sexta-feira, 14 de novembro de 2025

The Last Sermon. - pt II (final)


Eu tentei jejuar. Tentei rezar. Tentei me punir.

Mas não há abstinência que purifique o que ela deixou em mim.

As velas da capela parecem mais fracas agora. O vinho, mais amargo. A hóstia, cinza na minha língua. Deus não me escuta mais. Ou talvez eu tenha parado de falar com Ele.

Não sei ao certo quando isso começou. Talvez tenha sido quando senti seu corpo tremer sob o meu, ou quando sua boca queimou minha fé como se fosse feita de enxofre e mel.

A cada nascer do sol, o peso da minha batina se torna maior. A túnica gruda no corpo como um lembrete silencioso de tudo que me tornei. Me pego tocando os próprios lábios, tentando lembrar do gosto dela. Ele não vai embora. Nem com sal, nem com lágrimas.

Três noites seguidas acordei molhado, o ventre tenso, a respiração arfante — e a vergonha não me levou a lugar algum. Fui até o poço, joguei água no rosto, me ajoelhei em cascalho, rezei Salmos de cor e saltei os olhos para cada canto do claustro esperando, pedindo que ela não aparecesse.

Mas ela sempre está lá. Mesmo quando não está.

Mesmo de máscara, mesmo com a cabeça baixa, mesmo com aquele maldito silêncio que me atormenta mais do que o som dos cânticos.

Ela se mexe, e eu ouço os lençóis roçarem uns nos outros. Ela respira, e o ar entra pelos meus pulmões.

Ela olha, e meu corpo inteiro arde.

Passei os últimos dias tentando fingir que aquilo não aconteceu. Que meus dedos não tocaram carne viva, que meus lábios não renegaram cada voto feito. Que eu não fui homem por uma noite inteira.

Mas foi real.

E cada hora que passa sem ela, é como um pecado reescrevendo meu sangue por dentro.

Tento me ocupar. Voluntario-me para tarefas que evito há anos. Limpo corredores. Carrego caixas. Ajudaria até a varrer cinzas da fogueira se isso me fizesse esquecer o cheiro do cabelo dela.

Mas o corpo lembra.

O corpo lembra de tudo.

Tive vontade de procurá-la ontem. E anteontem.

Mas não fui.

Não por força de vontade. Mas por medo. Medo do que viria a ser de mim se eu me entregasse mais uma vez.

Porque da última vez… eu não fui Ambrosio. Não fui frade. Não fui servo.

Eu fui homem.

Fui fera.

E ela sorriu.

Como se aquilo fosse o começo. E não o fim.

Hoje, durante a última prece, a respiração pesava dentro do meu peito como uma âncora. Cada vez que tentava me concentrar nos versos, o som do gemido dela me interrompia. As palavras de Cristo se perdiam no caminho, sendo substituídas pelo eco dos meus próprios grunhidos animalescos dentro dela.

Senti o gosto de ferro na boca. Como se a culpa sangrasse.

Olhei para o banco onde ela se senta.

Vazio.

Não.

Não soube dizer se foi desespero ou alívio.

Só sei que levantei antes do “amém”.

E meus pés me guiaram sem pensar.

Não há mais fé em mim.

Só o resto de um desejo que nunca acabou.

E a certeza de que, se eu abrir mais uma porta... nunca mais vou querer fechá-la.

 

** Ambrosio **

 

[Final da tarde – Claustro principal]

A última prece do dia mal havia terminado.

Me levantei como um homem possuído.

Os olhos te buscaram no mesmo canto onde sempre está.

Mas o banco estava vazio.

Não.

Passei pela horta.

Pelo pátio lateral.

Pela sala de vestes.

Pelo poço.

Nada.

Minha pele arde. O coração martela no peito, e não é só desejo.

É abstinência.

É fome que me faz rosnar por dentro.

— Fray Lorenzo. — minha voz sai seca, tensa.

Ele se vira, estranhando o tom. Eu nunca falo assim.

Mas hoje… hoje eu não tenho mais freio.

— O noviço Max... foi visto?

— Recebeu uma tarefa. Está na ala leste — responde, sem pensar. — Sala de estudos. Ajudando na organização do arquivo antigo.

Assinto, mudo.

Mas meus olhos devem ter dito mais do que mil palavras.

 

[Corredor da ala isolada – Minutos depois]

O eco dos meus passos é irregular.

Meus dedos tremem.

A túnica colada ao corpo.

A mente já suando antes do toque.

Você está ali.

