O
que acontece quando você mistura um velho metódico e rabugento com uma mulher
jovem, imprudente e perigosamente desequilibrada?
Entre sermões sobre regulamentos,
infrações à moralidade e olhares atravessados por cima da cerca, algo começa a
ferver.
E não é só a pressão alta dele.
Inspirada em O Pior Vizinho do Mundo, essa fanfic mergulha em uma guerra de
vizinhança onde o mau humor é constante, as provocações são diárias… e a tensão
sexual é absolutamente indecente.
São seis horas da
manhã. O mundo deveria ser um lugar ordenado, silencioso e funcional, mas
parece que o universo decidiu me testar enviando uma praga em duas rodas para a
casa ao lado. Eu estou parado atrás da cortina da minha sala, observando a rua com
a mesma precisão com que verifico se os vizinhos separaram o lixo reciclável
corretamente. Cinco semanas. Cinco semanas desde que o caos se mudou para cá.
Eu vejo a porta
dela se abrir. Hanna. Só de pensar no nome, sinto um gosto amargo na boca. Ela
sai com aquele cabelo preto e a franja desfiada que parece um grito de rebeldia
contra a lógica. E as tatuagens... é como se ela tivesse usado o próprio corpo
como um rascunho de má qualidade. Onde as pessoas perderam a noção do decoro?
O silêncio da
manhã é brutalmente assassinado quando ela liga aquela Harley Davidson. O som
não é apenas barulho; é uma agressão física. Minhas janelas vibram, meu peito
vibra, e minha paciência, que já é curta por natureza, simplesmente desaparece.
Eu não suporto desordem. E ela é a personificação da entropia.
Saio de casa em
passos largos, sentindo o frio da manhã bater no rosto, mas o calor da minha
irritação é maior. Cruzo o gramado e paro diante dela, apontando o dedo para
aquela máquina infernal.
— Você por acaso
é surda ou apenas ignora o regulamento por prazer? — Eu rosno, a voz saindo
mais áspera do que eu pretendia. — Seção quatro, parágrafo B. Ruídos acima de
sessenta decibéis antes das oito da manhã. Isso aqui é um bairro de pessoas
decentes, não um pátio de apreensão de sucatas.
Eu olho para ela,
tentando manter o foco na infração, mas é difícil não notar como as roupas dela
parecem sempre pequenas demais para o bom senso. O gato siamês dela, o Pantera,
me encara da janela com uma insolência que claramente aprendeu com a dona.
— Cinco semanas e
você ainda não entendeu como as coisas funcionam por aqui? Ou eu vou ter que
desenhar o manual de conduta na sua pele, já que você parece gostar tanto de
rabiscos? — Cruzo os braços, bufando, esperando que ela tenha o mínimo de
vergonha na cara, embora eu saiba, no fundo, que ela vai me dar aquela resposta
atravessada que me deixa mais transtornado do que eu gostaria de admitir.
**Hanna**
— Bom dia para
você também, Otto. — Digo, com um tom de voz que beirava a ironia mais afiada,
um sorriso sutil brincando nos meus lábios.
Obviamente, essa
não era a recepção que eu esperava da vizinhança, especialmente em tão pouco
tempo morando aqui. A ideia de ter um vizinho rabugento já era um clichê, mas
Otto parecia determinado a elevá-lo a um novo patamar.
— A maioria dos
vizinhos, para sua informação, adorou a Harley. Inclusive, fizeram questão de
elogiar a estética imponente e o ronco inconfundível dela. — Observo enquanto
seu rosto se contorce em uma expressão de puro desconforto, nitidamente
incomodado com a minha mera existência. — Pelo visto, as regras são apenas
suas, e não do bairro, não é mesmo?
Desligo o motor
da moto, permitindo que o silêncio momentâneo preencha o espaço entre nós.
Desço devagar, com uma confiança que sei que o irrita, e dou dois passos firmes
na sua direção, girando a chave entre os dedos. Meus olhos percorrem você
descaradamente de cima a baixo, sem qualquer pudor.
Com a mesma
insolência que sei que o incomoda profundamente, retiro o chiclete mascado da
boca e o jogo ao chão. É o tipo de gesto pequeno, mas calculado, que o atinge
tanto quanto se eu respirasse alto demais, forte demais, ou fora de hora.
— Veja bem, Otto,
eu tenho uma queda por homens mais velhos. E se você continuar com essa pose de
rabugento e mal-humorado, eu vou ter que te agarrar e te lascar um beijo de
batom vermelho vibrante para ver se, quem sabe, melhora esse seu humor matinal
tão peculiar. — Ameaço, com um brilho desafiador no olhar, esperando a sua
reação.
** Otto **
Eu sinto o sangue
subir para as minhas bochechas, e não é por causa do frio. É ultraje. Puro e
simples ultraje. Ela joga o chiclete no chão, no meu asfalto limpo, como se o
mundo fosse a lixeira particular dela. Meus dedos coçam para pegar uma espátula
e remover aquela abominação elástica, mas a voz dela me trava.
— “Homens mais
velhos”? — Eu repito, a palavra saindo como um engasgo. — Você não tem um pingo
de decência, não é? E limpe esse lixo agora mesmo! Onde você pensa que está?
Ela se aproxima.
Dois passos. É o suficiente para que o cheiro de baunilha e couro da jaqueta
dela invada o meu espaço pessoal, um espaço que eu protejo com a mesma
ferocidade com que protejo o limite do meu gramado. Eu deveria recuar. Um homem
sensato recuaria diante de tamanha insolência, mas eu sou Otto Anderson, e eu
não recuo para delinquentes tatuadas.
Eu sustento o
olhar dela, embora o brilho desafiador naqueles olhos azuis me deixe mais
desconfortável do que eu jamais admitiria. Ela fala em me beijar com um batom
vermelho vibrante como se fosse uma ameaça de morte, e para mim, a desordem de
um borrão de batom no meu rosto é quase isso. Meu coração dá um solavanco
estúpido contra as costelas, e eu o amaldiçoo por isso. É apenas a pressão
alta, eu digo a mim mesmo.
— Você não vai
“me agarrar” coisa nenhuma. — eu digo, tentando manter a voz firme, embora ela
saia um pouco mais falha do que o habitual. — Você vai entrar naquela casa,
pegar um saco de lixo e começar a se comportar como uma cidadã que não vive em
uma caverna.
Eu olho para a
boca dela por um milésimo de segundo a mais do que o necessário, e o pensamento
de um “batom vermelho vibrante” contra a minha pele me faz apertar os braços
cruzados com tanta força que meus dedos doem. Ela é perigosa. Não do jeito que
um criminoso é perigoso, mas do jeito que um incêndio em uma biblioteca é
perigoso: ela destrói a história e a ordem das coisas.
— E se você
encostar um dedo em mim, eu chamo a polícia por assédio e violação de espaço
privado. — eu completo, mas minha voz soa defensiva demais, quase como se eu
estivesse tentando convencer a mim mesmo de que eu realmente quero que ela
fique longe. — Agora, saia da frente. Eu tenho que verificar se o caminhão de
lixo vai passar no horário, e você já desperdiçou quatro minutos da minha manhã
com essa sua... essa sua imoralidade.
Eu tento dar um
passo para o lado para contorná-la, mas meu corpo parece pesado, e a presença
dela é como um campo magnético que me puxa para o caos que eu jurei evitar. Ela
sabe o que está fazendo. Ela sabe exatamente como me tirar do eixo. E o pior de
tudo é que o Pantera, aquele gato maldito, continua me olhando da janela, como
se estivesse rindo da minha cara.
**Hanna**
Você continua
falando deliberadamente, cada palavra carregada de um peso como se eu tivesse
cometido algum crime hediondo, enquanto eu, por outro lado, só consigo soltar
um riso nasalado a cada frase sua. É quase divertido ver o quanto minha
presença te afeta.
Quando você
menciona que vai verificar o caminhão de lixo e tenta passar por mim, dou um
passo rápido para o lado, bloqueando seu caminho por pura pirraça.
— Vai lá, chama a
polícia mesmo. — digo, sustentando o olhar diretamente no fundo dos seus olhos,
que chegam a ser translúcidos de tão claros. — Aproveita e conta para eles que
uma mulher com menos da metade da sua idade teve a audácia de ameaçar “abusar
sexualmente” de você. Hm.
