Não é
uma adaptação.
Não é um retelling.
Um
universo possível — e perigosamente plausível — onde símbolos não servem apenas
para serem decifrados, mas para despertar. Onde a linguagem antiga não mora só
em manuscritos, mas na pele, na memória e nas escolhas a serem feitas.
Uma
narrativa situada no universo simbólico e intelectual inspirado nos romances e
adaptações cinematográficas de Dan Brown.
O eco
das solas do meu sapato no mármore encerado do auditório universitário me
parece mais alto do que deveria. Ou talvez seja o som da minha própria mente
congestionada, inquieta. Costumo dizer que os símbolos são portas; mas hoje,
sinto que estou à beira de uma sem saber se devo entrar.
Cambridge
me parece mais distante do que nunca. E a plateia diante de mim, jovens demais,
impacientes demais. Alguns com celulares acesos, outros apenas se escondendo
atrás de expressões fingidamente interessadas. Não é arrogância. É costume. Eu
já aprendi a reconhecer quando minha presença é apenas mais uma formalidade
acadêmica. Mas ainda assim, falo. Sempre falo.
— “O
Inferno de Dante não foi apenas uma metáfora teológica. Foi um mapa. Um retrato
da alma humana em camadas. E como todo bom mapa... ele esconde um caminho.”
A tela
atrás de mim muda. A pintura do Botticelli preenche o espaço com suas linhas
violentas, circulares, quase hipnóticas. Alguns rostos se erguem. Outros ainda
estão perdidos. Mas há um olhar.
Um só.
Na
terceira fileira. Levemente de lado. E por alguma razão, por algum fragmento de
impulso primitivo que meu cérebro racional odeia admitir… eu demoro um pouco
mais ali.
Ela
não se comporta como os outros. Nem tenta. Cabelo rosa. Piercings. Tatuagens que
sobem pelo pescoço e somem sob o colarinho rasgado de uma camiseta preta. Fones
pendem de um dos ouvidos, mas o olhar… o olhar está aqui. Focado. Vivo.
Provocador, de um jeito que não é insolente, mas curioso. Científico. Como se
ela também estudasse alguma coisa, mas não a simbologia. Estudasse a mim.
Três
segundos a mais do que eu deveria. Volto o olhar para a plateia.
— “Por
séculos, manuscritos foram codificados por medo. Medo da Igreja. Do Estado. Da
verdade. Mas a verdadeira questão é: se tudo que vocês aprenderam estivesse
errado… vocês estariam preparados para o que está escondido nas margens da
história?”
A aula
segue. Mas algo mudou.
Na
terceira fileira, alguém mastiga chiclete com a mesma intensidade que me devora
com os olhos.
E eu...
me pego desejando ser decifrado.
**
Arya **
Pela primeira vez, a universidade não trouxe apenas um nome de prestígio ou uma
sequência de frases prontas copiadas da internet. Trouxe alguém que carrega o
tipo de conhecimento que não se ensaia, ele pulsa nos olhos, vibra na voz, se
instala na alma de quem escuta.
Ele
não cita autores; ele os habita. Não parafraseia teorias; as transcende. E
isso, de algum modo, me atrai mais do que a própria palestra.
Meus
fones pendem inertes pelas orelhas, esquecidos. A voz dele preenche a sala como
se ecoasse direto das páginas de um romance de Dan Brown, mas com uma densidade
que só alguém que realmente vive o que fala consegue transmitir.
Num
instante breve — quase imperceptível — nossos olhares se cruzam. E por alguma
razão inexplicável, sinto minha espinha gelar.
Mordo
o chiclete com mais força, um gesto involuntário, como se aquilo pudesse me
ancorar à cadeira e impedir que eu fosse tragada por ele.
Não
escrevo nada. Não preciso. Cada frase dele se fixa na minha memória com a
precisão de um código gravado a ferro quente. E, honestamente, eu adoraria
ouvir cada uma delas de um pouco mais perto.
**
Langdon **
Ela
não escreve nada.
Enquanto
os outros rabiscam cadernos ou digitam freneticamente em seus notebooks, ela
simplesmente está ali. Presente. Atenta. Como se cada palavra que eu dissesse
fosse absorvida direto pelos nervos expostos de um cérebro faminto.
Isso
seria lisonjeiro, se também não fosse ligeiramente perturbador.
Me
pego ajustando a gravata. Um gesto automático, quase imperceptível, mas que
denuncia algo fora do meu padrão. A verdade é que há muito não sinto o
desconforto da observação. Sempre fui o observador, o decifrador. Mas agora…
Ela
mastiga o chiclete com certa insolência. Como se me testasse. Como se dissesse “Vai,
impressiona. Me mostra que é diferente dos outros.”
E mal
sabe ela… que eu estou tentando não falhar nesse teste.
A
projeção muda novamente. Manuscritos antigos, um deles um fragmento do Codex
Gigas. Mostro a assinatura invertida de um escriba medieval. Um detalhe que a
maioria dos alunos ignora. Mas ela não. Seus olhos acompanham o movimento, como
se lessem junto comigo, como se entendessem. E talvez entendam mesmo.
Me
afasto do púlpito e começo a andar lentamente pela frente da sala, como faço
sempre. Mas dessa vez, meu passo hesita ao passar por ela. Por trás da
aparência rebelde e o visual agressivo, há uma compostura sutil demais pra ser
encenação.
Algo
nela não combina com aquele lugar. Mas também… talvez não combine com lugar
nenhum. Como um símbolo esculpido num templo errado, esperando por alguém que o
reconheça.
Termino
a palestra com a pergunta que sempre uso quando quero deixar algo suspenso no
ar:
— “Se
a verdade for mais assustadora do que a mentira, ainda assim vocês estariam
dispostos a conhecê-la?”
A
maioria desvia o olhar, já recolhendo canetas e mochilas. Mas não ela.
Ela me
encara como se tivesse acabado de ouvir uma provocação pessoal.
E
quando nossos olhos se cruzam de novo, sinto que estou diante do único enigma
da sala que eu ainda não sei decifrar.
Mas
quero. Quero mais do que deveria.
**
Arya **
Os
outros alunos começam a guardar os materiais e saem como se estivessem apenas
cumprindo mais uma obrigação do dia. Mas eu permaneço. Estática. Extasiada.
Cada
célula do meu corpo ainda vibra com as palavras dele, Robert Langdon. Um nome
que agora parece ter peso histórico, quase mítico dentro de mim.
A sala
esvazia. O silêncio se instala como uma cortina grossa e confortável, e só
então percebo que estou olhando para ele. Por tempo demais. Com intensidade
demais.
Ele
retribui o olhar com a calma de quem enxerga além do que está diante dos olhos.
Sobrancelha arqueada, expressão curiosa, como quem analisa um fragmento antigo
à espera de tradução.
— “Pois
perder tempo desagrada mais a quem mais conhece o seu valor.” — murmuro, a voz
baixa, mas firme, enquanto me levanto.
A
frase, retirada de algum canto esquecido da literatura que só mentes inquietas
revisitariam, é quase uma senha. Um convite não dito para me decifrar.
Estendo
a mão em direção a ele, não por formalidade, mas como quem oferece uma fagulha
de algo mais profundo. Algo que talvez ele, entre todos os presentes, consiga
entender.
**
Langdon **
A
maioria das turmas que atendo não espera mais do que o básico. Alguns buscam
inspiração. Outros, nota. E alguns… nem sabem o que vieram fazer aqui. É fácil
distinguir.
Mas
ela não se move.
Permanece
sentada, com as pernas cruzadas e o olhar fixo. Como se o mundo ao redor
tivesse sido pausado pra que ela pudesse continuar respirando dentro do que eu
disse. É desconcertante. Quase… íntimo. Como se tivesse tocado algo dentro dela
sem intenção.
Os
últimos alunos saem, murmurando despedidas que eu mal escuto. A porta se fecha,
abafando os sons externos. E é quando ela finalmente se levanta, com a
tranquilidade de quem está no próprio território.
O
jeito como ela caminha. O contraste entre as tatuagens, o cabelo rosa, os
piercings e a fala precisa. Como se não citasse algo antigo, raro.
“Pois
perder tempo desagrada mais a quem mais conhece o seu valor.”
Não é
só uma frase. É uma escolha. E ela estende a mão com firmeza, com os olhos
presos nos meus como se me oferecesse um convite, ou um aviso.
— Baltasar
Gracián, século XVII — respondo, apertando sua mão. A palma dela é quente,
firme. Nada tímida. — Um dos poucos filósofos que compreendiam o poder da
síntese. Poucos alunos o citam.
Mas
ela não parece uma aluna comum. E, de algum modo, não parece nem um pouco
surpresa com o fato de eu ter reconhecido a citação.
— Você
não anotou nada. — comento, sem soltar sua mão de imediato. — Mas me parece que
ouviu mais do que a maioria.
Não
sei se é o jeito como ela me olha, ou a naturalidade com que se mantém firme
diante de mim. Mas algo dentro de mim sabe: essa conversa não vai terminar
aqui. E talvez... nem devesse.
**
Arya **
—
Posso repetir detalhadamente as duas horas de palestra que deu, senhor Langdon.
Um
sorriso escapa de mim, involuntário, como se a empolgação tivesse encontrado
uma brecha nas defesas que costumo manter erguidas.
—
Tenho uma memória excelente. Talvez até boa demais.
A
garganta seca, os olhos fixos nos dele. Pela primeira vez, tão perto de alguém
que admirei por tanto tempo, não como um ídolo distante, mas como alguém...
humano. Real. Tangível.
—
Acompanho seu trabalho desde que me entendo por gente.
As
palavras saem num fôlego longo, quase um suspiro. Como se estivessem guardadas
há anos, esperando pelo momento certo. Talvez tarde demais. Ou cedo demais. Mas
agora, ditas. E com isso, carregando o peso absurdo de tudo o que significam.
**
Langdon **
O que
me desconcerta não é só o que ela diz, é o jeito como diz.
Com
uma voz firme, sem tremores, mas carregada de um entusiasmo contido. Quase
doloroso. Como se cada frase fosse uma brecha por onde escapa tudo o que ela
tenta esconder. O sorriso involuntário. O suspiro. A admissão. Há verdade
demais nos gestos dela. E verdade demais, no mundo acadêmico, costuma vir
acompanhada de julgamento ou… fascínio.
— Uma
ótima memória. — repito, inclinando levemente a cabeça. — Isso explica os fones
desligados. Mas não o interesse. Nem a coragem de citar Gracián pra mim no meio
de um auditório vazio.
Ela
não se move. Apenas me encara, como se esperasse ser questionada, avaliada… ou
convidada.
— E
desde que se conhece por gente? — pergunto, dando um meio sorriso quase
imperceptível. — Isso me faz sentir um pouco mais velho do que estou disposto a
admitir hoje.
Deveria
encerrar aqui. A aula acabou. Eu deveria agradecer, desejar sorte nos estudos,
seguir pro hotel. Mas o jeito como ela respira na minha frente me prende.
E pela
primeira vez em muito tempo, me vejo querendo ouvir mais do que falar. Não
sobre Dante, nem Da Vinci, nem códigos perdidos.
Mas
sobre ela.
— Qual
seu nome? — pergunto, finalmente soltando a mão que nem tinha percebido que
ainda segurava. — E o que exatamente você quer me dizer, agora que tem a sala
toda só pra você?
**
Arya **
Dou um
sorriso torto quando ele comenta sobre a idade, não por constrangimento, mas
porque, de algum modo, aquilo só aguça ainda mais meu interesse. Como se a
distância temporal fosse apenas mais um detalhe irrelevante diante da vastidão
do que ele carrega.
— Sou
Arya. Pós‑graduanda em simbologia.
As
palavras saem com naturalidade, mas aperto os lábios logo em seguida, num gesto
contido, quase defensivo. Evito listar títulos, projetos, idiomas, obsessões.
Não agora. Não ali. Não com ele me observando desse jeito atento, quase
clínico.
—
Gostaria de tomar um café, professor Langdon?
O
convite escapa antes que eu o pese devidamente. Não é apenas educação. É
curiosidade crua, fome de proximidade, desejo de prolongar aquele instante
antes que ele se dissolva no cotidiano.