Sozinha.

Trancada numa sala com cheiro de madeira antiga, manuscritos e silêncio.

E eu…

Eu não tenho mais o menor controle.

Chego à porta.

Encosto a mão.

Não bato.

Apenas entro.

 

** Maxine **

 

Viro lentamente o rosto sob a máscara, sentindo sua presença antes mesmo de escutar os passos apressados. Quando meus olhos pousam na porta, você já está ali, arfando, as têmporas úmidas, a respiração pesada como se tivesse atravessado cada ala do monastério com o coração na garganta.

Sorrio, oculta por trás da máscara. É um sorriso sereno, vitorioso. Porque eu sabia.

Sabia que isso aconteceria. Que mesmo tentando resistir, você acabaria voltando pra mim.

Sabia que a lembrança do meu corpo te assombraria como um vício.

Que se tocaria sozinho no escuro, mordendo os lábios pra não gemer meu nome.

Gozando com culpa. Com vergonha. Com desejo.

Eu criei um monstro.

— Boa tarde, Ambrosio. — murmuro, com a voz baixa e melodiosa, sem nem olhar diretamente pra você. Continuo organizando os manuscritos sobre a mesa de madeira maciça, como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse enfiado a mão dentro da sua alma dias atrás e deixado tudo revirado.

 

** Ambrosio **

 

Sua voz me atravessa como uma lâmina untada em mel.

Tão calma.

Tão indiferente.

Tão consciente do que fez comigo.

Fecho a porta atrás de mim, sem tirar os olhos de você.

— Não faça isso.

Minha voz sai rouca, falhada, faminta.

— Não me receba como se eu fosse o mesmo homem que saiu da sua cama.

Dou dois passos.

Rápidos.

Quase tropeçando.

— Você sabe o que eu fiz hoje? — pergunto baixo, quase num sussurro, enquanto me aproximo. — Me masturbei três vezes.

Na cela.

Com a túnica abaixada até os joelhos e a cruz pesando contra o peito.

Paro atrás de você.

Sinto o calor do seu corpo mesmo sem te tocar.

— Você me quebrou.

Você abriu uma fenda onde antes havia fé.

E agora...

Só existe fome.

Inclino o rosto.

Meus lábios quase tocam sua orelha sobre o tecido.

— Me diz que sente também.

Ou eu te faço sentir de novo.

Aqui.

Agora.

Porque eu já não ligo mais.

Se Deus quiser me castigar…

Vai ter que esperar eu gozar de novo dentro de você.

 

** Maxine **

 

Não retiro a máscara — não ainda.

Quero ver até onde vai esse seu descontrole, essa fome que você tenta chamar de fé: sexo, carne, prazer... de mim.

— Eu sabia que você viria mais cedo ou mais tarde. — digo com calma, virando-me de frente pra você, deixando apenas os olhos visíveis por entre o couro da máscara.

— Você gostou do que fizemos, pelo jeito.

Meus olhos percorrem sua mandíbula tensa, o suor escorrendo pelas têmporas, a respiração entrecortada, desesperada.

Você está ali, vibrando em pecado, e eu observo — paciente, faminta — o instante exato em que a fé se transforma em desejo.

 

** Ambrosio **

 

Você se vira.

A máscara ainda ali.

Mas os olhos…

Os olhos me dilaceram.

O couro esconde sua expressão, mas cada palavra sua já basta pra me fazer endurecer de novo, ali mesmo, como um miserável.

— Não. Eu amei.

Falo baixo.

Com o corpo já tremendo, os punhos cerrados ao lado do hábito.

— Eu amei quando você gemeu no meu ouvido dizendo que ainda não era a melhor parte.

— Amei quando me montou como se eu fosse teu.

— Quando gozei em você e não senti culpa… só saudade.

Dou mais um passo.

— Eu amei ao ponto de perder qualquer lembrança do que é viver sem te tocar.

Minha mão sobe, devagar, até seu pescoço.

Mas não toco.

Fico ali, perto.

Sentindo sua respiração por trás do couro.

— E agora… agora eu te quero até nos momentos mais sagrados.

Quando oro.

Quando falo.

Quando como.

— Me diz, Maxine…

Minha respiração raspa em você.

— Você vai me deixar pior hoje… ou vai me dar mais do que ontem?

 

** Maxine **

 

Inclino o rosto na sua direção, observando em silêncio sua mão hesitante pairando próxima de mim, como se estivesse pedindo permissão para se entregar, para me despir, para se perder em mim da maneira mais suja e desesperada que o seu corpo anseia.