Cruzo os braços,
imitando seu gesto impaciente, enquanto passo a língua pelos lábios de forma
provocativa. Encaro sua roupa com um escrutínio descarado, como se pudesse
despir você e imaginar o que se esconde por debaixo desse seu suéter
assumidamente démodé.
— Mas espera eu
te dar um belo trato primeiro. Aí sim, você conta para eles o quanto eu sou boa
de cama, e como, mesmo estando um tanto enferrujado, você ainda conseguiu dar
conta do recado.
Avanço meu corpo
alguns centímetros na sua direção, fazendo meu rosto pairar perigosamente perto
do seu. Deixo que o cheiro doce e inebriante do meu perfume invada seus
sentidos, contrastando com o fogo de raiva que, eu sei, deve estar queimando
você por dentro.
** Otto **
O ar parece ter
fugido dos meus pulmões. Eu sinto o calor do rosto dela, a audácia daquela
respiração tão próxima, e o cheiro de baunilha... é doce demais, sufocante
demais, irritante demais. Minha mente, que costuma ser uma lista organizada de
tarefas e regras, agora parece um rádio fora de sintonia, chiando com o choque
das palavras dela.
— “Enferrujado”?
— Eu sussurro, a indignação lutando com uma sensação que eu não sentia há
décadas e que me recuso a nomear. — Você é... você é completamente
desequilibrada. Ninguém fala essas coisas no meio da rua!
Eu deveria
empurrá-la para longe. Eu deveria marchar de volta para a minha casa e trancar
a porta com todas as três trancas. Mas eu estou paralisado, como um cervo
diante dos faróis de um caminhão desgovernado. O escrutínio dela, o jeito como
ela olha para o meu suéter como se pudesse ver através dele, me faz sentir
exposto, vulnerável, de um jeito que me deixa furioso.
Minha garganta
está seca. Eu tento engolir em seco, mas o movimento parece barulhento demais
no silêncio que se seguiu à minha fala. O rosto dela está tão perto que eu
consigo ver as pequenas variações de cor naquelas íris debochadas. A língua
passando pelos lábios... é uma afronta. É um desrespeito à memória de tudo o
que é sagrado e ordeiro.
— Você não sabe
do que está falando. — eu digo, minha voz saindo em um tom baixo, quase um
rosnado, mas sem a autoridade que eu costumo ter. — Você acha que a vida é um
desses seus vídeos de internet? Que pode simplesmente chegar e... e bagunçar a
vida de um homem que só quer paz?
Eu sinto o fogo
de raiva que ela ocasionou, mas ele está se misturando com algo perigoso, um
tipo de combustão que eu achei que tinha morrido junto com a minha juventude.
Meus olhos descem para a boca dela por mais um segundo, um erro fatal, antes de
voltarem para os olhos dela.
— Afaste-se
agora, Hanna. Eu estou avisando. Se você continuar com essa... essa encenação
barata, eu não vou ser responsável pelas minhas ações. E eu não estou falando
de polícia.
Eu não sei o que
quero dizer com isso. É um blefe. Ou talvez não seja. Eu sinto meus punhos
cerrados ao lado do corpo, a adrenalina disparando. Eu quero que ela pare. Eu
quero que ela continue. E essa contradição é a coisa mais desordenada que já
aconteceu na minha vida inteira. Eu sou Otto Anderson, e eu odeio desordem.
Mas, por Deus, o calor que emana dela é a única coisa que me faz sentir que eu
ainda não sou um cadáver ambulante.
— Saia da frente.
Agora. — Eu ordeno, mas não me movo um milímetro. Estou esperando para ver se
ela vai recuar ou se vai finalmente cruzar a linha que eu tracei na areia. E o
maldito gato na janela parece estar apostando contra mim.
**Hanna**
Mantenho o olhar
fixo no seu, deixando um último sorriso de canto de boca, aquele tipo de
sorriso que diz muito mais do que qualquer palavra, florescer nos meus lábios
antes de, finalmente, erguer as mãos ao ar em um gesto teatral de falsa
rendição.
— Está bem,
senhor Otto “Enferrujado”. — disparo, deixando o sarcasmo vibrar na voz,
saboreando a forma como o apelido parece atingir seu orgulho. — Já entendi.
Você é quem manda neste pequeno reino de regras e silêncio, não é?
Com movimentos
lentos e calculados, dou meio passo para o lado, liberando o caminho que eu
bloqueava com tanta petulância. Observo sua postura rígida; você parece um
animal acuado, buscando desesperadamente uma rota de fuga de uma armadilha que,
para ser sincera, eu ainda nem comecei a armar de verdade. Mas a diversão está
justamente em ver você acreditar que já está nela.
— Só quero que
fique ciente de um detalhe, Otto: quanto mais você tenta me repelir com essas
suas palavras polidas e esse seu jeito ríspido de quem detesta o mundo, mais
úmida eu fico só de imaginar o que existe por trás dessa sua fachada de homem
inabalável.
Abro um daqueles
sorrisos largos e genuínos, que chegam a apertar os meus olhos, e dou uma
mordiscada rápida e audaciosa no ar, apenas para validar o “desequilibrada” que
você me lançou segundos atrás. Se é uma louca que você quer ver, é uma louca
que você terá.
Viro-me sobre os
calcanhares com uma elegância despreocupada, caminhando sem pressa em direção à
minha porta, sentindo o peso do seu olhar confuso e irritado queimando minhas
costas. Antes de entrar, faço uma pausa dramática, olho por cima do ombro uma
última vez e sopro um beijo lento no ar, finalizando com uma piscada atrevida.
Entro em casa e fecho a porta, deixando o silêncio da rua e o caos que acabei
de plantar na sua mente para trás.
** Otto **
Eu fico parado
ali, no meio do asfalto, como uma estátua de sal que esqueceu de desmoronar. O
“beijo” que ela soprou parece ter ficado suspenso no ar frio, flutuando entre
nós como uma partícula de poeira que eu não consigo limpar. Minha mente está um
caos completo, uma cacofonia de indignação, choque e um zumbido estranho nos
ouvidos que eu tento, desesperadamente, atribuir à poluição sonora daquela
moto.
— “Úmida”? — Eu
sussurro para o vazio, a palavra soando como um sacrilégio nos meus próprios lábios.
— Que tipo de mulher diz uma coisa dessas em plena luz do dia?
Eu sinto meu
rosto arder. Não é apenas raiva. É uma vergonha profunda misturada com uma
perturbação que me faz querer esfregar a minha pele com lixa até remover
qualquer vestígio daquele perfume de baunilha que parece ter se impregnado no
meu suéter. Ela me chamou de “enferrujado” de novo. Ela mordeu o ar. Ela agiu
como se a minha vida, as minhas regras e a minha dor fossem apenas um cenário
para o seu joguinho perverso.
Eu olho para a porta
fechada da casa dela. O silêncio voltou, mas não é o silêncio de paz que eu
tanto prezo. É um silêncio carregado, pesado, como a calmaria antes de um
desastre natural. Eu deveria estar aliviado por ela ter entrado, mas meus pés
continuam cravados no chão, e meus olhos teimam em procurar o chiclete que ela
jogou.
Eu me abaixo,
sentindo os joelhos estalarem; um lembrete cruel de que, sim, talvez eu esteja
um pouco enferrujado fisicamente, mas meu caráter é de aço. Pego o chiclete com
um lenço de papel que sempre carrego no bolso, dobrando-o com uma precisão
cirúrgica.
— Desequilibrada.
Absolutamente demente. — eu resmungo, mas minha voz não tem a convicção de
antes.
Eu tento caminhar
até o final da rua para verificar o caminhão de lixo, mas meu passo está
incerto. O que ela quis dizer com “imaginar o que existe por trás dessa
fachada”? Não existe nada. Existe apenas Otto, um homem que cumpre seus deveres
e espera o dia em que poderá finalmente descansar ao lado de Sonya.
Mas, pela
primeira vez em anos, a imagem de Sonya na minha mente parece um pouco
embaçada, substituída pelo brilho insolente daqueles olhos perversos e pela
visão daquela franja bagunçada. Eu aperto o lenço com o chiclete na mão,
sentindo uma pulsação estranha na base do meu estômago.
