sábado, 6 de dezembro de 2025

After The End.

 

O mundo terminou em silêncio — e foi ali que ele aprendeu o significado de permanecer.
Entre cabos, poeira e algoritmos, se reconstruiu com o que restava do planeta, com exceção a própria alma.

Então ela surgiu.
E o fim, pela primeira vez, pareceu um lugar pequeno demais pra conter os dois.

Essa não é uma história sobre sobrevivência, mas sobre o que ainda pulsa quando a vida já não existe, com o amor como último ato de humanidade, e o toque como afronta contra o esquecimento.

Inspirada no filme Finch, esta é uma releitura poética e visceral sobre o que significa sentir depois que o mundo deixa de sentir por você.

 

Chama-se sorte… ou talvez azar. Nunca fui muito bom com definições absolutas. A vida inteira me disseram que eu era um homem estranho, e talvez, por um tempo, eu tenha acreditado nisso. A verdade é que eu só tentei sobreviver da melhor forma possível num mundo que esqueceu como ser gentil. Um mundo onde cada dia é um cálculo de risco. Onde o silêncio pesa mais do que o medo.

Antes dela, Lily, minha rotina era quase monástica. Acordar. Conferir os painéis solares. Testar a radiação, o solo. Programar Jeff para suas aulas. Alimentar Goodyear. Registrar os dados no diário. Comer o que restava da última lata. Dormir em paz relativa… ou em ansiedade muda.

Depois do colapso, fui me desfazendo das partes de mim que não eram úteis: conversas supérfluas, sorrisos educados, qualquer coisa que lembrasse contato humano. Eu era funcional. Preciso. Rígido como as diretrizes do código que eu mesmo escrevi.

Até que um dia, enquanto rastreava tempestades solares, ouvi um alarme que não soava havia anos.

Alguém estava perto demais.

Quando a vi pela primeira vez, confesso, minha mente hesitou. Ela parecia um artefato de um tempo esquecido: cabelo colorido, azul já desbotado, como aqueles anúncios velhos de tintura. Corpo coberto por alguns desenhos e metais que brilhavam como se não combinassem com mundo atual. Ela sangrava. Estava ferida. Cansada. Mas viva. Viva de um jeito que eu tinha esquecido como era.

Fui gentil com ela. Até um pouco desesperado por achar se tratar de uma alucinação.

Minha voz saiu trêmula. Meus olhos, cautelosos. Mas por dentro, meu coração... ele gritou.

Fazia tanto tempo desde a última vez que alguém me olhou nos olhos.

Levei-a pra dentro. Cuidei dela. Conversei com Jeff sobre.

Observei-a dormir na cama improvisada como se fosse um gato selvagem recém-domado, ainda em alerta, mas exausta demais pra lutar.

Nos primeiros dias, não falei muito. Ela também não. Eu havia me esquecido como puxar conversa.

Mas seus olhos me encaravam como se pudessem me desmontar. Como se estivessem tentando entender cada parafuso dentro da minha alma. E eu… eu deixei. Porque algo nela me lembrava que eu ainda era humano. Que ainda sentia. Que ainda desejava algo.

Ela provocava.

Questionava por que eu anotava tudo num caderno velho, por que usava roupas tão largas, por que minha barba parecia uma cerca viva.

Eu havia me descuidado, me perdido no tempo.

Ela ria de coisas pequenas.

Zombava do jeito estabanado que Jeff andava.

Chamava Goodyear de “o verdadeiro chefe dali”.

E pouco a pouco… meu motorhome começou a parecer menos com um bunker e mais com um lar.

Lembro do terceiro dia.

Ela encostou na bancada enquanto eu desmontava o rádio quebrado. Usava uma camiseta rasgada com a estampa de algum jogo, as pernas cruzadas em cima do móvel como se fosse dona de tudo.

“Você está há muito tempo sozinho?” — perguntou.

Parei por um instante. Pensei em mentir. Em dizer algo que afastasse a conversa. Mas respondi com sinceridade.

— Desde... desde antes do mundo acabar.

Ela apenas assentiu. Como se entendesse. Como se também carregasse esse silêncio dentro de si.

Depois disso, passou a me ajudar.

Organizava ferramentas, anotava distâncias, até ensinou Jeff a falar palavrões.

E eu… comecei a rir de novo. Às vezes só por vê-la brigar com a porta emperrada. Ou por me chamar de “paranoico” quando eu implicava com o jeito que ela ainda insistia em ver o mundo.

Não sei em que momento exato deixei de aceitá-la e comecei a desejá-la.

Mas sei o instante em que percebi que estava perdido:

Foi quando ela se sentou no chão do trailer, os joelhos dobrados, os olhos fixos nos meus…

E disse que sentia mais feliz dentro daquele veículo caindo aos pedaços do que em qualquer outro lugar desde o fim do mundo.

Talvez ali eu tenha entendido que o que eu construí… não era apenas um abrigo.

Era uma última chance.

De sentir, não apenas prever.

De viver, não apenas durar.

Ela trouxe de volta o som da vida.

Mesmo que às vezes fosse só o barulho de uma risada pro cachorro, ou o som da porta do pequeno banheiro sendo trancada com força porque “Jeff não sabe bater antes de entrar”.

Ela era caos.

Mas era meu caos.

E eu...

Eu estava pronto para enfrentar tudo com ela, se fosse o caso.

 

** Lily **

 

Nunca fui boa em compreender o que me leva a confiar em alguém. Especialmente depois do que o mundo virou. Já não existia espaço pra conforto, pra gentileza... pra laços. Mas Finch... ele apareceu como uma anomalia num planeta devastado.

Lembro do sol batendo nos meus olhos naquela manhã em que me escondi embaixo de uma marquise qualquer, o corpo em frangalhos e a garganta arranhando como papel queimado. Eu estava quase convencida de que morrer ali, sozinha, seria mais honesto do que continuar fugindo.

Foi quando escutei passos. Não barulho de bota militar ou de gente apressada. Era um caminhar cuidadoso, hesitante, quase... curioso. E então eu o vi, alto, magro, com o corpo coberto por roupas especiais, já surradas, e aquele capacete velho que mal se segurava na cabeça. Ele parecia um andarilho solitário saído de algum livro esquecido, e mesmo assim, o olhar que lançou pra mim era de uma doçura que me desarmou mais rápido que qualquer arma.

Ele hesitou antes de se aproximar. Lembro do modo como pigarreou, do jeito atrapalhado com que ergueu a viseira suja, tentando parecer mais sociável do que realmente era.

“Hm... você tá bem?” — ele perguntou, quase tropeçando na própria voz.

Respondi com um aceno. Foi tudo que consegui. Talvez eu estivesse mais assustada do que cansada. Talvez... talvez fosse só o fato de alguém estar me olhando depois de tanto tempo.

Nos dias seguintes, ele me levou até o motorhome onde morava. Era um daqueles veículos antigos que pareciam prestes a desabar, mas Finch havia transformado aquilo num lar. Tudo ali tinha propósito, uma história, uma engrenagem feita por ele mesmo.

Ele tinha esse jeito meio professoral, explicando as coisas mesmo sem eu pedir, como se a voz dele estivesse mais acostumada a conversar com o robô do que com gente. Às vezes, quando ele se empolgava falando sobre energia solar, ou sobre os filtros de água que tinha desenvolvido, eu só sorria e deixava ele falar. Era bonito ver alguém ainda tão apaixonado por construir alguma coisa em um mundo que só sabia destruir.

No começo, eu dormia em silêncio no pequeno sofá ao fundo. Finch fazia questão de me deixar confortável, mesmo que isso significasse espremê-lo ainda mais nos próprios hábitos metódicos.

Mas à noite... à noite ele parecia mais humano. Ouvia música baixinha, sentava com uma xícara de algo quente, que eu nunca soube o que era, e desenhava em folhas velhas espalhadas pela mesa. Às vezes, ele me olhava como se ainda estivesse tentando entender o que eu fazia ali. Como se eu fosse um sonho que ele ainda não sabia se podia tocar.

Os dias viraram semanas, e eu passei a me sentir parte da rotina dele. Finch era metódico, mas também gentil. Me ensinava como cuidar das pequenas hortas que mantinha em recipientes improvisados, me mostrava o céu à noite com explicações que pareciam poesia científica.

A primeira vez que ele riu de verdade perto de mim foi quando eu escorreguei da cama improvisada, após um pesadelo. O riso dele foi sincero, quase infantil, como se tivesse esquecido que o mundo lá fora ainda era um campo de guerra. E eu ri também, porque naquele momento... ali dentro, nada parecia ameaçador.

Com o tempo, o que era silêncio confortável virou conversa. O que era distância virou proximidade. E o que era convivência virou vontade de ficar.

O modo como ele me olhava começou a mudar. Ainda era respeitoso, mas havia algo novo ali. Algo que acendia as pontas dos dedos dele quando ele esbarrava sem querer nos meus, quando me entregava um copo ou me cobria com um lençol velho nas noites mais frias.

E talvez o mais impressionante disso tudo é que ele não precisava dizer. Finch falava com os gestos tensos, sempre nervosos. Com os silêncios. Com os olhos. E eu entendia.

Entendia que ele era o homem mais bonito que eu já tinha conhecido, não pelos traços, mas pela alma calejada, gentil e solitária que aprendeu a cuidar, mesmo sem ter quem cuidar por tanto tempo.

O desejo veio manso, sutil, quase tímido. Como ele.

Veio quando ele me ensinava como aparar um fio que poderia dar curto na placa de energia. Quando me segurava pelo braço pra me chamar. Quando deixava o próprio “jantar” esfriar pra ver se eu estava bem.

Veio quando eu o vi suar limpando o motor, os músculos finos, os pelos úmidos, e aquele olhar que parecia pedir desculpas por existir.

E o mais louco?

Acho que foi eu quem desejei primeiro.

Foi eu quem quis... que ele me tocasse. Que ele me olhasse daquele jeito e fizesse algo a respeito.

Mas é claro que Finch seria Finch... e demoraria dias até entender o que eu já sentia no corpo todo.

 

** Finch **

 

A estrada se estica na frente como se nunca fosse terminar. Só um fio empoeirado entre o ontem e o nunca. Jeff está no banco de trás, absorvendo o silêncio como se fosse oxigênio. E Goodyear… bem, o velho companheiro ronca baixinho no canto, enrolado no cobertor surrado como se o fim do mundo fosse só mais uma noite quente.