Deslizo
as mãos pela lateral da roupa, um gesto automático, como se estivesse tentando,
pela primeira vez na vida, sustentar uma compostura que nunca me foi exigida, e
que, ironicamente, sempre me foi natural.
**
Langdon **
Arya.
Um
nome forte. Curto, direto. Como uma sentença não dita. Parece destoar do visual
e ao mesmo tempo, casar perfeitamente com ele. O tipo de nome que se grava na
mente, mesmo quando a razão tenta não dar importância.
Pós-graduanda
em simbologia. Eu deveria ter presumido. Ninguém cita Gracián e encara
Botticelli daquele jeito sem alguma bagagem. Mas não é só o conhecimento que me
chama atenção. É a presença. A tensão controlada por debaixo da postura
rebelde. Como se ela estivesse travando uma guerra interna entre a
impulsividade e o desejo de ser levada a sério.
E
então, o convite. Café.
Ela
fala como se estivesse se despindo de uma armadura invisível. Como se aquele
gesto fosse mais do que um gesto, fosse um pedido de aproximação. E talvez
seja. Mas é o jeito como desliza as mãos pela própria roupa, quase contida,
quase contrariando a si mesma… que me faz esquecer por um instante da distância
profissional que deveria manter.
— Eu
aceito. — respondo, sem hesitar. A voz sai mais baixa, mais grave do que eu
esperava. — Mas com uma condição.
Inclino
o rosto ligeiramente. Meus olhos fixos nos dela, como se estivesse prestes a
dar início a um jogo de xadrez que ninguém além de nós consegue enxergar.
— Que
me diga o que realmente está pensando. Porque duvido que alguém como você tenha
feito essa pergunta apenas por cortesia.
E nem
por curiosidade acadêmica.
**
Arya **
—
Eu... – a voz falha, vacila. Mesmo com um vocabulário extenso, sempre pronto,
as palavras me escapam por um instante, como se nada fosse suficientemente bom
para definir o que sinto.
— Eu
queria aproveitar cada segundo da sua presença. — A frase sai carregada de
verdade crua, e ao mesmo tempo, vulnerável. Não sei se isso soou pra ele como
uma fã obcecada, ou só mais uma aluna curiosa. Sinceramente? Nem eu sei o que
queria dizer exatamente.
Mas há
algo nele, na postura, no silêncio atento, no jeito como os olhos dele nunca
param, mesmo quando está parado, que me provoca como algo indecifrável.
Eu
gosto disso.
Gosto
de mistérios. Gosto de enigmas. Gosto de decifrar o que ninguém mais tem
coragem de tocar.
E ele parece exatamente isso. Um enigma vivo, de terno amassado, olhar
analítico e uma mente que jamais silencia.
E eu?
Eu adoro esse tipo misterioso.
Ainda mais quando a resposta não vem nos livros.
**
Langdon**
As
palavras pairam no ar como um verso inacabado. Não sei se são um elogio, um
impulso, ou uma confissão. Mas sei que não foram ditas levianamente. Há algo
cru e sincero demais na forma como ela hesita, tropeça, e ainda assim continua.
Ela não está interpretando um papel. Está apenas… sendo.
E é
isso que me desarma.
A
maioria das pessoas que se aproxima de mim depois de uma palestra quer uma
selfie, um autógrafo num livro, ou uma confirmação de alguma teoria absurda de
internet. Mas ela me oferece silêncio. E olhos que não desviam.
Sim,
minha mente ainda está em turbilhão, analisando conexões, frases, símbolos. Mas
agora, uma parte dela também está presa nela. Arya. Com o cabelo rosa, os olhos
famintos e aquele jeito de quem quer invadir um mundo que sempre lhe foi
negado.
—
Então vamos fazer valer esses segundos. — murmuro, pegando meu casaco do
encosto da cadeira. — Há uma cafeteria discreta perto daqui. Velhas poltronas
de couro, pouca luz e um café que não insulta o paladar. Acho que você vai
gostar.
Passo
por ela com um leve gesto de cabeça, convidando-a a me acompanhar. Mas antes de
sair da sala, paro à porta e olho por sobre o ombro, os olhos fixos nos dela,
como se a desafiasse ou a testasse.
— E se
quiser conversar sobre manuscritos raros, dialetos mortos ou as piores decisões
que já tomei… agora é sua chance.
Ela
ainda está ali. Firme. Intensa.
E eu?
Já não
tenho mais certeza de que estou no controle.
**
Arya **
Pego a
mochila da cadeira e sigo logo atrás dele, sentindo que cada passo acelera algo
dentro de mim que não sei explicar.
O
jeito sempre firme e seguro que tenho, aquele que todos reconhecem de longe nos
corredores da faculdade, parece se dissolver aos poucos diante da presença
dele.
Como se a lógica deixasse de funcionar, como se a mente inquieta que tenho
ficasse muda perto da dele.
— Eu
tenho tantas perguntas... — Minha voz vacila. Não pela falta de vocabulário,
mas porque tudo em mim parece querer dizer demais, e ao mesmo tempo, se
segurar.
— Tanta curiosidade. Tanta sede de saber.
Faço
uma pausa, franzindo o cenho como se estivesse organizando pensamentos demais
dentro de uma mente que sempre foi meticulosamente organizada.
— Mas
não quero tomar seu tempo com banalidades, claro... — completo com um riso
contido, quase envergonhado.
— Ainda que... — hesito, mas sustento o olhar nele — a sua presença já seja,
por si só, uma aula inteira.
Talvez
tenha soado atrevido. Talvez tenha soado encantada demais.
Mas não consigo me conter quando estou diante de alguém que finalmente parece
me provocar intelectualmente.
Alguém que não apenas leu os livros certos, mas que entendeu o que há de errado
neles.
E eu,
pela primeira vez, não quero parecer brilhante.
Quero ser atravessada. Desmontada. Questionada.
Quero que ele me leia, como decifra os símbolos que o mundo inteiro ignora.
**
Langdon **
Ouço a
voz dela atrás de mim, meio engasgada com a própria ansiedade, como se
estivesse correndo atrás das palavras antes que escapem pela boca sem filtro. E
isso, curiosamente, me faz sorrir. Não por deboche, jamais, mas pela
autenticidade. É raro, quase extinto, encontrar alguém que diga o que pensa sem
ensaio.
— A
diferença entre bobagem e genialidade está no contexto, Arya. — comento, sem
olhar pra trás, apenas guiando os passos pelo corredor vazio da faculdade. — E
às vezes, as perguntas mais tolas são as que revelam os maiores mistérios.
A luz
amarelada do prédio antigo dá um ar quase cinematográfico à nossa saída. É
tarde. O campus está silencioso. O som dos nossos passos ecoa entre colunas e
portas trancadas. E eu não consigo deixar de reparar no reflexo dela nas
janelas escuras: vibrante, deslocada, intensa demais para aquele mundo. E
talvez… perfeita demais pra ele.
Ao
virarmos a esquina que leva à saída lateral do prédio, falo com a naturalidade
de quem já está um pouco longe demais da zona de conforto:
—
Sabe… eu já dei palestras em Oxford, Vaticano, Louvre… Já fui acusado de
conspiração, heresia e até sequestro, tudo por seguir símbolos até lugares que
ninguém ousava olhar.
Abro a
porta para ela passar primeiro, e meus olhos encontram os dela por um instante.
— Mas
acho que a pergunta mais perigosa da noite… foi a sua.
Seguro
a porta aberta. E espero. Porque agora, é ela quem decide atravessar.
**
Arya **
— Gratias
— respondo com um meio sorriso, passando pela porta à frente dele, mas parando
ao lado para esperá-lo.
Alguns
alunos cruzam o corredor, ruidosos, desajeitados, como se ainda não tivessem
entendido que o tempo na universidade passa mais rápido do que pensam.
— “Hey, rockeira nerd, vamos pra festa no campus hoje?” — grita um dos rapazes,
com a audácia típica de quem não leu um livro sequer nos últimos seis meses.
Antes que eu pudesse responder, uma garota ao lado dele murmura alto o bastante
para ser ouvida:
— “A menos que tenha livros velhos, ela nunca vai.”
Reviro
os olhos, cruzando os braços e estreitando os ombros como se quisesse me
esconder do mundo... ou engolir cada um deles com palavras afiadas como
punhais.
— Sempre fascinante como a ignorância grita — comento em voz baixa, sem
disfarçar o tom ácido, virando o rosto em direção a Langdon.
— E mais ainda como ela tenta zombar do que não consegue compreender.
Meus
olhos encontram os dele, como se buscassem refúgio ou cumplicidade.
**
Langdon **
O
latim me arranca um leve arqueamento de sobrancelha. Natural. Sem esforço. Sai
dela como quem respira. Gratias. Quantos estudantes conseguem usar isso com
fluidez hoje em dia? Muito menos com aquele tom debochado que esconde um mundo
inteiro por trás.
Mas o
momento se quebra por vozes alheias. Um grupo de alunos passa, barulhento,
raso, previsível. As palavras ricocheteiam no ar como pedras atiradas por mãos
que nunca aprenderam a esculpir. “Rockeira nerd”, é quase cômico, se não fosse
patético.
E
então, a garota. A frase dita baixo, mas com a intenção cirúrgica de ferir.
Como se sabedoria fosse uma ameaça. Como se ela soubesse que Arya guarda algo
que ela nunca vai ter.
Eu
vejo quando ela enrijece. Como quem ouve o mesmo refrão há tempo demais. Como
se aquela rejeição fosse o fundo musical de toda uma vida tentando caber em
molduras que nunca serviram.
Me
viro de leve, caminhando ao lado dela com passos calmos, mas os olhos atentos.
— Às
vezes, quem vive cercado por ignorância tenta disfarçar o medo de não entender
o mundo atacando quem o compreende demais.
Pego
as chaves do bolso do casaco, destravando o pequeno portão que leva à rua.
— Mas
veja pelo lado positivo… — completo, abrindo espaço para ela passar. — Livros
velhos, ao menos, não gritam insultos pelas costas.
E os
que sabem lê-los… esses, sim, podem mudar tudo.
**
Arya **
—
Ignorância pra algumas pessoas, parece ser uma bênção, senhor Langdon.
Ajusto
a alça da mochila sobre os ombros enquanto continuo ao seu lado, meu tom é
firme, mas há um quê de melancolia contida.
— Sou
obrigada a socializar às vezes com os alunos… — faço uma pausa curta, quase
como se essa parte me causasse cansaço só de lembrar — …, mas prefiro a
biblioteca. Lá, pelo menos, meus pensamentos não precisam disputar espaço com
ruídos vazios.
Desvio
o olhar por um instante, refletindo em voz baixa:
— No
meio das estantes, o caos da minha mente parece se reorganizar. Como se cada
livro me lembrasse que não estou sozinha na desordem… que já houve outros antes
de mim tentando decifrar o mundo. E falhando lindamente.
**
Langdon **
— Você
não é caótica, Arya. — digo, sem hesitar.
As
palavras saem antes que minha mente racional consiga aplicar os filtros de
sempre. Mas não me arrependo. Porque são verdadeiras. E porque ela precisa
ouvi-las.
—
Caótico é o mundo lá fora. A maioria só aprendeu a se adaptar a ele fingindo
normalidade.
O frio
da noite começa a se espalhar pelas calçadas, mas há algo quente no ritmo dela
ao meu lado. Como se a presença dela rasgasse um pouco da névoa constante que
me acompanha desde que comecei a ensinar, e a fugir de mim mesmo.
Caminhamos
lado a lado por alguns metros em silêncio. Não o silêncio desconfortável, mas o
tipo raro e valioso. O silêncio entre duas mentes que entendem que às vezes, é
preciso parar de falar para processar o peso do que foi dito.
— A
biblioteca. — repito, com um leve sorriso, as mãos nos bolsos do sobretudo. —
Sempre achei fascinante o modo como as pessoas olham livros como se fossem
coisas inofensivas.
Me
viro brevemente pra ela, analisando cada detalhe que a luz dos postes revela:
os olhos atentos, o maxilar firme, a alma pulsando por debaixo da pele marcada.
—
Alguns dos maiores horrores da humanidade começaram com frases escondidas entre
páginas empoeiradas. E algumas das maiores curas também.
Paro à
frente da pequena cafeteria. Fachada de madeira escura, toldo vinho, vitrines
cheias de reflexos. A luz interna é quente, convidativa, como se o tempo lá
dentro corresse em outro ritmo.