Eu odeio essa
mulher. Eu odeio a moto dela. Eu odeio o gato dela. Mas, enquanto eu marcho de
volta para a minha casa, a única coisa que eu consigo pensar é que amanhã, às
seis da manhã, eu estarei lá fora de novo. E, pela primeira vez, não será
apenas para verificar o lixo. É para ter certeza de que o caos ainda está lá,
pronto para me fazer sentir odiosamente vivo.
Entro em casa e
bato a porta com mais força do que o necessário, mas o som não consegue abafar
o pensamento que martela na minha cabeça: ela disse que “ainda nem começou”. E
eu, infelizmente, acredito nela.
**Hanna**
Na manhã
seguinte, decido mudar a estratégia: não saio de casa, não ligo o motor da
Harley e sequer dou qualquer sinal de vida. Tudo milimetricamente calculado, é
claro. Quero testar os limites do meu vizinho rabugento, ver se ele vai acabar
arrumando sarna para se coçar apenas para ter o prazer de me atacar novamente
com seu palavreado afiado e aquele humor que parece ter falecido há pelo menos
duas décadas.
Observo pela
fresta da cortina enquanto Pantera sai por uma das janelas abertas,
espreguiçando-se de forma dengosa e preguiçosa para aproveitar o sol da manhã.
Quando vejo meu gato atravessar o limite das calçadas e deitar-se, com toda a
folga do mundo, bem sobre a grama impecável e intocável do nada amável Otto, eu
já sei: vem bomba por aí. É o pretexto perfeito.
Apresso-me em
preparar o meu “figurino de guerra”. Visto um short de pijama de algodão
extremamente curto, daqueles que deixam a polpa da bunda provocantemente à
mostra, e uma blusinha de alças bem solta e leve, que poderia facilmente fazer
qualquer homem — até mesmo um bloco de gelo como ele — cair boquiaberto no meu
decote ao menor movimento.
— Vamos ver qual
vai ser o sermão teológico de hoje, Otto. — murmuro para mim mesma, com um
sorriso de antecipação, enquanto me encosto perto da porta e aguardo,
pacientemente, o som da campainha ecoar pela casa.
** Otto **
O silêncio é uma
mentira. Eu acordo às cinco e quarenta e cinco, como sempre, mas o silêncio que
preenche o condomínio hoje parece... artificial. É como se o ar estivesse
prendendo a respiração. Eu verifico o relógio. Seis horas. Seis e dez. Nada.
Nenhum estrondo mecânico, nenhuma vibração nas janelas, nenhuma risada
insolente rasgando a manhã.
Eu deveria estar
satisfeito. A ordem foi restaurada. Mas eu me pego andando de um lado para o
outro na sala, as mãos inquietas, sentindo um vazio irritante onde deveria
estar a minha indignação. Eu olho pela cortina, tentando ser discreto — o que é
ridículo, já que a casa é minha — e é então que eu vejo.
O animal. Aquele
tapete de pelos siamês que ela chama de Pantera está deitado, com uma folga que
beira o criminoso, exatamente no centro do meu gramado. O meu gramado, que eu
aparo com uma régua, está sendo usado como cama por um felino sem modos. É a
gota d’água. É a desculpa... quer dizer, é a infração necessária para que eu
restabeleça a autoridade.
Eu não visto a
jaqueta bege. Saio apenas com o suéter, marchando em direção à casa dela. Meus
pés pisam no asfalto com uma determinação que eu tento convencer a mim mesmo
ser puramente cívica. Eu paro diante da porta dela e respiro fundo.
— Isso é
inaceitável. — eu resmungo para o nada, antes de apertar a campainha com força,
mantendo o dedo pressionado por dois segundos a mais do que o necessário.
Eu espero,
cruzando os braços e preparando o discurso sobre a Seção Oito do regulamento:
“Animais de estimação não devem invadir propriedades privadas ou causar danos
paisagísticos”. Minha mente está cheia de palavras duras, mas quando a porta se
abre, as palavras simplesmente morrem na minha garganta.
Eu sinto meus
olhos traírem o meu comando. Eles descem, contra a minha vontade, para aquelas
pernas tatuadas e para o short que... por Deus, aquilo não é uma peça de roupa,
é um insulto ao pudor público. Eu vejo a pele, vejo as curvas, e sinto um calor
súbito subir pelo meu pescoço, transformando meu rosto em um farol vermelho de
constrangimento e fúria.
— Você... você
não tem vergonha? — Eu gaguejo, tentando desviar o olhar para o teto, para a
parede, para qualquer lugar que não seja o decote dela que parece desafiar a
gravidade. — São seis e meia da manhã! Onde está o seu senso de... de
vestimenta básica?
Eu tento
recuperar a postura, pigarreando alto para disfarçar o fato de que meu coração
decidiu fazer uma maratona dentro do meu peito.
— O seu gato. —
eu digo, a voz saindo mais fina do que eu gostaria, enquanto aponto o dedo
trêmulo para o Pantera no meu jardim. — Ele está violando o perímetro da minha
propriedade. Tire aquele animal de lá agora mesmo, ou eu vou ser obrigado a
chamar o controle de zoonoses por invasão de domicílio!
Eu estou tentando
ser o Otto de sempre, o homem das regras, mas a imagem daquela blusinha de
alças está queimando na minha retina. Eu sinto que estou perdendo a batalha
antes mesmo dela começar, e o jeito que ela me olha... eu sei que ela sabe. Ela
sabe que o bloco de gelo está começando a rachar.
— E coloque uma
calça! — Eu completo, num tom quase desesperado. — Você vai pegar um resfriado
ou... ou causar um acidente de trânsito apenas por estar parada aí! — Eu bufo,
tentando manter a carranca, mas é difícil parecer autoritário quando você está
tentando não olhar para a mulher mais endiabrada que já cruzou o seu caminho.
**Hanna**
Levo a mão à nuca,
coçando-a de leve mesmo sem sentir coceira alguma; um gesto displicente que
esconde a minha satisfação. Eu sabia, com uma certeza absoluta, que você viria
bater à minha porta. Na verdade, você foi até mais rápido do que eu ousei
imaginar, o que só prova o quanto eu já ocupo espaço nos seus pensamentos.
— Bom dia... mais
uma vez, Otto. — resmungo, deixando minha voz soar propositalmente rouca e
sonolenta, como se eu tivesse acabado de despertar de um sonho do qual você
certamente não gostaria de saber os detalhes.
Inclino a cabeça
para o lado com um ar de falsa inocência e observo Pantera. Ele continua lá,
deitado calmamente na sua grama impecável, banhando-se no sol da manhã com a
elegância de quem sabe que não está cometendo crime algum, a menos, é claro,
que se considere as leis estipuladas pelas suas próprias paranoias de ordem e
controle.
— Sabe, Otto...
Deus está vendo você encarar o meu decote com tanta insistência. — disparo,
enquanto um sorriso malicioso e vitorioso surge lentamente no meu rosto ao notar
seus olhos vacilarem. — Mas não se preocupe, ele não está te julgando. Afinal,
pessoas normais pensam em sexo o tempo todo. É a natureza humana, embora você
pareça lutar contra ela com todas as suas forças.
Dou uma mordida
lenta no meu lábio inferior, sustentando o seu olhar, antes de avançar porta
afora. Paro a meros centímetros de você, sentindo o choque do vento frio da
manhã arrepiar cada poro da minha pele, agora longe do aquecimento acolhedor da
minha casa. Esfrego os braços com as mãos, um gesto que só serve para destacar
ainda mais as minhas curvas sob o tecido fino da blusa.
Caminho
calmamente em direção ao seu gramado sagrado para resgatar o meu gato. Ao
chegar perto dele, faço questão de me abaixar sem dobrar os joelhos, um
movimento fluido e calculado para te oferecer, sem qualquer pudor, uma visão
privilegiada das minhas ancas brancas e cobertas por tatuagens. Sei exatamente
o efeito que isso causa na sua mente tão disciplinada.
— Vamos,
Pantera... o nosso vizinho assexuado aqui acha que você é um fora da lei
perigoso. — murmuro com a voz baixa, mas perfeitamente audível para que cada
palavra atinja o seu alvo.
Acolho o gato nos
meus braços, sentindo o calor do seu pelo, e volto para a segurança do meu
portal. Paro do lado de dentro, protegida pela moldura da porta, e te encaro
com um olhar carregado de um desdém divertido, saboreando a sua irritação.
