sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Vampiros Além da História.

Não é coincidência. Não pode ser.

Desde as primeiras marcas deixadas pelo homem nas paredes úmidas das cavernas, eu a vi. Uma criança, em rabiscos simples, gravada ao lado de figuras de caça e símbolos rupestres. Quando avancei para os relevos maias, no coração das selvas onde uma civilização inteira desapareceu sem deixar rastro, ela estava lá novamente. Dessa vez, eternizada, talhada em pedras.

Nos hieróglifos egípcios, perdida entre deuses e faraós, sua silhueta pequena ergue-se ao lado de chacais e falcões, como se fosse tão sagrada quanto eles. Entre as ruínas gregas, encontrei-a esculpida em estátuas quebradas, com a inocência petrificada na mesma rigidez dos deuses caídos.

Viajei ainda mais longe e a encontrei onde jamais deveria estar: pintada nos afrescos de Pompeia, soterrada pela fúria de um vulcão, e depois no traço delicado de uma matriosca russa, sorrindo entre camadas de madeira.

Século após século, a mesma criança voltava, em pequenos souvenires vendidos nas ruas de Salem, lembranças mórbidas de julgamentos e fogueiras. Hoje, ainda ecoa nas músicas ciganas que ressoam em praças esquecidas, como uma melodia infantil escondida entre notas tristes.

Em pesquisas profundas sobre Stonehenge, os blocos erguidos contra o céu cinzento parecem alinhar-se apenas para oferecê-la oferendas e preces afoitas.

Não é possível que tantas culturas, tão distantes no tempo e no espaço, repetissem a mesma criança por acaso. Ela não pertence a um povo, nem a uma era. Ela pertence a todos. Ou talvez a nenhum.

Enfermé - pt II

 

Dez e meia da manhã.

Fico parado no meio do escritório depois que você saiu, ainda sentindo o fantasma do seu corpo contra o meu. O silêncio pesa como chumbo. A sala parece menor, mais abafada, como se as paredes tivessem se aproximado enquanto te fodia contra aquela mesa.

Passo a mão pelo rosto, esfregando os olhos. Meus dedos tremem. Não é cansaço. É adrenalina residual misturada com algo mais perigoso.

Desejo.

Fome.

Vício.

O cheiro de sexo ainda impregna o ar. Passei perfume ambiente três vezes, abri a janela deixando o frio de outono invadir a sala, mas continuo sentindo. O almíscar da sua pele misturado ao meu suor. O perfume barato do sabonete da prisão que não consegue esconder o cheiro real de mulher que você tem.

sábado, 25 de outubro de 2025

Enfermé - pt I

 

Ele jurou proteger a lei.

Ela jurou que era inocente.

Mas mentiras se dissolvem quando os corpos falam mais alto que a razão.

Inspirada no filme francês “Éperdument”, esta é a história de uma obsessão que nasceu no lugar mais improvável, onde o poder se confunde com desejo, e a salvação se parece perigosamente com destruição.

Porque às vezes, a prisão não está nas grades.

Está em querer alguém que você nunca deveria tocar.

domingo, 5 de outubro de 2025

Deliver Us.

 

Essa não é uma história sobre fé.
É sobre o que acontece quando a fé se transforma em compulsão.
Ele era o predador, o pregador, a voz da fé que julgava o mundo.
Ela, a herege, pagã, corpo e mente envoltos em fogo.
No encontro dos dois, o sermão virou silêncio, a oração virou suspiro.
E na casa onde Deus deveria reinar, o pecado foi a única liturgia.

Essa é uma releitura alternativa e erótica inspirada no universo de Herege, onde cada oração é feita de transgressão, suor e danação.

Walking Side by Side - pt III

  Já fazia um tempo que eu sabia que ela passava por aquela área. Não por boato, nem por trilha óbvia, mas porque algumas coisas não acont...