Desde
as primeiras marcas deixadas pelo homem nas paredes úmidas das cavernas, eu a
vi. Uma criança, em rabiscos simples, gravada ao lado de figuras de caça e
símbolos rupestres. Quando avancei para os relevos maias, no coração das selvas
onde uma civilização inteira desapareceu sem deixar rastro, ela estava lá novamente.
Dessa vez, eternizada, talhada em pedras.
Nos
hieróglifos egípcios, perdida entre deuses e faraós, sua silhueta pequena
ergue-se ao lado de chacais e falcões, como se fosse tão sagrada quanto eles.
Entre as ruínas gregas, encontrei-a esculpida em estátuas quebradas, com a
inocência petrificada na mesma rigidez dos deuses caídos.
Viajei
ainda mais longe e a encontrei onde jamais deveria estar: pintada nos afrescos
de Pompeia, soterrada pela fúria de um vulcão, e depois no traço delicado de
uma matriosca russa, sorrindo entre camadas de madeira.
Século
após século, a mesma criança voltava, em pequenos souvenires vendidos nas ruas
de Salem, lembranças mórbidas de julgamentos e fogueiras. Hoje, ainda ecoa nas
músicas ciganas que ressoam em praças esquecidas, como uma melodia infantil
escondida entre notas tristes.
Em
pesquisas profundas sobre Stonehenge, os blocos erguidos contra o céu cinzento
parecem alinhar-se apenas para oferecê-la oferendas e preces afoitas.
Não
é possível que tantas culturas, tão distantes no tempo e no espaço, repetissem
a mesma criança por acaso. Ela não pertence a um povo, nem a uma era. Ela
pertence a todos. Ou talvez a nenhum.