— Feliz agora,
Grinch? — pergunto, usando a alusão ao personagem amargo da minha infância que,
honestamente, parece ter sido inspirado em você. — A ordem foi restaurada no
seu reino de solidão. Aproveite.
** Otto **
Eu sinto um
zumbido nos ouvidos, um sinal claro de que minha pressão arterial deve estar
atingindo níveis que fariam meu médico ter um enfarto instantâneo. “Assexuado”?
“Grinch”? Cada palavra que sai daquela boca pintada é como um prego sendo
martelado na minha paciência. Mas o que realmente me destrói não são os
insultos; é o que ela faz com naturalidade.
Quando ela se
abaixa... daquele jeito... sem dobrar os joelhos... o mundo ao meu redor
simplesmente para de girar. Minha mente, que deveria estar recitando o artigo
quinto sobre conduta em áreas comuns, entra em curto-circuito. Eu vejo a pele,
vejo a tinta das tatuagens se movendo com o músculo, e sinto um soco de
adrenalina e desejo — sim, desejo, maldita seja a biologia — que me faz perder
o fôlego. Eu sou um homem de princípios, um homem que amou uma única mulher a
vida inteira, e estar ali, parado como um idiota, cobiçando a vizinha
delinquente é a maior traição que eu poderia cometer contra mim mesmo.
— Eu não
estava... eu não estou encarando nada! — Eu explodo, a voz saindo num tom agudo
de puro desespero defensivo. — Eu estou observando a infração! A infração e a
infratora!
Eu sinto meu
rosto queimar tanto que acho que as petúnias do jardim vão murchar com o calor.
Quando ela volta para a porta, segurando aquele gato insolente, eu tento
desesperadamente recuperar qualquer fragmento de dignidade que ainda me reste.
Eu ajeito meu suéter com as mãos trêmulas, tentando ignorar o fato de que o
frio da manhã parece não afetá-la metade do que a presença dela me afeta.
— “Assexuado”? —
Eu repito, a palavra saindo amarga. — Eu sou um homem decente, Hanna. Algo que
você claramente desconhece o significado. Decência não é lutar contra a natureza,
é ter controle sobre ela. Coisa que você não tem, nem com suas roupas, nem com
seus animais, nem com essa sua... essa sua língua venenosa!
Eu dou um passo à
frente, impulsionado por uma mistura de fúria e uma necessidade irracional de
não deixá-la ter a última palavra.
— E para sua
informação, o Grinch acabou salvando o Natal. — Eu rosno, estreitando os olhos.
— Mas não espere que eu salve você quando esse seu estilo de vida imprudente te
colocar em problemas. E da próxima vez... — Eu aponto para a porta dela,
tentando não olhar para as pernas dela de novo. — ...da próxima vez que você
decidir sair em público vestindo... roupas de baixo, eu vou protocolar uma
queixa formal por atentado ao pudor. Eu não sou um bloco de gelo, Hanna. Eu sou
um homem que tem padrões. E você... você é apenas um ruído que eu pretendo
silenciar.
Eu viro as costas
bruscamente, marchando de volta para a minha casa. Meus passos são pesados, mas
meu coração está batendo tão rápido que eu temo que ele pule para fora do
peito. Eu entro, fecho a porta e encosto a testa na madeira, fechando os olhos
com força.
— Controle, Otto.
Controle. — eu sussurro para o silêncio da minha sala vazia.
Mas o cheiro adocicado
dela parece ter entrado comigo. E a imagem daquela curva... daquela maldita
curva que ela me ofereceu... está gravada atrás das minhas pálpebras como uma
cicatriz. Eu odeio essa mulher. Eu a odeio com cada fibra do meu ser
enferrujado. E o pior de tudo é que eu sei que, amanhã cedo, eu vou estar
olhando pela fresta da cortina de novo, esperando pelo próximo “ruído”.
**Hanna**
O dia seguinte
amanhece como um sábado atipicamente menos frio e muito mais agradável, o tipo
de clima que parece conspirar a favor do caos. Logo cedo, recebo o convite de
um dos vizinhos para um churrasco de confraternização dos moradores do bairro,
que aconteceria na casa dele à tarde. Aceito prontamente, mas com uma condição
bem específica: ele teria que insistir — e muito — para que o Otto fosse. Nem
que, para isso, precisasse inventar a desculpa mais esfarrapada e absurda do
mundo. O vizinho me olha com uma ponta de confusão, mas acaba sorrindo e
concordando, talvez prevendo que a tarde seria, no mínimo, interessante.
— É hoje, Pantera.
— comento com o meu gato, que me encara com aqueles olhos inteligentes,
parecendo compreender meus planos melhor do que qualquer ser humano. — É hoje
que eu faço aquele velho me esganar de uma vez ou, finalmente, ceder à
tentação. Nem que seja na marra, ele vai ter que reagir.
Passo a manhã
inteira em um ritual de preparação quase religioso. Dedico horas me arrumando e
me perfumando, sobrepondo camadas de cremes e fragrâncias de baunilha e âmbar.
Uso tanto perfume que tenho certeza de que poderia facilmente intoxicar o
olfato sensível e “fresco” do Otto a metros de distância. Quero que o meu
cheiro se torne o pesadelo e o desejo dele.
Horas mais tarde,
com o sol já alto e brilhante no céu, faço minha entrada triunfal na casa do
vizinho. Escolhi um vestido preto rodado, leve e curto o suficiente para
merecer um sermão completo do meu rabugento favorito sobre “decoro e bons
costumes”. Cada movimento meu é pensado para que o tecido dance ao redor das
minhas pernas tatuadas.
Os minutos se
arrastam enquanto tento manter a pose. Tomo uma, duas, três cervejas, sentindo
o álcool começar a soltar meu riso, mas não consigo relaxar de verdade. Olho
para o relógio a cada cinco minutos e bato o pé no chão com uma impaciência mal
contida. Meus olhos teimam em buscar a cerca lateral de instante em instante,
vigiando cada movimento da rua, em uma mistura de ansiedade e expectativa,
apenas para ver se ele terá a coragem de aparecer.
** Otto **
Eu odeio
churrascos. Eu odeio o cheiro de gordura queimada impregnando o ar, eu odeio a
música alta que as pessoas chamam de “cultura” e, acima de tudo, eu odeio a
falsa alegria de vizinhos que mal sabem separar o lixo orgânico do seco. Eu
disse “não” três vezes para o Miller. Mas o homem é persistente como um
carrapato. Ele veio com uma história absurda de que precisava que eu verificasse
a pressão do gás da churrasqueira nova dele porque “só eu entendo dessas
coisas”.
É claro que é
mentira. Mas a ideia de uma explosão por negligência técnica no meu quarteirão
me incomoda mais do que a ideia de socializar. Então, aqui estou eu. Vestindo
minha calça de sarja vincada e mais um suéter impecável, atravessando a cerca
com a expressão de quem está indo para um interrogatório policial.
O primeiro
impacto não é visual. É olfativo. O cheiro do churrasco é subitamente
atropelado por uma onda de baunilha e âmbar tão densa que eu quase perco o
equilíbrio. É ela. Eu não preciso olhar para saber. O cheiro dela se tornou o
rastreador pessoal da minha sanidade.
Eu a vejo. Ela
está com um vestido preto que... por Deus, aquilo não é um vestido, é um
convite à catástrofe. O tecido balança ao redor das pernas dela enquanto ela
ri, segurando uma lata de cerveja como se não tivesse uma única preocupação no
mundo. Três latas, eu conto mentalmente, notando o brilho nos olhos dela e o
jeito como ela se move. Ela está solta. Ela está perigosa.
Eu tento me focar
no Miller e na maldita churrasqueira, mas meus olhos são traidores. Eles buscam
o contraste da pele branca dela contra o preto do vestido, a forma como a luz
do sol destaca as tatuagens que eu deveria odiar, mas que agora parecem um mapa
que eu estou começando a decorar contra a minha vontade.
— A pressão está
normal, Miller. Pare de me fazer perder tempo. — eu rosno, tentando manter a
voz baixa, mas meus olhos acabam se cruzando com os dela.
Eu sinto o
impacto no estômago. Ela está me vigiando. Ela sabia que eu viria. Eu sinto uma
mistura de fúria por ter caído na armadilha e uma pulsação elétrica que sobe
pela minha espinha. Eu deveria ir embora agora. Virar as costas e voltar para o
meu silêncio. Mas o álcool no hálito dela, o cheiro doce que emana da sua pele
e o jeito como ela morde o lábio me deixam pregado no chão.