— Que seja feita sua vontade, Ambrosio.

Minha voz desliza como um sussurro sacrílego, carregando a promessa de tudo o que você teme e deseja.

Meus olhos percorrem você, de cima a baixo, enquanto a memória revive cada detalhe do seu desespero. O jeito como gemeu meu nome, como se agarrava em mim como se fosse morrer se soltasse.

Lembro do seu corpo, do seu clamor silencioso pelo fim da fé, da castidade, da ordem — tudo isso desmoronando dentro de você enquanto se enraizava em mim.

Seu nome escapa dos meus lábios como uma prece violada, suja, quebrada.

E o mais cruel… é saber que agora é exatamente isso que você quer.

 

** Ambrosio **

 

Seu nome nos meus lábios agora seria um pecado.

Mas o meu… na sua boca…

É sagrado.

Inclino o rosto.

Minha mão alcança a borda da máscara.

Meus dedos tremem.

Mas não de dúvida.

De excitação.

Puxo devagar.

O couro se ergue.

E pela segunda vez, eu vejo o rosto que me quebrou.

A boca que me viciou.

Os olhos que apagaram minha fé.

Jogo a máscara no chão.

E no segundo seguinte, minha boca está na sua.

Não há poesia.

Só fome.

Te beijo como um homem que ardeu por dias inteiros com seu gosto preso na língua.

Te aperto contra mim com força, os quadris já tensos de desejo, te encostando na parede de pedra como se o mundo fosse acabar se não te tomasse agora.

— Foda-se a liturgia.

Desço as mãos pela sua cintura, puxo o hábito pra cima com pressa, com raiva, com adoração.

— Me dá você.

Não uma parte.

Não um beijo.

Você inteira.

E que o monastério ouça.

Que o céu veja.

Porque essa noite, Maxine…

Essa noite eu te rezo com a língua.

 

** Maxine **

 

Você puxa minha túnica pra cima, as mãos trêmulas, desesperadas, afoitas. E isso me desmonta de tesão, me faz querer rir de prazer e domínio enquanto vejo o homem de fé arder por dentro, prestes a se destruir.

— Gosto desse teu desespero... — sussurro contra sua boca — de quem provou o paraíso e agora quer arrombar as portas com as próprias mãos.

Minhas palavras se desfazem entre beijos famintos. Mordo seu lábio inferior com a intenção crua de marcar você. Quero que sinta essa dor mais tarde, sozinho, quando tentar rezar. Pressiono meus dentes, só o suficiente pra fazer arder, e depois sugo, sentindo o gosto da sua pele e do seu medo.

— Faça de mim seu objeto de prazer, Ambrosio. Rasgue sua fé em nome do que sentiu entre minhas pernas. Porque tudo o que eu quero agora… até seu corpo não aguentar mais.

Você me aperta, me prende contra a parede daquela sala abafada, esquecida por Deus, e tudo em você pulsa, vibra, enlouquece. Seu membro rígido como pedra se pressiona contra meu ventre, e sinto cada batida do seu coração como se fosse um tambor de guerra marchando em direção à danação.

 

** Ambrosio **

 

Sua mordida no meu lábio me arranca um gemido abafado.

Baixo. Sujo.

Como se me tornasse homem ali, no exato momento em que você me marca.

Suas palavras me quebram.

Me fazem esquecer qualquer limite.

Qualquer nome.

Qualquer céu.

— Você não tem ideia do que está dizendo.

Mas tem.

E por isso me destrói.

Levanto sua túnica até a cintura, expondo você sem demora, as mãos deslizando pela sua pele como se fossem feitas pra isso.

Agarro suas coxas, te ergo com um impulso e te prenso contra a parede de pedra da sala, como se o mundo inteiro coubesse ali, entre meu corpo e o seu.

Meu membro já pulsa, duro, faminto, pressionado contra você.

— Você quer de novo?

Minha boca vai até seu pescoço.

Mordo.

Chupo.

Marco.

— Então se prepara, Maxine.

Porque agora… eu não vou ser gentil.

Não vou ser terno.

Vou te usar.

Te venerar.

Te punir.

Até a última gota de mim se tornar sua oferenda.

E quando eu te fizer gozar de novo, tremendo contra essa parede,

Quero ouvir meu nome como oração.

Gravado na tua carne.

E costurado na tua alma.