— Aqui
estamos. — digo, abrindo a porta pra ela novamente. — Agora quero saber… quando
foi que decidiu que ler manuscritos antigos era mais excitante que qualquer
festa?
Porque
no fundo, eu também quero saber: quando foi que alguém começou a se parecer
tanto comigo?
**
Arya **
— Mòran
taing.
Entro atrás de você, analisando os detalhes do ambiente como se cada ranhura
tivesse uma origem ancestral. Meus olhos percorrem o teto com molduras
envelhecidas, a madeira que range sob os passos, as colunas laterais com
desenhos geométricos quase imperceptíveis, tudo ali parece carregado de
história, mesmo que o lugar seja só mais um café comum para a maioria.
— Tão
perto... e pensar que nunca entrei aqui. — murmuro quase pra mim mesma, mas com
intenção de ser ouvida.
Olho por cima do ombro, sentindo o calor do seu olhar sobre mim, e um meio
sorriso se forma, não o tipo que provoca, mas o tipo que esconde mais do que
revela. Como uma anotação à margem de um texto antigo, legível apenas por quem
sabe o idioma.
— É
curioso como passamos por lugares durante anos sem entrar... — continuo, ainda
olhando ao redor. — Às vezes, por falta de tempo. Outras, por falta de motivo.
Meus
dedos percorrem o encosto da cadeira antes de me sentar, como se quisessem
sentir a energia impregnada ali.
— Mas talvez... — olho pra você mais uma vez, o rosto meio inclinado —
...algumas portas só se abrem quando a pessoa certa está do outro lado.
**
Langdon **
Mòran
taing.
Gaélico.
E pronunciado com perfeição. Não é apenas uma memória prodigiosa, é vivência.
Ela não decora línguas, ela as carrega. Como tatuagens da mente.
—
Então também fala gaélico? — pergunto, acompanhando o olhar dela pela
cafeteria.
O
lugar é pequeno, mas há uma elegância decadente em tudo. A madeira escura
gasta, o vitral manchado por décadas de vapor e conversas sussurradas. As
poltronas de couro gasto parecem ter ouvido confissões demais. Perfeito.
Discreto. Quase secreto.
Me
acomodo na mesa dos fundos, a que sempre escolho. De onde se pode ver a porta,
mas não ser visto facilmente de fora. Um hábito adquirido depois de tantos
encontros que começaram com cafés e terminaram em perseguições internacionais.
—
Algumas descobertas estão escondidas diante dos nossos olhos por anos… até que
decidimos olhar com atenção. — comento, cruzando as mãos sobre a mesa. — Essa
cafeteria é uma delas.
Me
inclino levemente à frente, os cotovelos apoiados com naturalidade. Meus olhos
se fixam nos dela como se já estivéssemos trocando códigos invisíveis no
silêncio entre as frases.
— E
você, Arya… é outra.
Faço
sinal pra garçonete. Ela se aproxima devagar, como se conhecesse o ritmo do
lugar — e o meu. Peço meu café. Forte, sem açúcar.
— E
você? — pergunto, voltando o olhar pra ela. — Qual veneno prefere?
**
Arya **
— Falo
mais línguas do que posso contar nos dedos. — comento, enquanto deslizo
lentamente a mochila para o lado da cadeira, como se qualquer movimento que não
fosse estudado pudesse trair o que estou sentindo.
O som
da sua voz dizendo meu nome me atravessa com a mesma naturalidade com que
alguém respira. Mas em mim, causa um colapso interno. Uma brecha. Um calor
inesperado.
Engulo
a seco, mantendo a compostura, mas sentindo o corpo inteiro se acender de um
jeito que nenhuma língua que domino seria capaz de descrever com precisão.
— Café
com bourbon, por gentileza. — digo a garçonete que se aproxima, o olhar ainda
pousado em você como se minha atenção já tivesse sido sequestrada.
Apoio
as pontas dos dedos sobre a mesa. Não por inquietação, mas por necessidade.
Sentir a textura fria e áspera da madeira é o que me ancora. Me faz lembrar
que, apesar da presença quase etérea à minha frente, eu ainda estou aqui.
Pensando, raciocinando. Tentando. Falhando.
— Você
tem ideia da sorte que é poder dividir uma mesa com alguém que realmente sabe o
que está dizendo? — murmuro quase num sussurro, com a voz mais baixa, como se
essa admissão fosse íntima demais até para os ouvidos da cidade lá fora.
**
Langdon **
Não
disfarço o arquejo leve no canto dos lábios, nem o instante em que deixo os
olhos percorrerem seus gestos. A maneira como toca a madeira, como se estivesse
lendo a superfície com os dedos. Como se tudo precisasse ser sentido, e não
apenas entendido. Isso me é familiar. Assustadoramente familiar.
— Uma
escolha… contundente. — comento, cruzando os braços sobre a mesa. — Já começa
decifrando as manhãs com tamanha violência?
Não é
provocação. É fascínio. Ela transita entre o erudito e o subversivo como se não
houvesse linha entre um e outro. E talvez, pra ela, realmente não haja.
A
garçonete hesita por um segundo, mas anota o pedido com um pequeno levantar de
sobrancelha, depois se afasta. O ambiente retorna ao silêncio, interrompido
apenas pelo farfalhar discreto da rua lá fora.
—
Quando comecei a estudar simbologia, — digo, inclinando o corpo levemente pra
frente — me dei conta de que o mundo nunca mais seria silencioso. Sinais,
cores, nomes, formatos… tudo grita por interpretação. O café deixa de ser só
café. O gesto de mexer no açúcar ganha importância.
Olho
pra ela com uma intensidade que não me permito com frequência.
— E
você, Arya… — pauso, medindo o som do nome em minha boca como quem experimenta
um idioma raro. — Você carrega símbolos no corpo inteiro. E, no entanto,
esconde tudo que realmente importa por trás deles.
Não é
acusação. Nem análise. É só um fato.
—
Então me diga… quando foi que você aprendeu a mascar chiclete pra não explodir
por dentro?
**
Arya **
— Eu
tento encontrar formas sutis de externar tudo que minha mente parece querer
digerir ao mesmo tempo, professor. — digo com a voz carregada de uma
sinceridade que, por mais discreta que soe, revela demais.
Afasto
uma mecha do cabelo para trás da orelha num gesto quase automático, mas que me
expõe de um jeito íntimo. Meus dedos voltam a repousar na borda da mesa, como
se aquele limite físico me ajudasse a manter os pensamentos em ordem — ou ao
menos fingir que consigo.
— Vai
ficar quanto tempo por aqui, senhor Langdon? — pergunto, e o uso da formalidade
escapa dos meus lábios como um sussurro reverente, quase uma reza.
O som
do seu nome completo, dito assim, com a língua embebida de respeito e desejo,
me arrepia de dentro pra fora. Como se eu estivesse diante de um segredo
antigo. De uma relíquia viva. E tivesse que me conter para não o tocar com
devoção demais.
**
Langdon **
Professor.
Senhor Langdon. Títulos que costumo ouvir com tanta frequência que já soam
burocráticos. Mas na boca dela… cada sílaba parece ser escolhida com cuidado
demais. Ou desejo demais.
Observo
quando ela afasta o cabelo da orelha, revelando mais um traço da rebeldia
meticulosa que estampa o corpo, mas tenta, inutilmente, se esconder por dentro.
Há uma urgência delicada na maneira como ela fala. Como se tudo nela precisasse
encontrar tradução, mas as línguas do mundo fossem poucas.
—
Ainda não decidi. — respondo, firme, mas com um peso silencioso sob a voz. —
Fui convidado pra lecionar por algumas semanas. Mas às vezes… certos lugares,
ou certas pessoas… acabam estendendo a permanência mais do que o previsto.
A
garçonete retorna, interrompendo a tensão com duas xícaras, uma delas exalando
o aroma ácido do Bourbon misturado ao café. Coloca a bebida diante dela com um
olhar curioso, depois se afasta rápido demais. Não a culpo. Sentados aqui, nós
dois parecemos mais parte de um livro do que da cidade ao redor.
Pego
minha xícara, girando-a levemente sobre o pires.
— Você
sabe que já me observava assim antes, não sabe? — pergunto, a voz baixa, como
quem confidencia. — Nos primeiros minutos da palestra. Eu senti.
Dou um
gole no café, os olhos não desgrudam dos dela.
— E o
mais curioso… é que isso não me incomodou. Me intrigou. Porque, de alguma
forma, eu também não consegui parar de olhar.
**
Arya **
— Bom,
eu atormentei o reitor da faculdade o semestre todo pra trazer sua palestra pra
cá, então... obviamente que não consegui conter devidamente meu entusiasmo ao
ver você ali, na minha frente. — confesso com um sorriso envergonhado, mas
autêntico.
Seguro
a xícara com as duas mãos, buscando uma firmeza que meu corpo inteiro parece
ter perdido desde que me sentei à sua frente. Levo o café aos lábios, e o sabor
forte e adocicado do Bourbon misturado ao amargor quente me atinge com a mesma
intensidade do seu olhar sobre mim.
Passo
a língua pelos lábios, absorvendo cada nuance daquela mistura como se fosse uma
forma de me manter lúcida. Mas a verdade é que cada gesto seu me coloca em
xeque.
— Fico
feliz que tenha aceitado nos dar a honra da sua presença. — acrescento num tom
mais baixo, mais íntimo, quase um sussurro de gratidão.
O
sorriso que escapa dos meus lábios vem com uma leveza involuntária, afundando
as covinhas nas minhas bochechas como se denunciassem uma fragilidade que
geralmente não deixo transparecer. Mas com você... nada parece habitual. Nada
parece fácil. E ao mesmo tempo, tudo parece inevitável.
**
Langdon **
Ela me
trouxe até aqui.
A
revelação me acerta com a força sutil de um símbolo antigo decifrado no momento
exato. Aquela palestra, esse café, esse instante, nada disso teria acontecido
se não fosse por ela. Pela mente inquieta, pela obsessão em silêncio, por essa
sede que transborda até nos gestos mais simples. Como agora, quando ela bebe o
café como quem devora uma verdade nua.
E
então o sorriso. Aquele sorriso com covinhas que parece um acidente, mas
carrega mais verdade do que qualquer tese.
— Não
costumo ficar sem palavras, Arya. — digo, com um toque de ironia contida. — Mas
saber que você arquitetou minha vinda aqui... sem que eu sequer soubesse da sua
existência… me faz repensar tudo que disse hoje sobre coincidência e intenção.
Me
inclino, apoiando os antebraços sobre a mesa. O calor do café ainda pulsa nos
dedos, mas é o calor no olhar dela que me distrai.
— E
agora, aqui estamos. Um código invisível que você escreveu, e que eu segui sem
perceber.
Há uma
tensão elétrica pairando entre nós. Como se algo estivesse prestes a acontecer
— ou como se já estivesse acontecendo, disfarçado de conversa acadêmica.
**
Arya **
—
Sabe… ser notada por você era tudo que eu queria, senhor Langdon.
Dessa
vez, a frase escapa carregada de uma intimidade proposital, como se cada
palavra minha ousasse tocar uma camada mais profunda do seu olhar.
— Se
algum dia precisar de uma tradutora… alguém para transcrever manuscritos
antigos ou decifrar símbolos esquecidos pelo tempo… — inclino levemente o corpo
sobre a mesa, a voz baixa e segura — agora sabe quem pode chamar.
Um sorriso de canto se instala nos meus lábios, discreto, mas cheio de
significado, logo disfarçado por um gole no café que começa a esfriar entre
meus dedos.
Minha
mente está fervilhando com possibilidades. Não só acadêmicas, mas pessoais. O
que posso dizer? O que deveria silenciar? A linha entre admiração e desejo
parece mais tênue a cada minuto.
— Você
me rouba as palavras… — murmuro, quase como se fosse uma constatação para mim
mesma — como se, perto de você, eu esquecesse meu próprio idioma.
Desvio o olhar, respirando fundo, tentando reunir alguma sanidade entre
pensamentos desordenados.
—
Amanhã estarei novamente na sua palestra. — volto a encarar você, sem mais
reservas — Porque, por mais que você fale, ainda não me parece o suficiente.
