falha.
Verdade até o osso. — AGORA CORRE.
Você balança a cabeça, chora, tenta vir pra mim.
— CORRE! — berro com tudo que ainda tenho.
E você obedece.
Te vejo sumir no escuro. Vejo teu cabelo desaparecer entre
as árvores. Vejo você viver.
Os walkers me derrubam.
Mordida. Outra. Dor espalhando. Eu rio. Um riso curto,
torto, sem humor nenhum.
— Valeu a pena… — murmuro pra ninguém.
Enquanto eles me rasgam, a última coisa que penso não é no inferno,
nem no Negan, nem no mundo fodido.
É só isso:
Ela correu.
Ela tá viva.
E isso…
Isso basta.
** Lyra **
Eu paro de lutar quando te vejo ser mordido. Paraliso
completamente. Sinto meu coração parar também, o mundo inteiro congelando
naquele segundo eterno.
Não é um tiro. Não é uma facada.
É o fim. Impiedoso. Irreversível.
— Merle! — grito com a voz rasgada, quebrando
definitivamente.
Você joga a faca pra mim, e sorri. Porra... você sorri mesmo
diante da morte. Aquele sorriso torto e cafajeste que eu amo tanto.
Pego a faca por reflexo, as mãos agindo sozinhas enquanto
minha mente se recusa a processar o que está acontecendo. Quando você grita
aquelas palavras, me ordenando a viver, a minha vontade desesperada é de ficar
ali parada e morrer com você. Juntos. Como deveria ser.
Então você grita de novo, mais alto, mais impiedoso. E algo
profundo em mim, algo que você plantou nesses meses todos, me diz pra correr.
Pra obedecer. Pra sobreviver.
E eu me obrigo a virar as costas e correr, porque deixar
você ter feito tudo isso em vão, ter se sacrificado por nada, seria pior que a
própria morte pra você. Seria trair tudo que a gente construiu.
E então é o que faço. Eu corro.
Corro enquanto as lágrimas me cegam, corro enquanto meu
peito se despedaça, corro com sua faca em mãos abrindo caminho.
— Eu te amo, Merle Dixon! — grito virando o rosto por um
último segundo, te vendo cercado de podres, lutando até o fim.
— EU TE AMO! — minha voz ecoa na noite enquanto desapareço
na escuridão da mata.
E a última coisa que ouço é o som da sua risada.
Até o último instante, você sendo forte...
Por mim.
Volto àquele mesmo lugar maldito assim que os primeiros
raios do sol nascem no horizonte, tingindo tudo de laranja e vermelho.
Tudo está em silêncio. Um silêncio ensurdecedor, pesado,
amargo.
Vejo os caminhões ainda com as portas abertas, abandonados,
esquecidos na pressa da fuga. Corpos espalhados por todo lado; nossas pessoas,
pessoas que conhecíamos, misturados aos dos Salvadores e de uma infinidade de walkers
abatidos. Tem tanto sangue coagulado no chão que faz a sola dos meus coturnos
grudarem e estalarem a cada passo que dou.
Caminho em silêncio absoluto, zumbi eu mesma, os olhos
vermelhos e inchados vasculhando metodicamente cada corpo caído, cada rosto
desfigurado, cada...
Meu peito aperta violentamente. Os olhos ardem tanto que mal
consigo enxergar.
— Merle? — chamo baixo, a voz saindo quebrada, rouca, já sem
forças, pendurada no último fio de esperança estúpida que insiste em não
morrer.
Então, como resposta cruel do universo, ouço passos vindos
da mata fechada. Lentos, arrastados, cambaleantes.
É você.
Mas não é o você que eu rezei pra encontrar.
Já não há vida naqueles olhos azuis que me olhavam com
desejo e proteção. Agora estão opacos, vazios. Sem alma. Sem você. Sem Merle.
Tento dizer algo, qualquer coisa. Chamar seu nome mais uma
vez, implorar que volte pra mim.
Não consigo. A voz morre antes de nascer.
Caio de joelhos na terra ensanguentada enquanto “você”, essa
casca vazia do homem que amei, se aproxima lentamente, emitindo sons guturais e
agudos que já não carregam mais o grave rouco da sua voz. Sons que não são
seus.
Meu mundo inteiro se comprime ao meu redor, me asfixia, me
esmaga, me desola completamente.
As lágrimas finalmente caem, quentes, incontroláveis,
molhando meu rosto sujo de sangue e terra.
Quando isso — essa coisa que costumava ser você — chega a
poucos metros de distância, os braços se erguendo na minha direção, eu me
levanto com as pernas tremendo. Puxo da cintura a faca que até poucas horas
atrás era sua, o metal ainda sujo de sangue seco.
E com o coração despedaçado em mil pedaços dentro do peito,
eu livro sua alma pra finalmente poder descansar em paz.
A lâmina entra fácil, firme, no mesmo lugar que você me
ensinou.
Seu corpo — o que sobrou dele — desaba no chão.
E eu desabo junto, abraçando o que resta de você, sujando
minha pele com seu sangue podre, chorando como nunca chorei na vida.
— Eu te amo... — sussurro contra seu peito imóvel, a voz
quebrada em soluços. — Eu te amo, seu filho da puta. Como eu vou viver sem
você?
Mas você não responde.
Nunca mais vai responder.
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