Mas é ela, no banco do passageiro, que me desconcerta de verdade.

De vez em quando, olho de canto. A vejo com o pé descalço apoiado no painel, o cabelo desbotado, bagunçado pelo vento que entra pela janela rachada, e aquela expressão… entre curiosidade e receio.

Ela é jovem. Jovem demais pra estar aqui, nesse mundo que acabou e não se deu ao trabalho de avisar. Mas teimosia é um troço que reconheço de longe. E ela tem disso de sobra.

— Vai ficar calada até quando? — brinco, com um meio sorriso torto, mantendo os olhos na estrada.

Ela me encara de lado, mas não responde. Só joga o corpo um pouco mais pro banco, abraçando os joelhos. A pele riscada por tatuagens, os olhos âmbar grudados em mim como se tentassem decifrar alguma coisa que eu mesmo já desisti de entender.

Silêncio.

Acho que foram uns bons dez minutos de nada antes dela finalmente falar. A voz baixa, um pouco rouca de calor, mas firme:

— Quem você era antes de tudo isso?

A pergunta vem como um estalo seco. E quando ela me encara, o mundo parece encolher um pouco dentro do motorhome.

Solto o ar devagar. Minha mão vacila no volante. O olhar aperta. A boca abre, depois fecha… e o peito afunda. Porque… nossa… ela acabou de fazer a pergunta que eu mais fugi nos últimos anos.

Pisco algumas vezes. Ajeito o boné na cabeça. A mão sobe até a nuca, coça ali como quem tenta achar uma resposta que não sabe se quer mesmo achar.

— M-minha história, hein… — murmuro, a voz arrastada, meio rouca, meio falha. — Tá… você pediu por isso, pequena… então se prepara, porque não tem nada de bonito nela.

Silêncio...

— Eu era engenheiro. Trabalhei com desenvolvimento de sistemas, automação, IA… essas coisas. Trabalhava pra uma empresa que… bem, na época parecia que tava salvando o mundo. E... acho que no começo… até tava. — respiro fundo, o peito pesando mais a cada palavra. — A gente desenvolvia tecnologias pra energia limpa, sustentabilidade, essas coisas que hoje… bom… hoje são piadas pra mim.

Aperto o volante com mais força. O olhar fica duro, apertado.

 — Quando tudo começou a desmoronar... eu tava lá. Vi as primeiras notícias. Vi os sensores mostrando o que ia acontecer. O que já tava acontecendo. Mas, como todo mundo, eu achei que iam consertar. Que alguém, em algum lugar, ia resolver. Que ia ter uma saída. — a voz falha. — Mas não teve.

Puxo o ar com mais força, quase como se me faltasse. A mão treme um pouco.

— A camada de ozônio… você sabe, né. Explosões solares, radiação… a Terra começou a fritar por dentro. A comida morreu. As pessoas morreram. E quem não morreu… bem… começou a matar umas às outras.

Silêncio. Só o motor. Só o som do vento batendo na lataria. Só isso, e o som do passado me esmagando por dentro.

— Eu tentei ficar nas cidades no começo. Tentei… tentei achar gente. Tentei ajudar. Mas… — fecho os olhos por um segundo, só um segundo. — O que eu vi… o que eu vi... pequena... ninguém devia ter visto. — a voz quebra. — Ninguém. Nem você. Nem eu. Ninguém.

Solto o ar. Aperto o volante até os dedos doerem.

— Quando percebi que não tinha mais cidade, não tinha mais governo, não tinha mais nada… eu só... saí. Peguei o Goodyear. Peguei esse trailer. Peguei tudo que podia. E comecei a dirigir. Só... dirigir. Sem rumo. Fugindo do fim.

A mão sobe até o rosto. Aperto os olhos. Balanço a cabeça.

— E aí... no meio disso… eu percebi que… uma hora… eu não ia mais tá aqui. Que ia acabar pra mim também. E…e eu não podia deixar o Goodyear sozinho.

Engulo seco sem explicar a ele exatamente o porque. O olhar segue firme na estrada, mas meu peito não.

— Então... eu construí o Jeff. — olho rápido pelo retrovisor, onde ele está, meio encolhido, as luzes piscando. Sempre ouvindo tudo e comentando baboseiras.

— Era pra ele cuidar do cachorro. Me enterrar, se fosse o caso. Era só isso. Um plano de emergência. Mas... acabei dando pra ele mais do que devia. E ele... bem... virou isso aí. — balanço a cabeça, entre um riso abafado e um nó na garganta.

Me viro um pouco, olho pra ela.

— E agora... agora tem você. Você, pequena... apareceu. E...

A voz falha. O peito aperta novamente. A garganta queima.

— ...e eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo. Mas... Deus do céu... eu sei que... que eu não quero... não quero que você nos deixe.

Solto uma risada curta, nervosa, arranhada. Meio rouca, meio triste.

— Pronto. Tá aí. Minha história. Uma bela porcaria, né?

Pausa. Me apoio no volante com os dedos tensos, sem coragem de olhar de novo.

— Agora... agora é sua vez, pequena.

Minha voz sai mais baixa, mais íntima, como se o mundo inteiro tivesse sumido e só restasse a poeira e ela.

— O que você perdeu? O que você amou? O que deixou pra trás... nesse mundo lascado?

 

** Lily **

 

Quando ele termina de falar, o silêncio dentro do trailer pesa mais do que qualquer coisa que a gente já tenha enfrentado na estrada. Nem o barulho do motor, nem o som metálico da lataria chacoalhando com o vento conseguem disfarçar o nó que se forma na minha garganta.

Eu abaixo o olhar. Minhas mãos descansam no colo, apertadas uma contra a outra, como se assim eu conseguisse manter dentro tudo que ainda não fui capaz de dizer.

Eu sabia que ele tinha cicatrizes. Claro que sabia. Cada ruga do seu rosto cansado conta uma história, cada gesto meio atrapalhado tentando me proteger grita que o mundo que ele conheceu já acabou faz tempo. Mas ouvi-lo dizendo... assim, com essa voz rouca, baixa, doída...

Doeu em mim também.

Demoro um pouco pra conseguir levantar os olhos. Quando levanto, Finch ainda está ali, com aquela expressão desconcertada de quem acabou de se expor mais do que deveria. A boca entreaberta, o olhar tenso, meio envergonhado... como se tivesse medo de ter dito demais. Medo de que eu julgasse, ou pior, que eu simplesmente me levantasse e fosse embora num dia qualquer.

Mas eu não vou. Nem quero ir.

Respiro fundo. Solto o ar devagar. Sinto ele doer nas costelas, como se cada palavra que vem a seguir já tivesse vivido anos dentro de mim esperando um lugar seguro pra sair.

— Eu perdi tudo também... — minha voz sai mais baixa do que eu esperava. — Mas acho que, diferente de você, eu não sabia que era o fim quando tudo começou a ruir.

Passo as mãos nos braços, como se quisesse afastar o frio que nem está aqui.

— No começo, parecia só mais um verão difícil. Calor demais, água de menos. Meu pai dizia que era culpa do governo, minha mãe culpava a ciência. Eu... eu só queria continuar indo pra escola sem derreter no caminho.

Dou um riso curto, quase triste.

— Mas aí... os alimentos começaram a sumir. A energia, a água limpa. As pessoas começaram a mudar. E quando o primeiro vizinho morreu tentando proteger um galão de gasolina... eu entendi.

Pisco algumas vezes, forçando os olhos pra não deixarem escapar mais do que deviam. Mas ele continua me olhando. E eu não consigo fingir com isso.

— Eu tentei ficar com eles. Com meus pais. Mas... teve uma noite. Uma daquelas em que o céu parecia uma boca aberta cuspindo fogo. Um grupo invadiu nossa casa. E eu... — engulo seco — ...eu corri.

Paro. A respiração falha. O peito afunda.

— Eu corri, Finch. Corri sem olhar pra trás. Corri porque se eu tivesse ficado... eu também teria morrido.

A boca treme um pouco. Eu fecho os olhos. Deixo o vento quente entrar pela janela entreaberta e bater no meu rosto como se isso pudesse apagar alguma coisa.

— Desde então, nunca mais dormi no mesmo lugar duas vezes. Nunca confiei em ninguém. Nunca deixei que ninguém se aproximasse... até você.

E agora, aqui dentro, no meio do nada... com ele me olhando desse jeito, com essa dor escondida nos olhos, com essa mania de me chamar de “pequena” como se eu fosse a última parte viva do mundo...

...eu me sinto bem pela primeira vez em muito, muito tempo.

Desvio o olhar, mas é tarde demais. Eu já me entreguei. E ele sabe disso.

— Então... não — sussurro — eu não vou embora.

Viro de volta pra ele, com a voz firme apesar do tremor.

— Não agora. Não enquanto eu ainda tiver você. E o Goodyear. E até o Jeff, com aquelas perguntas sem sentido dele.

Jeff comenta algo sobre sermos uma família disfuncional e maluca ao fundo do trailer.

Solto um meio sorriso. Um pequeno alívio escapa por entre os lábios.

— E se a gente tiver sorte... talvez essa estrada leve a algum lugar onde ainda seja possível recomeçar.

Ou pelo menos... morrer tentando. Juntos.

 

** Finch **

 

Ela me olha. E quando diz que não vai embora... alguma coisa dentro de mim... se revira.

Devagar, sem fazer alarde, sem som. Só... desperta.

Meus dedos ainda estão firmes no volante, mas a tensão já se foi. E por um instante... eu sinto como se o mundo tivesse parado lá fora.

Não tem mais radiação. Não tem mais silêncio mortal. Não tem mais céu vermelho ameaçando tudo. Só ela. Só sua voz dizendo que vai ficar. Que quer tentar. Que ainda acredita em alguma coisa.

Solto o ar pela boca, olho pra estrada sem ver nada.

— Obrigado... — sussurro. Quase sem querer. Como se o corpo falasse antes da mente.

Eu não devia. Eu devia ficar calado. Fingir que não mexe comigo. Fingir que ela é só mais alguém que caiu aqui de paraquedas... que vai embora na próxima parada. Como todas as coisas boas que já tive.

Mas eu não consigo.

Viro um pouco o rosto. O suficiente pra vê-la pelo canto do olho, com as pernas cruzadas em cima do banco, a testa levemente franzida. Como se ainda estivesse digerindo tudo.