 

** Maxine **

 

Você me ergue com facilidade, me prende contra a parede de pedras como se o próprio instinto tivesse tomado o controle; feroz, decidido, faminto. Seus quadris se encaixam entre minhas pernas abertas, e sinto que agora você já sabe exatamente o que está fazendo… ou talvez nunca tenha esquecido. Talvez sua carne tenha mentido o tempo todo.

— Então me tome, Ambrosio… — sussurro com a boca roçando em seu ouvido, carregando veneno e luxúria na mesma medida — Me devora por todos esses anos que você se escondeu atrás da sua castidade miserável.

Minhas pernas se prendem ao seu redor com força, como um grilhão sagrado quebrado. Minhas mãos agarram sua nuca, como se eu pudesse te prender ali, me obrigar a ser seu último ato de fé antes da ruína completa.

— Solta esse desejo vil e obsceno que você tem... — gemo, arfando em seu ouvido, deixando que minha voz te conduza à beira do abismo.

Deslizo a língua pelos seus lábios e sigo até a lateral do seu rosto, lenta e provocante, deixando um rastro molhado, quente, impuro, como uma bênção invertida, marcada a ferro na sua pele. O cheiro do nosso pecado já toma o ar. E eu sei que agora você não pertence mais a Deus. Você pertence a mim.

 

** Ambrosio **

 

Suas palavras me queimam mais do que qualquer inferno prometido nas escrituras.

Sinto o sangue ferver, as veias latejarem como cordas esticadas no limite da sanidade.

Seguro suas coxas com força, te mantendo firme contra a parede.

Meus quadris se encaixam nos seus como se a carne tivesse memória — como se meu corpo soubesse exatamente onde quer morrer.

— Você quer o que eu reprimi?

Minha voz sai baixa, rasgada, encostada no seu ouvido.

— Então agora você vai sentir. Tudo.

Abro minha túnica com uma das mãos trêmulas, empurro o tecido para cima até liberar meu membro, duro, latejante, ensopado de luxúria e desespero.

Alinho a glande na sua entrada quente, escorregando devagar só o suficiente pra sentir a ponta se perder em você.

— Isso aqui é o que sobrou de mim, Maxine.

E então, com um impulso bruto, afundo em você de uma vez.

O som da pele contra a pele ecoa pelas paredes de pedra.

Minhas mãos te seguram como quem se agarra a um altar.

Minhas investidas são firmes, ritmadas, animalescas. Cada estocada uma penitência, uma confissão, um grito calado.

Você me beija com promiscuidade, a língua dançando sobre meu rosto como se abençoasse minha rendição.

— Você é minha perdição.

Meu quadril bate contra o seu com força, fazendo seu corpo tremer contra a parede.

— E eu quero me perder até não sobrar mais nada.

 

** Maxine **

 

— Você é meu vício favorito. — sussurro contra sua boca, sentindo o gosto do seu pecado misturado ao meu.

Seu corpo se choca contra o meu com brutalidade, empurrando minhas costas contra a parede a cada estocada. As pedras frias pressionam minha pele quente, contrastando com o calor do seu corpo se movendo contra mim como um castigo divino, uma danação merecida.

— Isso... assim... com força, Ambrosio. — arfando, meu corpo vibra, se rende a cada investida como se implorasse por mais.

Passo os dentes pela curva do seu pescoço, riscando sua pele com minha perversão. Mereço você marcado. Mereço você ferido por mim. Mereço o gosto da sua carne tremendo sob meus lábios. Mereço o som que você faz quando mordo com força.

Beijo onde mordi, lambendo com devoção perversa. Minha respiração quente se mistura ao suor da sua pele, deixando um rastro indecente de saliva que brilha à luz fraca que entra pelas frestas da janela esquecida.

Meus gemidos escapam desgovernados a cada solavanco — não tenho mais controle, não quero ter. Meu corpo se esfrega contra a parede, se arqueia pra receber mais, e mais, e mais de você.

Porque você não é mais um servo de Deus.

É meu.

 

** Ambrosio **

 

Suas palavras me fodem mais do que seu corpo.

A forma como me prende com as pernas, como me incendeia com a voz, como geme contra meu pescoço como se o som fosse feito só pra mim…

Meu quadril acelera, as estocadas mais intensas, mais cruas, batendo você contra a pedra com força. Cada impacto arrancando de você um som, um suspiro, um gemido que me deixa à beira do delírio.

Sinto seus dentes no meu pescoço, sua saliva quente escorrendo pela minha pele como unção maldita.