Deixo a frase no ar, como quem oferece mais do que um elogio. É uma confissão
disfarçada de fascínio. E, nesse momento, é tudo o que tenho coragem de dizer.
**
Langdon **
As
palavras dela me atravessam com uma precisão que nem os textos de Dante jamais
alcançaram.
Você
me rouba as palavras…
Essa
não é uma frase que se diz levianamente. Nem por impulso. Isso é a entrega de
alguém que está à beira de um precipício, e ainda assim escolhe dar mais um
passo.
E
mesmo com a hesitação evidente, mesmo com os olhos fugindo para o lado como se
quisessem esconder o que os lábios revelaram… há coragem ali. Muita. Coragem de
falar o que ninguém costuma dizer. Coragem de sentir o que muitos escondem.
—
Arya… — digo, baixando o tom da voz até que fique quase entre nós dois e mais
ninguém — …você não está invadindo meu espaço. Está me tirando dele.
E
talvez seja disso que eu precise.
Levo a
xícara aos lábios, mas nem o gosto do café consegue competir com o gosto da
presença dela. Um gosto que não se define, que não se explica, apenas fica.
Como uma frase em aramaico que se recusa a ser traduzida.
—
Amanhã, então. — confirmo, inclinando levemente a cabeça. — Mas, prepare-se.
Apoio
os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos com calma calculada.
—
Porque talvez, no fim dessa semana, seja eu quem vá me sentar na sua frente…
tentando entender como alguém como você esconde tanto dentro de si e ainda
assim, consegue sorrir com covinhas.
Pisco
um olho, deixando escapar um sorriso discreto. A primeira rachadura real na
fachada sempre contida do professor Langdon.
E pela
primeira vez, não estou tentando resolver um mistério.
Estou
me permitindo mergulhar nele.
**
Arya **
Ergo
as sobrancelhas quando você pisca, e o gesto, ainda que sutil, me atravessa
como uma flecha em chamas; certeira, quente, impossível de ignorar.
—
Bom... já está tarde. — minha voz hesita, como se ainda estivesse tentando me
convencer disso. — Melhor eu ir então, antes que eu faça algo daquelas coisas
que a gente lamenta — ou não — no dia seguinte.
Tiro
algumas notas da bolsa e as deixo ao lado da xícara já vazia, como se aquilo
pudesse selar qualquer impulso mal calculado.
— Até
amanhã na palestra, professor Langdon. — digo, com um sorriso contido, mas
carregado de significado.
Dou
meio passo para trás, penso em estender a mão, o gesto racional, acadêmico,
socialmente seguro. Mas a razão cede ao instinto. Me aproximo e, antes que
qualquer dúvida me freie, encosto os lábios suavemente no seu rosto, perto da
linha do maxilar. Um beijo breve, mas denso. Quente.
Me
afasto com um último olhar e um sorriso enviesado, como se carregasse comigo um
segredo que nem eu mesma entendo por completo. E então saio do café, sentindo o
calor do momento pulsar na pele muito tempo depois da porta se fechar atrás de
mim.
**
Langdon **
O
beijo me paralisa por uma fração de segundo. Um toque suave, rápido, mas
absolutamente devastador.
Não
foi ensaiado. Não foi acadêmico. Não foi nada que minha mente treinada pra
decifrar padrões pudesse prever. Foi humano. Real. Inesperado. Como algo
criptografado.
Fico
ali, imóvel, observando o espaço que ela deixa no ar enquanto caminha porta
afora, e ele parece maior do que o lugar inteiro.
Ainda
sinto o calor do toque na pele. Como se as palavras dela tivessem encontrado
uma forma de se fixar diretamente no corpo, sem passar pela lógica. Um símbolo
sem tradução. E por isso mesmo… impossível de ignorar.
Ao
sair, ela levou algo de mim junto.
Mañana.
Mas amanhã... Amanhã não será só mais uma palestra.
**
Arya **
No dia
seguinte, já ao final da tarde, o auditório começa a se encher aos poucos. Os
bancos rangem discretamente enquanto os alunos se ajeitam, uns cochichando
entre si, outros distraídos com os celulares, alguns rabiscando cadernos sem
qualquer expectativa real. Há os que vieram apenas para garantir a presença no
sistema da universidade, encostados nas cadeiras como se o tempo ali fosse um
fardo burocrático. Outros olham para o palco com tédio visível, certos de que
ouvirão mais do mesmo: frases feitas, conceitos reciclados, e alguma tentativa
superficial de soar intelectual.
Mas
entre os que assistem com olhos cansados ou desinteressados, há também os
curiosos, aqueles com brilho nos olhos, ávidos por alguma fagulha que acenda a
mente. Estes seguram canetas com firmeza, folheiam blocos de notas e mantêm o
olhar atento, como se esperassem que algo ali pudesse mudar a forma como veem o
mundo.
A
movimentação de bastidores começa a acontecer. As luzes do auditório são
ajustadas, os microfones testados discretamente por um assistente de palco,
enquanto a projeção com o nome “Robert Langdon” começa a brilhar no telão central.
Murmúrios aumentam com o prenúncio da entrada do professor, mas meu lugar
continua vazio.
Não
dei o ar da graça, ainda não.
Porque
minha chegada precisa ser no tempo certo, quase ritualística. Não sou o tipo de
presença que se perde entre os assentos, mas a que rompe o ambiente quando
aparece. E dessa vez, não seria diferente.
**
Langdon **
A sala
se enche aos poucos, como ontem. Os mesmos rostos dispersos, os mesmos olhares
distantes. A maioria não veio pelas ideias, veio por presença, por falta de
escolha, por obrigação.
Caminho
em direção ao púlpito com a compostura de sempre, o blazer escuro fechado, os
olhos percorrendo cada canto como se pudessem encontrar ali um sinal precoce de
sua presença.
Mas ela
ainda não apareceu.
Revejo
mentalmente a palestra. Arquitetura simbólica em tempos de conflito religioso.
Tópico complexo, denso, provocativo. Mas nada parece suficientemente
interessante sem os olhos que me acompanharam ontem da terceira fileira.
Lanço
um olhar rápido ao relógio no canto da parede. Três minutos para começar.
Mas a
sala… ainda está vazia de significado.
Ajeito
os materiais sobre a mesa, deslizando os dedos distraidamente sobre a face. Um
lembrete de que ontem não foi sonho. Foi ruptura.
Respiro
fundo e ajusto o microfone.
— “Antes
que as catedrais fossem erguidas, antes que as cruzadas moldassem o sangue da
fé, os homens esculpiam significados nas pedras... para que os deuses jamais os
esquecessem.”
A voz
sai firme, mas há algo ausente nela.
A minha tradutora de olhos ferozes e covinhas perigosas ainda não chegou.
E parte de mim… está em silêncio esperando o instante em que ela decida ocupar
o lugar que sempre foi dela.
**
Arya **
Ao
final da sua primeira frase, entro em silêncio no auditório, quase como quem
pede licença ao próprio espaço. As portas se fecham atrás de mim com suavidade,
abafando o burburinho do corredor e me lançando de volta àquele ambiente
carregado de expectativa.
Procuro
um lugar qualquer entre a multidão, os olhos varrendo os assentos sem pressa,
mais atenta à sensação de estar ali do que à escolha em si. Lanço o olhar até
você por um breve instante, rápido demais para ser interpretado como desafio,
lento demais para ser mero acaso. Como se houvesse, sim, uma desculpa
extremamente plausível para o atraso. Mesmo que eu não a formule.
Me
sento, acomodando o corpo com naturalidade estudada. Os fones penduram na gola
da camiseta como um hábito que me define mais do que gostaria de admitir. O
chiclete já roda na boca, marcando o ritmo de um nervosismo contido, quase
imperceptível para quem não sabe observar.
Mas
meus olhos…
Meus
olhos não disfarçam.
Estão
famintos, atentos, absorvendo cada gesto seu, cada pausa, cada inflexão da voz.
Como se eu estivesse ali não apenas para ouvir uma palestra, mas para decifrar
você novamente, dessa vez à distância, no meio de dezenas de pessoas que jamais
entenderiam o que realmente está sendo dito.
**
Langdon **
Meu
olhar cruza o auditório como se procurasse sentido em vitrais despedaçados, e
então ela entra.
Quase
sem fazer som.
Mas
não existe silêncio quando se carrega esse tipo de presença.
Ela
passa por entre os bancos com aquele andar que é mais desafio do que
deslocamento. Fones pendurados como adorno de guerra, camiseta surrada,
expressão de quem perdeu o horário e ainda assim… nunca perdeu o controle.
Os
olhos encontram os meus por um segundo. Um só. Mas bastou pra eu saber: ela
está aqui. E tudo que saiu da minha boca antes disso… era apenas ruído.
— “Mas
o verdadeiro poder dos símbolos,” continuo, com a voz voltando a assumir o
lugar do mundo, “é que eles não dependem de palavras. Eles sussurram, queimam,
e às vezes… tocam quem não quer ser tocado.”
Digo
isso com os olhos ainda presos na direção dela, mesmo que disfarçadamente. Como
se a frase tivesse sido construída ao redor daquele atraso. Daquela entrada.
E, na
verdade, foi.
Ela
está sentada longe hoje. Quase escondida. Mas não existe distância entre uma
mente faminta e a origem do que a alimenta.
E
hoje, mais do que ontem, eu sei: estou escrevendo essas palestras pra ela.
Só pra ela.
**
Arya **
Já
ambientada com a temática da palestra, apoio os pés sobre o assento à minha
frente e abraço os joelhos, num gesto quase infantil que denuncia o entusiasmo
que tento, em vão, disfarçar. Há um brilho involuntário nos meus olhos, aquele
que surge quando a mente encontra algo que a desafia de verdade.
À
medida que você dá voz a citações que poucos ali reconhecem por completo —
conhecidas, mas não óbvias — repito cada uma em silêncio, no mesmo ritmo, como
se já fizessem parte do meu repertório íntimo. Como se aquelas palavras já
estivessem arquivadas em algum lugar da minha memória muito antes de você
pronunciá-las em voz alta.
Hoje,
no entanto, não consigo mais fingir neutralidade.
O
anseio escapa pelo olhar, pelo jeito como acompanho seus movimentos pelo palco,
pela atenção quase devocional a cada gesto, a cada pausa estratégica entre uma
frase e outra.
Você
caminha, gesticula, constrói ideias no ar, e eu sinto, com uma clareza
desconcertante, que não estou apenas assistindo a uma palestra. Estou
testemunhando alguém no exato lugar onde deveria estar. E isso, mais do que
qualquer citação, me prende por completo.
**
Langdon **
Vejo
quando ela muda de posição, encolhendo-se no assento como uma esfinge de
cabelos rosa, com os joelhos abraçados e os olhos transbordando um entusiasmo
quase... devocional.
É
impossível não a notar.
Enquanto
os outros ainda tentam entender o que é um tímpano românico ou uma inscrição
templária, ela já está à frente, repetindo comigo, em silêncio, citações
obscuras de Marsilio Ficino ou Hildegard von Bingen. Como se estivéssemos
dançando uma coreografia secreta entre palavras antigas.
E eu?
Caminho, gesticulo, explico, mas estou sendo puxado.
Puxado pelo magnetismo nos olhos dela.
Pelo modo como ela me olha agora.
Como se eu fosse mais do que um professor.
Como
se eu fosse um milagre que ela mesma traduziu do caos.
— “Toda
arquitetura religiosa é um espelho invertido do medo humano. Medo do tempo, da
morte… e do silêncio divino.”
Minha
voz ecoa mais grave nesse trecho, e pela primeira vez, eu a encaro sem desviar.
Direto. Sem esconder.
— “Mas
o que acontece quando o silêncio já não vem dos deuses… e sim de nós mesmos?”
A
pergunta se dissolve no ar.
E
enquanto todos no auditório se contorcem desconfortáveis diante da complexidade
do conceito… ela sorri.
Covinhas.
Chiclete.
Olhos vorazes.
Ela entendeu.
E só
por isso, hoje, vale cada palavra.
**
Arya **
Quando
a palestra tristemente chega ao fim, o movimento é imediato. Cadeiras se
arrastam, mochilas são jogadas nos ombros, conversas retomam como se nada de
relevante tivesse acabado de acontecer. A maioria se levanta com pressa,
ansiosa para seguir a rotina automática do campus.
Eu
não.