— E-eu fico pensando... — falo mais baixo agora — ...como é que duas pessoas tão opostas conseguem se encontrar... num mundo onde ninguém mais se acha.

Dou uma risada curta, sem humor.

— Não sei se... se é sorte ou... sacanagem do destino.

Ela sorri. De leve. Mas eu vejo.

E isso já basta pra aquecer uma parte do meu peito que eu achei que tinha morrido junto ao planeta.

Jeff se remexe lá atrás. Goodyear solta um resmungo e apoia o queixo nas patas. A estrada continua. E pela primeira vez em muito tempo... eu quero que ela não acabe.

Quero dirigir até os ossos virarem pó, se for pra mantê-la aqui, comigo.

Quero memorizar seu cheiro, sua respiração, até seus silêncios.

Quero... Meu Deus. Eu quero tudo. E isso me assusta.

Respiro fundo. A voz sai arrastada de novo.

— Eu não sou bom nisso, pequena... — confesso. — Não sei ser... esse cara que você talvez mereça. Mas... — olho de novo pra frente — ...eu posso tentar.

Solto uma das mãos do volante e a deixo pairar entre nós. Não a toco. Só deixo ali. Perto o suficiente pra ela sentir.

Porque agora... é tudo que posso oferecer.

Confiança, assim... nua. Crua. Dolorida.

 

** Lilly **

 

Horas mais tarde, a noite veio pesada, abafada, como se o céu carregasse o peso de mil segredos prestes a se romper. O calor fazia o tecido da minha camiseta colar nas costas, mesmo sem esforço físico. Finch deixou a escotilha do trailer entreaberta pra tentar puxar algum vento, mas tudo que veio foi um silêncio anormal, estranho demais.

O cachorro já tinha se enfiado debaixo da pequena mesa, resmungando baixinho com cada trovão distante. Eu fiquei deitada na cama estreita, as pernas encolhidas, o travesseiro debaixo do rosto, esperando o sono me buscar, mas não veio.

Foi quando o primeiro estouro rasgou o céu.

Me levantei na hora, instintivamente. O barulho foi mais seco do que eu esperava, quase como uma explosão próxima. A terra ainda em recuperação parecia amplificar tudo, e o trailer inteiro tremeu com a força da ventania que veio logo depois.

— Finch? — chamei baixo, saindo do quarto minúsculo.

Ele estava sentado no pequeno sofá, à frente dos monitores, checando alguma coisa no painel, a expressão tensa, mas sem dizer nada. Ele virou apenas o rosto com aquele olhar meio surpreso de sempre, como se não esperasse me ver.

— Tá tudo bem. — disse, hesitante. — É só... só uma tempestade.

— Só uma tempestade? O chão tremeu, Finch!

Outro raio cortou o céu, e a luz branca atravessou a fresta da escotilha, iluminando nossas sombras contra a parede de aço. O som veio um segundo depois, mais forte, mais próximo. Goodyear gemeu de novo, e eu tive que respirar fundo pra não me encolher como ele.

Voltei pro quarto em silêncio. Deitei de novo.

Mas não consegui dormir.

— Finch... — chamei da cama, sentindo minha voz trêmula pela primeira vez desde que cheguei. — Dorme aqui comigo hoje?

Demorou alguns segundos. O trailer inteiro parecia segurar a respiração junto comigo. Ele finalmente apareceu na porta do quarto, os ombros rígidos, os olhos baixos.

— Hm... tá... claro. Se... se você quiser.

— Eu quero. Vem logo. — dei um espaço mínimo ao meu lado, apertando o travesseiro contra o peito.

Ele hesitou. Tirou o boné. Passou a mão na testa. Sentou devagar ao meu lado. O colchão afundou levemente, e meus dedos se enroscaram no lençol sem querer.

Outro trovão. Mais um solavanco do trailer.

Virei de lado, de costas pra ele. Encostei de leve.

— Pode... me abraçar?

Silêncio.

Então, senti seu braço pairar no ar. Tenso, desajeitado, como se calculasse o movimento em câmera lenta. Toquei seu punho com a ponta dos dedos, e puxei. Puxei o braço dele em volta de mim até sua mão encostar no meu estômago, e meus quadris se encaixarem levemente contra os dele.

— Assim, Finch. — sussurrei, fechando os olhos.

Ele respirou fundo atrás de mim. O peito dele subia e descia devagar contra minhas costas. A pele dele era quente. As pontas dos dedos hesitavam sobre minha barriga, sem saber se deviam se mexer ou congelar ali.

Goodyear subiu pra cama aos nossos pés. Se ajeitou ali, como um sentinela de quatro patas.

Jeff, pra variar, estava viajando dentro de sua própria mente de lata. Sempre com as engrenagens nas nuvens.

Ficamos assim.

O som da tempestade virou um plano de fundo, como se o fim do mundo fosse menos importante do que esse toque entre nós.

Eu fechei os olhos, e finalmente... dormi em paz.

 

** Finch **

 

O silêncio da manhã parecia mais limpo depois da tempestade. Ainda havia pingos no vidro da escotilha, escorrendo devagar, como se o céu estivesse exalando o resto do que guardou durante a noite. Mas aqui dentro… tudo era morno.

Quente, na verdade.

Ela ainda estava dormindo.

Deitada de lado, a respiração lenta, ritmada. Meu braço ainda em volta do corpo dela. E, por algum motivo que me escapava, eu não queria me mexer. Nem um centímetro.

Senti a leveza do corpo dela contra o meu, encaixado como se já conhecesse cada parte de mim. A pele dela sob meus dedos, mesmo por cima do tecido, ainda parecia me queimar — não de dor, mas de um calor que eu não sabia como lidar.

Goodyear soltou um suspiro longo aos nossos pés, se ajeitando, como se aprovasse tudo aquilo.

Era estranho. E bonito. E... desconcertante.

Pisquei devagar, tentando me convencer de que aquilo estava mesmo acontecendo. Que eu estava ali, deitado numa cama com ela, como se fosse algo normal. Como se isso fosse uma rotina qualquer entre duas pessoas normais.

Mas não éramos.

Ela tinha pedido pra eu deitar com ela. E depois... depois ela puxou meu braço. Meus dedos ainda estavam ali, sobre a barriga dela. Parados. Imóveis. Porque eu não sabia o que fazer. Ou o que era esperado de mim.

Mas ela não esperava nada.

Ela só queria dormir abraçada.

E eu... bom, eu queria estar ali. Não porque ela pediu. Mas porque estar ali, com ela, era talvez a primeira coisa em anos que fazia sentido no meio desse mundo devastado.

Respirei fundo, o nariz perto do cabelo dela. Cheiro de sono e alguma coisa que era só dela.

Me permiti fechar os olhos por mais alguns segundos. Só mais alguns.

Como se aquele instante fosse o último lugar seguro da Terra.

E talvez fosse mesmo.

 

** Lily **

 

Eu acordo tão confortável que chega a ser um crime.

A coberta mal cobre os dois, mas o calor dele preenche tudo. Minha perna levemente encaixada sob a dele, o peito colado às minhas costas, o braço dele ainda me envolvendo por inércia. Eu poderia passar dias assim, presa nesse pedaço de mundo em que nada mais existe.

Sinto o corpo dele rígido, hesitante. A respiração um pouco contida, como se ele tivesse medo até de engolir em seco.

O coitado está desconcertado.

Abro um dos olhos devagar, depois o outro. Viro só um pouquinho o rosto, só o suficiente pra ver o perfil dele acima do meu ombro.

O jeito como ele olha pro teto, pro nada, como se estivesse buscando uma desculpa qualquer pra sair dali sem me acordar. Como se eu fosse feita de vidro.

— Você tá preso — murmuro, a voz arrastada, ainda sonolenta. — Então nem tenta escapar.

Ele abre a boca, mas nenhuma frase concreta sai. E eu juro que nunca vi nada tão bonito e tão perdido ao mesmo tempo.

— E-eu só tava tentando não te acordar — ele gagueja, mexendo o braço com a delicadeza de um ladrão desarmando uma bomba.

— Muito nobre da sua parte — respondo, com um meio sorriso preguiçoso. — Mas eu gostei de acordar assim.

Deslizo os dedos pela mão dele até entrelaçar os nossos. E puxo de leve pra que o braço volte a me envolver por completo.

Ele engole em seco. Eu sinto.

Talvez ninguém tenha feito isso com ele há muito tempo. Ou talvez ninguém nunca tenha feito.

A forma como ele fica quieto, a forma como ele me segura de volta sem saber se deve...

Tem algo tão puro e tão cruel nisso.

— Fica mais um pouco... — peço, e dessa vez minha voz sai quase como um suspiro. — Só mais um pouco.

Ele assente. Sutil. Quase travado.

E é nesse momento que eu me viro de vez, bem devagar, ficando de frente pra ele. A cama é pequena demais. Nossos narizes quase se tocam. E ele me olha como se tivesse esquecido como faz isso.

— Tá tudo bem — sussurro, tocando o queixo dele com os dedos. — Você não precisa fugir agora.

E antes que ele tente achar outra desculpa, antes que ele desvie de novo, eu me inclino e encosto meus lábios nos dele.

Não tem pressa.
Só tem... desejo calmo, necessidade doce, urgência sutil de sentir que ele é real.

Os lábios dele cedem devagar.

O mundo lá fora não importa.

Só nós dois... ali.

A cama estreita, o cheiro de preguiça, e a certeza de que alguma coisa mudou.

 

** Finch **

 

— Você... tá confortável aí? — murmuro baixinho, tentando manter a voz firme, mas ela sai meio presa na garganta. Minha mão ainda está onde você deixou, em volta do seu corpo. E eu... eu não consigo tirar.

A verdade é que eu não quero.

Seu corpo encaixado no meu, quente, calmo. Você suspira, preguiçosa, aconchegada de um jeito que parece que já me conhecia há anos. A cama pequena vira quase um casulo. E você... você faz parecer que esse casulo é o lugar mais seguro do mundo.

— Isso é por causa da... da tempestade? — tento brincar, a boca dando um meio sorriso sem graça.

Mas você nem responde. Só se ajeita melhor, puxando minha mão com mais firmeza, como se dissesse “fica”, sem precisar dizer nada.

E eu fico.

