Ela acorda dizendo “mãín”, como quem chama a ponte antes de atravessar o rio. O quarto ainda é um aquário de silêncio, mas a voz pequena abre uma fresta no dia e tudo começa a existir. Eu me aproximo, e ela estende os braços com aquela urgência terna de quem ainda não aprendeu a disfarçar o amor. Pega meu pescoço como se fosse alça do mundo, e eu lembro, com um susto manso, que já não é mais aquele pacotinho que cabia inteiro no vão do meu antebraço. Tem um corpo próprio, um peso novo, uma intenção de ir em direção às coisas. Um dia ela vai correr para longe de mim. Hoje, por enquanto, corre para dentro de mim.
No
trocador, as pernas bailam. O pijama rosa com desenhos de dinossauros virou um
mapa das noites em que ela acordou e eu também. Penso em como a maternidade é
uma coleção de mapas que mudam de escala sem nos avisar: quando aprendemos a
reconhecer um território, ele cresce, as ruas somem, os nomes mudam. E a gente
segue, cartógrafa improvisada de um continente vivo. Desde que ela nasceu, é
como se toda manhã me apresentasse outra menina que ainda é ela. Uma sucessão
de retratos sobrepostos: o rosto recém-nascido ainda vermelho de esforço; a
bebezinha que dormia encolhida em mim; a que descobriu o próprio pé e ficou
horas mexendo nele; a que aprendeu a sentar, depois a engatinhar, depois a
ficar de pé se apoiando nos móveis. Cada gesto, uma porta que se fecha atrás de
nós, e outra que se abre adiante.
Ela deixa
diariamente pequenas marcas de mão pelos espelhos da casa, a boca sempre
indecisa entre balbuciar e mastigar. Eu observo em silêncio, tentando estender
o instante como quem segura a ponta de um fio que o vento insiste em puxar. Em poucas
piscadas, o tempo voa. Em outros, é eu quem voo pelo tempo, e caio numa imagem
que me visita com a insistência dos sonhos bons: ela dormindo pequena sobre meu
peito na primeira semana de vida, quente como um sol particular. Às vezes me
parece que aquela criança e esta de agora são duas estrangeiras que apenas se
cumprimentaram no corredor. Eu as vejo, ambas, e dói: não por falta, mas por
excesso. É muito amor para um só corpo, e o corpo precisa inventar uma dor para
dar vazão.
Com tempo
ela aprende novos truques. Anda desajeitada na “tonquinha”. Faz travessuras
pela casa. Se esconde atrás da cortina da sala e, quando eu abro, ele grita “aii”
e envelhece duas semanas em um segundo. Viver o crescimento dela é aprender uma
gramática de despedidas minúsculas: adeus ao macacão que não fecha mais, adeus
ao som das sílabas confusas que apenas eu entendo. Cada fase tem uma borda
luminosa e uma sombra. E tudo bem que doa. A dor é o recibo da beleza.
Enquanto
ela brinca no chão com blocos coloridos, repito uma experiência que inventei
para me enganar melhor: olho para suas mãos. As mãos são o calendário secreto
das crianças. Crescem primeiro no gesto; só depois no tamanho. Ontem eram
pássaros descoordenados, hoje são pequenos arquitetos erguendo torres que caem
com uma gargalhada, como se a queda fosse parte do projeto. Amanhã, imagino,
serão mãos que desenham casas com janelas coloridas, mãos que seguram segredos.
Um dia, segurarão outras mãos que não a minha. E mesmo assim, prometo ao meu
medo, eu vou reconhecer ali o que sempre esteve: a mesma linha de vida, a mesma
teimosia em descobrir a vida, a mesma coragem de pedir colo quando o mundo estiver
grande demais.