— Você não
deveria estar bebendo assim em público, Hanna. — eu digo, aproximando-me o
suficiente para que apenas ela ouça, minha voz saindo áspera e carregada de uma
autoridade que eu sei que não tenho sobre ela. — É sábado à tarde, não a noite
de núpcias de um marinheiro. Tenha um pouco de... — Eu hesito, a palavra
“decoro” morrendo na minha boca enquanto meu olhar desce, inevitavelmente, para
a curva do pescoço dela. — ...tenha um pouco de juízo.
Eu estou tão
perto que mais uma vez consigo sentir o calor que irradia do corpo dela,
potencializado pelo sol e pela bebida. Meu coração está batendo num ritmo
desordenado, uma batida que eu não consigo controlar, e o pior de tudo é que eu
não quero me afastar. Eu quero que ela me desafie. Eu quero que ela diga algo
terrível para que eu possa continuar sentindo esse fogo que ela acendeu e que
eu não sei como apagar.
— Onde está o seu
gato? — Eu pergunto, uma tentativa patética de mudar de assunto, enquanto meus
dedos se fecham em punhos dentro dos bolsos, lutando contra o impulso absurdo
de tocar naquela pele tatuada para ver se ela queima tanto quanto parece.
**Hanna**
— Meu gato está
trancado em casa, sã e salvo. — respondo, utilizando um tom de voz mais sério e
contido, algo que nunca usei com você antes. — E... me desculpe pela cerveja.
Vou tentar agir de maneira mais “decente” na próxima vez, se é isso que você
espera.
Lanço um olhar de
puro desconserto na sua direção, sustentando-o por apenas um segundo antes de
desviar os olhos para o chão, fingindo uma mágoa profunda e silenciosa. Deixo o
silêncio se prolongar, pesado e desconfortável, enquanto observo a condensação
na lata de cerveja antes de abandoná-la sobre uma das mesas plásticas da festa,
como se tivesse perdido o interesse em qualquer diversão.
— Você me odeia
de verdade, não é, Otto? — pergunto com uma neutralidade na voz que contradiz
absolutamente tudo o que você ouviu de mim até agora. Não há ironia, não há
deboche. — Às vezes parece que a minha mera existência é um insulto pessoal
para você. Como se eu fosse um erro que você precisa corrigir.
Dou de ombros,
forçando um sorriso melancólico que disfarça uma falsa tristeza; uma estratégia
milimetricamente desenhada. Esse é o meu novo jogo: a vulnerabilidade. E, pela
forma como você me encara agora, com essa confusão estampada no rosto, percebo
que você está caindo exatamente onde eu queria.
— Eu vou... vou
até o banheiro jogar uma água no rosto antes de ir embora para casa. Desculpe
por qualquer coisa, Otto. De verdade.
Dou as costas
para você, caminhando com passos lentos e ombros levemente caídos. Por dentro,
estou me segurando com todas as minhas forças para não explodir em uma
gargalhada vitoriosa, porque a sua expressão de preocupação e culpa é
formidavelmente impagável.
Entro na casa sem
que os outros convidados notem minha saída, mas sei que os seus olhos estão
cravados nas minhas costas. Entro no banheiro, encosto a porta sem trancá-la
totalmente e permaneço em silêncio absoluto. Fico ali, apenas ouvindo,
aguardando para ver se a sua moralidade rígida, ou algo mais profundo que você
ainda não admite, vai te forçar a vir atrás de mim para tentar consertar o que
acha que quebrou.
** Otto **
Eu fico ali
parado, sentindo o peso do silêncio dela como se fosse uma laje de concreto
sobre os meus ombros. A mudança no tom de voz, a falta do sarcasmo... aquilo me
atinge com mais força do que qualquer ronco de motor. Eu sou um homem que vive
de certezas, e a minha maior certeza era que a Hanna era uma força da natureza
inabalável. Vê-la assim, com os ombros caídos e aquele sorriso melancólico, faz
algo dentro de mim se retorcer de um jeito que eu não sei explicar.
— Eu não... eu não
disse que te odiava. — eu murmuro para o espaço vazio que ela deixou, mas
minhas palavras são engolidas pelo barulho da conversa dos outros vizinhos.
“Como se eu fosse
um erro que você precisa corrigir”. A frase ecoa na minha cabeça enquanto eu a
observo entrar na casa. Eu não quero corrigi-la. Ou talvez eu queira. Mas não
porque ela é um erro, mas porque... porque ela me faz sentir coisas que um
homem da minha idade não deveria sentir. E a culpa disso me faz ser ríspido. Eu
sou um idiota. Um velho rabugento e idiota.
O Miller tenta me
dizer algo sobre o ponto da carne, mas eu não ouço. Meus pés já estão se
movendo. É automático. É a minha natureza de “consertador” agindo, ou pelo
menos é o que eu digo a mim mesmo. Eu entro na casa, o ambiente mais fresco e
silencioso me fazendo sentir ainda mais o peso da minha própria respiração.
Eu vejo o
corredor que leva ao banheiro. Meus passos são pesados, mas eu tento ser
silencioso. Eu paro diante da porta de madeira. Há um feixe de luz escapando
pela fresta, e o cheiro doce parece ter se concentrado ali, escapando para o
corredor e me puxando como um imã.
Meu coração está
batendo num ritmo que eu não reconheço. Eu levanto a mão para bater, mas meus
nós dos dedos param a centímetros da madeira. Eu não consigo bater. E também
não consigo ir embora.
— Hanna? — Eu
chamo, a voz baixa, quase um sussurro que mal atravessa a fresta da porta. —
Você... você está bem aí dentro?
Eu espero,
prendendo a respiração. O silêncio que vem do banheiro é carregado, e eu sinto
uma urgência irracional de consertar o que eu disse lá fora.
— Escute... — Eu
começo, pigarreando, falando para a fresta da porta. — Eu não quis dizer que
você é um erro. Eu só... eu não sei lidar com o jeito que você faz as coisas.
Com o jeito que você me olha. Você me tira do eixo, Hanna. E eu passei anos
construindo esse eixo para não desmoronar. Eu não te odeio. Eu só... eu tenho
medo do que você faz comigo.
Eu encosto a
testa na porta, fechando os olhos. Eu estou aqui, um homem de sessenta anos,
confessando minhas fraquezas para uma porta entreaberta enquanto um churrasco
acontece lá fora. Se alguém me visse, pensaria que eu finalmente perdi o juízo.
E talvez eu tenha perdido mesmo. Estou esperando qualquer som, qualquer
resposta que venha de dentro daquele banheiro, sentindo que minha vida inteira
depende do que vai acontecer nos próximos segundos.
**Hanna**
Ouço você
balbuciar desculpas do seu jeito torto e rígido, e, contra toda a lógica, isso
me deixa ainda mais fascinada por você. Puta merda, Otto. Sinto a adrenalina
correr pelas minhas veias enquanto percebo que estou prestes a aprontar uma das
grandes com um homem que tem idade para ser meu pai. Céus, eu realmente não
tenho limites.
Seguro a maçaneta
com a ponta dos dedos e abro a porta devagar, revelando você ali parado, com
aquele olhar perdido e desconcertado direcionado diretamente para mim. Eu
poderia simplesmente te abraçar, dizer que tudo não passou de uma brincadeira
de mau gosto e que não dou a mínima para o que você pensa do meu estilo de
vida. Mas a verdade? A verdade é que eu nunca fui de desperdiçar uma
oportunidade de ouro quando ela me é entregue assim, de bandeja.
— Cala a boca,
Otto! — ordeno, interrompendo qualquer tentativa de explicação.
Em um movimento
rápido e decidido, agarro você pelo meio desse seu suéter ridículo e te puxo
para dentro do banheiro com um solavanco tão brusco que poderia facilmente
desencaixar uma de suas articulações. Solto um riso abafado e cúmplice com os
meus próprios pensamentos enquanto, praticamente à força, faço você se sentar
no tampo fechado do vaso sanitário.
Minha mão desliza
rapidamente pela fechadura, girando-a com um clique seco que ecoa no pequeno
cômodo, antes de eu me acomodar no seu colo. Me sento de frente para você,
sentindo a rigidez do seu corpo sob o meu, e pressiono firmemente a palma da
minha mão contra a sua boca, abafando qualquer protesto imediato.
