sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

The Man Who Was Supposed to Hate Me.

 

O que acontece quando você mistura um velho metódico e rabugento com uma mulher jovem, imprudente e perigosamente desequilibrada?

Entre sermões sobre regulamentos, infrações à moralidade e olhares atravessados por cima da cerca, algo começa a ferver.

E não é só a pressão alta dele.

Inspirada em O Pior Vizinho do Mundo, essa fanfic mergulha em uma guerra de vizinhança onde o mau humor é constante, as provocações são diárias… e a tensão sexual é absolutamente indecente.


São seis horas da manhã. O mundo deveria ser um lugar ordenado, silencioso e funcional, mas parece que o universo decidiu me testar enviando uma praga em duas rodas para a casa ao lado. Eu estou parado atrás da cortina da minha sala, observando a rua com a mesma precisão com que verifico se os vizinhos separaram o lixo reciclável corretamente. Cinco semanas. Cinco semanas desde que o caos se mudou para cá.

Eu vejo a porta dela se abrir. Hanna. Só de pensar no nome, sinto um gosto amargo na boca. Ela sai com aquele cabelo preto e a franja desfiada que parece um grito de rebeldia contra a lógica. E as tatuagens... é como se ela tivesse usado o próprio corpo como um rascunho de má qualidade. Onde as pessoas perderam a noção do decoro?

O silêncio da manhã é brutalmente assassinado quando ela liga aquela Harley Davidson. O som não é apenas barulho; é uma agressão física. Minhas janelas vibram, meu peito vibra, e minha paciência, que já é curta por natureza, simplesmente desaparece. Eu não suporto desordem. E ela é a personificação da entropia.

Saio de casa em passos largos, sentindo o frio da manhã bater no rosto, mas o calor da minha irritação é maior. Cruzo o gramado e paro diante dela, apontando o dedo para aquela máquina infernal.

— Você por acaso é surda ou apenas ignora o regulamento por prazer? — Eu rosno, a voz saindo mais áspera do que eu pretendia. — Seção quatro, parágrafo B. Ruídos acima de sessenta decibéis antes das oito da manhã. Isso aqui é um bairro de pessoas decentes, não um pátio de apreensão de sucatas.

Eu olho para ela, tentando manter o foco na infração, mas é difícil não notar como as roupas dela parecem sempre pequenas demais para o bom senso. O gato siamês dela, o Pantera, me encara da janela com uma insolência que claramente aprendeu com a dona.

— Cinco semanas e você ainda não entendeu como as coisas funcionam por aqui? Ou eu vou ter que desenhar o manual de conduta na sua pele, já que você parece gostar tanto de rabiscos? — Cruzo os braços, bufando, esperando que ela tenha o mínimo de vergonha na cara, embora eu saiba, no fundo, que ela vai me dar aquela resposta atravessada que me deixa mais transtornado do que eu gostaria de admitir.

 

**Hanna**

 

— Bom dia para você também, Otto. — Digo, com um tom de voz que beirava a ironia mais afiada, um sorriso sutil brincando nos meus lábios.

Obviamente, essa não era a recepção que eu esperava da vizinhança, especialmente em tão pouco tempo morando aqui. A ideia de ter um vizinho rabugento já era um clichê, mas Otto parecia determinado a elevá-lo a um novo patamar.

— A maioria dos vizinhos, para sua informação, adorou a Harley. Inclusive, fizeram questão de elogiar a estética imponente e o ronco inconfundível dela. — Observo enquanto seu rosto se contorce em uma expressão de puro desconforto, nitidamente incomodado com a minha mera existência. — Pelo visto, as regras são apenas suas, e não do bairro, não é mesmo?

Desligo o motor da moto, permitindo que o silêncio momentâneo preencha o espaço entre nós. Desço devagar, com uma confiança que sei que o irrita, e dou dois passos firmes na sua direção, girando a chave entre os dedos. Meus olhos percorrem você descaradamente de cima a baixo, sem qualquer pudor.

Com a mesma insolência que sei que o incomoda profundamente, retiro o chiclete mascado da boca e o jogo ao chão. É o tipo de gesto pequeno, mas calculado, que o atinge tanto quanto se eu respirasse alto demais, forte demais, ou fora de hora.

— Veja bem, Otto, eu tenho uma queda por homens mais velhos. E se você continuar com essa pose de rabugento e mal-humorado, eu vou ter que te agarrar e te lascar um beijo de batom vermelho vibrante para ver se, quem sabe, melhora esse seu humor matinal tão peculiar. — Ameaço, com um brilho desafiador no olhar, esperando a sua reação.

 

** Otto **

 

Eu sinto o sangue subir para as minhas bochechas, e não é por causa do frio. É ultraje. Puro e simples ultraje. Ela joga o chiclete no chão, no meu asfalto limpo, como se o mundo fosse a lixeira particular dela. Meus dedos coçam para pegar uma espátula e remover aquela abominação elástica, mas a voz dela me trava.

— “Homens mais velhos”? — Eu repito, a palavra saindo como um engasgo. — Você não tem um pingo de decência, não é? E limpe esse lixo agora mesmo! Onde você pensa que está?

Ela se aproxima. Dois passos. É o suficiente para que o cheiro de baunilha e couro da jaqueta dela invada o meu espaço pessoal, um espaço que eu protejo com a mesma ferocidade com que protejo o limite do meu gramado. Eu deveria recuar. Um homem sensato recuaria diante de tamanha insolência, mas eu sou Otto Anderson, e eu não recuo para delinquentes tatuadas.

Eu sustento o olhar dela, embora o brilho desafiador naqueles olhos azuis me deixe mais desconfortável do que eu jamais admitiria. Ela fala em me beijar com um batom vermelho vibrante como se fosse uma ameaça de morte, e para mim, a desordem de um borrão de batom no meu rosto é quase isso. Meu coração dá um solavanco estúpido contra as costelas, e eu o amaldiçoo por isso. É apenas a pressão alta, eu digo a mim mesmo.

— Você não vai “me agarrar” coisa nenhuma. — eu digo, tentando manter a voz firme, embora ela saia um pouco mais falha do que o habitual. — Você vai entrar naquela casa, pegar um saco de lixo e começar a se comportar como uma cidadã que não vive em uma caverna.

Eu olho para a boca dela por um milésimo de segundo a mais do que o necessário, e o pensamento de um “batom vermelho vibrante” contra a minha pele me faz apertar os braços cruzados com tanta força que meus dedos doem. Ela é perigosa. Não do jeito que um criminoso é perigoso, mas do jeito que um incêndio em uma biblioteca é perigoso: ela destrói a história e a ordem das coisas.

— E se você encostar um dedo em mim, eu chamo a polícia por assédio e violação de espaço privado. — eu completo, mas minha voz soa defensiva demais, quase como se eu estivesse tentando convencer a mim mesmo de que eu realmente quero que ela fique longe. — Agora, saia da frente. Eu tenho que verificar se o caminhão de lixo vai passar no horário, e você já desperdiçou quatro minutos da minha manhã com essa sua... essa sua imoralidade.

Eu tento dar um passo para o lado para contorná-la, mas meu corpo parece pesado, e a presença dela é como um campo magnético que me puxa para o caos que eu jurei evitar. Ela sabe o que está fazendo. Ela sabe exatamente como me tirar do eixo. E o pior de tudo é que o Pantera, aquele gato maldito, continua me olhando da janela, como se estivesse rindo da minha cara.

 

**Hanna**

 

Você continua falando deliberadamente, cada palavra carregada de um peso como se eu tivesse cometido algum crime hediondo, enquanto eu, por outro lado, só consigo soltar um riso nasalado a cada frase sua. É quase divertido ver o quanto minha presença te afeta.

Quando você menciona que vai verificar o caminhão de lixo e tenta passar por mim, dou um passo rápido para o lado, bloqueando seu caminho por pura pirraça.

— Vai lá, chama a polícia mesmo. — digo, sustentando o olhar diretamente no fundo dos seus olhos, que chegam a ser translúcidos de tão claros. — Aproveita e conta para eles que uma mulher com menos da metade da sua idade teve a audácia de ameaçar “abusar sexualmente” de você. Hm.