Me
ergo mais devagar, deliberadamente, como se cada segundo a mais ali fosse um
gesto de resistência. Como se permanecer naquele espaço fosse uma forma
silenciosa de prolongar a experiência, de ainda absorver algo que não cabe em
anotações ou créditos acadêmicos.
Espero.
Deixo que todos saiam. Um por um. Até que o auditório volte a respirar em
silêncio.
Quando
estou prestes a sair também, com a mochila já apoiada no ombro, deixo uma frase
pairar no ar, lançada sem pressa, como uma chave jogada sobre a mesa de quem
sabe reconhecer seu valor.
— Cada
criatura é um espelho brilhante, cintilante da divindade.
Digo
de costas, ajeitando a mochila, sem olhar diretamente para você. A frase não é
gratuita. Não é citação vazia. É um aceno. Um teste. Um reconhecimento
silencioso de que sei exatamente de onde aquelas palavras vêm, e do peso que
carregam.
E sigo
caminhando, como se não estivesse esperando nada.
Mesmo
sabendo que algumas frases não foram feitas para ficar sem resposta.
**
Langdon **
As
vozes vão se dissipando. Cadernos fecham, passos ecoam, cadeiras rangem como
suspiros cansados. A sala se esvazia… menos para mim.
Eu
ainda estou preso ali, no calor de uma frase dita com precisão cirúrgica. Mas
não por mim.
Reconheço
imediatamente. Hildegard. Mística. Rebelde. Mulher à frente de milênios. E
agora, ressuscitada por uma garota de cabelos coloridos que decide me lançar
esse fragmento no momento exato em que vira as costas.
Ela
está de saída. Como se deixasse apenas um eco pra eu decifrar no silêncio.
Mas
não deixo esse símbolo passar.
— “E é
no reflexo dessa luz,” respondo, minha voz firme, “que os olhos atentos veem
não só o sagrado…, mas o perigo de tocá-lo.”
Ela para.
Não me
viro de imediato. Não preciso. Sinto a tensão no ar, como se o espaço entre nós
tivesse acabado de ganhar peso. Como se essa troca… tivesse sido o que de fato
veio antes de tudo.
Agora,
finalmente, dou um passo à frente. Me aproximo devagar, como se essa distância
ainda fosse um terreno sagrado.
— Você
faz isso com frequência, Arya?
Minha
voz é mais baixa agora. Quase íntima.
— Me
invadir… e me deixar com a sensação de que não sou mais o mesmo homem que subiu
nesse palco há uma hora atrás?
O
silêncio da sala agora é cúmplice.
E cada centímetro entre nós… uma provocação.
**
Arya **
Viro o
rosto já rubro na sua direção, sentindo o calor subir pelas faces sem que eu
consiga — ou queira — conter. Um sorriso ponderado se forma nos meus lábios,
medido, consciente, mas ainda assim carregado de algo que ultrapassa a simples
cordialidade.
— Se
você soubesse o que causa em mim, professor Langdon… — minha voz sai mais
baixa, quase controlada demais — …nem me perguntaria isso.
Lanço
a mochila sobre o ombro num gesto automático e paro a poucos passos de você,
perto o suficiente para sentir sua presença, mas mantendo a distância exata
entre o impulso e a contenção.
Há
algo suspenso naquele espaço mínimo entre nós. Não é só curiosidade
intelectual. Não é só admiração acadêmica. É a sensação incômoda e deliciosa de
estar sendo vista — e de ver — de um jeito que não cabe em protocolos, títulos
ou salas de aula.
**
Langdon **
Ela se
vira.
Rubro. Sorriso contido. Mas os olhos… os olhos queimam.
A sua
frase cai como um selo monarca sobre tudo que foi dito, e o que ficou guardado
entre cada silêncio.
Por um
instante, esqueço onde estamos. Que há uma sala, uma universidade, um mundo
inteiro esperando que eu continue sendo o homem previsível que todos conhecem.
Mas agora… estou a poucos passos de algo que escapa de qualquer lógica.
—
Talvez eu saiba. — murmuro, sem recuar. — Mas ouvir isso de você… muda tudo.
Meu
olhar mergulha no dela, como se não existisse chão abaixo de nós, só o espaço
entre duas possibilidades perigosas.
— Você
me trouxe aqui com palavras que ninguém ouviu. Me observou como se esperasse
mais do que conhecimento. E agora está aqui, com esse mesmo olhar… como se
quisesse me arrancar do lugar que sempre me mantive.
Dou um
passo.
A distância
desaparece como um mistério resolvido numa página antiga.
— E a
pergunta que fica, Arya, é…
Minha
voz baixa o suficiente pra só ela ouvir.
—
…você quer mesmo isso?
Porque se quiser, não haverá volta.
**
Arya **
— Se
não achar muito antiético ou inapropriado… — começo, escolhendo as palavras com
um cuidado que contrasta com a ousadia do convite — …pode ir até meu
apartamento essa noite. Tomar um vinho. Conversar.
Há uma
pausa mínima, carregada de intenção. Não é um desafio. Não é um jogo. É um
convite nu, direto, mas envolto numa camada de aparente casualidade.
Levo a
mão ao bolso e retiro um pequeno pedaço de papel. Ele foi manualmente
envelhecido, tratado com zelo, como se até algo tão simples precisasse carregar
história. Escrevi ali com calma, quase como um ritual:
Rua
Nashville, nº 18 — ap. 1111
21h
Dobro
o papel uma única vez e coloco em sua mão, meus dedos tocando os seus por tempo
suficiente para que o gesto não seja confundido com descuido. Um sorriso
discreto acompanha o movimento, não de quem espera uma resposta imediata, mas
de quem sabe que certas decisões amadurecem no silêncio.
Sem
dizer mais nada, me afasto. Os passos ecoam pelo corredor da universidade
enquanto desapareço entre as portas e sombras do prédio, deixando para trás
apenas o papel… e a escolha que ele carrega.
**
Langdon **
O
papel é áspero ao toque. Trabalhado para parecer envelhecido. Tratado com
cuidado obsessivo, como um antigo papiro.
Ela não digitou. Ela escreveu. Ela quis que eu sentisse.
Rua
Nashville, nº 18, ap 1111. 21h.
A
caligrafia é firme, com personalidade. E o número...
1111.
Um símbolo numérico de portal. De alinhamento. De momentos que não se repetem.
Ela
entrega como quem confia um segredo, mas sorri como quem sabe exatamente o
efeito que isso causa.
E
então… desaparece.
Como uma frase inacabada deixada na margem de um códice perdido.
Fico
ali por alguns segundos, olhando para o papel como se ele tivesse mais camadas
do que revela.
Mas no fundo, eu sei: essa noite não será feita de teorias, nem de citações.
Será
feita de escolhas.
E às
21h… eu estarei diante da porta dela.
Com um
vinho na mão.
E todas as minhas defesas… do lado de fora.
**
Arya **
20:55
A
ansiedade me percorre de um jeito quase físico enquanto caminho de um lado para
o outro pelo apartamento, como se o espaço tivesse encolhido desde que olhei o
relógio pela última vez. Cada minuto pesa. Cada pensamento se multiplica.
Estou
vestida com uma calça preta justa, de veludo macio, que acompanha cada
movimento do meu corpo. A blusa de alça deixa as costas à mostra, uma escolha
deliberada, não para provocar, mas para me sentir dona de mim mesma. O
delineado marca o olhar, o lápis escurece ainda mais o que já carrego nos
olhos, e o coturno de sempre permanece nos pés, como um lembrete silencioso de
quem eu sou, independentemente de quem vá atravessar aquela porta.
No
pescoço, um perfume doce e amadeirado se mistura ao ar do apartamento, criando
uma presença antes mesmo da chegada. Sobre a mesa, duas taças de vinho
aguardam, alinhadas com cuidado excessivo para algo que deveria ser casual.
Tudo parece pronto. Organizado. Sob controle.
Exceto
eu.
Minha
mente oscila entre mil cenários possíveis, todos igualmente intensos, enquanto
o ponteiro avança sem piedade. Falta pouco agora. E, de algum modo, sei que
nada depois dessa noite será exatamente como antes.
**
Langdon **
20:59.
O
número pisca no visor do elevador enquanto subo, a garrafa de vinho envolta em
um pano de linho cinza, quase como se fosse algo sagrado.
Talvez seja.
Meu
reflexo no aço polido mostra o mesmo de sempre, blazer escuro, camisa sóbria,
olhar sereno. Mas por dentro? Há um desconforto bom. Um fogo contido nos dedos.
Um homem acostumado a decifrar códigos que, agora, sabe que está prestes a ser
decifrado.
Ding.
O
andar 11.
Caminho
pelo corredor em passos calmos, mas há tensão no meu peito.
O papel ainda está no meu bolso como se fosse uma relíquia.
1111.
Paro
diante da porta. Respiro fundo. E então bato.
Três
vezes. Seco. Seguro.
Mas por dentro, estou tudo… menos seguro.
O que
me aguarda atrás daquela porta não é uma aluna. Não é uma anfitriã.
É o
enigma que tem me assombrado desde o primeiro olhar no auditório.
E essa noite, talvez eu aceite me perder dentro dele.
**
Arya **
Ao
abrir a porta, o perfume que uso se adianta a mim, escapando para o corredor
antes mesmo que meu corpo apareça por completo. É quase um aviso silencioso, um
convite que antecede qualquer palavra.
—
Pontual. Clássico.
A
frase vem acompanhada de um sorriso de canto, daqueles que não pedem licença
nem explicação. Faço um gesto leve com a mão, indicando a entrada, observando
sua reação com atenção calculada.
O
apartamento é mergulhado em penumbra. Móveis antigos ocupam o espaço com
presença e história, tons de negro e bordô se misturam como uma assinatura estética
que não tenta agradar, apenas existir. As paredes são tomadas por prateleiras
de livros em diversas línguas, quadros com símbolos antigos cuidadosamente
dispostos, como se cada um tivesse sido colocado ali com intenção. Vinis de
rock clássico repousam próximos ao toca-discos, silenciosos, mas carregados de
memória.
Fecho
a porta atrás de você com calma, deixando o mundo do lado de fora.
—
Entre, Robert.
Digo
seu nome sem formalidade agora, deixando-o ecoar no ambiente como se também
fizesse parte da decoração. Há algo naquele espaço — e naquele instante — que
já não comporta distância.
**
Langdon **
O
cheiro me atinge primeiro. Doce, amadeirado, quase proibitivo. Como incenso de
uma igreja esquecida, misturado ao suor da tentação.
E então… a visão.
Ela.
De
costas nuas, a pele desenhada, a sombra nos olhos acentuando o mistério, e a
voz… aquela voz que me chama de Robert como se sempre tivesse me conhecido
assim, despido do título, da postura, da história.
Dou um
passo pra dentro. E o mundo muda.
O
apartamento é uma cápsula do tempo e do desejo. Móveis antigos, livros
empilhados em estantes que parecem não ter fim, quadros que denunciam mais do
que decoração, intenção. Cada símbolo, cada vinil, cada sombra. Nada ali é por
acaso.
— Eu
me sinto como se tivesse entrado num grimório. — comento, a voz mais baixa,
quase em reverência. — E você… como a guardiã de todos os segredos que ele não
revela de imediato.
Estendo
a garrafa, apoiando-a sobre a mesa mais próxima. Meu olhar percorre o ambiente,
depois volta pra ela... inevitavelmente.
— Eu
trouxe vinho. Mas suspeito que a embriaguez dessa noite… já começou antes de eu
chegar.
**
Arya **
Olho
para a garrafa de vinho e ergo as sobrancelhas, reconhecendo o rótulo de
imediato.
—
Chianti. Admirável seu bom gosto.
A
observação escapa com naturalidade, quase satisfeita, como se aquilo
confirmasse algo que eu já suspeitava. Caminho até a cozinha sem pressa, pego
as duas taças e retorno ao balcão com a mesma calma calculada de quem sabe
exatamente o que está fazendo — ou finge saber.
— Me
acompanhe.
Conduzo
você até a sala, onde os sofás parecem ter sido arrancados diretamente de um
romance de Bram Stoker. Couro escuro, linhas antigas, presença quase teatral.
Tudo ali carrega um peso estético que não tenta ser confortável, tenta ser
verdadeiro.