Fico porque tem algo bonito demais nisso. Em como você parece em paz, mesmo aqui, mesmo comigo. Fico olhando seu rosto de lado, as pálpebras pesadas, os cílios longos. Você abre um olho só, preguiçosa. E sorri.

Meu coração dispara.

— Você sabe que eu sou péssimo com essas coisas, né? — cochicho. — Relações humanas. Proximidade. Essas coisas que não dá pra programar...

Você vira o rosto de vez. Me encara. E não fala nada.

Só beija.

Um beijo sem pressa. Real.

Eu nem me mexo no começo. É como se o mundo parasse. Só depois que minha mão desliza com cuidado pra sua cintura antes de travar no meio do caminho. Minha boca responde à sua. E, por um segundo, eu esqueço de tudo.

O fim do mundo.

O medo.

Tudo some.

Só sobra você aqui, colada em mim. Como se esse abraço... fosse o lugar onde eu sempre devia ter estado.

 

** Lily *

 

Horas depois, naquele mesmo dia, Jeff tentava imitar o jeito que eu corria atrás do Goodyear, mas parecia mais um poste de ferro em colapso do que uma imitação de ser humano de verdade. Eu ria até perder o fôlego, caindo sentada na sombra da estrutura abandonada que ainda resistia ao sol lá fora.

Goodyear voltou com a língua de fora, deitando a cabeça no meu colo, enquanto Jeff soltava um:

— Viu só? Sou quase natural.

— Quase... — respondi, rindo alto.

Por um instante, eu esqueci. O mundo. A dor. O medo. Era como se estivéssemos em algum parque, numa tarde qualquer, só quatro “almas” tentando inventar uma vida onde ela não existia mais.

Quando me virei, ele estava sentado num canto, o olhar sempre atento, o boné baixo demais no rosto. Trazia aquele meio sorriso contido que eu aprendi a gostar. Mas então tossiu. Tossiu forte.

— Tá tudo bem. — disse rápido, limpando a boca com a mão, como quem espanta mosca. — É só o calor. O ar seco.

Eu acreditei. Não fazia sentido não acreditar.

Sorri, ainda arfando da corrida, e me aproximei dele.

— Então vem pra sombra, velho teimoso. Vai que você derrete no sol antes da gente.

Ele riu sem graça, ajeitando o boné, como sempre fazia quando queria mudar de assunto.

E eu… bem, eu continuei rindo também. Porque era mais fácil acreditar que estávamos só vivendo. Que o fim do mundo podia esperar até amanhã.

 

** Finch **

 

...Eu devia contar.

Devia olhar nos olhos dela agora, enquanto ainda há tempo, e dizer a verdade inteira. Mas cada vez que penso nisso, sinto como se estivesse arrancando o pouco de chão que ela finalmente encontrou pra pisar.

Ela ri com Jeff, corre com o Goodyear, volta ofegante e feliz como se tivesse esquecido que o mundo acabou. E eu... eu não consigo destruir isso. Não consigo colocar nas mãos dela o peso que já me afunda todos os dias.

A verdade é cruel demais.

A tosse não é calor. Não é poeira. É meu corpo me lembrando que já não tenho tanto tempo assim. Que cada dia é uma sorte absurda. Que o fim não está só lá fora, está aqui dentro também.

Mas ver ela sorrir… ver aqueles olhos vivos, aquela teimosia de quem insiste em acreditar… eu não vou arrancar isso dela. Não vou ser eu a matá-la em vida, antes da morte chegar.

Se um dia eu partir, e eu sei que esse dia vai chegar, Jeff vai estar aqui. Ele foi feito pra isso. Não só pro cachorro, não só pra enterrar memórias. Ele vai cuidar dela. Vai falar demais, vai errar nos gestos, mas vai aprender. E o Goodyear... o Goodyear nunca vai deixá-la sozinha.

Penso nisso e o peito aperta.

Eu queria poder prometer que vou estar sempre aqui. Que vou protegê-la de tudo. Que vou ensinar cada detalhe pra ela nunca mais sentir medo. Mas não posso.

Então guardo o segredo.

Guardo porque ela merece mais uma risada, mais uma tarde jogada no chão com o cachorro, mais um sorriso bobo com Jeff imitando gente. Ela merece acreditar que o amanhã ainda existe.

E se for cruel esconder isso... que seja.

Prefiro ser cruel com a verdade, do que roubar dela a última beleza que esse mundo ainda tem.

 

** Lily **

 

Jeff estava sentado ao lado da porta, os leds piscando como se refletissem uma ansiedade que ele não sabia esconder. Eu me agachei na frente dele, o olhar fixo.

— Jeff... o Finch tá bem? — perguntei em voz baixa, quase num sussurro, como se não quisesse que o próprio Finch ouvisse lá do fundo do motorhome.

O robô travou por um segundo, a cabeça girou devagar demais. — F-fin...ch está... bem. Está... sempre bem.

Não me convenci. Não dessa vez.

— Tem certeza? — insisti, estreitando os olhos.

— Finch... pediu... para eu... não... preocupar... você.

O jeito que ele disse aquilo foi pior do que se tivesse confirmado. Minha boca secou, o estômago revirou. Me levantei, andei até a janela estreita, vi o reflexo frágil do homem que se forçava a parecer inteiro por nós três.

Ao cair da noite, não aguentei.

Peguei minha lanterna, enchi a mochila com alguns sacos vazios, subi a gola da jaqueta e deixei o trailer que estava estacionado no limite da cidade fantasma. As luzes apagadas atrás de mim pareciam me vigiar, mas eu precisava de ar. Precisava pensar.

As ruas eram puro silêncio, só vento assobiando entre prédios mortos. As placas enferrujadas, lojas saqueadas, o cheiro de poeira e ferrugem impregnando o ar. Passei a lanterna devagar, olhando cada sombra como se pudessem me engolir.

Eu buscava suprimentos. Água, comida, remédios. Qualquer coisa que pudesse ser útil. Mas, no fundo, eu buscava uma resposta também.

Alguma coisa não batia.

Ele tossindo daquele jeito, Jeff desviando, o olhar cansado demais. Não sabia do que eu tinha medo. Mas sabia que tinha alguma coisa.

O medo me acompanhou em cada esquina da cidade vazia. Não dos prédios caídos, não do mundo morto. Mas da ideia de perder ele.

E eu não sabia por quê.

Não ainda.

 

** Finch **

 

Acordei assim que senti o calor infernal do dia. O motorhome estava quieto demais. O cachorro encarava a janela, e o sofá… vazio.

Sentei devagar, a respiração já curta.

— Jeff… cadê ela? — minha voz saiu mais baixa do que queria, mas firme.

A voz robótica dele veio hesitante. — E-ela… saiu.

— Saiu? Como assim saiu? Meu Deus… — esfreguei o rosto com as mãos, o peito apertando. — Saiu pra onde? Você devia ter me acordado!

— Disse… que voltaria logo.

Meu coração disparou. A cabeça encheu de imagens ruins. Ela indo embora. Ela se perdendo. Ela… morta em alguma esquina de concreto.

Levantei num pulo, abri a porta do motorhome. O vento da manhã me acertou o rosto como um soco, seco, quente. Passei os olhos pela claridade excessiva.

Meu Deus… meu Deus…

Foi quando vi.

Lá, ao longe, caminhando pelas sombras do viaduto quebrado. E atrás dela… uma lona rasgada sendo arrastada no chão, cheia de coisas. Latas, roupas, garrafas amassadas, tudo que ainda podia servir.

E ela… sorrindo. Sorrindo de verdade, com o cabelo bagunçado pelo vento, o corpo pequeno, mas firme, como se tivesse encontrado ouro.

— Meu… Deus… — sussurrei, as pernas fraquejando de alívio.

Goodyear latiu baixo, abanando o rabo. Jeff girou a cabeça, tropeçou na escada.

E eu fiquei parado na porta, respirando fundo, vendo-a se aproximar. Feliz. Orgulhosa.

Enquanto eu só conseguia pensar no quanto estive a segundos de enlouquecer com a ideia de que ela tivesse sumido.

 

** Lily **

 

Entrei no trailer arrastando a lona até a mesa improvisada. Latas, roupas, garrafas e até alguns pacotes ainda fechados de remédio caíram sobre o metal fazendo um barulho.

Ele estava parado perto da porta, o olhar pesado em mim.

— Você podia ter morrido lá fora. — a voz dele soou firme, quase dura, mas eu vi a mão tremer quando ele ajeitou o boné. — Meu Deus, Lily... que diabos você pensou?

Coloquei uma garrafa d’água no canto, sem pressa, como se não tivesse ouvido. Mas eu ouvi. E não ia deixar passar.

— E você podia ter morrido aqui dentro. — respondi baixo, empilhando os enlatados. — De tosse. Da coisa que não quer me contar.

Ele respirou fundo, bufando, os ombros tensos.

— Não inventa... foi só o calor, o ar seco.

— Não. — virei o rosto, encarei ele de frente. — Você está escondendo algo de mim. Eu sei. Jeff sabe. E cedo ou tarde eu vou descobrir.

O silêncio que seguiu só aumentou a certeza. Ele desviou os olhos, caminhou até o painel do veículo. A chave girou e o motor roncou, enchendo o espaço com vibração metálica.

— Aonde você vai? — perguntei, ainda parada com uma lata na mão.

— Pra frente. — foi tudo o que disse, a voz trêmula, sem olhar pra mim.

Segurei o metal frio entre os dedos, tentando não surtar. Enquanto o trailer se punha em movimento outra vez, fiquei ali, guardando as coisas na prateleira, com a sensação de que não era só ele quem estava fugindo da estrada atrás de nós.

 

** Finch **

 

A cada dia que passava, eu sentia o corpo ceder mais um pouco. As pernas pesavam, o peito ardia quando a tosse vinha, e eu precisava me apoiar no volante pra não demonstrar o quanto estava exausto. Jeff via tudo, claro. E eu sabia que mais cedo ou mais tarde, ela também veria.

Mas eu não podia. Não agora. Deus… não enquanto ela ainda estava rindo, sorrindo com aquele cachorro no colo, brincando com o Jeff como se o fim do mundo fosse só uma lembrança ruim. Se eu abrisse a boca, se eu contasse… eu ia roubar isso dela. E eu não podia.

— Finch… — Jeff insistiu naquela tarde, as luzes piscando devagar. — Ela… merece… saber.