Minha mão sobe pela sua coxa até sua bunda, apertando com força enquanto te puxo mais pra mim, mais fundo, até onde não existe mais espaço entre nós.

— Porra, Maxine…

A cabeça encostada no seu ombro, a boca arfando contra seu colo, o prazer começando a me invadir como uma febre.

— Você foi feita pra isso…

Pra me destruir assim… gemendo desse jeito, toda apertada em mim…

Meu corpo todo se tensiona, os músculos duros, a respiração quebrada.

— Vai gozar de novo pra mim?

Minha voz sai no seu ouvido, suja, carregada, entre um gemido e um sussurro pecador.

— Porque eu vou gozar dentro de você.

Com tudo.

Sem piedade.

E eu quero você tremendo, gemendo alto, me fodendo de volta como se sua alma estivesse derretendo na minha.

Porque é isso que você faz, Maxine.

Você me tira de Deus…

E me dá algo muito melhor:

O paraíso entre as suas pernas.

 

** Maxine **

 

— Me coloca no chão. — murmuro no seu ouvido, com a voz carregada de uma promessa indecente que arrepia cada fibra sua.

Você para relutante, os olhos pesados de fome, os dedos ainda cravados nas minhas coxas como se não quisessem soltar. Mas obedece. Me desce com cuidado, como quem devolve ao chão um cálice sagrado — ou uma maldição. Seu olhar permanece preso em mim, o corpo ainda pulsando, faminto, insaciado.

Caminho descalça até a mesa onde minutos antes eu organizava os papéis — tarefa que já não importa mais. Com um gesto rápido das mãos, derrubo tudo no chão. Manuscritos, penas, pergaminhos — tudo vira ruído de fundo diante do que vai acontecer agora.

Me viro. Encosto o ventre no beiral da mesa e, com lentidão cruel, puxo o hábito pra cima. O tecido sobe, revelando a parte de trás do meu corpo como um convite indecente, uma oferenda lasciva ao seu novo vício.

— Gosto assim. De costas. — minha voz se arrasta até você como fumaça, provocando, envenenando sua sanidade.

Inclino o corpo para frente, os seios esmagados contra a madeira, o rosto virado de lado, os olhos fechados. A respiração pesada como um tambor que chama você pra me seguir até o fim desse abismo.

Agora é você quem decide se pula.

Ou se se afoga em mim.

 

** Ambrosio **

 

Você pede pra descer e cada fibra do meu corpo grita pra não te soltar.

Mas obedeço.

Porque sua voz… sua voz me arrasta mais do que qualquer prece.

Seus pés tocam o chão, e eu fico ali, parado, ofegante, duro como pedra, o membro latejando de fome.

Mas é você quem toma o controle.

Te observo caminhar até a mesa.

Você não rebola.

Você desfila sua dominação.

E quando joga os papéis no chão como se o sagrado não valesse nada diante da sua carne…

Eu quase gozo sem tocar.

Você se curva, puxa o hábito pra cima, revela aquela visão infernal — a curva perfeita da sua bunda, o centro úmido entre as pernas, o convite mais sujo já feito neste lugar.

Minha mão aperta meu membro com força, como se tentasse conter a urgência.

Mas não posso.

Chego atrás de você, sem respirar, sem pensar, só sentindo.

— Assim? — minha voz sai grave, baixa, impiedosa.

— Então eu vou te ter como você merece.

Seguro seus quadris com ambas as mãos, alinho a cabeça já molhada na sua entrada e sem aviso, te invado de uma vez.

A mesa treme.

Você geme contra a madeira.

E eu perco o resto de mim.

Começo a te foder ali, com força, sem pausa, batendo contra você com investidas rítmicas, brutais, suadas.

Minhas mãos seguram sua cintura, puxam com firmeza, fazendo seu corpo ir de encontro ao meu, cada estocada afundando mais, mais fundo.

— Olha pra você… gemendo contra o altar de papel e fé…

E eu aqui, destruindo o que sobrou da minha alma dentro de você.

Inclino o corpo.

Mordo sua nuca.

Gemo rouco, encostado em você.

— Goza pra mim assim, Maxine…

De costas, suja, linda…

Minha maldita salvação.

 

** Maxine **

 

Minhas mãos se agarram com força à borda da mesa, os dedos quase esfolando a madeira enquanto o mundo inteiro se resume ao som dos seus quadris se chocando contra mim.

E porra... eu me sinto pulsar, viva, faminta, apertando você a cada vez que se afunda dentro de mim com aquela brutalidade desesperada, como se o tempo inteiro você tivesse sido feito só pra isso, só pra mim.