Me
sento, cruzando as pernas com naturalidade, e sirvo o vinho com atenção,
observando o líquido rubro preencher as taças como se aquele gesto fosse parte
de um ritual silencioso. Estendo uma para você, nossos dedos quase se tocando
no instante da entrega.
— Às
conversas que não cabem em salas de aula. — digo, antes de levar a minha taça
aos lábios, sentindo o sabor se espalhar lentamente, como se aquela noite
estivesse apenas começando.
**
Langdon **
O som
do vinho se derramando é quase cerimonial.
Chianti. Vermelho como manuscritos iluminados com sangue e ouro.
E o cenário… digno de uma reunião entre Dante e o diabo.
Observo
o sofá onde ela se senta, couro escuro, com madeira entalhada, pesado e
indulgente.
Ela se encaixa nele como se tivesse sido esculpida ali. Como se pertencesse ao
lado mais sensual da história.
Me
aproximo devagar, aceitando a taça como quem recebe um artefato raro.
— Eu
nunca me dei bem com o óbvio. — comento, girando o vinho com leveza. — E, de
alguma forma, tenho a impressão de que você também não.
Sento
ao lado dela. Não longe. Não tocando. Mas perto o suficiente para que o calor
exista entre nossos corpos, preenchendo o espaço com expectativa.
Levo a
taça aos lábios, mas meus olhos continuam nos dela.
—
Diga-me… Você costuma convidar professores para a sua biblioteca particular com
esse perfume de perder o juízo, ou isso também faz parte do mistério que ainda
estou tentando decifrar?
**
Arya **
— Você
é a primeira pessoa que trago aqui. — digo sem rodeios, como se a honestidade
fosse a única forma possível de conduzir aquela noite.
Levo a
taça aos lábios e dou um gole lento, permitindo que o vinho se espalhe pelo
paladar antes de fechar os olhos por um breve instante. O sabor é encorpado,
denso, quase excessivo, adequado demais para o clima que se instala entre nós.
Abro
os olhos novamente e inclino levemente a cabeça, observando você com atenção
deliberada.
— E
você, Robert Langdon… — começo, deixando o nome inteiro repousar no ar —
costuma aceitar convites de jovens alunas obcecadas por você e pelo seu
trabalho?
A
pergunta vem envolta em ironia calculada, mas não esconde a provocação.
Disfarço o sorriso ao levar a taça aos lábios outra vez, bebendo enquanto te
observo por cima da borda do vidro, curiosa não apenas pela resposta, mas pelo
que ela pode revelar sobre você, sobre mim, sobre os limites que talvez já
estejam sendo testados sem que tenhamos admitido ainda.
**
Langdon **
A
sinceridade crava fundo. Não há jogo nisso.
E talvez… seja exatamente isso que mais me desarma nela.
No meio de tanta estética, tanto símbolo, tanta sombra… ela fala com uma
honestidade cortante.
Dou um
gole no vinho, sentindo o calor descer pela garganta, mas é o olhar dela sobre
a borda da taça que realmente queima.
Jovens
alunas obcecadas…
—
Obcecadas talvez não. — respondo, o tom baixo, carregado. — Curiosas, sim.
Provocadoras, algumas. Inconsequentes… mais do que o recomendável. Mas nenhuma
delas me olhou como você me olha.
Viro o
rosto pra ela, e dessa vez, não há mais distância. Só espaço suficiente pra
tensão respirar antes de ceder.
— E
nenhuma fez meu nome soar como uma confissão pecaminosa.
Passo
o dedo pela borda da taça, como se desenhasse nela a curva do que estou prestes
a fazer.
— Eu
deveria manter o controle. A postura. O nome.
Mas você… você entra pela porta errada da minha mente e reescreve tudo.
E
agora, estou sentado ao seu lado, com vinho nos lábios… e você queimando cada
linha que um dia me definiu.
**
Arya **
Olho
para os seus lábios ainda úmidos de vinho antes de subir o olhar até os seus
olhos, como se aquele pequeno detalhe fosse capaz de dizer mais do que qualquer
resposta.
—
Inconsequente. — repito em voz baixa, quase um pensamento escapando, mais para
mim do que para você.
Apoio
a taça sobre a mesa de centro antiga, o som discreto do vidro encontrando a
madeira marcando uma pausa necessária.
— Você
me faz querer quebrar a ética da sua posição perante a minha na universidade. —
confesso, sem rodeios, sentindo o peso real das palavras assim que elas deixam
meus lábios.
Mordo
o lábio inferior, num gesto de contenção que já diz demais. Há coisas que ainda
não digo. Não por falta de coragem, mas porque sei que, uma vez ditas, não
haverá retorno possível.
**
Langdon **
A
frase perfura mais do que qualquer símbolo gravado em pedra.
Ela se
livra da taça como quem abandona o último obstáculo. E agora, só restamos nós.
Duas vontades sentadas lado a lado em um cenário desenhado pelo próprio desejo.
—
Arya… — minha voz é baixa, rouca, quase uma súplica racional tentando
sobreviver — …você não tem ideia do quanto isso é recíproco.
Deixo
minha taça ao lado da dela, o som do vidro contra a madeira sendo a única
testemunha do que está prestes a acontecer.
Me
aproximo mais, não de uma vez, mas como quem respeita um santuário. Ou como
quem sabe que um só toque pode não ter volta.
— A
ética sempre me guiou…, Mas você… você é a primeira coisa que me faz querer transgredir
com consciência.
Minha
mão repousa ao lado da dela, sem tocar. Mas próxima o suficiente pra que a pele
sinta. Meu rosto se inclina, meus olhos mergulhados nos dela, e pela primeira
vez, deixo de resistir:
— Se
disser que não… eu paro agora.
Mas se
não disser nada… eu vou atravessar essa linha.
**
Arya **
Inclino
o rosto, parando a centímetros do seu, perto o bastante para sentir nossas
respirações se encontrarem e se confundirem no espaço estreito entre nós.
— Isso
não vai ser estranho na sua palestra de amanhã? — pergunto num tom baixo, quase
cúmplice, como se a pergunta fosse menos sobre o amanhã e mais sobre o agora.
Ergo a
mão, hesitante, mantendo-a suspensa por um segundo que parece longo demais. Um
gesto interrompido pela consciência do que ele significa. Quando finalmente
repouso a mão sobre a sua, as pontas dos dedos deslizam pela pele com cuidado,
como se eu estivesse testando um limite invisível.
Fecho
os olhos no instante em que sinto o toque se aprofundar, a suavidade inesperada
do contato percorrendo meu rosto, meu pulso, meu corpo inteiro.
—
Parece que eu estou sonhando agora mesmo. — murmuro, sem abrir os olhos,
temendo que a realidade desfaça aquilo se eu a encarar por tempo demais.
**
Langdon **
A
forma como ela repousa a mão sobre a minha, o deslizar dos dedos... não é
desejo puro, é reverência. Como se estivéssemos ambos tocando algo sagrado,
frágil, prestes a se perder se quebrarmos o ritmo.
Fecho
os olhos por um instante também, absorvendo o som dessa frase dita com a
delicadeza de quem está prestes a acordar, e não quer.
— Não
está. — sussurro, abrindo os olhos e encontrando os dela a centímetros dos
meus. — E se estiver… é um sonho que demorou uma vida inteira pra acontecer.
Minha
mão encontra em seu rosto, firme, mas gentil. Nada invasivo. Nada apressado.
Sou o
mesmo homem que guiou Sophie pelas criptas do Louvre, que atravessou cemitérios
com Vittoria, que correu contra o tempo em Veneza…
Mas aqui, agora, não há criptas, nem códigos.
Há
você.
E por
mais que minha mente queira manter o controle, minha voz sai mais baixa do que
gostaria.
— Eu
pensei que meu mundo era feito de simbologia.
Inclino
o rosto até que nossas testas se toquem. Minha mão desliza do rosto dela até
sua nuca com um cuidado quase devoto.
— Mas
você… você é a primeira pessoa que me faz querer ser parte dela.
**
Arya **
— Pati
igitur te sentire. — murmuro quase como uma confissão, as palavras em latim
escapando antes mesmo que eu pense nelas, antes mesmo que eu pense em qualquer
consequência.
Então
encontro seus lábios.
O
beijo não é apressado, nem contido. É inevitável. Minha mão desliza até o seu
joelho num gesto instintivo, buscando apoio, enquanto a outra se afunda ao meu
lado no sofá, como se eu precisasse me apoiar em algo real para não me perder
completamente nesse instante.
Seus
lábios ainda carregam o gosto do vinho, mas o beijo vai além disso. Há ali o
sabor de tudo o que desejei em silêncio nos últimos meses: expectativa,
curiosidade, admiração acumulada. É denso, quente, impossível de esquecer.
Por um
breve momento, o mundo se resume a esse contato. À proximidade que já não é
mais apenas intelectual. À certeza desconcertante de que algo foi atravessado,
mesmo sem palavras, mesmo sem promessas.
**
Langdon **
“Pati
igitur te sentire.” — Então, deixo-me sentir você.
As
palavras me atingem como algo sendo gravado a fogo na pele. E antes que o
raciocínio possa levantar barreiras, ela me beija.
Lentamente.
Profundamente.
Com a intensidade de quem estudou cada fragmento da minha alma antes de se
permitir tocar meu corpo.
A boca
dela tem gosto de provocação, vinho e algo que minha mente, tão acostumada a
nomear tudo, se recusa a rotular.
Minha
mão sobe pela curva de sua cintura, sentindo os relevos do tecido contra a pele
quente por baixo. A outra se fecha delicadamente ao redor da base de sua nuca,
puxando-a para mais perto, como se esse beijo fosse um idioma antigo que
precisássemos traduzir juntos, sílaba por sílaba.
É
diferente de tudo.
Não há
urgência cega.
Há devoção.
Curiosidade.
Fome de algo que não é só carne, é descoberta.
Quando
nos afastamos por um breve instante, respiro contra seus lábios, os olhos
fechados como se quisesse guardar o momento inteiro nos arquivos mais secretos
da minha memória.
— Se
isso for um erro… — murmuro, com a voz quebrada pela intensidade — …é o mais intenso
que já cometi.
**
Arya **
Sinto
a ponta dos seus dedos deslizarem pela lateral do meu corpo, por cima do tecido
fino da blusa, e minha pele responde com um arrepio que percorre cada terminação
nervosa como um tremor sísmico. É como se você estivesse mapeando territórios
proibidos, traçando rotas em um mapa que nunca foi aberto para mais ninguém.
— Eu
esperei tempo demais pra estar na sua presença... — murmuro, a voz saindo
rouca, carregada — ...e agora, eu conheço o gosto e a textura dos seus lábios
contra os meus.
Passo
a boca pela lateral da sua face devagar, saboreando o calor da sua pele, o
cheiro que é parte colônia cara e parte algo indescritível, talvez seja o
cheiro de quem passou a vida entre páginas antigas, entre segredos guardados em
criptas esquecidas.
Minhas
mãos, antes contidas, agora sobem ansiosas até os botões da sua camisa.
Desfaço-os um a um, com a mesma precisão metódica de quem traduz um texto do
qual já decorou cada vírgula, cada pausa, cada respiração entre as frases.
— Já
me desculpo de antemão por atropelar os detalhes, Robert. — comento enquanto
afasto a camisa aberta, empurrando o tecido pelos seus ombros num gesto que já
não comporta cerimônia — Mas eu não vou me demorar com você da mesma forma
calculada que faço com tudo na minha vida.
Porque
você não é algo para ser estudado com paciência monástica.
Você é
o incêndio na Biblioteca de Alexandria, onde eu quero queimar inteira.
**
Langdon **
Minha
camisa cai ao chão como uma página arrancada de um livro, e esquecida a esmo.
Puxo-a
para mais perto com uma das mãos enquanto a outra sobe novamente pela lateral
do seu corpo, sentindo cada curva, cada marca na pele, até encontrar a barra da
blusa. Não peço permissão. Apenas ergo o tecido com movimentos lentos,
deliberados, revelando centímetro por centímetro a pele que passou dias me
observando de longe.
— Você
não precisa se desculpar por nada. — murmuro enquanto a blusa sobe, meus olhos
acompanhando o rastro de tatuagens que aparecem como códigos gravados em carne
viva — Eu passei tempo demais entre livros que nunca mudam. Entre verdades que
já foram escritas.