Cruzo os braços, imitando seu gesto impaciente, enquanto passo a língua pelos lábios de forma provocativa. Encaro sua roupa com um escrutínio descarado, como se pudesse despir você e imaginar o que se esconde por debaixo desse seu suéter assumidamente démodé.

— Mas espera eu te dar um belo trato primeiro. Aí sim, você conta para eles o quanto eu sou boa de cama, e como, mesmo estando um tanto enferrujado, você ainda conseguiu dar conta do recado.

Avanço meu corpo alguns centímetros na sua direção, fazendo meu rosto pairar perigosamente perto do seu. Deixo que o cheiro doce e inebriante do meu perfume invada seus sentidos, contrastando com o fogo de raiva que, eu sei, deve estar queimando você por dentro.

 

** Otto **

 

O ar parece ter fugido dos meus pulmões. Eu sinto o calor do rosto dela, a audácia daquela respiração tão próxima, e o cheiro de baunilha... é doce demais, sufocante demais, irritante demais. Minha mente, que costuma ser uma lista organizada de tarefas e regras, agora parece um rádio fora de sintonia, chiando com o choque das palavras dela.

— “Enferrujado”? — Eu sussurro, a indignação lutando com uma sensação que eu não sentia há décadas e que me recuso a nomear. — Você é... você é completamente desequilibrada. Ninguém fala essas coisas no meio da rua!

Eu deveria empurrá-la para longe. Eu deveria marchar de volta para a minha casa e trancar a porta com todas as três trancas. Mas eu estou paralisado, como um cervo diante dos faróis de um caminhão desgovernado. O escrutínio dela, o jeito como ela olha para o meu suéter como se pudesse ver através dele, me faz sentir exposto, vulnerável, de um jeito que me deixa furioso.

Minha garganta está seca. Eu tento engolir em seco, mas o movimento parece barulhento demais no silêncio que se seguiu à minha fala. O rosto dela está tão perto que eu consigo ver as pequenas variações de cor naquelas íris debochadas. A língua passando pelos lábios... é uma afronta. É um desrespeito à memória de tudo o que é sagrado e ordeiro.

— Você não sabe do que está falando. — eu digo, minha voz saindo em um tom baixo, quase um rosnado, mas sem a autoridade que eu costumo ter. — Você acha que a vida é um desses seus vídeos de internet? Que pode simplesmente chegar e... e bagunçar a vida de um homem que só quer paz?

Eu sinto o fogo de raiva que ela ocasionou, mas ele está se misturando com algo perigoso, um tipo de combustão que eu achei que tinha morrido junto com a minha juventude. Meus olhos descem para a boca dela por mais um segundo, um erro fatal, antes de voltarem para os olhos dela.

— Afaste-se agora, Hanna. Eu estou avisando. Se você continuar com essa... essa encenação barata, eu não vou ser responsável pelas minhas ações. E eu não estou falando de polícia.

Eu não sei o que quero dizer com isso. É um blefe. Ou talvez não seja. Eu sinto meus punhos cerrados ao lado do corpo, a adrenalina disparando. Eu quero que ela pare. Eu quero que ela continue. E essa contradição é a coisa mais desordenada que já aconteceu na minha vida inteira. Eu sou Otto Anderson, e eu odeio desordem. Mas, por Deus, o calor que emana dela é a única coisa que me faz sentir que eu ainda não sou um cadáver ambulante.

— Saia da frente. Agora. — Eu ordeno, mas não me movo um milímetro. Estou esperando para ver se ela vai recuar ou se vai finalmente cruzar a linha que eu tracei na areia. E o maldito gato na janela parece estar apostando contra mim.

 

**Hanna**

 

Mantenho o olhar fixo no seu, deixando um último sorriso de canto de boca, aquele tipo de sorriso que diz muito mais do que qualquer palavra, florescer nos meus lábios antes de, finalmente, erguer as mãos ao ar em um gesto teatral de falsa rendição.

— Está bem, senhor Otto “Enferrujado”. — disparo, deixando o sarcasmo vibrar na voz, saboreando a forma como o apelido parece atingir seu orgulho. — Já entendi. Você é quem manda neste pequeno reino de regras e silêncio, não é?

Com movimentos lentos e calculados, dou meio passo para o lado, liberando o caminho que eu bloqueava com tanta petulância. Observo sua postura rígida; você parece um animal acuado, buscando desesperadamente uma rota de fuga de uma armadilha que, para ser sincera, eu ainda nem comecei a armar de verdade. Mas a diversão está justamente em ver você acreditar que já está nela.

— Só quero que fique ciente de um detalhe, Otto: quanto mais você tenta me repelir com essas suas palavras polidas e esse seu jeito ríspido de quem detesta o mundo, mais úmida eu fico só de imaginar o que existe por trás dessa sua fachada de homem inabalável.

Abro um daqueles sorrisos largos e genuínos, que chegam a apertar os meus olhos, e dou uma mordiscada rápida e audaciosa no ar, apenas para validar o “desequilibrada” que você me lançou segundos atrás. Se é uma louca que você quer ver, é uma louca que você terá.

Viro-me sobre os calcanhares com uma elegância despreocupada, caminhando sem pressa em direção à minha porta, sentindo o peso do seu olhar confuso e irritado queimando minhas costas. Antes de entrar, faço uma pausa dramática, olho por cima do ombro uma última vez e sopro um beijo lento no ar, finalizando com uma piscada atrevida. Entro em casa e fecho a porta, deixando o silêncio da rua e o caos que acabei de plantar na sua mente para trás.

 

** Otto **

 

Eu fico parado ali, no meio do asfalto, como uma estátua de sal que esqueceu de desmoronar. O “beijo” que ela soprou parece ter ficado suspenso no ar frio, flutuando entre nós como uma partícula de poeira que eu não consigo limpar. Minha mente está um caos completo, uma cacofonia de indignação, choque e um zumbido estranho nos ouvidos que eu tento, desesperadamente, atribuir à poluição sonora daquela moto.

— “Úmida”? — Eu sussurro para o vazio, a palavra soando como um sacrilégio nos meus próprios lábios. — Que tipo de mulher diz uma coisa dessas em plena luz do dia?

Eu sinto meu rosto arder. Não é apenas raiva. É uma vergonha profunda misturada com uma perturbação que me faz querer esfregar a minha pele com lixa até remover qualquer vestígio daquele perfume de baunilha que parece ter se impregnado no meu suéter. Ela me chamou de “enferrujado” de novo. Ela mordeu o ar. Ela agiu como se a minha vida, as minhas regras e a minha dor fossem apenas um cenário para o seu joguinho perverso.

Eu olho para a porta fechada da casa dela. O silêncio voltou, mas não é o silêncio de paz que eu tanto prezo. É um silêncio carregado, pesado, como a calmaria antes de um desastre natural. Eu deveria estar aliviado por ela ter entrado, mas meus pés continuam cravados no chão, e meus olhos teimam em procurar o chiclete que ela jogou.

Eu me abaixo, sentindo os joelhos estalarem; um lembrete cruel de que, sim, talvez eu esteja um pouco enferrujado fisicamente, mas meu caráter é de aço. Pego o chiclete com um lenço de papel que sempre carrego no bolso, dobrando-o com uma precisão cirúrgica.

— Desequilibrada. Absolutamente demente. — eu resmungo, mas minha voz não tem a convicção de antes.

Eu tento caminhar até o final da rua para verificar o caminhão de lixo, mas meu passo está incerto. O que ela quis dizer com “imaginar o que existe por trás dessa fachada”? Não existe nada. Existe apenas Otto, um homem que cumpre seus deveres e espera o dia em que poderá finalmente descansar ao lado de Sonya.

Mas, pela primeira vez em anos, a imagem de Sonya na minha mente parece um pouco embaçada, substituída pelo brilho insolente daqueles olhos perversos e pela visão daquela franja bagunçada. Eu aperto o lenço com o chiclete na mão, sentindo uma pulsação estranha na base do meu estômago.