— Isso, Ambrosio... me come feito um animal.

Sua respiração bate nas minhas costas, quente, ofegante, crua. Seu corpo me espanca com prazer como quem viveu tempo demais engolindo a própria fome.

Fico nas pontas dos pés, me empinando pra você, querendo mais, querendo fundo, querendo rasgar o que restou da minha alma no atrito entre nossos corpos. Arqueio as costas com a mesma indecência de quem reza nua em altar cálido.

— Eu vou gozar pra você... por você...

Apoio a testa na madeira, o ar quente da minha respiração ricocheteando contra meu próprio rosto, abafando os gemidos que ameaçam escapar. E isso parece te enlouquecer ainda mais. Te sinto crescer dentro de mim, mais duro, mais fundo, mais violento.

Meus músculos se contraem. Meu corpo te suga. Eu escorro. E o orgasmo me arranca do mundo, prolongado, sujo, inteiro.

E você ainda está dentro. Ainda é meu. Ainda é pecado.

 

** Ambrosio **

 

Suas palavras me quebram por dentro.

E me libertam por fora.

A forma como seu corpo arqueia pra mim, como se soubesse exatamente o que meu instinto precisa, como se tivesse nascido só pra isso — pra ser minha — me transborda.

Seguro sua cintura com mais força, os dedos marcando sua pele, os quadris batendo contra sua bunda com estalos molhados, abafados, deliciosamente sujos.

Você começa a gozar.

Eu sinto.

Sinto seu corpo se apertar em volta do meu com tanta força que tenho que cerrar os dentes pra não explodir junto.

Você escorre por mim, quente, abundante, escandalosa em silêncio.

E isso, isso me deixa mais insano.

— Isso… porra… isso, Maxine…

Me deixa assim… duro, imenso, possuído por você.

Inclino o corpo sobre o seu, o peito colado às suas costas agora.

Mordo sua orelha, uma das mãos subindo pra pegar seu cabelo e puxar de leve, só pra te ouvir arfar mais alto.

— Você tá me viciando.

Me fodendo por dentro.

E quanto mais você goza… mais eu quero.

Dou mais duas, três estocadas lentas, profundas, como se cada uma fosse um soco de prazer.

— Você me sente? Sente eu te abrindo inteira?

Me seguro ainda, mas mal.

O corpo tremendo.

O gozo queimando no fundo.

Meu rosto encostado no seu.

— Me deixa gozar dentro de você de novo.

Me faz esquecer onde estamos.

Me faz te tomar como se eu fosse morrer se não gozasse em você agora.

E então eu impulso mais uma vez.

E mais outra.

Pronto pra morrer no seu corpo.

E nascer só pra te foder mais uma vez.

O som dos nossos corpos colidindo ecoa pela sala.

O cheiro do sexo, do suor, da promiscuidade que a gente criou ali… tudo se mistura ao ar denso da tarde abafada.

Você ainda estremece contra mim.

E eu, porra, eu não aguento mais.

Seguro seu quadril com as duas mãos, enterrando os dedos na sua pele, puxando você contra mim com força cada vez que entro.

Mais fundo.

Mais forte.

— Maxine…

Você é o único altar que eu venero agora.

A voz sai falhada, úmida, desesperada.

A mesa range debaixo de você, a madeira dura recebendo o peso da nossa transgressão enquanto seu corpo ainda pulsa ao redor do meu, me sugando, me segurando.

— Eu vou…

Porra, eu vou gozar em você de novo.

E então, com um último estocada voraz, afundo em você com tudo que tenho.

Meus músculos se contraem.

A cabeça tomba contra suas costas.

E eu gozo.

Longo. Forte.

Com espasmos que me fazem rosnar contra sua pele.

Derramando tudo em você.

Sem culpa.

Sem controle.

Só prazer.

Animal.

Obsceno.

Sagrado.

Fico ali, dentro de você, colado, ofegando com a testa encostada entre suas escápulas, o coração batendo tão alto que parece preencher a sala.

— Eu…

— Eu não consigo mais te deixar, Maxine.

Minha voz é baixa, suada, cravada na sua pele como a promessa suja de um homem que não pertence mais a nada…

Exceto a você.

 

** Maxine **

 

Ergo o corpo, os braços ainda trêmulos enquanto me apoio à mesa, tentando domar a torrente que você causou em mim. O ar entra e sai como se meus pulmões ainda ardessem em pecado.