Quando
o tecido finalmente passa pela cabeça e cai ao chão, minha respiração falha por
um segundo. Não pela nudez em si, mas pelo que ela representa, a entrega absoluta
de alguém que escolheu me deixar entrar.
Minhas
mãos descem pelos seus ombros, traçando o caminho dos desenhos como quem lê um poema
pela primeira vez. Os dedos deslizam pela clavícula, descem pelo centro do
peito, param na curva da cintura onde o tecido da calça ainda insiste em
existir.
— Mas
você... — continuo, a voz saindo mais grave enquanto meus lábios seguem o mesmo
trajeto que meus dedos fizeram — ...você é tudo que ainda não foi reescrito.
Beijo
a pele logo abaixo do pescoço, depois desço. Cada tatuagem recebe atenção, não por
admiração estética, mas devoção crua. Minha língua traça símbolos que só ela e
eu entendemos agora.
E
então, sem aviso, minhas mãos encontram o botão da calça. Desfaço com a mesma
precisão que ela usou comigo, mas com muito mais urgência. Puxo o tecido por
suas pernas enquanto a empurro suavemente contra o sofá, meu corpo cobrindo o
dela, nosso calor se fundindo.
— Se
vamos queimar... — sussurro contra sua boca, uma mão firme na sua coxa, a outra
cravada na base da sua nuca — ...então que seja até virar cinzas.
**
Arya **
Você
me toca, me beija, me explora com a devoção de um arqueólogo diante do Santo
Graal recém-descoberto, como se cada centímetro da minha pele guardasse
segredos que levaram milênios para serem revelados. E eu sinto. Sinto sua fome
latejando entre minhas pernas, uma presença física impossível de ignorar. Sinto
o homem impecável, meticuloso, brilhante, começar a desmoronar, perdendo camada
por camada tudo que havia de ortodoxo, de contido, de professor respeitável até
este exato momento.
— Até
nesses momentos você tortura com a lentidão cirúrgica de quem se entrega de
corpo e alma a tudo que faz. — murmuro, a voz saindo mais rouca do que
pretendia.
Suas
mãos continuam mapeando cada centímetro da minha pele exposta, estudando cada
relevo, cada arrepio involuntário que percorre minha espinha, me fazendo querer
avançar brutalmente no tempo sem pedir licença a ninguém; nem a você, nem à
gravidade, nem ao bom senso.
A
paciência se esgota.
— Se
você não tirar isso logo, Robert... — digo mordiscando seu queixo, um sorriso
nos lábios que já não carrega traço algum de timidez — ...eu mesma arranco.
E não
espero resposta.
Minhas
mãos descem até sua calça, desfazendo o que resta de compostura com gestos que
não têm precisão alguma, apenas necessidade crua, urgente, quase violenta.
Amarroto o tecido enquanto forço tudo para baixo com o desespero de quem está indo
de encontro ao inevitável.
** Langdon
**
A
sensação do tecido sendo puxado com força, o metal da fivela batendo no chão, a
respiração dela acelerada contra minha pele, tudo isso me arranca do homem que
subiu naquele palco hoje. Do professor. Do acadêmico. De quem sempre controlou
cada impulso com a mesma precisão quem decifra o óbvio.
Mas
agora? Agora eu não controlo mais nada.
Quando
ela puxa minha calça com aquela urgência crua, sinto meu corpo responder de
forma tão primitiva que quase me envergonho. Minha ereção pressiona contra o
tecido da cueca, dura, latejante, exigindo o que minha mente ainda tenta
racionalizar.
—
Lento? — murmuro, a voz saindo mais grave do que pretendia — Eu estava tentando
não te devorar logo no primeiro instante.
Mas
agora não há mais tentativa.
Minhas
mãos descem firmes pelos quadris dela, os dedos marcando a pele enquanto a puxo
contra mim. O calor entre as pernas dela atravessa o fino tecido da calcinha e
me atinge como uma revelação... É úmido, quente, real demais.
Desço
a mão até o elástico e puxo o tecido para baixo num movimento decidido. Sem
cerimônia. Sem hesitação. Como quem finalmente remove o último véu de um
mistério que perseguiu por tempo demais.
Quando
ela fica completamente exposta sob mim, respiro fundo, não por controle, mas
porque preciso me lembrar de que ainda sou humano. Ainda tenho nome. Ainda
existo além desse desejo que está me consumindo vivo.
A viro
com cuidado calculado, mas com força inequívoca, pressionando-a contra o sofá.
Meu corpo cobre o dela, minha ereção roçando exatamente onde ela me quer.
Provocando nós dois além do suportável.
— Eu
passei a vida estudando sobre tentação... — sussurro contra a curva do pescoço
dela, minha mão subindo até pousar na base da sua garganta, firme, possessiva,
mas consciente de cada milímetro — ...mas você é a primeira da qual eu escolho
cair.
Minha
outra mão desce pela lateral do corpo dela, contornando o quadril, deslizando
pela parte interna da coxa até chegar onde ela está molhada, pronta, implorando
silenciosamente.
E
quando deslizo dois dedos dentro dela — profundo, sem aviso — sinto seu corpo se
contrair ao redor de mim como se estivesse me puxando para dentro com força.
— É
isso que você quer? — pergunto baixo, movendo os dedos com precisão enquanto
meu polegar encontra o clítoris dela, roçando em círculos lentos e firmes — Me
ver perder o controle?
Porque
está funcionando.
**
Arya **
Seus
dedos dentro de mim quase me fazem recitar Shakespeare, Kafka e Dickens
simultaneamente, uma babel literária incoerente onde todas as línguas que
domino se dissolvem em pura sensação.
— Sua
destreza não se encontra apenas... — a voz falha, tropeça nas próprias sílabas
— ...nas palavras, Robert.
Minhas
costas arqueiam involuntariamente, o corpo se forçando ainda mais contra o seu
num movimento instintivo. Os músculos retesam sob sua mão, entregues e
desesperados ao mesmo tempo, me oferecendo por completo enquanto exijo de você
tudo aquilo que até agora só teorizo em pensamentos que nunca confessei em voz
alta.
— Ver
o professor Langdon perder o controle — murmuro sorrindo entre gemidos
entrecortados — está rapidamente se tornando minha mais nova obsessão
acadêmica.
Minhas
mãos percorrem seu corpo com urgência renovada, tateando pele, pelos, calor,
descendo pelo abdômen tenso até encontrarem você, duro, latejando.
Fecho
a mão ao redor com firmeza meticulosa, iniciando movimentos lentos e
deliberados que espelham exatamente o ritmo que você impõe dentro de mim. Como
se estivéssemos dançando uma coreografia obscena que nenhum de nós ensaiou, mas
ambos conhecemos.
Cada
investida dos seus dedos encontra resposta no deslizar da minha mão. Cada
gemido que escapa dos meus lábios parece arrancar um som gutural da sua
garganta.
É
troca. É sintonia. É profanação mútua disfarçada de descoberta acadêmica.
E eu
nunca aprendi nada tão rápido na vida.
**
Langdon **
A
forma como ela fecha a mão ao redor de mim arranca qualquer pensamento coerente
que ainda restava.
Não é
gentil. Não é tímido. É firme, decidido, com a mesma precisão metódica que ela
usa para traduzir textos mortos, mas agora, aplicada em carne viva, pulsante,
desesperada.
— Você
está... — a voz sai entrecortada, rouca, quase irreconhecível —
...transformando controle em arte viva.
Meus
dedos se movem mais fundo, curvando dentro dela, pressionando exatamente onde
sei que vai arrancar sons que ela não consegue segurar. E ela responde. O corpo
dela se aperta ainda mais ao redor dos meus dedos, molhado, febril, implorando
por mais enquanto a mão dela desliza firme sobre minha ereção, combinando ritmo
com o que faço dentro dela.
É
sincronia obscena. Como se estivéssemos reescrevendo um ao outro em tempo real.
—
Obsessão acadêmica? — murmuro contra a boca dela, mordendo o lábio inferior
antes de puxá-lo levemente com os dentes — Então deixa eu te dar material de
estudo.
Retiro
os dedos de dentro dela, e o gemido de protesto que escapa de seus lábios quase
me faz perder tudo, mas não por muito tempo. Seguro os pulsos dela com uma das
mãos, erguendo os braços dela acima da cabeça, prendendo-a contra o sofá com
meu peso.
A
outra mão desce até minha ereção, posicionando na entrada dela. Roço.
Pressiono. Mas não entro. Não ainda.
— Você
passou muito tempo me observando de longe... — sussurro, os olhos fixos nos
dela, vendo cada pingo de desejo, cada fragmento de impaciência — ...agora eu
quero que você sinta cada segundo do que ansiou.
E
então, finalmente, empurro.
Devagar.
Não
por gentileza.
Mas
porque quero sentir cada centímetro invadido, preenchendo, reivindicando.
Seu
corpo se abre para mim com resistência deliciosa, apertado, quente, perfeito, e
quando finalmente estou completamente dentro dela, paro. Não me movo. Apenas
sinto.
O
pulso acelerado.
A respiração falhando.
O corpo dela tremendo sob o meu.
—
Agora me diga, Arya... — murmuro contra seu ouvido, a voz saindo densa, obscena
— ...ainda acha que sou lento demais?
E
começo a me mover.
**
Arya **
Quando
você me invade, sinto a racionalidade, aquela que nos conduziu metodicamente
até aqui, se desintegrar como papiro antigo exposto ao tempo.
— Eu
não sei mais em que acreditar a partir de agora, Robert. — confesso, a voz
saindo quebrada entre respirações.
Nos
vejo refletidos em Dois Amantes de Katsushika Hokusai, n'O Beijo de Picasso,
nas figuras retorcidas d'O Jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch.
Uma sucessão vertiginosa de obras eróticas pelas quais sempre fui perdidamente
obcecada, mas que agora ganham corpo, textura, som, deixando de ser tinta sobre
tela e se tornando carne contra carne.
— Você
carrega a imoralidade sexual de uma passagem proibida de Coríntios — murmuro
com os lábios pressionados contra seu ombro, sentindo o gosto salgado da sua
pele — ...tão impuro e tão absolutamente perfeito.
Meus
quadris se movem afoitos ao encontro dos seus, buscando mais profundidade, mais
pressão, mais de tudo que você oferece. Minhas pernas se entrelaçam ao redor do
seu tronco como serpentes em rito sexual, prendendo-o contra mim enquanto
minhas mãos se soltam e percorrem cada músculo tensionado sob a pele suada.
Você
se força dentro de mim com estocadas que são parte violência, parte devoção. Me
invade como conquistador implacável. Me consome como quem finalmente encontrou
o texto perdido que procurava a vida inteira. Me deflora não virgindade física,
mas algo mais profundo, como estudioso à beira do colapso intelectual que
descobre que todos os seus axiomas estavam errados.
E eu
me entrego.
Não
como aluna diante do mestre. Mas como cúmplice na mesma heresia deliciosa.
** Langdon
**
Cada
palavra que sai da boca dela me destrói e reconstrói ao mesmo tempo.
Imoralidade
sexual de Coríntios.
Ela
não está apenas sentindo, está contextualizando. Transformando nosso ato em
arte, em história, em blasfêmia erudita. E isso me faz querer profanar cada
referência que ela conhece.
—
Coríntios... — repito entre respirações irregulares, minha boca roçando na dela
enquanto me afundo mais fundo — ...é sobre contenção, Arya. Sobre dominar a
carne.
Seguro
os quadris dela com força, cravando os dedos na pele macia enquanto aumento o
ritmo, as estocadas ficando mais duras, mais precisas, mais intencionais.
— Mas
eu não vim aqui pra te dominar.
Puxo o
corpo dela contra o meu com uma força que beira o selvagem, sentindo-a pulsar
ao redor de mim, mais enxarcada, fervendo demais para ser real.
— Vim
pra ser arruinado.
Minha
boca desce pelo pescoço dela, mordendo, sugando, marcando a pele como se
estivesse assinando meu nome em tinta permanente. Minha mão sobe até fechar ao
redor da garganta dela, possuindo, sentindo o pulso acelerado sob meus dedos.
— Você
me desejou por tempos... — murmuro contra o ouvido dela, a voz saindo rouca,
quase gutural — ...me estudou como sua matéria favorita. Mas agora eu quero que
você sinta o que significa ser lida linha por linha.