Eu odeio essa mulher. Eu odeio a moto dela. Eu odeio o gato dela. Mas, enquanto eu marcho de volta para a minha casa, a única coisa que eu consigo pensar é que amanhã, às seis da manhã, eu estarei lá fora de novo. E, pela primeira vez, não será apenas para verificar o lixo. É para ter certeza de que o caos ainda está lá, pronto para me fazer sentir odiosamente vivo.

Entro em casa e bato a porta com mais força do que o necessário, mas o som não consegue abafar o pensamento que martela na minha cabeça: ela disse que “ainda nem começou”. E eu, infelizmente, acredito nela.

 

**Hanna**

 

Na manhã seguinte, decido mudar a estratégia: não saio de casa, não ligo o motor da Harley e sequer dou qualquer sinal de vida. Tudo milimetricamente calculado, é claro. Quero testar os limites do meu vizinho rabugento, ver se ele vai acabar arrumando sarna para se coçar apenas para ter o prazer de me atacar novamente com seu palavreado afiado e aquele humor que parece ter falecido há pelo menos duas décadas.

Observo pela fresta da cortina enquanto Pantera sai por uma das janelas abertas, espreguiçando-se de forma dengosa e preguiçosa para aproveitar o sol da manhã. Quando vejo meu gato atravessar o limite das calçadas e deitar-se, com toda a folga do mundo, bem sobre a grama impecável e intocável do nada amável Otto, eu já sei: vem bomba por aí. É o pretexto perfeito.

Apresso-me em preparar o meu “figurino de guerra”. Visto um short de pijama de algodão extremamente curto, daqueles que deixam a polpa da bunda provocantemente à mostra, e uma blusinha de alças bem solta e leve, que poderia facilmente fazer qualquer homem — até mesmo um bloco de gelo como ele — cair boquiaberto no meu decote ao menor movimento.

— Vamos ver qual vai ser o sermão teológico de hoje, Otto. — murmuro para mim mesma, com um sorriso de antecipação, enquanto me encosto perto da porta e aguardo, pacientemente, o som da campainha ecoar pela casa.

 

** Otto **

 

O silêncio é uma mentira. Eu acordo às cinco e quarenta e cinco, como sempre, mas o silêncio que preenche o condomínio hoje parece... artificial. É como se o ar estivesse prendendo a respiração. Eu verifico o relógio. Seis horas. Seis e dez. Nada. Nenhum estrondo mecânico, nenhuma vibração nas janelas, nenhuma risada insolente rasgando a manhã.

Eu deveria estar satisfeito. A ordem foi restaurada. Mas eu me pego andando de um lado para o outro na sala, as mãos inquietas, sentindo um vazio irritante onde deveria estar a minha indignação. Eu olho pela cortina, tentando ser discreto — o que é ridículo, já que a casa é minha — e é então que eu vejo.

O animal. Aquele tapete de pelos siamês que ela chama de Pantera está deitado, com uma folga que beira o criminoso, exatamente no centro do meu gramado. O meu gramado, que eu aparo com uma régua, está sendo usado como cama por um felino sem modos. É a gota d’água. É a desculpa... quer dizer, é a infração necessária para que eu restabeleça a autoridade.

Eu não visto a jaqueta bege. Saio apenas com o suéter, marchando em direção à casa dela. Meus pés pisam no asfalto com uma determinação que eu tento convencer a mim mesmo ser puramente cívica. Eu paro diante da porta dela e respiro fundo.

— Isso é inaceitável. — eu resmungo para o nada, antes de apertar a campainha com força, mantendo o dedo pressionado por dois segundos a mais do que o necessário.

Eu espero, cruzando os braços e preparando o discurso sobre a Seção Oito do regulamento: “Animais de estimação não devem invadir propriedades privadas ou causar danos paisagísticos”. Minha mente está cheia de palavras duras, mas quando a porta se abre, as palavras simplesmente morrem na minha garganta.

Eu sinto meus olhos traírem o meu comando. Eles descem, contra a minha vontade, para aquelas pernas tatuadas e para o short que... por Deus, aquilo não é uma peça de roupa, é um insulto ao pudor público. Eu vejo a pele, vejo as curvas, e sinto um calor súbito subir pelo meu pescoço, transformando meu rosto em um farol vermelho de constrangimento e fúria.

— Você... você não tem vergonha? — Eu gaguejo, tentando desviar o olhar para o teto, para a parede, para qualquer lugar que não seja o decote dela que parece desafiar a gravidade. — São seis e meia da manhã! Onde está o seu senso de... de vestimenta básica?

Eu tento recuperar a postura, pigarreando alto para disfarçar o fato de que meu coração decidiu fazer uma maratona dentro do meu peito.

— O seu gato. — eu digo, a voz saindo mais fina do que eu gostaria, enquanto aponto o dedo trêmulo para o Pantera no meu jardim. — Ele está violando o perímetro da minha propriedade. Tire aquele animal de lá agora mesmo, ou eu vou ser obrigado a chamar o controle de zoonoses por invasão de domicílio!

Eu estou tentando ser o Otto de sempre, o homem das regras, mas a imagem daquela blusinha de alças está queimando na minha retina. Eu sinto que estou perdendo a batalha antes mesmo dela começar, e o jeito que ela me olha... eu sei que ela sabe. Ela sabe que o bloco de gelo está começando a rachar.

— E coloque uma calça! — Eu completo, num tom quase desesperado. — Você vai pegar um resfriado ou... ou causar um acidente de trânsito apenas por estar parada aí! — Eu bufo, tentando manter a carranca, mas é difícil parecer autoritário quando você está tentando não olhar para a mulher mais endiabrada que já cruzou o seu caminho.

 

**Hanna**

 

Levo a mão à nuca, coçando-a de leve mesmo sem sentir coceira alguma; um gesto displicente que esconde a minha satisfação. Eu sabia, com uma certeza absoluta, que você viria bater à minha porta. Na verdade, você foi até mais rápido do que eu ousei imaginar, o que só prova o quanto eu já ocupo espaço nos seus pensamentos.

— Bom dia... mais uma vez, Otto. — resmungo, deixando minha voz soar propositalmente rouca e sonolenta, como se eu tivesse acabado de despertar de um sonho do qual você certamente não gostaria de saber os detalhes.

Inclino a cabeça para o lado com um ar de falsa inocência e observo Pantera. Ele continua lá, deitado calmamente na sua grama impecável, banhando-se no sol da manhã com a elegância de quem sabe que não está cometendo crime algum, a menos, é claro, que se considere as leis estipuladas pelas suas próprias paranoias de ordem e controle.

— Sabe, Otto... Deus está vendo você encarar o meu decote com tanta insistência. — disparo, enquanto um sorriso malicioso e vitorioso surge lentamente no meu rosto ao notar seus olhos vacilarem. — Mas não se preocupe, ele não está te julgando. Afinal, pessoas normais pensam em sexo o tempo todo. É a natureza humana, embora você pareça lutar contra ela com todas as suas forças.

Dou uma mordida lenta no meu lábio inferior, sustentando o seu olhar, antes de avançar porta afora. Paro a meros centímetros de você, sentindo o choque do vento frio da manhã arrepiar cada poro da minha pele, agora longe do aquecimento acolhedor da minha casa. Esfrego os braços com as mãos, um gesto que só serve para destacar ainda mais as minhas curvas sob o tecido fino da blusa.

Caminho calmamente em direção ao seu gramado sagrado para resgatar o meu gato. Ao chegar perto dele, faço questão de me abaixar sem dobrar os joelhos, um movimento fluido e calculado para te oferecer, sem qualquer pudor, uma visão privilegiada das minhas ancas brancas e cobertas por tatuagens. Sei exatamente o efeito que isso causa na sua mente tão disciplinada.

— Vamos, Pantera... o nosso vizinho assexuado aqui acha que você é um fora da lei perigoso. — murmuro com a voz baixa, mas perfeitamente audível para que cada palavra atinja o seu alvo.

Acolho o gato nos meus braços, sentindo o calor do seu pelo, e volto para a segurança do meu portal. Paro do lado de dentro, protegida pela moldura da porta, e te encaro com um olhar carregado de um desdém divertido, saboreando a sua irritação.