Respirei fundo, o nó preso na garganta.

— Eu sei, Jeff. Mas…, mas olha pra ela. — meus olhos foram até ela, adormecida, os cabelos bagunçados caindo sobre o rosto, um descanso que parecia impossível nesse mundo. — Se eu falar… eu destruo isso. Só… só mais um pouco.

Foi quando vi.

Uma linha metálica no meio da areia. Quase não acreditei nos próprios olhos.

Frei o trailer devagar, o coração disparando. O sol da tarde refletia numa porta de aço, enterrada no barranco como um segredo. Tão sólida, tão fora de lugar, que só podia ser coisa de alguém que acreditava que o dinheiro podia comprar até a sobrevivência.

— Meu Deus… — sussurrei, apertando o boné na cabeça. — É isso. É isso, Jeff.

Descemos. Jeff analisou a estrutura, os sensores nos dedos apitando fracos, até que encontrou o painel escondido. Um bip, outro. E então o barulho grave das engrenagens antigas cedendo. A porta começou a se abrir num rangido metálico que ecoou pelo nada.

O cheiro de ferro e poeira escapou primeiro. Depois, um corredor escuro, fundo, que parecia engolir a luz.

Voltei ao trailer, respirei fundo, e toquei o ombro dela com cuidado.

— Ei, pequena… acorda. — minha voz saiu baixa, trêmula. — A gente… a gente achou alguma coisa. Preciso que venha comigo.

Ela piscou devagar, os olhos sonolentos se encontrando com os meus. O céu lá fora já se tingia em tons de ferrugem. A porta de aço aberta diante de nós parecia um convite e uma sentença ao mesmo tempo.

Céus… o que a gente ia encontrar ali dentro?

 

** Lily **

 

Meus passos rangiam alto, ecoando pelo corredor estreito, como se o próprio metal gritasse por ter ficado tanto tempo fechado.

Entrei atrás do Finch, ainda esfregando os olhos de sono, e quase tropecei no primeiro degrau. O ar ali dentro era diferente. Mais frio, parado, com aquele cheiro velho misturado ao silêncio guardado por anos.

A lanterna de Jeff iluminava as paredes reforçadas. A cada passo, eu sentia o coração acelerar, como se estivesse entrando em outro mundo.

E então vi.

— Porra… — murmurei sem nem perceber.

Havia uma sala ampla, impecável, como se ninguém nunca tivesse colocado os pés ali. Estantes cheias de enlatados alinhados com uma precisão quase ridícula. Caixas empilhadas, todas marcadas com etiquetas perfeitas. Roupas, kits de primeiros socorros, ferramentas.

Mais adiante, uma cozinha grande, limpa. Uma mesa ainda posta com pratos brancos, como se alguém tivesse planejado voltar. E o mais surreal: lâmpadas fluorescentes piscando até acenderem de vez, iluminando tudo.

Era como se um milionário tivesse comprado um pedacinho de eternidade e nunca tivesse chegado a tempo de usá-lo.

Jeff girou a cabeça devagar, analisando cada detalhe. Goodyear correu na frente, farejando, feliz como se tivesse achado um quintal novo só pra ele.

Eu dei alguns passos pra dentro, os dedos roçando nas prateleiras cheias, sentindo o pó. Sorri sem perceber.

— Finch… aqui tem tudo. Absolutamente tudo.

Virei pra olhar ele. O jeito como me encarava, parado no vão da porta, o rosto cansado, mas os olhos brilhando de um jeito diferente.

Por um instante, eu esqueci de tudo.

Ali dentro… parecia que a gente tinha vencido.

 

** Finch **

 

Ela parecia uma criança no meio de uma loja de brinquedos. Saía de cada cômodo do bunker carregada com frascos, sabonetes ainda embalados, toalhas dobradas como se nunca tivessem sido tocadas.

— Finch, olha isso! Tem shampoo, condicionador, creme, até sais de banho! — os olhos dela brilhavam num jeito que eu nunca tinha visto antes.

A mochila largada no chão foi enchida sem critério, e no instante seguinte ela já tinha desaparecido pelo corredor, rindo sozinha, levando aquela pilha de coisas. O som da água correndo ecoou logo depois, e o vapor subiu pela fresta da porta. Uma banheira… ela tinha encontrado uma banheira.

Fiquei parado um instante, escutando a risada abafada dela, o barulho da espuma. E então comecei a andar devagar pelo depósito.

Meus dedos passaram pelas etiquetas alinhadas, caixas de primeiros socorros ainda lacradas, estojos de emergência. Abri uma. E outra. E mais uma.

Foi quando vi.

Frascos de comprimidos. Antibióticos. Analgésicos potentes. Até alguns que eu conhecia bem dos anos de engenharia biomédica, drogas que podiam segurar um corpo cansado só por mais um tempo.

A mão tremeu quando peguei o primeiro vidro. Li a bula devagar, a vista embaçada pelas lágrimas que não tive tempo de conter.

Meu Deus… era isso.

Não uma cura. Nunca seria. Mas talvez algumas semanas a mais. Talvez meses. O suficiente pra ela não me ver definhar de uma vez. O suficiente pra dar a ela mais um punhado de memórias boas antes do fim.

Fechei a caixa, apertei contra o peito, e respirei fundo.

Lá do corredor, a voz dela ecoou entre risadas:

— Finch! Essa espuma cheira a lavanda! Eu tô parecendo uma princesa!

Eu sorri, sozinho, escondido no escuro do depósito.

E guardei o frasco no bolso da jaqueta.

Esse segredo seria só meu.

 

** Lily **

 

Quando finalmente saí da banheira, ainda rindo sozinha por estar limpa de verdade, ouvi Jeff empurrando Finch quase à força pra dentro, dizendo que era a vez de ele aproveitar. Enquanto eu fuçava a cozinha, ele se demorava lá dentro, e o som da água correndo me deu a estranha sensação de normalidade, como se a vida tivesse voltado por alguns minutos.

Ele ainda estava no banho quando terminei de preparar o jantar. Só abrir latas e esquentar coisa simples, mas naquela cozinha limpa, com taças de cristal e panelas organizadas, parecia um banquete.

Quando ouvi a porta do banheiro abrir, virei de leve e quase deixei a colher cair da mão. Ele saiu com a barba aparada, roupas limpas, mais confortável do que eu já tinha visto desde o primeiro dia. Por um instante, parecia outro homem.

— Quem diria… Finch de gala. — brinquei, apoiando a colher na panela.

Ele resmungou algo, sem graça, ajeitando o boné que insistia em usar mesmo de roupa limpa.

Eu também não estava exatamente vestida pra impressionar. Roubei uma cueca que achei, usando-a usei como se fosse um short de pijama, junto com uma camiseta enorme que encontrei dobrada em um armário. O tecido caía solto nos ombros e ia quase até o meio das coxas.

Sentamos à mesa. A comida simples parecia ter outro gosto ali, acompanhada de uma garrafa de vinho que achei no estoque, com a rolha ainda intacta.

Depois da segunda taça, as bochechas ardiam, e a língua correu mais rápido que a razão.

— É estranho, sabe? — comecei girando a taça entre os dedos. — O mundo acabou quando eu ainda era só uma menina. Nunca… nunca deu tempo de viver certas coisas. — soltei o ar rindo, sem olhar direto pra ele. — Tipo… transar.

O silêncio caiu estranho. Levantei os olhos devagar. Ele estava vermelho, as mãos segurando a taça como se fosse um objeto explosivo.

— M-meu Deus… — ele tossiu, não sei se pelo vinho ou pelo choque. — Você… você fala essas coisas como se fosse… normal.

— E, não é? — provoquei, rindo da expressão dele.

Ele tentou rir também, mas ficou torto, nervoso. O jeito desconcertado dele só deixou o clima mais intenso. Porque de repente, eu não via mais só um companheiro de viagem. Via um homem que tremia por dentro com o que sentia, mesmo quando tentava disfarçar.

E foi aí que o ar mudou de vez.

 

** Finch **

 

Ela se levanta, pega os pratos vazios, e eu não consegui desviar os olhos nem por um segundo. A camiseta larga balançava solta, mas aquela maldita cueca improvisada… colada nas coxas dela como se tivesse sido feita pra estar nela.

Meu. Deus...

Fiquei parado, imóvel, com a taça de vinho na mão, e o coração batendo alto demais dentro do peito. Cada passo dela até a pia parecia ecoar dentro de mim.

E então… ela virou. Não falou nada. Só me olhou. Longo, firme, até eu sentir que minhas pernas iam me trair ali mesmo.

Depois virou a taça de uma vez, o vinho descendo como se fosse água. E sem uma palavra… caminhou pelo corredor. Pé descalço contra o chão metálico. Silêncio. A porta fechando atrás dela.

Eu pisquei algumas vezes, tentando respirar.

Foi quando ouvi.

— Finch… é… a sua… deixa. — Jeff, com aquele tom desengonçado que ele acha que é natural.

Por Deus. O robô está me dando conselhos.

Senti o rosto queimar, o corpo inteiro em alerta, e antes que eu pensasse direito, já estava me levantando.

Deixei a taça sobre a mesa e caminhei pelo corredor, o som dos meus passos ecoando até a porta onde ela tinha sumido.

A mão pairou no batente da porta entreaberta. Trêmula.

Meu Deus… o que eu estou prestes a fazer?

 

** Lily **

 

Ele entra devagar, como se cada passo fosse pesado demais, como se não tivesse certeza do que está fazendo. Para na porta, imóvel, os olhos fugindo dos meus e voltando num ciclo desengonçado.

Eu apoio os cotovelos nos joelhos, inclinada pra frente, olhando direto pra ele.

— Você sabe que eu quero, Finch. — digo baixo, firme, sem rodeios. — Passei a minha vida só com teoria, mas agora quero saber na prática.

O silêncio fica quase palpável. Ele ajeita o boné de um jeito nervoso, como sempre que não sabe o que fazer.

— Meu Deus… — ele murmura, a voz oscilando.

— Vem cá. — bato a palma da mão ao meu lado na cama.

Ele hesita, mas se aproxima. Senta na beira do colchão como quem teme que o chão vá ceder, as mãos espalmadas nos joelhos, o corpo rígido.

Viro de lado, encarando-o com um sorriso leve.

— Tá com medo de quê? — pergunto, mordendo o lábio, me divertindo com o jeito Finch dele.