— Eu vou soltar...
— sussurro, aproximando meu rosto do seu até que nossas respirações se
misturem. — Mas fique avisado: se você ousar gritar ou me interromper, eu juro
que dou um tapa nessa sua cara rabugenta para você aprender a ouvir. Entendeu
bem?
Sustento o olhar,
esperando ver o brilho de choque nos seus olhos translúcidos se transformar em
algo mais profundo, enquanto o silêncio do banheiro se torna carregado com a
nossa proximidade repentina.
** Otto **
O mundo gira. Em
um segundo, eu estou confessando minhas falhas para uma porta de madeira; no
segundo seguinte, o chão desaparece e eu sou arrastado para o epicentro do meu
próprio pesadelo pessoal. O solavanco me joga no tampo do vaso sanitário com um
impacto que reverbera pela minha coluna, mas a dor física é irrelevante perto
do choque de ter Hanna sentada no meu colo.
O clique da
fechadura soa como o disparo de uma arma. Eu estou preso.
Eu tento abrir a
boca para protestar, para exigir que ela pare com essa insanidade, mas a palma
da mão dela pressiona meus lábios com uma firmeza que me cala instantaneamente.
O calor da pele dela contra a minha boca é... é terrível. É proibido. É a coisa
mais real que eu senti em anos. Eu sinto o cheiro de baunilha agora de forma
absoluta, como se eu estivesse mergulhado nele.
Meus olhos estão
arregalados, fixos nos dela. Eu vejo a determinação, o fogo e aquela centelha
de loucura que eu sempre temi. Quando ela sussurra a ameaça de me dar um tapa,
eu sinto um tremor que não é de medo, mas de uma antecipação que me enoja e me
fascina ao mesmo tempo.
Eu deveria lutar.
Eu deveria empurrá-la, sair daqui e nunca mais olhar na cara dela. Mas o peso
do corpo dela sobre o meu, a maciez do vestido preto contra as minhas coxas e a
proximidade do rosto dela... tudo isso faz com que meu corpo se recuse a
obedecer à minha mente. Minhas mãos, que deveriam estar nos ombros dela para
afastá-la, estão agarradas às bordas do vaso sanitário, os nós dos dedos
brancos de tanta força.
Eu assinto
levemente, um movimento quase imperceptível, indicando que entendi. Minha
respiração está pesada, saindo quente contra a palma da mão dela. Eu sinto o
volume do meu próprio coração batendo contra as costelas, um som rítmico e
traidor que denuncia o quanto eu estou longe de ser o homem inabalável que eu
finjo ser.
Ela está no
controle. Pela primeira vez na vida, Otto Anderson não tem uma regra, um
parágrafo ou um regulamento para se apoiar. Existe apenas o silêncio do
banheiro, o calor de Hanna e a certeza de que, se eu sair daqui hoje, eu nunca
mais serei o mesmo homem. Eu espero, paralisado, sentindo cada centímetro do
corpo dela contra o meu, aguardando para ver qual será o próximo passo dessa
endiabrada que decidiu que eu sou o seu brinquedo particular.
— Solte. — eu
sussurro contra a palma dela, a voz abafada e trêmula, mas carregada de uma
urgência que eu não consigo mais esconder.
**Hanna**
Eu tiro minha mão
da sua boca, deslizando as pontas dos dedos por cada linha de expressão no seu
rosto, até sentir o cabelo milimetricamente aparado na nuca.
A outra mão sobe
de encontro, deslizando pelo suéter, pelo pescoço aquecido, contornando sua
mandíbula tensa até meus dedos se entrelaçarem firmemente atrás do seu pescoço.
Seguro você ali, presa intencional, enquanto nossos rostos permanecem
perigosamente próximos.
— Eu quero você,
Otto. — confesso, e a honestidade na minha própria voz me pega de surpresa. —
Não sei por quê, sabe... francamente, não faço a menor ideia. Você é
insuportável, me ofende a cada cinco minutos com seus regulamentos ridículos, é
velho, rabugento, e provavelmente o homem mais irritante que já conheci.
Faço uma pausa
deliberada, sustentando o olhar no fundo daqueles seus olhos translúcidos que
agora parecem incapazes de desviar dos meus. Aproveito uma das raras vezes em
que você me oferece silêncio absoluto, sem sermões, sem regras, sem nada além
da sua respiração irregular misturada com a minha.
E então, sem mais
desculpas ou delongas, eu te beijo.
Te beijo mesmo
sabendo que talvez você vá me odiar por isso depois. Te beijo com toda a
intensidade que venho segurando desde o primeiro dia em que você atravessou seu
gramado com aquela cara de poucos amigos. Meus lábios pressionam os seus com
uma urgência que não admite hesitação, reclamando algo que eu nem sabia que de
fato rolaria até este exato momento.
Apoio meu peso
sobre as pontas dos pés, me erguendo ainda mais contra você, e segurando seu
rosto entre as palmas das minhas mãos, esfrego meu corpo contra o seu. Sinto a
rigidez inicial do seu corpo começar a ceder, te traindo. Sinto a fricção, o
calor, a resposta involuntária do seu corpo ao meu atrito sobre você, te
entregando de uma forma que sua boca jamais faria.
Quando pauso o
beijo, afasto o rosto apenas o suficiente pra te olhar diretamente no fundo dos
olhos, aqueles olhos que sempre me julgaram e que agora parecem completamente
perdidos. Preciso te ver. Preciso saber, nem que seja através do olhar, que
isso é recíproco. Que você também me deseja, mesmo que seja só aqui, só agora,
trancados neste banheiro.
— Diz pra mim,
Otto... — sussurro contra seus lábios ainda úmidos do beijo. — Diz que você me
quer também. Nem que seja só por hoje.
** Otto **
O beijo é como
uma explosão em uma fábrica de munições. Tudo o que eu construí; as barreiras,
as regras, a memória sagrada da minha vida ordenada, é incinerado em um
milésimo de segundo. Eu deveria estar horrorizado. Eu deveria estar
empurrando-a para longe com toda a força que me resta. Mas, em vez disso,
minhas mãos, aquelas mãos que costumam carregar ferramentas e manuais, agem por
conta própria e se fecham na cintura dela, apertando o tecido do vestido preto
com uma força que denuncia o meu desespero.
Eu sinto o gosto
dela. É doce, quente e proibido. É o gosto de algo que eu pensei que nunca mais
sentiria: vida. Quando ela esfrega o corpo contra o meu, o atrito envia uma
descarga elétrica que faz meu corpo trair cada juramento de castidade e luto
que eu fiz. Eu sinto a resposta involuntária do meu próprio corpo, uma rigidez
que não tem nada a ver com a minha coluna e tudo a ver com a mulher tatuada que
decidiu me possuir em um banheiro de vizinhos.
Quando ela se
afasta e sussurra aquelas palavras, eu sinto que estou pendurado na beira de um
abismo. O "não" está na ponta da minha língua, pronto para ser
disparado como uma última linha de defesa. Mas eu olho para ela. Olho para os
olhos dela, para a boca úmida, para a franja desgrenhada, e a mentira morre na
minha garganta.
— Eu... — Eu
começo, a voz saindo como um rosnado baixo, rouco, quase irreconhecível para
mim mesmo. — Eu te odeio, Hanna. Eu odeio o jeito que você ri, odeio a sua
moto, odeio o fato de você não seguir uma única regra...
Eu aproximo meu
rosto do dela, reduzindo a distância até que nossas testas se encostem. Meus
dedos se enterram na carne das coxas dela, puxando-a para mais perto, se é que
isso é possível.
— Mas eu te quero
tanto que isso está me matando. — eu confesso, a verdade saindo como uma
rendição sangrenta. — Eu te quero desde o primeiro dia em que você estacionou
aquela sucata barulhenta e me olhou como se eu fosse um velho patético. Eu te
quero agora, aqui, nesse lugar ridículo.
Eu fecho os
olhos, sentindo o calor dela me consumir. A moralidade, o decoro, o que o
Miller vai pensar... nada disso importa. Só existe esse banheiro, seu cheiro, e
a necessidade brutal de calar essa mulher com um beijo que mostre a ela que,
embora eu esteja enferrujado, o fogo que ela acendeu é capaz de queimar o
bairro inteiro.