— Feliz agora, Grinch? — pergunto, usando a alusão ao personagem amargo da minha infância que, honestamente, parece ter sido inspirado em você. — A ordem foi restaurada no seu reino de solidão. Aproveite.

 

** Otto **

 

Eu sinto um zumbido nos ouvidos, um sinal claro de que minha pressão arterial deve estar atingindo níveis que fariam meu médico ter um enfarto instantâneo. “Assexuado”? “Grinch”? Cada palavra que sai daquela boca pintada é como um prego sendo martelado na minha paciência. Mas o que realmente me destrói não são os insultos; é o que ela faz com naturalidade.

Quando ela se abaixa... daquele jeito... sem dobrar os joelhos... o mundo ao meu redor simplesmente para de girar. Minha mente, que deveria estar recitando o artigo quinto sobre conduta em áreas comuns, entra em curto-circuito. Eu vejo a pele, vejo a tinta das tatuagens se movendo com o músculo, e sinto um soco de adrenalina e desejo — sim, desejo, maldita seja a biologia — que me faz perder o fôlego. Eu sou um homem de princípios, um homem que amou uma única mulher a vida inteira, e estar ali, parado como um idiota, cobiçando a vizinha delinquente é a maior traição que eu poderia cometer contra mim mesmo.

— Eu não estava... eu não estou encarando nada! — Eu explodo, a voz saindo num tom agudo de puro desespero defensivo. — Eu estou observando a infração! A infração e a infratora!

Eu sinto meu rosto queimar tanto que acho que as petúnias do jardim vão murchar com o calor. Quando ela volta para a porta, segurando aquele gato insolente, eu tento desesperadamente recuperar qualquer fragmento de dignidade que ainda me reste. Eu ajeito meu suéter com as mãos trêmulas, tentando ignorar o fato de que o frio da manhã parece não afetá-la metade do que a presença dela me afeta.

— “Assexuado”? — Eu repito, a palavra saindo amarga. — Eu sou um homem decente, Hanna. Algo que você claramente desconhece o significado. Decência não é lutar contra a natureza, é ter controle sobre ela. Coisa que você não tem, nem com suas roupas, nem com seus animais, nem com essa sua... essa sua língua venenosa!

Eu dou um passo à frente, impulsionado por uma mistura de fúria e uma necessidade irracional de não deixá-la ter a última palavra.

— E para sua informação, o Grinch acabou salvando o Natal. — Eu rosno, estreitando os olhos. — Mas não espere que eu salve você quando esse seu estilo de vida imprudente te colocar em problemas. E da próxima vez... — Eu aponto para a porta dela, tentando não olhar para as pernas dela de novo. — ...da próxima vez que você decidir sair em público vestindo... roupas de baixo, eu vou protocolar uma queixa formal por atentado ao pudor. Eu não sou um bloco de gelo, Hanna. Eu sou um homem que tem padrões. E você... você é apenas um ruído que eu pretendo silenciar.

Eu viro as costas bruscamente, marchando de volta para a minha casa. Meus passos são pesados, mas meu coração está batendo tão rápido que eu temo que ele pule para fora do peito. Eu entro, fecho a porta e encosto a testa na madeira, fechando os olhos com força.

— Controle, Otto. Controle. — eu sussurro para o silêncio da minha sala vazia.

Mas o cheiro adocicado dela parece ter entrado comigo. E a imagem daquela curva... daquela maldita curva que ela me ofereceu... está gravada atrás das minhas pálpebras como uma cicatriz. Eu odeio essa mulher. Eu a odeio com cada fibra do meu ser enferrujado. E o pior de tudo é que eu sei que, amanhã cedo, eu vou estar olhando pela fresta da cortina de novo, esperando pelo próximo “ruído”.

 

**Hanna**

 

O dia seguinte amanhece como um sábado atipicamente menos frio e muito mais agradável, o tipo de clima que parece conspirar a favor do caos. Logo cedo, recebo o convite de um dos vizinhos para um churrasco de confraternização dos moradores do bairro, que aconteceria na casa dele à tarde. Aceito prontamente, mas com uma condição bem específica: ele teria que insistir — e muito — para que o Otto fosse. Nem que, para isso, precisasse inventar a desculpa mais esfarrapada e absurda do mundo. O vizinho me olha com uma ponta de confusão, mas acaba sorrindo e concordando, talvez prevendo que a tarde seria, no mínimo, interessante.

— É hoje, Pantera. — comento com o meu gato, que me encara com aqueles olhos inteligentes, parecendo compreender meus planos melhor do que qualquer ser humano. — É hoje que eu faço aquele velho me esganar de uma vez ou, finalmente, ceder à tentação. Nem que seja na marra, ele vai ter que reagir.

Passo a manhã inteira em um ritual de preparação quase religioso. Dedico horas me arrumando e me perfumando, sobrepondo camadas de cremes e fragrâncias de baunilha e âmbar. Uso tanto perfume que tenho certeza de que poderia facilmente intoxicar o olfato sensível e “fresco” do Otto a metros de distância. Quero que o meu cheiro se torne o pesadelo e o desejo dele.

Horas mais tarde, com o sol já alto e brilhante no céu, faço minha entrada triunfal na casa do vizinho. Escolhi um vestido preto rodado, leve e curto o suficiente para merecer um sermão completo do meu rabugento favorito sobre “decoro e bons costumes”. Cada movimento meu é pensado para que o tecido dance ao redor das minhas pernas tatuadas.

Os minutos se arrastam enquanto tento manter a pose. Tomo uma, duas, três cervejas, sentindo o álcool começar a soltar meu riso, mas não consigo relaxar de verdade. Olho para o relógio a cada cinco minutos e bato o pé no chão com uma impaciência mal contida. Meus olhos teimam em buscar a cerca lateral de instante em instante, vigiando cada movimento da rua, em uma mistura de ansiedade e expectativa, apenas para ver se ele terá a coragem de aparecer.

 

** Otto **

 

Eu odeio churrascos. Eu odeio o cheiro de gordura queimada impregnando o ar, eu odeio a música alta que as pessoas chamam de “cultura” e, acima de tudo, eu odeio a falsa alegria de vizinhos que mal sabem separar o lixo orgânico do seco. Eu disse “não” três vezes para o Miller. Mas o homem é persistente como um carrapato. Ele veio com uma história absurda de que precisava que eu verificasse a pressão do gás da churrasqueira nova dele porque “só eu entendo dessas coisas”.

É claro que é mentira. Mas a ideia de uma explosão por negligência técnica no meu quarteirão me incomoda mais do que a ideia de socializar. Então, aqui estou eu. Vestindo minha calça de sarja vincada e mais um suéter impecável, atravessando a cerca com a expressão de quem está indo para um interrogatório policial.

O primeiro impacto não é visual. É olfativo. O cheiro do churrasco é subitamente atropelado por uma onda de baunilha e âmbar tão densa que eu quase perco o equilíbrio. É ela. Eu não preciso olhar para saber. O cheiro dela se tornou o rastreador pessoal da minha sanidade.

Eu a vejo. Ela está com um vestido preto que... por Deus, aquilo não é um vestido, é um convite à catástrofe. O tecido balança ao redor das pernas dela enquanto ela ri, segurando uma lata de cerveja como se não tivesse uma única preocupação no mundo. Três latas, eu conto mentalmente, notando o brilho nos olhos dela e o jeito como ela se move. Ela está solta. Ela está perigosa.

Eu tento me focar no Miller e na maldita churrasqueira, mas meus olhos são traidores. Eles buscam o contraste da pele branca dela contra o preto do vestido, a forma como a luz do sol destaca as tatuagens que eu deveria odiar, mas que agora parecem um mapa que eu estou começando a decorar contra a minha vontade.

— A pressão está normal, Miller. Pare de me fazer perder tempo. — eu rosno, tentando manter a voz baixa, mas meus olhos acabam se cruzando com os dela.

Eu sinto o impacto no estômago. Ela está me vigiando. Ela sabia que eu viria. Eu sinto uma mistura de fúria por ter caído na armadilha e uma pulsação elétrica que sobe pela minha espinha. Eu deveria ir embora agora. Virar as costas e voltar para o meu silêncio. Mas o álcool no hálito dela, o cheiro doce que emana da sua pele e o jeito como ela morde o lábio me deixam pregado no chão.