Ele solta o ar devagar, o olhar ainda perdido.

— Eu… não sei… se consigo…

— Então deixa eu descobrir com você. — interrompo, a voz mais suave agora, mas ainda firme.

O quarto mergulha em silêncio de novo. Só nossas respirações ecoam. Eu estico a mão e coloco sobre a dele, apertando devagar, mostrando que não vou deixá-lo fugir.

 

** Finch **

 

Eu abro a boca, pronto pra dizer. A verdade pulsa na garganta, pedindo pra sair.

— Lily, eu… eu preciso te contar… eu tô…

Mas a palma da mão dela cobre meus lábios antes que eu termine. O olhar dela é firme, decidido, quase duro. Como se dissesse sem palavras: eu já sei. Como se não quisesse que esse momento fosse manchado pela doença que já me assombra.

Fico imóvel, o coração disparando.

Ela me beija. E tudo em mim treme. As mãos, as pernas, a respiração. Mas eu a beijo de volta, me deixando levar.

Deslizo os dedos pelos braços dela, devagar, sentindo cada centímetro da pele quente sob a camiseta larga. Aperto sua cintura por cima do tecido, trazendo-a mais perto de mim, sem conseguir me controlar.

— Meu Deus, pequena… você é tão real. — minha voz sai entrecortada, rouca, como um sussurro arrancado do fundo do peito.

Ela é tão pequena, tão viva nos meus braços que parece um sonho.

— Eu… agora eu não sei se consigo parar, pequena. — sussurro, a testa encostada na dela, a respiração descompassada.

O calor dela atravessa a camiseta larga como se fosse nada. Meus dedos se movem sozinhos, explorando a curva da cintura, subindo um pouco mais pela lateral, só até sentir o contorno dos seios sob o tecido. Minha mão treme, mas pela primeira vez não recua.

Ela me olha, e esse olhar me desmonta. É como se dissesse: continua.

Meu coração martela. As pernas parecem ceder, mas eu me seguro nela, como se fosse a única coisa me mantendo em pé.

— Você... você me faz perder o juízo. — a voz sai mais baixa, quase um gemido contido.

A barba roça no pescoço dela quando beijo ali, e o gosto da pele me acende por dentro de um jeito que eu já nem lembrava existir.

 

** Lily **

 

A barba áspera dele roçando no meu pescoço enquanto me beija arranca de mim um suspiro longo, profundo, quase involuntário.

Finch é do tipo que prolonga até o que não deveria ser prolongado, como se cada gesto, cada palavra, fosse calculado pra se cravar na alma de quem o toca.

Meus dedos se afundam na nuca dele, puxando sua boca de volta pros meus lábios, enquanto empurro pra longe aquele boné gasto que ele insiste em usar, como se fosse parte de sua armadura.

— Espero que você não mude comigo depois disso… — sussurro contra sua boca, a voz baixa, quase um pedido.

Sinto a tensão percorrer o corpo dele sob as minhas mãos, como se o coração travasse numa batalha silenciosa entre fugir e ceder. Ele sempre vive nesse conflito. Sempre.

Mas eu não dou espaço pra hesitação. Vou me deitando devagar sobre a cama, arrastando-o comigo, como se fosse inevitável.

Ele se estende ao meu lado, e por um instante o mundo parece diminuir à medida que seus olhos azuis se fixam nos meus. Continuo segurando seu rosto perto do meu, sentindo o calor da respiração dele queimando suave contra a minha pele.

 

** Finch **

 

O boné cai de lado e parece que junto com ele, cai também a última defesa que eu tinha. A mão dela prende meu rosto tão perto que não consigo escapar — e, por Deus, eu nem quero.

O beijo dela me toma inteiro, e eu cedo. A barba arranha a pele dela, sinto o gosto quente da boca, o corpo tão próximo que o meu treme. É um tremor de nervosismo e desejo, misturado, impossível separar.

Quando ela me puxa pra cama, eu respiro fundo, como se fosse mergulhar sem saber se volto à tona. Me deito ao lado dela, o colchão afundando sob nossos corpos. Os olhos dela cravados nos meus me deixam sem ar.

— Eu… eu nunca mudaria com você, pequena. — minha voz falha, rouca, carregada de verdade. — Nunca.

Deslizo a palma da mão pela lateral do corpo dela, devagar, sentindo a curva da cintura sob o tecido da camiseta larga. Aperto, puxo de leve, como se quisesse fixar na memória cada detalhe.

Meu coração dispara, minhas mãos suam, mas eu não recuo. Beijo de novo, e cada vez que a boca dela encontra a minha, eu me perco mais um pouco.

Meu Deus… ela é o fim do mundo e, ao mesmo tempo, tudo o que restou nele.

 

** Lily **

 

A mão firme dele desliza pela lateral do meu corpo, amassando a camiseta no caminho, os dedos agora decididos acariciando a curva do meu seio.
Minha pele se arrepia inteira, cada poro reagindo ao toque maduro que me desarma.

— Quero que isso seja bom pra nós dois… — murmuro sem desviar os olhos dele.

Minha mão se enfia por baixo da camiseta dele, explorando pele, pelos, o calor vivo, com a mesma calma paciente que ele dedica a mim.
Conforme meus dedos sobem, o tecido cede, se erguendo junto, como se também se rendesse ao instante.

— Mas você precisa me ajudar… me mostrar como fazer direito. — minha voz não vacila, mesmo com a tensão latejando dentro de mim.

Meus cabelos se espalham pelo lençol, aquele azul já desbotado que parece feito pra refletir os olhos dele.
Sinto seus dedos se perderem entre os fios, leves, cuidadosos, como se até isso fosse algo que merecesse devoção.

 

** Finch **

 

Céus…

A voz dela me atravessa, e o jeito como me olha… como se não tivesse medo algum, como se soubesse que eu é que estou tremendo por dentro.

— V-você não tem ideia do que está me pedindo, pequena… — murmuro, a boca colada no ouvido dela, sentindo o calor subir do meu peito até a garganta.

Mas minhas mãos já não obedecem ao medo. Aperto de leve o seio dela por cima da camiseta, o polegar traçando círculos lentos, firmes, que fazem a pele dela reagir sob o meu toque. Não consigo mais parar.

Seguro a barra da camiseta dela, puxo devagar, deslizando o tecido pelo corpo quente até revelar mais da pele que eu sonhei tocar desde o instante em que ela entrou no meu mundo. A cada centímetro, meu coração dispara mais forte.

— Eu vou te mostrar… — a voz sai rouca, falha, mas convicta. — Vou te mostrar o que é ser… desejada de verdade.

Minha mão livre percorre a o ventre dela, sobe pela barriga, espalma sobre o esterno, até abrir caminho para retirar a camiseta inteira. Quando o tecido finalmente cede, meus lábios descem pelo pescoço dela, barba arranhando, boca sugando a pele macia.

Meu Deus… o gosto dela me enlouquece.

Meus dedos descem pelas curvas, apertam o quadril, puxam-na contra mim. E enquanto beijo cada pedaço que encontro, sussurro contra a pele:

— Eu quero que você sinta… cada parte minha te amando agora.

 

** Lily **

 

Ele retira minha camiseta com aquela calma quase dolorosa, como se cada segundo fosse um ritual, como se o ato de me despir fosse mais íntimo que o próprio sexo. Cada passo dele carrega uma solenidade que faz meu corpo inteiro arder em expectativa.

E quando sua voz grave rompe o silêncio, dizendo “quero que sinta cada parte minha te amando agora”, meu coração dispara tão forte que quase me congelo, perdida entre o choque e a entrega.

Ele se inclina sobre mim, explorando minha pele com dedos firmes, com a palma quente, com a boca que desliza lenta, arrebatadora. Fecho os olhos, sentindo como se tivesse esperado por esse instante por toda uma vida.

— Então… você me ama? — a pergunta escapa da minha garganta, hesitante, mas faminta pela resposta.

Sinto o sorriso dele se abrir contra meu peito, os lábios roçando a pele nua, me fazendo arrepiar inteira.

Ele ergue o corpo um pouco, apoiado de lado sobre o braço magro e forte, e seus olhos me percorrem como se eu fosse uma revelação. Devora cada pedaço de mim com uma lentidão cruel, sem pressa, como se quisesse me memorizar por dentro da retina.

Aproveito esse instante pra deslizar minhas mãos pela barra da camiseta dele, arrastando-a pra cima com cuidado, vendo o tecido se perder no caminho até ser arrancado por completo pela minha pressa. A visão do corpo dele exposto me atravessa como uma vertigem.

— Agora estamos iguais… — murmuro, numa tentativa falha de esconder a vergonha que cora minhas bochechas.

Ele se inclina mais, beija minha testa com uma ternura que contrasta com a tensão crua do momento. E ali, no calor desse gesto simples, sinto com cada célula do meu corpo que Finch sempre foi, e sempre será, o homem certo pra mim.

 

** Finch **

 

Quando ela me despe daquela camiseta, quando ficamos pele contra pele, sinto como se o mundo inteiro tivesse parado só pra isso existir. O jeito como ela me olha, corando, tentando disfarçar a vergonha… e mesmo assim me entregando tudo.

— Eu te amo, pequena. — minha voz sai rouca, quase um sussurro desesperado. — Mais do que devia, mais do que consigo explicar.

Beijo sua testa, mas logo minha boca desce, lenta, as mãos calejadas retirando o resto de sua roupa, explorando cada parte da pele dela como se fosse um mapa que preciso decorar. Minha barba arranha de leve, arrancando suspiros que me deixam sem chão. As palmas firmes em seu corpo, apertando, puxando pra mais perto, como se eu pudesse gravar no corpo dela o quanto a quero.

Eu a beijo no pescoço, nos ombros, nos seios, cada movimento marcado por essa mistura de ternura e fome. Meus dedos traçam linhas na pele nua, parando nos lugares que fazem ela estremecer, aprendendo cada reação dela, memorizando.

— Meu Deus, você não faz ideia… — murmuro contra o peito dela, os lábios roçando a pele quente. — …do quanto eu quis isso.

Desço mais, beijo a barriga, firmo minhas mãos nas coxas dela, sentindo o calor latejante sob a pele macia. Seguro firme, a voz embargada quando ergo os olhos:

— Confia em mim, pequena… deixa eu te mostrar.