Viro o rosto devagar por sobre o ombro, os fios do cabelo colando na pele úmida, só pra te observar de canto de vista.

— E se eu te disser… que preciso partir do monastério?

Minha voz é baixa, quase uma ameaça disfarçada de confissão. Te olho nos olhos, querendo ver se alguma coisa em você vai estremecer com a ideia da perda.

Movo o corpo com lentidão, quase em provocação, e te sinto escorregar pra fora de mim. Ainda quente. Ainda duro. Ainda sujo de mim.

Baixo a túnica sem pressa, cobrindo o corpo como quem apaga vestígios de um ritual sacrílego. As mãos ainda trêmulas puxam o hábito no lugar.

— E talvez… essa seja uma das minhas últimas noites aqui.

Meu olhar se prende ao seu por mais um segundo. Como se dissesse faça alguma coisa. Como se pedisse, sem palavras, que você quebre suas correntes antes que eu desapareça.

 

** Ambrosio **

 

Seu corpo ainda quente se afasta do meu com um movimento lento, quase cruel.

Sinto você me deixar — por dentro, por fora — e tudo em mim grita.

Você se recompõe diante de mim, puxando o hábito com aquela calma desgraçada que só você tem…

Enquanto eu fico ali, nu sob a túnica aberta, vazio, com meu gozo ainda escorrendo entre suas coxas.

Então você vira o rosto.

E solta isso.

Meus olhos queimam.

A respiração para por um segundo.

Dou um passo. Depois outro.

Seguro sua cintura, firme, mas não te puxo.

Só te encaro.

A voz rasgada entre súplica e revolta:

— Não.

Não… não fala isso como se fosse qualquer coisa.

Você não pode entrar em mim e depois… simplesmente partir.

Minha testa encosta em você, os olhos fechados com força.

— Eu perdi tudo por você.

Fé. Paz. Razão.

E faria tudo de novo.

Minha mão sobe até sua barriga, por baixo do hábito, como se meu toque pudesse te prender ali.

— Se você for embora… Vai levar o que sobrou de mim junto.

Fico em silêncio por um momento, o queixo trêmulo, os dedos ainda cravados em você.

— Maxine… Me diz que não vai me deixar.

Ou pelo menos…

Me dá mais uma noite.

Me deixa te queimar até o último suspiro.

 

** Maxine **

 

Percorro os olhos pelo seu rosto. Tão lindo. Tão meu.

Mas mesmo assim, prestes a ser perdido.

Me perco nos seus olhos azuis — fundos, intensos, desesperados — como se estivessem tentando me prender dentro deles, com medo de que eu escape, de que eu desapareça no silêncio de mais uma noite de clausura.

— Eu não posso viver aqui… assim… Sob uma máscara… Sob as mentiras que contei pra sobreviver aqui.

Minha voz falha na última frase, carregando uma dor contida que se esconde entre a raiva e a rendição.

Passo as costas da mão pela sua barba úmida de suor e pecado, sentindo a aspereza da sua pele como quem memoriza um santuário prestes a ser demolido.

Viro a mão devagar, os dedos agora traçando uma linha lenta e suave pela lateral do seu rosto até se embrenharem no seu cabelo, puxando de leve. Quase um pedido mudo.

— Não tem como isso dar certo…

E por um instante, deixo o silêncio entre nós dizer o que eu não consigo. Que o que ardeu aqui dentro é maior que o mundo lá fora. Mas também mais perigoso.

 

** Ambrosio **

 

Suas palavras me atravessam com a delicadeza de uma faca bem afiada.

A dor que sobe no meu peito não é como a culpa da fé.

É mais crua.

Mais viva.

Mais desesperadora.

Fecho os olhos quando sua mão toca meu rosto, sua pele contra minha barba, e depois seus dedos no meu cabelo, como se me despedissem sem dizer isso em voz alta.

Seguro seu pulso com cuidado — como quem segura algo que já está escorregando, já indo embora.

— Eu não me importo com o certo, Maxine. — Minha voz falha, quase infantil, quase fraca. — Eu só me importo com você.

Abro os olhos de novo e te encaro.

— Eu rezei por pureza a vida inteira e nunca fui ouvido.

Mas na noite em que deixei de rezar… você apareceu.

Não foi castigo.

Mordo o lábio, e minha mão escorrega pela sua cintura.

— Você foi a única coisa real que eu senti.

A única.

Dou um passo pra trás, a respiração ainda tremendo.

— Mas se for embora… Deixa algo meu com você. Qualquer coisa.