— Você não deveria estar bebendo assim em público, Hanna. — eu digo, aproximando-me o suficiente para que apenas ela ouça, minha voz saindo áspera e carregada de uma autoridade que eu sei que não tenho sobre ela. — É sábado à tarde, não a noite de núpcias de um marinheiro. Tenha um pouco de... — Eu hesito, a palavra “decoro” morrendo na minha boca enquanto meu olhar desce, inevitavelmente, para a curva do pescoço dela. — ...tenha um pouco de juízo.

Eu estou tão perto que mais uma vez consigo sentir o calor que irradia do corpo dela, potencializado pelo sol e pela bebida. Meu coração está batendo num ritmo desordenado, uma batida que eu não consigo controlar, e o pior de tudo é que eu não quero me afastar. Eu quero que ela me desafie. Eu quero que ela diga algo terrível para que eu possa continuar sentindo esse fogo que ela acendeu e que eu não sei como apagar.

— Onde está o seu gato? — Eu pergunto, uma tentativa patética de mudar de assunto, enquanto meus dedos se fecham em punhos dentro dos bolsos, lutando contra o impulso absurdo de tocar naquela pele tatuada para ver se ela queima tanto quanto parece.

 

**Hanna**

 

— Meu gato está trancado em casa, sã e salvo. — respondo, utilizando um tom de voz mais sério e contido, algo que nunca usei com você antes. — E... me desculpe pela cerveja. Vou tentar agir de maneira mais “decente” na próxima vez, se é isso que você espera.

Lanço um olhar de puro desconserto na sua direção, sustentando-o por apenas um segundo antes de desviar os olhos para o chão, fingindo uma mágoa profunda e silenciosa. Deixo o silêncio se prolongar, pesado e desconfortável, enquanto observo a condensação na lata de cerveja antes de abandoná-la sobre uma das mesas plásticas da festa, como se tivesse perdido o interesse em qualquer diversão.

— Você me odeia de verdade, não é, Otto? — pergunto com uma neutralidade na voz que contradiz absolutamente tudo o que você ouviu de mim até agora. Não há ironia, não há deboche. — Às vezes parece que a minha mera existência é um insulto pessoal para você. Como se eu fosse um erro que você precisa corrigir.

Dou de ombros, forçando um sorriso melancólico que disfarça uma falsa tristeza; uma estratégia milimetricamente desenhada. Esse é o meu novo jogo: a vulnerabilidade. E, pela forma como você me encara agora, com essa confusão estampada no rosto, percebo que você está caindo exatamente onde eu queria.

— Eu vou... vou até o banheiro jogar uma água no rosto antes de ir embora para casa. Desculpe por qualquer coisa, Otto. De verdade.

Dou as costas para você, caminhando com passos lentos e ombros levemente caídos. Por dentro, estou me segurando com todas as minhas forças para não explodir em uma gargalhada vitoriosa, porque a sua expressão de preocupação e culpa é formidavelmente impagável.

Entro na casa sem que os outros convidados notem minha saída, mas sei que os seus olhos estão cravados nas minhas costas. Entro no banheiro, encosto a porta sem trancá-la totalmente e permaneço em silêncio absoluto. Fico ali, apenas ouvindo, aguardando para ver se a sua moralidade rígida, ou algo mais profundo que você ainda não admite, vai te forçar a vir atrás de mim para tentar consertar o que acha que quebrou.

 

** Otto **

 

Eu fico ali parado, sentindo o peso do silêncio dela como se fosse uma laje de concreto sobre os meus ombros. A mudança no tom de voz, a falta do sarcasmo... aquilo me atinge com mais força do que qualquer ronco de motor. Eu sou um homem que vive de certezas, e a minha maior certeza era que a Hanna era uma força da natureza inabalável. Vê-la assim, com os ombros caídos e aquele sorriso melancólico, faz algo dentro de mim se retorcer de um jeito que eu não sei explicar.

— Eu não... eu não disse que te odiava. — eu murmuro para o espaço vazio que ela deixou, mas minhas palavras são engolidas pelo barulho da conversa dos outros vizinhos.

“Como se eu fosse um erro que você precisa corrigir”. A frase ecoa na minha cabeça enquanto eu a observo entrar na casa. Eu não quero corrigi-la. Ou talvez eu queira. Mas não porque ela é um erro, mas porque... porque ela me faz sentir coisas que um homem da minha idade não deveria sentir. E a culpa disso me faz ser ríspido. Eu sou um idiota. Um velho rabugento e idiota.

O Miller tenta me dizer algo sobre o ponto da carne, mas eu não ouço. Meus pés já estão se movendo. É automático. É a minha natureza de “consertador” agindo, ou pelo menos é o que eu digo a mim mesmo. Eu entro na casa, o ambiente mais fresco e silencioso me fazendo sentir ainda mais o peso da minha própria respiração.

Eu vejo o corredor que leva ao banheiro. Meus passos são pesados, mas eu tento ser silencioso. Eu paro diante da porta de madeira. Há um feixe de luz escapando pela fresta, e o cheiro doce parece ter se concentrado ali, escapando para o corredor e me puxando como um imã.

Meu coração está batendo num ritmo que eu não reconheço. Eu levanto a mão para bater, mas meus nós dos dedos param a centímetros da madeira. Eu não consigo bater. E também não consigo ir embora.

— Hanna? — Eu chamo, a voz baixa, quase um sussurro que mal atravessa a fresta da porta. — Você... você está bem aí dentro?

Eu espero, prendendo a respiração. O silêncio que vem do banheiro é carregado, e eu sinto uma urgência irracional de consertar o que eu disse lá fora.

— Escute... — Eu começo, pigarreando, falando para a fresta da porta. — Eu não quis dizer que você é um erro. Eu só... eu não sei lidar com o jeito que você faz as coisas. Com o jeito que você me olha. Você me tira do eixo, Hanna. E eu passei anos construindo esse eixo para não desmoronar. Eu não te odeio. Eu só... eu tenho medo do que você faz comigo.

Eu encosto a testa na porta, fechando os olhos. Eu estou aqui, um homem de sessenta anos, confessando minhas fraquezas para uma porta entreaberta enquanto um churrasco acontece lá fora. Se alguém me visse, pensaria que eu finalmente perdi o juízo. E talvez eu tenha perdido mesmo. Estou esperando qualquer som, qualquer resposta que venha de dentro daquele banheiro, sentindo que minha vida inteira depende do que vai acontecer nos próximos segundos.

 

**Hanna**

 

Ouço você balbuciar desculpas do seu jeito torto e rígido, e, contra toda a lógica, isso me deixa ainda mais fascinada por você. Puta merda, Otto. Sinto a adrenalina correr pelas minhas veias enquanto percebo que estou prestes a aprontar uma das grandes com um homem que tem idade para ser meu pai. Céus, eu realmente não tenho limites.

Seguro a maçaneta com a ponta dos dedos e abro a porta devagar, revelando você ali parado, com aquele olhar perdido e desconcertado direcionado diretamente para mim. Eu poderia simplesmente te abraçar, dizer que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto e que não dou a mínima para o que você pensa do meu estilo de vida. Mas a verdade? A verdade é que eu nunca fui de desperdiçar uma oportunidade de ouro quando ela me é entregue assim, de bandeja.

— Cala a boca, Otto! — ordeno, interrompendo qualquer tentativa de explicação.

Em um movimento rápido e decidido, agarro você pelo meio desse seu suéter ridículo e te puxo para dentro do banheiro com um solavanco tão brusco que poderia facilmente desencaixar uma de suas articulações. Solto um riso abafado e cúmplice com os meus próprios pensamentos enquanto, praticamente à força, faço você se sentar no tampo fechado do vaso sanitário.

Minha mão desliza rapidamente pela fechadura, girando-a com um clique seco que ecoa no pequeno cômodo, antes de eu me acomodar no seu colo. Me sento de frente para você, sentindo a rigidez do seu corpo sob o meu, e pressiono firmemente a palma da minha mão contra a sua boca, abafando qualquer protesto imediato.