Às vezes,
no fim da tarde, ela vê desenhos dos quais já decorei as melodias. Aponta e imita
do jeito dela, numa língua que ainda não tem diplomata, mas já tem poema. Eu
traduzo: “nana neném”. Ela repete “nhanha nhenhem”, orgulhosa da aproximação. A
linguagem é um tipo de milagre que acontece em prestações. Cada palavra é uma
ponte que surge de repente entre duas margens: a minha e a dela. E, ainda
assim, mesmo quando a ponte fica pronta, sei que perderemos para sempre o
dialeto secreto que nos uniu esse tempo todo, quando bastava um gesto, um
choro, um riso, e eu entendia. Talvez seja isso que mais me emocione: o
crescimento é também uma tradução constante, e toda tradução, por melhor que
seja, carrega consigo algo que não se pode levar.
Eu me
pergunto se um dia vou conseguir dizer com calma que sinto saudade de cada
criança que ela já foi. Não é uma saudade de querer voltar no tempo. É uma
saudade que abraça para frente. Sinto falta do que fui com ela há um minuto,
amo o que estou sendo com ela agora, e aguardo o que serei com ela amanhã.
Maternidade, aprendo, é o exercício mais radical de presença: segurar firme e,
ao mesmo tempo, soltar. É aprender a ser lar e vento.
Quando me
vejo em fotografias com ela no colo, noto que quem mais mudou fui eu. No
começo, meus olhos eram de quem está vivendo um sonho que ainda não entretém o
medo. Depois, os olhos ganharam o peso das noites, das febres, das quedas; e
também o brilho das conquistas miúdas: o primeiro “não”, o primeiro passo, a
primeira dancinha. Hoje, quando me olho, reconheço uma mulher que se descobriu
em camadas que não sabia ter. Percebo que aqui há uma matéria nova, uma física
esquisita onde o coração é elástico: estica, e não rompe. O crescimento dela me
fez crescer de um jeito que não coube como nenhuma roupa antiga.
Outro dia,
ela encostou a testa em mim e ficou um tempo assim, respirando perto, como quem
reconhece uma casa. Pensei nas versões dela se encontrando nessa pequena
cerimônia: a recém-nascida que aprendia o tom da minha voz; a bebê que tateava
meus piercings como se fossem estrelas; a menininha que já sabe dizer “tetê” e
pedir “mais” com a mãozinha abrindo e fechando; a pessoa que um dia vai me
contar um segredo e pedir que eu não conte a ninguém. Ali, as idades todas encostaram
em mim e me disseram: “estamos dentro desta, que você tem agora nos braços”. E
eu chorei em silêncio, porque algumas alegrias precisam de silêncio para não
transbordar.
Há também
os dias difíceis. A teimosia recém-descoberta, as birras longas, o cansaço que
insiste, o pesadelo bobo que vira assombração às três da manhã. Houve noites em
que eu quis ser outra pessoa por meia hora, só para dormir. E quando finalmente
peguei no sono, ela acordou sorrindo, como se dormisse ligada em tomada de
arco-íris. Acordei junto, exausta e salva. A exaustão passa. O sorriso, esse eu
guardo na alma onde deposito as coisas que não podem ser perdidas.
Na rua,
vejo outras famílias orbitarem seus planetas pequenos, e penso que cada um
carrega um universo que só ele entende. O crescimento de uma criança é uma
narrativa coletiva contada em primeira pessoa. Não há manual que dê conta do
detalhe, porque o detalhe é onde moram os deuses domésticos: o jeito específico
como ela chama o pai, o modo como ela inventa passos para a mesma música, o
riso que aparece quando a faço cócegas nela, o susto que nos dá quando um de
nós sai de vista. Existem estantes inteiras de teorias que eu respeito; mas é
no chão da sala, sentada, com os brinquedos espalhados e migalhas de biscoito
no colo, que aprendo a teoria que me serve: o amor é a rotina do
extraordinário.
Hoje ela
tem um ano e onze meses. Digo isso como quem entrega um relógio pontual, mas
por dentro eu digo: ela tem a idade exata do meu espanto. Tantos meses e eu
ainda não me habituei a milagre nenhum. Eu achava que milagres perdiam força
quando repetidos; acontece o contrário: ficam mais nítidos, ganham contorno,
nos desafiam a olhar de novo e de novo. Talvez seja essa a vocação da infância:
ensinar o adulto a se reencantar por coisas que já viu mil vezes. A água
espumada da banheira, a caixa vazia que vira casa, navio, esconderijo. É
difícil ser infeliz perto de uma criança que transforma qualquer objeto em
alegria.