E quando minha boca roça mais abaixo, sinto a respiração dela falhar, o corpo inteiro se retesar sob meu toque. Eu também tremo, mas não paro. Não consigo parar.

 

** Lily **

 

Ele percorre cada milímetro do meu corpo como se estivesse desvendando um mapa secreto, testando cada uma das minhas reações, aprendendo com cada arrepio, cada suspiro, cada contração involuntária que escapa de mim.

Ele me aperta e me acaricia numa dança que oscila entre desejo bruto e fascínio reverente, fome carnal e uma admiração sacra. E tudo que consigo pensar é no quanto imploro em silêncio para que isso nunca termine.

— Eu confio em você, Finch… — murmuro, a voz entregue.

Ele desce devagar, como se quisesse prolongar minha agonia, até que sua boca roça meu sexo. Meu corpo inteiro dá um espasmo involuntário, arrancando de mim o ar e a razão.

Um gemido espremido escapa dos meus lábios antes que eu consiga reprimi-lo, enquanto meus dedos se enterram no colchão, agarrando os lençóis como se fossem minha única firmeza diante da sensação dele respirando tão perto.

Meu coração pulsa em lugares que nunca pulsou, como se todo meu sangue fervesse concentrado ali, entre minhas pernas, latejando num ritmo desesperado.

— Você me tortura com essa lentidão… — respiro entre dentes, a súplica escapando sem controle.

Sinto o sorriso quente dele contra minha pele, e antes que eu consiga dizer qualquer outra coisa, sua boca se afunda em mim de uma vez.

A língua dele me invade quente, molhada, certeira, enquanto a barba áspera arranha minha pele sensível, me arrancando gemidos cada vez mais altos. A cada movimento, a cada pressão, sinto meu corpo derreter mais, como se ele estivesse me dissolvendo inteira sob sua boca.

 

** Finch **

 

O gosto dela me enlouquece.

Cada gemido que escapa dos lábios dela me faz querer mais, me faz esquecer de tudo. Do mundo lá fora, da doença, do tempo que não tenho. Só existe ela agora, se contorcendo sob minha boca, os dedos agarrando os lençóis como se fossem a única coisa impedindo que ela se despedace.

Minha língua trabalha devagar, explorando, aprendendo cada reação. Quando pressiono mais forte, ela arqueia as costas. Quando faço círculos lentos, ouço aquele suspiro entrecortado que me destrói por dentro.

Subo os olhos sem parar o movimento, vendo o rosto dela corado, os olhos semicerrados, a boca entreaberta tentando puxar ar. Ela está completamente entregue. Completamente minha.

— Deixa ir, pequena... — murmuro contra a pele sensível dela, a voz abafada, mas firme. — Só sente.

E quando ela finalmente se quebra, quando o corpo dela treme violentamente, as pernas apertando minha cabeça, um grito abafado escapando... eu continuo. Prolongando cada onda, bebendo cada gota dela como se fosse a última coisa que vou provar na vida.

Quando enfim para de tremer, subo devagar pelo corpo dela. Beijo a barriga, os seios, o pescoço, até encontrar seus lábios de novo.

“Meu Deus” a ouço sussurrar contra meus lábios, ainda ofegante.

— Só o começo. — interrompo, a voz rouca, carregada de promessa.

Minha mão desce entre nós, abrindo o botão da calça que ainda uso. Os dedos tremem, desajeitados, nervosos. Sinto a mão dela pousar sobre a minha, ajudando, guiando.

Engulo em seco. O coração dispara tanto que quase dói.

— Eu... eu vou tentar ser cuidadoso. — minha voz falha. — Se doer, você me avisa, tá? Promete?

Tiro o resto das roupas com pressa contida, me posicionando entre as pernas dela. Meu corpo treme; de desejo, de medo, de amor tão intenso que quase não cabe no peito.

Seguro meu próprio membro com a mão, roçando devagar na entrada molhada dela. Vejo ela arquear de leve, e aquilo quase me faz perder a razão.

— Olha pra mim, pequena. — peço baixo, a voz trêmula. — Quero ver você.

Quando nossos olhos se encontram, empurro devagar. Bem devagar.

Centímetro por centímetro.

Sinto a resistência, o calor apertado envolvendo a ponta, e tenho que parar. Respirar. Controlar.

— Meu Deus... — a voz sai num sussurro rouco, quase um gemido. — Você é tão... tão apertada...

Continuo empurrando. Devagar. Sempre devagar. Observando cada expressão dela, cada contração, cada suspiro. Minha mão livre segura o quadril dela com firmeza, ancorado ali como se fosse me manter são.

Quando finalmente estou completamente dentro, paro. Fecho os olhos. A sensação é avassaladora. Calor, pressão, intimidade crua demais pra processar.

— Tá... tá tudo bem? — pergunto, a voz embargada, abrindo os olhos pra ver o rosto dela.

Espero. Imóvel. Tremendo por dentro. Porque cada fibra do meu ser quer se mover, quer me perder nela, mas não vou. Não até saber que ela está bem.

Que isso é bom pra ela também.

 

** Lily **

 

Meu coração martela violentamente contra meu peito, subindo pela garganta, ameaçando me abandonar a qualquer instante após sentir o prazer tomar meu corpo inteiro em ondas lentas, profundas, intensas demais pra caber dentro de mim.

E quando ele finalmente me penetra, com aquela calma devota, reverente, que só Finch sabe ter, eu me sinto rasgar por dentro. Não dói. Ou talvez doa, mas de um jeito bom, necessário. É como se ele me abrisse pra algo completamente novo. Pra ele. Só pra ele.

Um gemido baixo escapa dos meus lábios antes que eu consiga segurar.

— Está tudo bem, sim... — murmuro entre respirações curtas, arquejadas, tentando encontrar ar onde não há. — Com você... eu sempre estou bem, Finch.

Comprimo os lábios com força, sentindo-os tremerem, depois passo a língua por eles devagar, tentando recuperar algum fôlego que nem imaginava ter perdido tão rápido.

Me ajeito melhor sob o peso dele, ajustando os quadris, relaxando as pernas tensas pra recebê-lo com toda a dedicação e intensidade que esse momento merece. Quero sentir cada centímetro. Quero que ele saiba que estou aqui. Inteira. Entregue.

Minhas mãos percorrem seus ombros estreitos, sentindo os músculos tensos sob a pele quente e suada. Alternando entre carícias no pescoço dele, na lateral da face áspera, o polegar se perdendo na barba que tanto gosto, depois deslizando até os lábios úmidos que acabaram de me fazer desmoronar há poucos segundos.

— Me faz sua de verdade agora... — sussurro rouca, os olhos cravados nos dele, sem medo, sem vergonha. — Por favor.

 

** Finch **

 

Quando ela diz aquilo — “me faz sua de verdade agora” — algo dentro de mim vibra.

Não de forma violenta. Não de forma brusca. Mas como uma comporta que cede devagar, deixando tudo escapar de uma vez. Todo o medo, toda a contenção, todo o controle que tentei manter por tanto tempo.

— Meu Deus, pequena... — a voz sai num sussurro trêmulo, carregado de uma devoção que nem sei expressar direito.

Começo a me mover. Devagar. Tão devagar que cada centímetro parece uma eternidade. Saio quase completamente, sentindo a resistência dela me envolver, me sugar de volta, e então empurro de novo. Profundo. Firme. Mas sempre com cuidado.

Cada movimento arranca um suspiro meu, um gemido contido que fica preso na garganta. Ela é tão quente, tão apertada, tão perfeita ao redor de mim que quase não consigo acreditar que isso é real.

Minha mão desliza pela lateral do corpo dela, subindo pela cintura, passando pelas costelas, até segurar um dos seios com a palma aberta. Aperto de leve, o polegar traçando círculos ao redor do mamilo, sentindo como ela reage a cada toque.

— Você não faz ideia... — murmuro contra o pescoço dela, a boca colada na pele quente, a barba arranhando de leve. — ...do quanto eu sonhei com isso. Com você assim. Comigo.

Continuo me movendo, encontrando um ritmo lento, constante. Meus quadris se encaixam nos dela como se tivéssemos sido feitos um pro outro. E talvez tenhamos sido. Talvez no meio desse mundo destruído, a gente tenha se encontrado exatamente porque era pra ser assim.

Beijo o canto da boca dela, depois os lábios, engolindo os gemidos baixos que escapam. Minha língua busca a dela, dançando devagar, com a mesma cadência dos nossos corpos.

— Você é minha Lily... — sussurro contra os lábios dela, os olhos se abrindo pra encontrar os dela. — Toda minha. E eu... eu sou todo seu, pequena.

Afundo um pouco mais, sentindo-a me apertar ao redor, e tenho que parar por um segundo. Respirar. Controlar. Porque tudo em mim quer acelerar, quer me perder nela, mas não posso. Não quero. Quero que isso dure. Quero gravar cada segundo na memória.

Minha face encosta na dela, nossas respirações se misturando no espaço mínimo entre nós.

— Me diz... — a voz sai rouca, vulnerável. — Me diz que você sente isso também. Que não é só eu...

Porque preciso ouvir. Preciso saber que ela está aqui comigo. Que isso não é só meu corpo buscando o dela, mas nossas almas se encontrando no meio do caos.

Continuo me movendo. Devagar. Profundo. Cada estocada carregada de tudo que não consigo dizer com palavras. De todo o amor que acumulei desde o dia em que a vi pela primeira vez, ferida, cansada, mas viva.

Tão viva.

E agora ela está aqui. Embaixo de mim. Ao redor de mim. Me recebendo como se eu fosse a única coisa que importa nesse mundo morto.

— Você é tudo... — murmuro, a voz quebrando no meio. — Tudo que me resta. Tudo que eu quero.

E continuo. Lento. Profundo. Amando cada segundo.

Porque sei que o tempo não está do meu lado. Sei que cada momento com ela é um presente roubado de um destino cruel.

 

** Lily **

 

Cada movimento dele dentro de mim faz minhas costas envergarem num arco involuntário, descolando do colchão abaixo, como se meu corpo inteiro estivesse sendo moldado pra se encaixar perfeitamente nele.

Sinto claramente quando ele quer acelerar, ir com mais força, mais brutalidade, percebo na forma como os músculos dele tremem, como os dedos apertam minha cintura com mais pressão. Mas ele se controla. Se segura. Tudo pra não me machucar, pra me permitir sentir cada detalhe, cada nuance, devagar. Cada centímetro dele preenchendo cada centímetro de mim.