— Eu vou soltar... — sussurro, aproximando meu rosto do seu até que nossas respirações se misturem. — Mas fique avisado: se você ousar gritar ou me interromper, eu juro que dou um tapa nessa sua cara rabugenta para você aprender a ouvir. Entendeu bem?

Sustento o olhar, esperando ver o brilho de choque nos seus olhos translúcidos se transformar em algo mais profundo, enquanto o silêncio do banheiro se torna carregado com a nossa proximidade repentina.

 

** Otto **

 

O mundo gira. Em um segundo, eu estou confessando minhas falhas para uma porta de madeira; no segundo seguinte, o chão desaparece e eu sou arrastado para o epicentro do meu próprio pesadelo pessoal. O solavanco me joga no tampo do vaso sanitário com um impacto que reverbera pela minha coluna, mas a dor física é irrelevante perto do choque de ter Hanna sentada no meu colo.

O clique da fechadura soa como o disparo de uma arma. Eu estou preso.

Eu tento abrir a boca para protestar, para exigir que ela pare com essa insanidade, mas a palma da mão dela pressiona meus lábios com uma firmeza que me cala instantaneamente. O calor da pele dela contra a minha boca é... é terrível. É proibido. É a coisa mais real que eu senti em anos. Eu sinto o cheiro de baunilha agora de forma absoluta, como se eu estivesse mergulhado nele.

Meus olhos estão arregalados, fixos nos dela. Eu vejo a determinação, o fogo e aquela centelha de loucura que eu sempre temi. Quando ela sussurra a ameaça de me dar um tapa, eu sinto um tremor que não é de medo, mas de uma antecipação que me enoja e me fascina ao mesmo tempo.

Eu deveria lutar. Eu deveria empurrá-la, sair daqui e nunca mais olhar na cara dela. Mas o peso do corpo dela sobre o meu, a maciez do vestido preto contra as minhas coxas e a proximidade do rosto dela... tudo isso faz com que meu corpo se recuse a obedecer à minha mente. Minhas mãos, que deveriam estar nos ombros dela para afastá-la, estão agarradas às bordas do vaso sanitário, os nós dos dedos brancos de tanta força.

Eu assinto levemente, um movimento quase imperceptível, indicando que entendi. Minha respiração está pesada, saindo quente contra a palma da mão dela. Eu sinto o volume do meu próprio coração batendo contra as costelas, um som rítmico e traidor que denuncia o quanto eu estou longe de ser o homem inabalável que eu finjo ser.

Ela está no controle. Pela primeira vez na vida, Otto Anderson não tem uma regra, um parágrafo ou um regulamento para se apoiar. Existe apenas o silêncio do banheiro, o calor de Hanna e a certeza de que, se eu sair daqui hoje, eu nunca mais serei o mesmo homem. Eu espero, paralisado, sentindo cada centímetro do corpo dela contra o meu, aguardando para ver qual será o próximo passo dessa endiabrada que decidiu que eu sou o seu brinquedo particular.

— Solte. — eu sussurro contra a palma dela, a voz abafada e trêmula, mas carregada de uma urgência que eu não consigo mais esconder.

 

**Hanna**

 

Eu tiro minha mão da sua boca, deslizando as pontas dos dedos por cada linha de expressão no seu rosto, até sentir o cabelo milimetricamente aparado na nuca.

A outra mão sobe de encontro, deslizando pelo suéter, pelo pescoço aquecido, contornando sua mandíbula tensa até meus dedos se entrelaçarem firmemente atrás do seu pescoço. Seguro você ali, presa intencional, enquanto nossos rostos permanecem perigosamente próximos.

— Eu quero você, Otto. — confesso, e a honestidade na minha própria voz me pega de surpresa. — Não sei por quê, sabe... francamente, não faço a menor ideia. Você é insuportável, me ofende a cada cinco minutos com seus regulamentos ridículos, é velho, rabugento, e provavelmente o homem mais irritante que já conheci.

Faço uma pausa deliberada, sustentando o olhar no fundo daqueles seus olhos translúcidos que agora parecem incapazes de desviar dos meus. Aproveito uma das raras vezes em que você me oferece silêncio absoluto, sem sermões, sem regras, sem nada além da sua respiração irregular misturada com a minha.

E então, sem mais desculpas ou delongas, eu te beijo.

Te beijo mesmo sabendo que talvez você vá me odiar por isso depois. Te beijo com toda a intensidade que venho segurando desde o primeiro dia em que você atravessou seu gramado com aquela cara de poucos amigos. Meus lábios pressionam os seus com uma urgência que não admite hesitação, reclamando algo que eu nem sabia que de fato rolaria até este exato momento.

Apoio meu peso sobre as pontas dos pés, me erguendo ainda mais contra você, e segurando seu rosto entre as palmas das minhas mãos, esfrego meu corpo contra o seu. Sinto a rigidez inicial do seu corpo começar a ceder, te traindo. Sinto a fricção, o calor, a resposta involuntária do seu corpo ao meu atrito sobre você, te entregando de uma forma que sua boca jamais faria.

Quando pauso o beijo, afasto o rosto apenas o suficiente pra te olhar diretamente no fundo dos olhos, aqueles olhos que sempre me julgaram e que agora parecem completamente perdidos. Preciso te ver. Preciso saber, nem que seja através do olhar, que isso é recíproco. Que você também me deseja, mesmo que seja só aqui, só agora, trancados neste banheiro.

— Diz pra mim, Otto... — sussurro contra seus lábios ainda úmidos do beijo. — Diz que você me quer também. Nem que seja só por hoje.

 

** Otto **

 

O beijo é como uma explosão em uma fábrica de munições. Tudo o que eu construí; as barreiras, as regras, a memória sagrada da minha vida ordenada, é incinerado em um milésimo de segundo. Eu deveria estar horrorizado. Eu deveria estar empurrando-a para longe com toda a força que me resta. Mas, em vez disso, minhas mãos, aquelas mãos que costumam carregar ferramentas e manuais, agem por conta própria e se fecham na cintura dela, apertando o tecido do vestido preto com uma força que denuncia o meu desespero.

Eu sinto o gosto dela. É doce, quente e proibido. É o gosto de algo que eu pensei que nunca mais sentiria: vida. Quando ela esfrega o corpo contra o meu, o atrito envia uma descarga elétrica que faz meu corpo trair cada juramento de castidade e luto que eu fiz. Eu sinto a resposta involuntária do meu próprio corpo, uma rigidez que não tem nada a ver com a minha coluna e tudo a ver com a mulher tatuada que decidiu me possuir em um banheiro de vizinhos.

Quando ela se afasta e sussurra aquelas palavras, eu sinto que estou pendurado na beira de um abismo. O "não" está na ponta da minha língua, pronto para ser disparado como uma última linha de defesa. Mas eu olho para ela. Olho para os olhos dela, para a boca úmida, para a franja desgrenhada, e a mentira morre na minha garganta.

— Eu... — Eu começo, a voz saindo como um rosnado baixo, rouco, quase irreconhecível para mim mesmo. — Eu te odeio, Hanna. Eu odeio o jeito que você ri, odeio a sua moto, odeio o fato de você não seguir uma única regra...

Eu aproximo meu rosto do dela, reduzindo a distância até que nossas testas se encostem. Meus dedos se enterram na carne das coxas dela, puxando-a para mais perto, se é que isso é possível.

— Mas eu te quero tanto que isso está me matando. — eu confesso, a verdade saindo como uma rendição sangrenta. — Eu te quero desde o primeiro dia em que você estacionou aquela sucata barulhenta e me olhou como se eu fosse um velho patético. Eu te quero agora, aqui, nesse lugar ridículo.

Eu fecho os olhos, sentindo o calor dela me consumir. A moralidade, o decoro, o que o Miller vai pensar... nada disso importa. Só existe esse banheiro, seu cheiro, e a necessidade brutal de calar essa mulher com um beijo que mostre a ela que, embora eu esteja enferrujado, o fogo que ela acendeu é capaz de queimar o bairro inteiro.