À noite,
quando o silêncio parece maior, eu passo o dedo pelas fotos no celular.
Registro tudo como quem teme um dia não lembrar. Tenho medo de esquecer a
textura desta fase, os cheiros, as frases tortas, os passos trôpegos, o cabelo
que acorda em redemoinhos bagunçados. Ao mesmo tempo, sei que não é possível
lembrar de tudo. Memória também cresce e reorganiza suas gavetas. Então, faço
um pacto com o tempo: deixo que ele leve o que quiser, mas peço que me devolva,
de vez em quando, a sensação exata de agora. Não a cena; a sensação. O peso
dela adormecida no meu ombro quando volto do mercado. O calor da mãozinha
grudada na minha quando atravessamos a rua. A respiração ritmada como metrônomo
que marca um compasso sem pressa.
Costumo
pensar que as pessoas são feitas de camadas de infância que nunca param de
nascer. Minha filha me revela, todos os dias, as minhas. Ao vê-la crescer,
reconheço a menina que fui e que perdi por descuido, por correria, por costume
de ser adulta. Às vezes, quando ela corre pelo corredor e eu vou atrás, sinto
que a criança que eu fui corre também, não para alcançá-la, mas para
acompanhar. E, de algum modo, as três nos damos a mão: a que fui, a que sou, a
que aprendo a ser com ela. A maternidade, afinal, não foi um título que eu
recebi; foi uma língua nova que precisei aprender, e que me ensinou a dizer
“eu” de outra maneira.
Eu sei que
virão outros adeuses silenciosos: o primeiro dia de escola, a primeira febre de
amor, a primeira viagem sem mim, a primeira grande mágoa que não vou poder
resolver com abraço e mamadeira. Sei que virão fechaduras que não abrem com a
minha chave. Mas também sei que, se eu aprender a não ter pressa de voltar para
onde não se volta, o presente me oferecerá janelas que não existiam. A criança
que ela foi não volta; mas a criança que ela é hoje também não volta, e isso me
convoca a olhá-la com uma atenção radical, como quem lê um poema pela primeira
vez e sabe que, por mais que releia, a primeira leitura tem uma luz que não se
repete.
Antes de
dormir, ela põe a cabeça em meu braço e esfrega a naninha no rosto, se
entregando a confiança. Eu rezo uma reza sem palavras, que é só gratidão
atravessando o corpo. Penso no futuro como quem pensa numa estrada bonita e
imprevisível: haverá curvas que doem, haverá paisagens que a gente vai querer
morar dentro. Penso que minha tarefa, entre tantas, é amar o bastante para que
ela possa ir, o bastante para que ela sempre possa voltar. Guardo esse
pensamento no travesseiro e, enquanto a casa silencia, eu digo baixinho:
obrigada, tempo, por ser ladrão e artesão. Obrigada por me roubar versões dela
que já não cabiam no hoje, e por me entregar, em troca, essa menina de agora
que me olha como se eu fosse também um caminho.
Apago a
luz e fico ali, ouvindo a respiração dela, uma música que não cansa. Fecho os
olhos, as versões todas dela me visitam, pedem colo, dão risada, aprendem uma
palavra nova. Eu as recebo, uma por uma, como se pudesse dispô-las na estante
do coração.
Sei que a
vida não é museu, é rio. Então, faço o que posso: mergulho as mãos nessa água
morna e deixo que escorra entre os dedos, sabendo que, enquanto escorre, me
lava. No fim, talvez seja isso: cada piscada é uma onda. Leva alguma coisa,
traz outra. E, no vai e vem, eu aprendo a arte difícil de permanecer,
justamente, em movimento.
* Texto participante do prêmio Pena de Ouro — Casa Brasileira de Livros.
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