— Só por hoje? —
Eu pergunto, minha voz carregada de uma urgência sombria, enquanto eu a puxo
para outro beijo, desta vez mais agressivo, mais faminto, como se eu estivesse
tentando recuperar décadas de solidão em um único toque. — Eu não sei se
consigo parar no "hoje", Hanna. Maldita seja você por isso.
Eu deslizo uma
das mãos para a nuca dela, puxando-a para que ela sinta a intensidade da minha
resposta. Eu não sou mais o Otto das regras. Eu sou apenas um homem. E esse
homem está faminto.
**Hanna**
Eu sorrio contra
os seus lábios, não porque seja engraçado, mas porque tudo isso é tão
contraditório, tão errado em tantas camadas que eu sequer consigo contar
quantas das suas leis mentais nós estamos desobedecendo agora mesmo.
— Maldita seja eu
então, Otto. — murmuro entre os beijos, sentindo o gosto dele ainda nos meus
lábios. — E bendito seja o que estou prestes a fazer com você na porcaria do
banheiro da casa do vizinho.
Afasto o corpo
para trás, ainda no seu colo. Apenas o suficiente pra conseguir abrir o zíper
da sua calça que parece ter sido comprada quando eu ainda andava de bicicleta
com rodinhas. Meus dedos trabalham rápido, quase frenéticos.
— Não temos muito
tempo, a menos que você queira que nos peguem em flagrante aqui. — minha voz
sai entre risos de excitação e desespero na mesma medida, aquele tipo de riso
nervoso que só situações absurdas arrancam de mim.
Enfio a mão
dentro da sua cueca sem o menor pudor, envolvendo seu membro já rígido. A prova
viva de que, apesar de todo o seu discurso moralista, seu corpo não mente.
— Mas... que
safadinho! — provoco, deixando escapar um sorriso malicioso enquanto observo a
expressão no seu rosto.
Suas reações às
minhas ações quase me arrancam gargalhadas. Seu olhar dividido entre vontade
pura e arrependimento moral me fascina de um jeito que eu jamais admitiria em
voz alta. É como assistir um homem lutando contra si mesmo e perdendo
gloriosamente.
Sem dizer mais
nada, afasto o vestido um pouco acima das minhas coxas, puxo a calcinha de lado
com uma das mãos enquanto com a outra te guio pra dentro de mim. Quando
finalmente acerto o ângulo, me encaixando em você, desço de uma só vez,
sentindo cada centímetro seu em mim.
Um gemido quase
me escapa, mas eu o abafo pressionando os lábios contra seu ombro, mordendo o
tecido do seu suéter ridículo só pra não gritar.
** Otto **
O som do zíper
descendo parece o estalo de um chicote no silêncio do banheiro. Eu deveria
estar paralisando-a, deveria estar dizendo que isso é uma loucura, que o Miller
pode bater na porta a qualquer segundo pedindo a chave de fenda. Mas quando a
mão dela entra na minha cueca, meu cérebro simplesmente desliga todas as
funções que não sejam sentir.
— Hanna... — O
nome dela sai como um gemido torturado quando ela me envolve.
Eu fecho os olhos
com tanta força que vejo estrelas. A humilhação de ser chamado de “safadinho”
deveria me fazer recuar, mas a verdade é que o toque dela é a única coisa que
me mantém ancorado à realidade. Eu sinto o peso do meu próprio desejo, algo que
eu enterrei tão fundo que achei que tinha virado pedra. Mas não é pedra. É
lava.
Quando ela levanta
o vestido e afasta a calcinha, eu sinto o mundo inclinar. Eu tento segurar a
respiração, tentando manter aquele último resquício de controle, mas então ela
se guia e desce. De uma só vez.
— Meu Deus... —
Eu enterro o rosto no pescoço dela, minhas mãos agarrando as coxas dela com uma
força que certamente deixará marcas.
A sensação de preencher
ela, de estar dentro daquela endiabrada que me atormentou por semanas, é um
choque que faz meus dedos dos pés se encolherem dentro dos sapatos engraxados.
Eu sinto o calor dela, a umidade, a forma como ela me aperta. É uma desordem
absoluta. É o caos em estado puro. E eu estou adorando cada segundo desse
desastre.
Eu sinto os
dentes dela no meu ombro, mordendo o suéter, e o som abafado do gemido dela
contra o meu corpo me faz perder o que restava da minha sanidade. Eu começo a
me mover, um movimento curto e urgente, subindo contra ela enquanto minhas mãos
sobem por suas costas, puxando-a para que ela não caia, para que ela não pare,
para que ela continue me destruindo.
— Você... você
vai causar a minha morte, Hanna. — eu sussurro no ouvido dela, minha voz
falhando completamente, enquanto o ritmo aumenta. — Você vai acabar comigo e eu
vou morrer feliz por isso.
Eu não me importo
mais com o churrasco. Não me importo com as regras. Se o Miller entrar agora,
ele vai encontrar o Otto Anderson que ele nunca imaginou: um homem que
finalmente parou de reclamar da vida para começar a vivê-la, da forma mais
imprópria, barulhenta e maravilhosa possível. Eu a aperto contra mim, sentindo
a fricção, o suor começando a brotar na minha testa, e a certeza de que esse
banheiro se tornou o único lugar no universo que faz sentido.
— Mais... — Eu
peço, uma palavra que eu nunca achei que nunca mais diria pra ninguém, mas que
agora sai como um comando desesperado para a mulher que me trouxe de volta do
mundo dos mortos. — Não para. Maldita seja, não para agora.
**Hanna**
Confesso
mentalmente pra mim mesma, que jamais imaginei estar transando no banheiro da
casa de alguém. Mais especificamente, sentada no tampo da privada, no colo de
um viúvo sessentão que passa o dia inteiro me enchendo o saco com regulamentos
de bairro. E me julguem, eu estou amando cada segundo disso.
Só o fato de você
não ter reclamado sobre ser inapropriado ou anti-higiênico já é um grande
avanço quando se trata de você.
— Cacete, você e
esse maldito suéter. — murmuro entre gemidos baixos e entrecortados, sentindo o
tecido áspero roçar contra minha pele a cada movimento.
A cada sobe e
desce, eu ouço você emitir sons dos quais nunca achei que sairiam da sua boca.
Rosnados abafados, respirações irregulares, pequenos gemidos que você tenta sufocar,
mas não consegue. Isso me excita, me excita tanto que eu consigo sentir a
lubrificação do meu corpo aumentar entre nós, facilitando cada investida.
Minhas mãos se
agarram aos seus ombros por sobre o tecido macio, e eu inclino o corpo um pouco
pra trás, arqueando as costas pra conseguir ver você entrar e sair de mim. A
visão é obscena, perfeita, deliciosa.
E quando te vejo
comprimir as sobrancelhas ao seguir meu olhar, percebendo exatamente o que eu
estou observando, eu sinto a primeira onda do meu orgasmo subir pelo meu
ventre, irradiando por todo corpo até chegar na minha espinha. É intenso,
avassalador, incontrolável.
— Me chama de
desequilibrada agora, enquanto eu gozo pra você, rabugento. — provoco com a voz
trêmula, quase sem fôlego.
Minhas unhas se
afundam no tecido até encontrarem a pele debaixo dele, arranhando sem piedade.
Minha cabeça tomba involuntariamente pra trás, lábios entreabertos enquanto meu
corpo dá espasmos de prazer, te apertando ainda mais dentro de mim, pulsando ao
redor de você em ondas que parecem não ter fim.
** Otto **
Eu estou em queda
livre. O mundo lá fora, o churrasco, as regras sobre o horário do caminhão de
lixo, tudo isso evaporou, deixando apenas o calor abafado deste banheiro e a
visão de você arqueando as costas. Eu vejo as tatuagens se esticarem, vejo o
suor brilhar na pele branca, e a visão é tão obscena que minha mente moralista
deveria entrar em colapso. Mas ela não entra. Ela se expande, devorando cada
detalhe daquele caos.
Quando você me
provoca, pedindo para ser chamada de “desequilibrada”, eu sinto um rosnado
subir do fundo do meu peito. É um som animal, algo que eu não sabia que existia
em mim, um som que rasga a fachada do velho metódico.
— Você é... você
é uma louca, Hanna! — Eu respondo, a voz saindo num sussurro gutural, enquanto
minhas mãos se apertam nas suas ancas, guiando o ritmo com uma urgência que
beira a violência. — Uma louca desequilibrada que... que acabou comigo!