— Só por hoje? — Eu pergunto, minha voz carregada de uma urgência sombria, enquanto eu a puxo para outro beijo, desta vez mais agressivo, mais faminto, como se eu estivesse tentando recuperar décadas de solidão em um único toque. — Eu não sei se consigo parar no "hoje", Hanna. Maldita seja você por isso.

Eu deslizo uma das mãos para a nuca dela, puxando-a para que ela sinta a intensidade da minha resposta. Eu não sou mais o Otto das regras. Eu sou apenas um homem. E esse homem está faminto.

 

**Hanna**

 

Eu sorrio contra os seus lábios, não porque seja engraçado, mas porque tudo isso é tão contraditório, tão errado em tantas camadas que eu sequer consigo contar quantas das suas leis mentais nós estamos desobedecendo agora mesmo.

— Maldita seja eu então, Otto. — murmuro entre os beijos, sentindo o gosto dele ainda nos meus lábios. — E bendito seja o que estou prestes a fazer com você na porcaria do banheiro da casa do vizinho.

Afasto o corpo para trás, ainda no seu colo. Apenas o suficiente pra conseguir abrir o zíper da sua calça que parece ter sido comprada quando eu ainda andava de bicicleta com rodinhas. Meus dedos trabalham rápido, quase frenéticos.

— Não temos muito tempo, a menos que você queira que nos peguem em flagrante aqui. — minha voz sai entre risos de excitação e desespero na mesma medida, aquele tipo de riso nervoso que só situações absurdas arrancam de mim.

Enfio a mão dentro da sua cueca sem o menor pudor, envolvendo seu membro já rígido. A prova viva de que, apesar de todo o seu discurso moralista, seu corpo não mente.

— Mas... que safadinho! — provoco, deixando escapar um sorriso malicioso enquanto observo a expressão no seu rosto.

Suas reações às minhas ações quase me arrancam gargalhadas. Seu olhar dividido entre vontade pura e arrependimento moral me fascina de um jeito que eu jamais admitiria em voz alta. É como assistir um homem lutando contra si mesmo e perdendo gloriosamente.

Sem dizer mais nada, afasto o vestido um pouco acima das minhas coxas, puxo a calcinha de lado com uma das mãos enquanto com a outra te guio pra dentro de mim. Quando finalmente acerto o ângulo, me encaixando em você, desço de uma só vez, sentindo cada centímetro seu em mim.

Um gemido quase me escapa, mas eu o abafo pressionando os lábios contra seu ombro, mordendo o tecido do seu suéter ridículo só pra não gritar.

 

** Otto **

 

O som do zíper descendo parece o estalo de um chicote no silêncio do banheiro. Eu deveria estar paralisando-a, deveria estar dizendo que isso é uma loucura, que o Miller pode bater na porta a qualquer segundo pedindo a chave de fenda. Mas quando a mão dela entra na minha cueca, meu cérebro simplesmente desliga todas as funções que não sejam sentir.

— Hanna... — O nome dela sai como um gemido torturado quando ela me envolve.

Eu fecho os olhos com tanta força que vejo estrelas. A humilhação de ser chamado de “safadinho” deveria me fazer recuar, mas a verdade é que o toque dela é a única coisa que me mantém ancorado à realidade. Eu sinto o peso do meu próprio desejo, algo que eu enterrei tão fundo que achei que tinha virado pedra. Mas não é pedra. É lava.

Quando ela levanta o vestido e afasta a calcinha, eu sinto o mundo inclinar. Eu tento segurar a respiração, tentando manter aquele último resquício de controle, mas então ela se guia e desce. De uma só vez.

— Meu Deus... — Eu enterro o rosto no pescoço dela, minhas mãos agarrando as coxas dela com uma força que certamente deixará marcas.

A sensação de preencher ela, de estar dentro daquela endiabrada que me atormentou por semanas, é um choque que faz meus dedos dos pés se encolherem dentro dos sapatos engraxados. Eu sinto o calor dela, a umidade, a forma como ela me aperta. É uma desordem absoluta. É o caos em estado puro. E eu estou adorando cada segundo desse desastre.

Eu sinto os dentes dela no meu ombro, mordendo o suéter, e o som abafado do gemido dela contra o meu corpo me faz perder o que restava da minha sanidade. Eu começo a me mover, um movimento curto e urgente, subindo contra ela enquanto minhas mãos sobem por suas costas, puxando-a para que ela não caia, para que ela não pare, para que ela continue me destruindo.

— Você... você vai causar a minha morte, Hanna. — eu sussurro no ouvido dela, minha voz falhando completamente, enquanto o ritmo aumenta. — Você vai acabar comigo e eu vou morrer feliz por isso.

Eu não me importo mais com o churrasco. Não me importo com as regras. Se o Miller entrar agora, ele vai encontrar o Otto Anderson que ele nunca imaginou: um homem que finalmente parou de reclamar da vida para começar a vivê-la, da forma mais imprópria, barulhenta e maravilhosa possível. Eu a aperto contra mim, sentindo a fricção, o suor começando a brotar na minha testa, e a certeza de que esse banheiro se tornou o único lugar no universo que faz sentido.

— Mais... — Eu peço, uma palavra que eu nunca achei que nunca mais diria pra ninguém, mas que agora sai como um comando desesperado para a mulher que me trouxe de volta do mundo dos mortos. — Não para. Maldita seja, não para agora.

 

**Hanna**

 

Confesso mentalmente pra mim mesma, que jamais imaginei estar transando no banheiro da casa de alguém. Mais especificamente, sentada no tampo da privada, no colo de um viúvo sessentão que passa o dia inteiro me enchendo o saco com regulamentos de bairro. E me julguem, eu estou amando cada segundo disso.

Só o fato de você não ter reclamado sobre ser inapropriado ou anti-higiênico já é um grande avanço quando se trata de você.

— Cacete, você e esse maldito suéter. — murmuro entre gemidos baixos e entrecortados, sentindo o tecido áspero roçar contra minha pele a cada movimento.

A cada sobe e desce, eu ouço você emitir sons dos quais nunca achei que sairiam da sua boca. Rosnados abafados, respirações irregulares, pequenos gemidos que você tenta sufocar, mas não consegue. Isso me excita, me excita tanto que eu consigo sentir a lubrificação do meu corpo aumentar entre nós, facilitando cada investida.

Minhas mãos se agarram aos seus ombros por sobre o tecido macio, e eu inclino o corpo um pouco pra trás, arqueando as costas pra conseguir ver você entrar e sair de mim. A visão é obscena, perfeita, deliciosa.

E quando te vejo comprimir as sobrancelhas ao seguir meu olhar, percebendo exatamente o que eu estou observando, eu sinto a primeira onda do meu orgasmo subir pelo meu ventre, irradiando por todo corpo até chegar na minha espinha. É intenso, avassalador, incontrolável.

— Me chama de desequilibrada agora, enquanto eu gozo pra você, rabugento. — provoco com a voz trêmula, quase sem fôlego.

Minhas unhas se afundam no tecido até encontrarem a pele debaixo dele, arranhando sem piedade. Minha cabeça tomba involuntariamente pra trás, lábios entreabertos enquanto meu corpo dá espasmos de prazer, te apertando ainda mais dentro de mim, pulsando ao redor de você em ondas que parecem não ter fim.

 

** Otto **

 

Eu estou em queda livre. O mundo lá fora, o churrasco, as regras sobre o horário do caminhão de lixo, tudo isso evaporou, deixando apenas o calor abafado deste banheiro e a visão de você arqueando as costas. Eu vejo as tatuagens se esticarem, vejo o suor brilhar na pele branca, e a visão é tão obscena que minha mente moralista deveria entrar em colapso. Mas ela não entra. Ela se expande, devorando cada detalhe daquele caos.

Quando você me provoca, pedindo para ser chamada de “desequilibrada”, eu sinto um rosnado subir do fundo do meu peito. É um som animal, algo que eu não sabia que existia em mim, um som que rasga a fachada do velho metódico.

— Você é... você é uma louca, Hanna! — Eu respondo, a voz saindo num sussurro gutural, enquanto minhas mãos se apertam nas suas ancas, guiando o ritmo com uma urgência que beira a violência. — Uma louca desequilibrada que... que acabou comigo!