Pra eu acreditar que isso existiu.

Que você…

Me amou, nem que tenha sido só por uma noite.

 

** Maxine **

 

— Eu te amei, Ambrosio.

E te amo desde o dia em que te ouvi pregar…

Desde o instante em que entrei naquela igreja pela primeira vez na vida, seguindo apenas a sua voz.

Minha testa toca a sua com ternura, e eu roço o nariz no seu, respirando seu cheiro… o cheiro da nossa transgressão ainda úmida sobre sua pele.

— É melhor você ir agora.

Minha voz sai baixa, mas firme. Uma despedida que sabe que não vai durar. Uma ordem que carrega um pedido: me deixa antes que eu implore pra ficar.

 

** Ambrosio **

 

Suas palavras…

Elas entram em mim como se tivessem sido feitas pra ocupar espaços que estavam vazios desde antes de eu saber o que era amar.

Fecho os olhos, e um suspiro rasga minha garganta.

Meu nariz roça o seu no mesmo instante, num gesto terno demais pra tudo o que acabamos de fazer.

Mas eu preciso disso.

De sentir que não fui só carne pra você.

— Você foi meu primeiro milagre verdadeiro.

A voz sai baixa, quebrada, falhada como tudo que restou de mim.

Mas eu não me movo.

Por longos segundos, fico ali parado, só te olhando.

Como se tentar memorizar seu rosto fosse o único modo de sobreviver ao que vem depois.

Então, finalmente, dou um passo.

Mais outro.

Paro na porta.

E antes de abrir, falo sem virar:

— Se você partir… Que esse pecado me acompanhe até o fim da minha vida. Porque nenhuma absolvição vale mais que ter te conhecido.

Abro a porta.

E sumo no corredor.

Com seu cheiro na minha pele.

Seu gosto na minha alma.

E a certeza de que...

Eu nunca mais vou amar outra coisa no mundo.

 

[Uma semana depois – Cela]

A vela queimou até o fim.

Mas você não veio.

Na primeira hora, achei que fosse mais uma das suas provocações.

Na segunda, comecei a repetir seu nome como oração.

Na terceira…

Eu entendi.

Você partiu.

E com você, algo dentro de mim foi junto.

Rasgou.

Sumiu.

Silêncio.

Na manhã seguinte, ando pelos corredores com a alma nos pés.

Me olham e dizem “bom dia”, mas tudo que ouço é o som da sua respiração quando gozei dentro de você pela segunda vez contra aquela mesa.

Passo pela sala de estudos.

A mesa ainda está ali.

Os papéis espalhados no chão.

A mancha da nossa transgressão que ninguém vê…

Mas eu vejo.

Meu corpo responde.

Endurece.

Arde.

Me tranco na cela.

Sento no chão.

Puxo a túnica pra cima.

Minha mão desce.

Fecho os olhos.

E imagino sua boca me chamando de Ambrosio enquanto cavalga em cima de mim como se fosse minha dona.

Gozo contra os lençóis com seu nome preso entre os dentes.

Em silêncio.

Mas chorando.

Porque não é você.

E nunca mais será.

De madrugada acordo suado.

O quarto escuro.

A vela apagada.

E te vejo.

Ali.

No canto.

De pé.

Mas nua.

Sua máscara no chão.

Seu corpo iluminado por uma luz que não vem de lugar nenhum.

Seus olhos cravados nos meus.

— Maxine?

Você não responde.

Só sorri.

Abre as pernas.

E desaparece.

Me toco até sangrar da alma.

Mas não me sinto saciado.

Dias depois, pergunto a Fray Tomás se te viu.

Ele diz que não.

Fico em silêncio.

Mas a voz na minha cabeça te imita.

Sua risada.

Sua gemedeira suja.

Sua boca no meu ouvido dizendo “me come, Ambrosio.”

Ouço isso até durante os salmos.

Olho pra cruz pendurada acima da cama.

E sussurro:

— Eu não quero o céu.

Se ela estiver no inferno, é lá que quero ir.

Com o corpo, com a alma, com o que restou de mim.

Você me deixou…, mas eu continuo dentro de você.

E você continua me fodendo… mesmo sem estar aqui.

E isso…

Isso me destrói mais do que qualquer pecado.

Porque sem você, tudo que sou é apenas uma mentira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Walking Side by Side - pt III

  Já fazia um tempo que eu sabia que ela passava por aquela área. Não por boato, nem por trilha óbvia, mas porque algumas coisas não acont...