— Eu sinto, Finch... — A voz sai suspirosa, entrecortada, derramada entre gemidos longos que tento abafar contra a pele dele, contra sua boca que procuro desesperadamente. — Sinto você latejar dentro de mim... sinto meu corpo pulsar em torno de você, como se quisesse te prender aqui pra sempre...

Minhas mãos percorrem as costas dele com urgência contida, as unhas deslizando de leve sobre a pele quente e úmida, mapeando cada linha de músculo, traçando cada cicatriz com a ponta dos dedos, decorando-o na minha memória como se fosse a última coisa que vou fazer na vida.

— Eu... — A garganta aperta, os olhos ardem. — Eu te amo, Finch. Te amo tanto...

As palavras saem nuas, honestas, rasgadas de dentro de mim.

Começo a mover meu quadril devagar, timidamente no início, depois com mais confiança, de encontro ao dele, seguindo o ritmo terno e viciante que ele estabeleceu. Aprendendo essa dança junto com ele.

Sinto meu baixo ventre se contrair involuntariamente cada vez que ele quase sai de mim por completo, deixando só a ponta, me fazendo sentir o vazio terrível antes de se afundar de novo, vagarosamente, preenchendo tudo que estava vazio, me completando de um jeito que nunca imaginei ser possível.

Prendo meu olhar nos olhos azuis dele, estudando cada micro-expressão que cruza seu rosto: as sobrancelhas franzidas em concentração, a boca entreaberta tentando controlar a respiração, as pupilas contraindo e expandindo cada vez que meus músculos internos o apertam sem aviso.

— Não quero que isso acabe... — sussurro rouca, puxando o rosto dele mais perto. — Nunca...

E sei que é impossível. Sei que nada dura pra sempre nesse mundo destruído.

Mas nesse momento, com ele dentro de mim, me olhando como se eu fosse a coisa mais preciosa que já existiu...

Eu acredito que pode.

 

** Finch **

 

Quando ela diz que me ama, meu mundo para.

Literalmente para.

Congelo por um segundo, ainda enterrado nela, os olhos arregalados, o coração explodindo dentro do peito. Nem consigo respirar direito.

— V-você... — a voz falha completamente. — Você me ama?

Preciso ouvir de novo. Preciso ter certeza de que não foi ilusão, que não foi só o calor do momento.

Ela repete. Com aqueles olhos cravados nos meus, com a voz embargada, honesta. E eu me desfaço.

— Meu Deus, pequena... — sussurro trêmulo, a testa colando na dela. — Eu também... eu te amo tanto que chega a doer.

Volto a me mover, mas agora é diferente. Cada estocada carrega tudo que sinto. Cada vez que afundo nela, é como se dissesse “eu te amo” sem palavras.

Sinto quando ela começa a me acompanhar, o quadril se erguendo de encontro ao meu, e quase perco o controle. A sensação é intensa demais, boa demais.

— Isso... — murmuro rouco, a boca colada no pescoço dela. — Assim, pequena... você tá perfeita... tão perfeita...

Minha mão desce, segurando a coxa dela, erguendo levemente, mudando o ângulo. Quando empurro de novo, mais fundo, ouço o gemido que escapa dela e quase gozo ali mesmo.

— Eu... eu não vou aguentar muito... — confesso entre dentes, a voz tensa. — Você me deixa louco... tão apertada... tão quente...

Acelero um pouco. Só um pouco. O suficiente pra sentir a fricção aumentar, o calor subir. Meus dedos apertam a pele dela, os músculos tremendo com o esforço de me segurar.

— Me diz onde... — a voz sai desesperada. — Me diz onde você quer... quando eu...

Porque estou no limite. Cada movimento dela ao redor de mim, cada gemido, cada olhar me empurra mais perto da borda.

E quando sinto ela apertar de novo, involuntariamente, pulsando ao redor do meu membro...

— Porra, pequena... — solto num gemido rouco. — Eu vou... eu não consigo segurar...

Minha boca busca a dela num beijo desesperado, faminto, enquanto continuo me movendo, cada vez mais próximo de desmoronar completamente.

 

** Lily **

 

Quando sinto e vejo você se segurar a um fio de explodir, o corpo inteiro tenso, tremendo, lutando contra o inevitável, sinto meu próprio prazer subir violentamente do baixo ventre, escalando como fogo em brasa pela espinha, irradiando em ondas quentes por cada terminação nervosa até meu corpo inteiro estar em chamas.

— Eu... te amo, Finch... — A voz explode em gemidos descontrolados junto ao prazer visceral que percorre meu corpo como ondas num mar revolto, me afogando e me salvando ao mesmo tempo. — É você... sempre foi você... sempre... desde o primeiro dia...

Entrelaço minhas pernas ao redor do corpo dele com força, os tornozelos se cruzando nas costas dele, prendendo-o contra mim, dentro de mim. Um convite silencioso. Uma permissão. Um pedido desesperado: *dentro*.

Quero senti-lo se desfazer completamente dentro de mim. Quero sentir todo seu amor, todo seu prazer acumulado, toda sua dor e solidão de anos explodindo junto ao meu clímax. Quero carregar isso dentro de mim pra sempre.

— Desaba comigo, Finch... — A voz sai num sussurro urgente, desesperado.

Reviro os olhos quando a primeira onda me atinge de verdade, cravando as unhas profundamente nas suas costelas, marcando sua pele, te puxando mais pra dentro de mim, mais fundo, o mais fundo que conseguir, enquanto todo meu corpo se contorce incontrolavelmente de prazer, se contraindo ao redor de você em espasmos violentos que me destroem por dentro da forma mais perfeita possível.

— Finch... Finch... — Seu nome vira uma oração desesperada na minha boca, repetido entre gemidos abafados contra seu ombro, sua pele salgada de suor.

 

** Finch **

 

Quando ela diz aquilo — “desaba comigo” — quando as pernas dela me prendem, quando sinto o corpo inteiro dela se contrair ao redor de mim...

Eu me perco.

Completamente.

— Lily... — O nome dela sai num gemido rouco, desesperado, enquanto empurro fundo uma última vez.

E gozo.

Gozo tão forte que minha visão escurece nas bordas. Ondas violentas percorrem meu corpo inteiro, me esvaziando dentro dela, jorrando tudo que acumulei, tudo que guardei, tudo que sou.

Meus braços tremem tentando me segurar, mas cedem. Desabo sobre ela, o peso do meu corpo a prensando contra o colchão, enquanto continuo pulsando, me derramando, incapaz de parar.

— Meu Deus... meu Deus... — sussurro contra o pescoço dela, a voz quebrada, os olhos ardendo. — Eu te amo... te amo tanto...

Fico ali, ainda dentro dela, sentindo os espasmos finais, sentindo-a ainda pulsando ao meu redor. Meu coração bate tão forte que tenho certeza de que ela sente contra o peito dela.

Beijo o ombro dela. O pescoço. O maxilar. Qualquer pedaço de pele que alcanço, porque não consigo parar de tocá-la, de provar que ela é real.

— Você... você é a melhor coisa... — a voz falha, embargada. — A melhor coisa que já me aconteceu, pequena.

Ergo o corpo um pouco, só o suficiente pra ver o rosto dela. Os olhos ainda vidrados, as bochechas coradas, os lábios rubros. Linda. Tão linda que dói olhar.

Passo o polegar pela bochecha dela, limpando uma lágrima que escorreu sem ela perceber.

— Eu não mereço você... — sussurro, a voz trêmula. — Mas, meu Deus... eu sou tão grato por te ter.

Saio devagar, com cuidado, sentindo uma onda final de prazer até nisso. Me deito ao lado dela, puxando-a pro meu peito, envolvendo-a completamente nos meus braços.

Fico em silêncio por um tempo, só ouvindo a respiração dela se acalmar, sentindo o calor do corpo dela colado no meu.

E então, bem baixinho, quase sem querer:

— Eu queria ter mais tempo com você...

A frase escapa antes que eu possa segurar. E no instante em que sai, me arrependo. Porque ela vai perguntar. Vai querer saber o que eu quis dizer.

Fecho os olhos, apertando-a mais contra mim.

Só mais um pouco. Deixa eu ter só mais um pouco antes de contar a verdade.

 

** Lily **

 

Ele me aperta contra o peito, e sinto o coração dele ainda disparado, batendo forte contra meu corpo. O calor do corpo dele me envolve inteira, como se quisesse me proteger até do silêncio que paira entre nós.

Ouço a frase. Baixinha. Quase imperceptível.

” Eu queria ter mais tempo com você...”

Meu peito aperta. A garganta fecha. Porque eu sei. Eu sempre soube que tinha algo. Algo que Jeff desviava quando eu perguntava. Algo que fazia Finch tossir e disfarçar. Algo que o fazia me olhar às vezes como se estivesse se despedindo.

Mas não agora.

Não aqui, nesse momento que ainda cheira a nós dois, que ainda pulsa na minha pele, que ainda está quente entre minhas pernas.

Viro de leve no abraço dele, só o suficiente pra encostar a testa na lateral do seu rosto. Fecho os olhos. Respiro fundo.

— Então a gente aproveita cada segundo. — sussurro, a voz firme apesar do nó na garganta. — Cada amanhecer, cada pôr do sol, cada risada boba do Jeff... cada momento ridículo com o Goodyear.

Abro os olhos devagar, encontrando os dele tão perto.

— Eu não quero saber agora, Finch. — A voz sai sem raiva, sem cobrança. Só honesta. — Não quero que nada estrague isso. Não ainda.

Passo os dedos pela barba áspera dele, sentindo cada fio.

— Só... fica comigo. Agora. Dorme comigo. E amanhã... amanhã a gente acorda e vive mais um dia. E depois mais um. Até não ter mais.

Beijo a ponta do nariz dele. Os lábios. A testa.

— Porque seja quanto tempo for... eu quero cada segundo ao seu lado.

Me ajeito melhor contra ele, a cabeça no ombro, o braço jogado sobre o peito magro. Sinto quando ele finalmente relaxa, quando a respiração desacelera, quando os dedos dele traçam círculos preguiçosos nas minhas costas.

E ali, naquele bunker esquecido no meio do deserto, com o mundo morto lá fora...

A gente dorme.

Juntos.

Como se o amanhã fosse eterno.

Mesmo sabendo que não é.

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