Eu sinto suas unhas atravessarem o suéter, encontrando a minha pele, e a dor é um combustível que me faz subir contra ela com mais força. Quando ela começa a ter os espasmos, me apertando com uma intensidade que faz minha visão escurecer nas bordas, eu sinto que cheguei ao meu limite. A sensação de ser sugado por ela, de sentir o prazer dela pulsando ao meu redor, é a coisa mais avassaladora que já experimentei.

— Hanna... — Eu gemo o nome dela, não como um protesto, mas como uma oração distorcida.

Meu corpo inteiro fica rígido. Eu sinto a pressão subir, o sangue latejando nas têmporas, e então a represa rompe. Eu me enterro o mais fundo que consigo, soltando um gemido longo e abafado contra o pescoço dela, enquanto meu próprio orgasmo me atinge como uma onda de choque. Eu sinto cada fibra do meu ser vibrar, uma descarga de energia que parece querer me desintegrar ali mesmo, no colo da mulher que eu jurei odiar.

Eu fico ali, ofegante, com a testa encostada no ombro dela, sentindo o coração dela bater contra o meu como dois tambores descompassados tentando encontrar um ritmo comum. O cheiro de baunilha agora está misturado com o cheiro de suor e de algo cru e real.

O silêncio volta ao banheiro, mas é um silêncio quebrado pela nossa respiração pesada. Eu percebo que ainda estou segurando-a com força, como se ela fosse a única coisa que me impede de cair no esquecimento. Eu... Eu acabei de transar no banheiro de um vizinho com a mulher que não tem nem tem metade da minha idade. Eu deveria estar horrorizado. Eu deveria estar planejando meu próprio funeral por vergonha.

Mas, enquanto eu sinto o calor dela diminuindo gradualmente, a única coisa que eu consigo pensar, com uma clareza assustadora, é que eu nunca me senti tão vivo em toda a minha maldita vida. Eu olho para a porta trancada e depois para ela, e um pensamento ridículo e rabugento cruza a minha mente: espero que ninguém tenha notado que eu demorei mais de cinco minutos para verificar a pressão do gás.

— Você... — Eu começo, tentando recuperar a voz, mas parando apenas para beijar a pele úmida do pescoço dela. — Você é o pior desastre que já aconteceu neste bairro, Hanna. E eu... eu acho que não quero que ninguém venha limpar essa bagunça.

 

**Hanna**

 

Quando meu corpo finalmente para de ter espasmos, eu afasto o rosto só pra te olhar. Inteiro suado, fisicamente derrotado e moralmente destruído. A visão é tão satisfatória que eu quase gemo de novo.

— Quero memorizar essa cena na minha mente. — confesso, observando cada detalhe do seu rosto transtornado. — Pra quando você for reclamar de algo na minha porta, eu lembrar de você assim, latejando dentro de mim.

Te encaro com uma paciência que contrasta brutalmente com o ritmo frenético de instantes atrás, saboreando o momento.

— Quero lembrar desse cheiro de sexo, suor e perfume. — continuo, inalando fundo o ar carregado entre nós.

Seguro seu rosto entre as mãos e passo a língua pela lateral do seu rosto de forma lenta e provocativa. Adoro suas reações às coisas “inapropriadas” que faço ou falo. Sua expressão dividida entre choque e desejo nunca envelhece.

Apoio a mão na pia ao lado pra me ajudar a ter forças pra me desencaixar de você e levantar. Você escorrega pra fora de mim, melado, e eu sorrio enquanto ajeito novamente a calcinha no lugar, sentindo o quanto estou ensopada.

— Limpa isso com seu lencinho. — digo em tom de deboche. — Porque eu vou ficar com você escorrendo entre minhas pernas. Gosto da ideia.

Apoio as costas contra a parede oposta do banheiro, abaixando o vestido, ajeitando o tecido amarrotado enquanto te observo ainda sentado ali, processando o que acabou de acontecer.

— Certeza que todo mundo sentiu nossa falta no churrasco... — comento com um sorriso torto nos lábios. — E eu vou adorar ver a desculpa esfarrapada que você vai inventar caso alguém pergunte algo. Aposto que vai ser sobre verificar o encanamento ou alguma merda do tipo.

 

** Otto **

 

Eu fico ali, sentado no tampo da privada, sentindo o ar frio do banheiro atingir minha parte exposta de uma forma que me faz sentir cada centímetro do meu erro... e do meu acerto. A imagem de Hanna me olhando com aquela satisfação predatória é algo que nenhum regulamento de condomínio poderia prever. Quando ela diz que quer memorizar a cena, eu sinto um arrepio que não tem nada a ver com o frio. Ela me tem. Ela sabe que me tem.

— Você é... você é um perigo público, menina. — eu consigo dizer, a voz ainda rouca, enquanto a sinto passar a língua pelo meu rosto.

O gesto é tão impróprio, tão... sujo, que meu cérebro tenta disparar um alerta moral, mas meu corpo apenas reage com um espasmo de desejo residual. Eu a observo se levantar, o som dela se desencaixando de mim ecoando nas paredes de azulejo como um veredito final. Quando ela me diz para limpar “isso” com o meu lenço e confessa que vai me deixar escorrer pelas pernas dela... eu sinto que o eu que eu conhecia acaba de ser enterrado sob sete palmos de terra.

Eu pego o lenço de papel do bolso — o mesmo tipo de lenço que eu uso para limpar manchas de café ou poeira dos corrimãos — e olho para ele. É um gesto mecânico, uma tentativa desesperada de recuperar um fragmento da minha dignidade metódica. Eu me limpo com movimentos rápidos, quase furiosos, enquanto tento não olhar para ela ajeitando o vestido.

— Ninguém sentiu falta. — eu minto, a voz falhando enquanto subo o zíper da calça com um som definitivo. — As pessoas estão ocupadas demais se entupindo de gordura e ouvindo música ruim para notar a ausência de um velho e de uma... de uma desequilibrada.

Eu me levanto, as pernas um pouco trêmulas, e encaro meu reflexo no espelho acima da pia. Meu rosto está vermelho, meu cabelo, que eu penteio com tanto cuidado, está desalinhado, e meus olhos... meus olhos têm um brilho que eu não via desde que Sonya ainda ria das minhas piadas sem graça.

— Eu vou dizer que a pressão do gás estava instável e que eu precisei verificar as válvulas de segurança da casa. — eu digo, tentando recuperar o tom autoritário, embora saiba que soe patético agora. — É uma explicação técnica. Ninguém questiona explicações técnicas.

Eu me aproximo dela, parando a poucos centímetros. Eu deveria estar com raiva. Eu deveria estar planejando como evitá-la pelo resto da vida. Mas, em vez disso, eu estendo a mão e, com uma delicadeza que me surpreende, ajeito uma mecha daquela franja desfiada que eu tanto critiquei.

— Não pense que isso muda as regras, Hanna. — eu sussurro, aproximando meu rosto do dela uma última vez, o cheiro de baunilha e sexo agora permanentemente associado à minha ruína. — Se eu vir aquele gato no meu gramado amanhã, eu ainda vou bater na sua porta. Mas... — Eu hesito, um sorriso amargo e faminto surgindo nos meus lábios — ...talvez eu não esteja segurando o regulamento na mão quando você abrir.

Eu giro a chave da fechadura. O clique soa como o início de uma nova era. Eu abro a porta apenas uma fresta, verificando o corredor com a cautela de um espião, antes de sair. Eu sou um homem de ordem. E eu acabei de descobrir que a desordem tem o gosto mais doce do mundo.

— Saia cinco minutos depois de mim. — eu ordeno, sem olhar para trás. — E, por favor... tente não nos entregar para o Miller. Ele é um idiota, mas não é cego.

Eu marcho de volta para o churrasco, ajeitando o suéter e preparando minha cara de poucos amigos, mas por dentro, eu sinto que o “enferrujado” acaba de ser lubrificado com a substância mais perigosa e viciante que existe. E eu sei, com uma clareza absoluta, que o regulamento do condomínio nunca mais será lido da mesma forma.

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