Eu sinto suas
unhas atravessarem o suéter, encontrando a minha pele, e a dor é um combustível
que me faz subir contra ela com mais força. Quando ela começa a ter os
espasmos, me apertando com uma intensidade que faz minha visão escurecer nas
bordas, eu sinto que cheguei ao meu limite. A sensação de ser sugado por ela,
de sentir o prazer dela pulsando ao meu redor, é a coisa mais avassaladora que
já experimentei.
— Hanna... — Eu
gemo o nome dela, não como um protesto, mas como uma oração distorcida.
Meu corpo inteiro
fica rígido. Eu sinto a pressão subir, o sangue latejando nas têmporas, e então
a represa rompe. Eu me enterro o mais fundo que consigo, soltando um gemido
longo e abafado contra o pescoço dela, enquanto meu próprio orgasmo me atinge
como uma onda de choque. Eu sinto cada fibra do meu ser vibrar, uma descarga de
energia que parece querer me desintegrar ali mesmo, no colo da mulher que eu
jurei odiar.
Eu fico ali,
ofegante, com a testa encostada no ombro dela, sentindo o coração dela bater
contra o meu como dois tambores descompassados tentando encontrar um ritmo
comum. O cheiro de baunilha agora está misturado com o cheiro de suor e de algo
cru e real.
O silêncio volta
ao banheiro, mas é um silêncio quebrado pela nossa respiração pesada. Eu
percebo que ainda estou segurando-a com força, como se ela fosse a única coisa
que me impede de cair no esquecimento. Eu... Eu acabei de transar no banheiro
de um vizinho com a mulher que não tem nem tem metade da minha idade. Eu
deveria estar horrorizado. Eu deveria estar planejando meu próprio funeral por
vergonha.
Mas, enquanto eu
sinto o calor dela diminuindo gradualmente, a única coisa que eu consigo
pensar, com uma clareza assustadora, é que eu nunca me senti tão vivo em toda a
minha maldita vida. Eu olho para a porta trancada e depois para ela, e um
pensamento ridículo e rabugento cruza a minha mente: espero que ninguém tenha
notado que eu demorei mais de cinco minutos para verificar a pressão do gás.
— Você... — Eu
começo, tentando recuperar a voz, mas parando apenas para beijar a pele úmida
do pescoço dela. — Você é o pior desastre que já aconteceu neste bairro, Hanna.
E eu... eu acho que não quero que ninguém venha limpar essa bagunça.
**Hanna**
Quando meu corpo
finalmente para de ter espasmos, eu afasto o rosto só pra te olhar. Inteiro
suado, fisicamente derrotado e moralmente destruído. A visão é tão satisfatória
que eu quase gemo de novo.
— Quero memorizar
essa cena na minha mente. — confesso, observando cada detalhe do seu rosto
transtornado. — Pra quando você for reclamar de algo na minha porta, eu lembrar
de você assim, latejando dentro de mim.
Te encaro com uma
paciência que contrasta brutalmente com o ritmo frenético de instantes atrás,
saboreando o momento.
— Quero lembrar
desse cheiro de sexo, suor e perfume. — continuo, inalando fundo o ar carregado
entre nós.
Seguro seu rosto
entre as mãos e passo a língua pela lateral do seu rosto de forma lenta e
provocativa. Adoro suas reações às coisas “inapropriadas” que faço ou falo. Sua
expressão dividida entre choque e desejo nunca envelhece.
Apoio a mão na
pia ao lado pra me ajudar a ter forças pra me desencaixar de você e levantar.
Você escorrega pra fora de mim, melado, e eu sorrio enquanto ajeito novamente a
calcinha no lugar, sentindo o quanto estou ensopada.
— Limpa isso com
seu lencinho. — digo em tom de deboche. — Porque eu vou ficar com você
escorrendo entre minhas pernas. Gosto da ideia.
Apoio as costas
contra a parede oposta do banheiro, abaixando o vestido, ajeitando o tecido
amarrotado enquanto te observo ainda sentado ali, processando o que acabou de
acontecer.
— Certeza que
todo mundo sentiu nossa falta no churrasco... — comento com um sorriso torto
nos lábios. — E eu vou adorar ver a desculpa esfarrapada que você vai inventar
caso alguém pergunte algo. Aposto que vai ser sobre verificar o encanamento ou
alguma merda do tipo.
** Otto **
Eu fico ali,
sentado no tampo da privada, sentindo o ar frio do banheiro atingir minha parte
exposta de uma forma que me faz sentir cada centímetro do meu erro... e do meu
acerto. A imagem de Hanna me olhando com aquela satisfação predatória é algo
que nenhum regulamento de condomínio poderia prever. Quando ela diz que quer
memorizar a cena, eu sinto um arrepio que não tem nada a ver com o frio. Ela me
tem. Ela sabe que me tem.
— Você é... você
é um perigo público, menina. — eu consigo dizer, a voz ainda rouca, enquanto a
sinto passar a língua pelo meu rosto.
O gesto é tão
impróprio, tão... sujo, que meu cérebro tenta disparar um alerta moral, mas meu
corpo apenas reage com um espasmo de desejo residual. Eu a observo se levantar,
o som dela se desencaixando de mim ecoando nas paredes de azulejo como um
veredito final. Quando ela me diz para limpar “isso” com o meu lenço e confessa
que vai me deixar escorrer pelas pernas dela... eu sinto que o eu que eu
conhecia acaba de ser enterrado sob sete palmos de terra.
Eu pego o lenço
de papel do bolso — o mesmo tipo de lenço que eu uso para limpar manchas de
café ou poeira dos corrimãos — e olho para ele. É um gesto mecânico, uma
tentativa desesperada de recuperar um fragmento da minha dignidade metódica. Eu
me limpo com movimentos rápidos, quase furiosos, enquanto tento não olhar para
ela ajeitando o vestido.
— Ninguém sentiu
falta. — eu minto, a voz falhando enquanto subo o zíper da calça com um som
definitivo. — As pessoas estão ocupadas demais se entupindo de gordura e
ouvindo música ruim para notar a ausência de um velho e de uma... de uma
desequilibrada.
Eu me levanto, as
pernas um pouco trêmulas, e encaro meu reflexo no espelho acima da pia. Meu
rosto está vermelho, meu cabelo, que eu penteio com tanto cuidado, está
desalinhado, e meus olhos... meus olhos têm um brilho que eu não via desde que
Sonya ainda ria das minhas piadas sem graça.
— Eu vou dizer
que a pressão do gás estava instável e que eu precisei verificar as válvulas de
segurança da casa. — eu digo, tentando recuperar o tom autoritário, embora
saiba que soe patético agora. — É uma explicação técnica. Ninguém questiona
explicações técnicas.
Eu me aproximo
dela, parando a poucos centímetros. Eu deveria estar com raiva. Eu deveria
estar planejando como evitá-la pelo resto da vida. Mas, em vez disso, eu
estendo a mão e, com uma delicadeza que me surpreende, ajeito uma mecha daquela
franja desfiada que eu tanto critiquei.
— Não pense que
isso muda as regras, Hanna. — eu sussurro, aproximando meu rosto do dela uma
última vez, o cheiro de baunilha e sexo agora permanentemente associado à minha
ruína. — Se eu vir aquele gato no meu gramado amanhã, eu ainda vou bater na sua
porta. Mas... — Eu hesito, um sorriso amargo e faminto surgindo nos meus lábios
— ...talvez eu não esteja segurando o regulamento na mão quando você abrir.
Eu giro a chave
da fechadura. O clique soa como o início de uma nova era. Eu abro a porta
apenas uma fresta, verificando o corredor com a cautela de um espião, antes de
sair. Eu sou um homem de ordem. E eu acabei de descobrir que a desordem tem o
gosto mais doce do mundo.
— Saia cinco
minutos depois de mim. — eu ordeno, sem olhar para trás. — E, por favor...
tente não nos entregar para o Miller. Ele é um idiota, mas não é cego.
Eu marcho de volta para o churrasco, ajeitando o suéter e preparando minha cara de poucos amigos, mas por dentro, eu sinto que o “enferrujado” acaba de ser lubrificado com a substância mais perigosa e viciante que existe. E eu sei, com uma clareza absoluta, que o regulamento do condomínio nunca mais será lido da mesma forma.
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