E
então mudo o ângulo.
Levanto
suas pernas, as colocando sobre meus ombros, abrindo-a completamente para mim.
A penetração fica mais profunda, mais intensa, mais visceral, e o gemido que
escapa dela é tão obsceno que quase me faz perder o ar.
— Você
quer Bosch? — pergunto, investindo com força, sentindo o sofá ranger sob nosso
peso — Então vou te dar o Jardim inteiro.
Cada
estocada agora é obscena. Úmida. Devastadora.
Minha
mão livre desce entre nossos corpos, encontrando o clitóris dela e pressionando
em círculos firmes enquanto continuo me movendo dentro dela, criando uma dupla
camada de prazer que sei que vai levá-la ao limite.
— E
quando você desabar... — sussurro contra a boca dela, os olhos cravados nos
dela — ...quero que grite meu nome em todos os idiomas que conhece.
Porque
essa noite, você não vai esquecer quem te profanou.
**
Arya **
Quando
você ergue minhas pernas e as joga sobre seus ombros, me abrindo completamente,
me deixando vulnerável e receptiva ao seu domínio, não apenas físico, mas
intelectual, psicológico, existencial, sinto meu corpo responder com tremores
incontroláveis que percorrem cada fibra, cada terminação nervosa exposta.
— Ego...
mihi videtur me dissoluturum esse. — As palavras escapam em latim truncado,
quase incoerente. Acho que vou me dissolver.
Seus
dedos encontram meu clitóris e pressionam com precisão devastadora, arrancando
de mim um som que não é grito nem gemido, é rendição pura. Meu corpo se
contorce sob o seu como se tentasse escapar e ao mesmo tempo se fundir ainda
mais. A cabeça pende para trás, expondo a garganta num gesto de submissão
involuntária, enquanto minhas unhas cravam o couro do sofá, mas a ancoragem já
não funciona mais. Estou à deriva.
Os
gemidos que me escapam agora se misturam ao latim errado, fragmentos de grego
antigo, palavras em gaélico que nem sei mais o que significam. Todas as línguas
que domino se fundem numa babel obscena e desesperada.
O
orgasmo sobe pelo baixo ventre como maré que não pode ser contida. Lateja da
ponta dos seus dedos, espalha-se em ondas concêntricas, irradiando pela pele,
carne, músculos, ossos, alma... incendiando tudo no caminho.
Já não
consigo pensar.
Já não
consigo nomear o que estou sentindo em nenhum idioma conhecido.
Só
consigo existir, pulsante, destroçada, completamente sua neste instante que
parece suspenso fora do tempo.
**
Langdon **
O som
que escapa dela quando atinjo aquele ponto exato e preciso, é impossível de
ignorar, e me atinge como a verdade que nem o próprio Vaticano me deu.
Ego
mihi vietur me dissoluturum esse.
Latim
quebrado. Desesperado. Lindo.
—
Então se dissolve. — murmuro contra a pele suada do pescoço dela, a voz saindo
rouca, quase um comando — Se desfaz inteira. Eu te seguro.
E
seguro mesmo.
Minha
mão na garganta dela se firma, a ancorando, sentindo o pulso acelerado sob meus
dedos, a respiração falhando, o corpo inteiro tremendo sob o meu. A outra mão continua
pressionando o clitóris dela com firmeza implacável enquanto me afundo nela com
estocadas que já não têm mais ritmo, apenas urgência.
Sinto
quando o orgasmo dela começa a subir. Não é sutil. É devastador.
O
corpo dela se aperta ao redor do meu com força pornograficamente bela, sugando,
puxando, como se quisesse me arrastar junto para dentro do abismo. E eu deixo.
Porque não há mais controle. Não há mais professor, nem racionalidade acadêmica.
Só há
isso.
Ela se
contorcendo sob mim, gemendo meu nome misturado com fragmentos de línguas
mortas, a cabeça jogada pra trás, exposta, completamente entregue.
—
Isso... — murmuro, investindo mais fundo, mais forte, sentindo meu próprio
limite se aproximando — ...é você se entregando ao que sempre quis.
E
quando ela finalmente explode, o corpo arqueando, a boca se abrindo num grito
silencioso antes de soltar meu nome em latim, gaélico, italiano, tudo ao mesmo
tempo, eu sinto meu próprio orgasmo subir como uma onda que não posso mais
segurar.
Me
afundo nela uma última vez, e gozo com uma intensidade que me faz fechar os
olhos, a mandíbula travando, o corpo inteiro se contraindo enquanto me esvazio
dentro dela.
Por um
momento, não há pensamento. Não há história. Não há passado nem futuro.
Só o
peso do meu corpo sobre o dela. A respiração irregular. O calor compartilhado.
O som dos nossos corações batendo descompassados, tentando encontrar ritmo de
volta.
Abro
os olhos e a encontro me olhando, os olhos claros ainda vidrados, a boca
entreaberta, o corpo ainda tremendo levemente sob o meu.
—
Arya... — sussurro, a testa colada na dela, ainda dentro dela, ainda sentindo
os espasmos finais do prazer percorrendo nós dois — ... isso não é só uma
obsessão “acadêmica”.
Beijo
ela devagar, com uma ternura que agora contrasta com o que acabamos de fazer.
— Você
é a única descoberta que eu nunca vou querer publicar.
Porque
isso... isso é só nosso.
**
Arya **
Sorrio
contra seus lábios quando você me beija com ternura, uma contradição
desconcertante depois de tudo que fizemos, de tudo que dissemos, de tudo que
nos reduzimos mutuamente.
— Se
eu te disser que agora bateu uma vergonha absurda... — começo, me ajeitando sob
o peso do seu corpo — ...você acreditaria?
A
pergunta vem acompanhada de um daqueles sorrisos desconcertados que alcançam os
olhos antes dos lábios, denunciando mais do que eu gostaria de admitir.
— Mas
acho que vai ser engraçado amanhã durante sua próxima palestra. — acrescento,
tentando disfarçar o nervosismo crescente com humor.
Mordo
seu lábio inferior num último gesto de ousadia antes de deslizar o corpo por
debaixo do seu, escapando do calor sufocante da proximidade. Me sento no canto
oposto do sofá, abraçada a uma almofada que puxo instintivamente para cobrir o
peito, escondendo o corpo que você acabou de conhecer, mapear, usar, desmontar
completamente.
É
estranho como a vulnerabilidade chega tardia.
Durante
o ato, eu era pura entrega, pura coragem linguística e física. Mas agora, com a
lucidez voltando aos poucos, sinto o peso do que acabamos de atravessar.
Não me
arrependo.
Mas
também não sei exatamente como processar que o homem que admiro
intelectualmente há anos agora conhece cada som que faço quando perco o
controle.
Há um silêncio estranho depois.
Não é constrangido. Não é vazio.
É o tipo de silêncio que só existe quando algo importante já aconteceu e o
corpo ainda está tentando entender o que a mente não conseguiu impedir.
Meus dedos ainda sentem o calor do corpo
dela como se fosse uma memória tátil recente demais para ser ignorada.
— Eu… — começo, e paro.
É curioso como já enfrentei fanáticos
religiosos, organizações secretas, perseguições internacionais… e ainda assim,
nada me prepara para o momento exato em que preciso escolher palavras comuns
depois de algo extraordinário.
Passo a mão pelo rosto, soltando o ar
devagar, e então faço o que sempre faço quando o mundo ameaça sair do eixo:
procuro algo concreto.
Minha camisa ao chão, está amassada o
suficiente para denunciar que a noite não seguiu nenhum protocolo acadêmico.
Recolho o blazer do encosto do sofá e me visto com calma, quase
cerimonialmente, como se aquele gesto fosse capaz de reorganizar não apenas a
roupa, mas o pensamento.
— Você percebe que isso é exatamente o
tipo de situação que eu passo a vida inteira dizendo para meus alunos evitarem,
não percebe? — digo, finalmente, com um meio sorriso torto que não chega a ser
repreensão. — “Nunca misturem fascínio intelectual com… impulsos humanos mal
calculados.”
Ajusto a manga, abotoo o punho. Olho para
ela de novo.
E falho miseravelmente em manter qualquer
distância emocional real.
— O problema é que nenhuma dessas teorias
foi escrita levando você em consideração.
Há algo quase irônico nisso. Passei anos
ensinando como símbolos se repetem, como padrões se revelam, como a história
insiste em girar em torno dos mesmos erros. E ainda assim, aqui estou eu,
plenamente consciente, escolhendo não fingir que nada aconteceu.
— Amanhã, eu entro naquele auditório como
sempre. Falo de arte, de fé, de poder. Finjo que minha mente está organizada em
linhas claras e lógicas… — faço uma pausa curta. — E você vai estar lá, sabendo
que isso é, no mínimo, uma mentira elegante.
Abotoo o blazer. O gesto final.
Me viro para ela completamente, o corpo já
recomposto, mas o olhar… definitivamente não.
— Não me arrependo do que aconteceu. —
digo com firmeza, sem dramatização. — Mas sou obrigado a respeitar o que isso
implica. Para mim. Para você.
Inclino levemente a cabeça, um gesto que
mistura respeito e algo perigosamente próximo de intimidade.
— Isso não apaga nada. Não diminui nada.
Só… nos coloca diante de escolhas mais interessantes do que eu planejava para
essa semana.
O canto da boca se curva num sorriso
discreto, daquele tipo que só me permito quando estou sendo honesto demais.
— E convenhamos… — acrescento, já
caminhando em direção à porta — a simbologia sempre foi muito mais sedutora
quando envolvia risco.
Antes de sair, paro. Não dramaticamente.
Apenas o suficiente para que o silêncio volte a se instalar entre nós.
— Durma bem. — digo, simples. — Amanhã…
continuamos fingindo normalidade. Pelo menos em público.
Abro a porta, mas não atravesso
imediatamente.
— E Arya? — acrescento, sem olhar para
trás. — Você acabou de se tornar o problema mais interessante que já apareceu
na minha vida.
A porta se fecha atrás de mim.
E, pela primeira vez em muito tempo, não
sigo em frente.
Fico parado no corredor, o corpo imóvel,
como se ainda estivesse parcialmente do outro lado. Como se algo em mim tivesse
ficado ali, ou pior, como se tivesse sido despertado.
Há um erro recorrente na maneira como as
pessoas interpretam autocontrole. Elas acham que se trata de ausência de
desejo. De pureza. De neutralidade.
Nunca foi.
Autocontrole é reconhecer o abismo… e
decidir quando atravessá-lo.
Fecho os olhos por um instante, e é
inútil. A memória vem inteira. Não fragmentada. Não suavizada pelo tempo. O som
da respiração dela tão perto. O peso do olhar que não pediu nada, mas prometeu
tudo. O toque que não foi acidente, nem ensaio; foi decisão.
E eu correspondi.
Não por impulso. Por escolha.
A ética sempre foi minha linguagem de
segurança. Meu mapa. Minha forma de não me perder quando o mundo insiste em
borrar fronteiras. Mas esta noite… esta noite eu não tropecei em um limite.
Eu o atravessei sabendo exatamente onde
estava pisando.
Abro os olhos, o coração batendo mais
lento do que deveria para alguém que acabou de cometer algo assim. Não há
pânico. Não há culpa imediata.
Há antecipação.
A ideia de voltar amanhã, subir naquele
palco, falar com clareza sobre símbolos e estruturas enquanto sei que ela
estará ali — entendendo tudo o que não será dito — não me causa desconforto.
Me causa expectativa.
Quero vê-la de novo. Quero o risco de
novo. Quero aquele ponto exato onde a razão começa a falhar… e eu deixo.
Passo a mão pelo rosto, um gesto contido,
quase duro.
Isso não vai acabar aqui.
E eu sei.
O que aconteceu não foi um desvio
momentâneo. Foi um reconhecimento. Como identificar um símbolo antigo e
perceber, tarde demais, que ele sempre esteve apontando para o mesmo lugar.
Caminho até o elevador finalmente,
sentindo o peso real da decisão assentando nos ossos.
Quando as portas se fecham, não penso em
evitar.
Penso em quando.
Porque agora que sei como é… não quero que
seja a última vez.
E isso, mais do que qualquer erro, é o que
realmente me condena agora.
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